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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017


AS RUÍNAS ROMANAS DA TOUREGA
Um património de Valverde e Guadalupe, pouco valorizado

Tem este "blog" afinal, objectivos muito diversos, ainda que um fio condutor perpasse ao longo de todo ele. O culto da memória, seja ela colectiva ou pessoal, procurando à escala micro, constituir-se como um núcleo de registo documental que possa ser útil ou pelo menos interessante para quem, por acaso ou intencionalmente, acabe por tropeçar na multiplicidade de elementos que para aqui vou carreando: recordações pessoais, textos e imagens