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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O grande fogo na Serra de Sinta

Nunca vou esquecer o dia e a noite de pânico que vivemos na Vila, em Sintra, e lá em casa no dia 6 de setembro de 66. Fez há dias 54 anos  (os mesmos que fez no passado 6 de agosto que conheci o meu marido).

Tínhamos a festa de aniversário de uma amiga muito próxima – e que próximo de nós morava – e lá estávamos a ajudar e a divertir. Eis senão quando o chão da cozinha abate com grande estrondo e, em frações de segundos, tudo cai numa cave deserta: a mobília, a comida, a dona da casa e a minha mãe. Grande susto! Grande pânico! Acabou-se a festa, como se pode tiraram-se as senhoras lá de baixo amassadas e com grandes arranhadelas. A dona da casa em choque. Hospital. Havia Hospital na Vila.

Atribulado regresso (especialmente da minha mãe ferida e fortemente assustada) a nossa casa, ali no sopé da Serra. E, de repente, a sirene dos Bombeiros da Vila (atual Museu das Notícias e ex-Museu do Brinquedo), ali mesmo por baixo de nós, escancara a enorme bocarra em desespero a chamar todos os bombeiros. Grande fogo na Serra. Não dá para esquecer o sufoco do fumo – que se sentiu durante muitos dias a seguir – e a sirene, que toda a noite gritou desesperada. Três enormes apitadelas furiosas de cada vez, toda a noite ali mesmo por baixo de nós.

Nessa noite morreram, cercados e encurralados pelo fogo, 21 jovens soldados do Regimento de Artilharia de Queluz.

Durante mais alguns dias o fogo continuou a abocanhar a bela vegetação de mais de metade da serra. O fumo e o cheiro na Vila eram insuportáveis.

Nesse tempo não havia batalhões de bombeiros, mas apenas voluntários, não havia grandes carros cisterna e muito menos meios aéreos de combate...











Homenagem aos soldados mortos



Homenagem na Serra


        Antigo quartel dos Bombeiros Voluntários da Vila       


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Uma data que nunca esqueço...

 25 de Agosto de 1988 - uma data que nunca esqueço. Do grande incêndio do Chiado, a zona de referência da minha infância, adolescência e juventude.

A minha zona das compras com a minha mãe; a Rua do Carmo, a Rua Garrett, as lojas onde nos conheciam: o Eduardo Martins, os Tecidos do Carmo, a Sapataria Hélio, o Ramiro Leão, o Último Figurino, o Aguiar, os Davids - a loja de fazendas escocês para fazermos os kilts, as Livrarias, a saudosa Sá da Costa, a velha Bertrand; as discotecas: a Melodia, a Sassetti, a Valentim de Carvalho.






Anos depois - poucos - as compras com a minha mãe, enquanto o marido ficava a ler o jornal e a entreter as filhas na rua.... 

Mais ou menos assim...



E,depois, num final de Agosto, de fim de férias em São Pedro de Moel, entra-me casa dentro uma outra amiga lisboeta de alma e coração a chorar porque soubera que o seu, o nosso Chiado estava em chamas...

Ligámos a televisão e todo o dia chorámos ela, eu e a minha mãe por aquele pedaço de Lisboa tão nosso, tão carismático, tão vivido.  E não deu mais para esquecer...





Não por isso (mas também) posso afirmar sem sombra de dúvida que esse ano de 1988 foi o pior ano da minha vida: passado pouco mais de um mês, morreu-me a minha (ainda jovem) mãe, meu amparo, minha força e, pouco antes vimos ruir a empresa de família por obstinado capricho de um gerente de banco (não só por isso, mas também...)

Não dá para esquecer...

(As imagens foram retiradas do google; algumas do excelente blog Restos de Colecção)

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Dia Internacional dos Museus

Para lembrar a efeméride - que se celebra desde 1977 - deixo aqui uma pequena parte da visita ao Museu da Vista Alegre, em Ílhavo, último museu que conheci ainda com o meu companheiro de uma vida...

Para quem gosta de porcelanas - e eu adoro! - é imprescindível esta visita.






(O antigo forno)


(Dentro do forno)








As novas tendências do século XX







(Art Noveau)






























Quem pode resistir à coleção de chávenas?!







(O tinteiro)

(A capela)








E muito mais haveria para mostrar...

quinta-feira, 26 de março de 2020

Lonely, lost and sad

Não sei porque tanto me lembro desta canção que era cantada pelos Sheiks.

Quem se lembra dos Sheiks? Dos bons anos 60 musicais. Belos tempos. Musicais.

A formação clássica do grupo contava com Carlos Mendes (voz, guitarra baixo e depois ritmo), Fernando Chaby (guitarra solo), Edmundo Silva (guitarra baixo) e Paulo de Carvalho (voz, bateria). Mais tarde, há de sair o Carlos Mendes e, na sua vez, entrará o Fernando Tordo. Tudo boa gente...

Ontem e hoje (e certamente amanhã) tanto me tem rondado a memória esta canção - Lonely, lost and sad - vá-se lá saber porquê...

Mas oiçam. Vão gostar.




segunda-feira, 23 de março de 2020

A gripe asiática

A propósito da pandemia que tem vindo a alastrar pelo mundo inteiro, a do Corona Vírus, tenho ouvido e lido por aí que uma coisa assim apenas se viu há 100 anos, quando por 1918 a Pneumónica, também conhecida por Gripe Espanhola (apesar de não ter nascido em Espanha, mas talvez na China) matou muitos milhões de pessoas pelo mundo fora. 

Lembrei-me logo do surto de Gripe Asiática que apareceu por Lisboa em 1957 e que encerrou famílias inteiras doentes em casa. O mais estranho é que quando falava disso a pessoas da minha faixa etária, nada! ninguém se lembrava de nada!

Garanto que cheguei a duvidar de mim... E fui investigar. Abençoado Google! Abençoado mundo novo!... E tem lá tudo.

«No dia 9 de Agosto de 1957, o navio Moçambique, proveniente de África, entra na barra do Tejo para atracar no porto de Lisboa. Traz a bordo passageiros doentes.

Naquele dia, a epidemia de gripe acabara de ser importada. Provocada por um novo vírus que anteriormente não tinha circulado em Portugal, encontrou a população de Lisboa e do País inteiramente desprotegida. A rapidez da sua propagação até atingir o acme [auge], na segunda semana de Outubro, foi semelhante à duração do tempo até ao seu final. (...)

A partir do final de Setembro, a gripe assume expressão epidémica.

Meses antes, em Fevereiro desse ano, no Norte da China, tinha tido início a pandemia de gripe “Asiática” no seguimento da emergência de novo subtipo A H2N2 que passou a infectar seres humanos. 

Lisboa em plena epidemia de gripe “asiática” era, seguramente, uma cidade diferente, sobretudo na primeira e segunda semanas de Outubro. Absentismo nas empresas, fábricas paralisadas, transportes públicos com problemas de funcionamento, escolas fechadas, postos dos serviços médico-sociais da Federação das Caixas de Previdência com um aumento extraordinário de procura, hospitais sobrelotados, visitas suspensas à Maternidade Dr. Alfredo da Costa, e, logo depois, medida idêntica adoptada nos Hospitais Civis de Lisboa.

As zonas populares de Lisboa foram as mais afectadas, entre elas, o Bairro da Liberdade, Charneca, Socorro, Escolas Gerais, Campo Grande, Moscavide, Quinta da Curraleira e Alcântara, para além dos arredores, como foi o caso do Montijo e Almada.

Apesar da evolução benigna da pandemia, comparada com a “pneumónica” de 1918, no plano individual, a gripe provocou grande número de doentes e 288 óbitos só na cidade de Lisboa (taxa de mortalidade de 37,0 por 100 000 habitantes).»

(Ler mais em  
https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/gripe-em-lisboa-1957-e-2008-pdf.aspx 



À época, vivíamos em Algés, em casa dos meus avós e lembro-me bem de eles ambos e a minha mãe terem caído à cama onde ficaram muitos dias com febre altíssimas. O meu pai, que, sem saber, era um imunodeprimido (como se diz agora) já que tinha uma deficiência congénita no coração, foi quem se aguentou aquele tempo todo sem ter sido contagiado e tendo de servir de enfermeiro, cozinheiro, faxineiro e sei lá o que mais... eu também me livrei... mas pouco sabia ajudar. Tínhamos a sorte de ter um médico que habitualmente tratava a minha mãe - que era muito frágil - e que assistiu ao meu nascimento, que ia lá a casa - pagando, já se vê! - ou consultava pelo telefone. É que nesses tempos (que infelizmente alguns recordam com tanta saudade ...) não havia muitos hospitais, nem médicos da Caixa, porque não havia Caixa, nem Centros de Saúde, nem coisa nenhuma. Os médicos, que eram poucos, tinham os seus consultórios aonde só ia quem podia pagar e para irem a casa ver doentes faziam-se pagar muito bem!

É natural que as pessoas que não passaram por essa experiência não se lembrem desta epidemia. Vivia-se em plena ditadura fechada: as notícias eram poucas e censuradas; não havia televisão; eram poucas as famílias que tinham telefone; a rádio só passava aquilo que a Censura permitia - por isso a informação não se difundiu nem pouco mais ou menos!








(daqui)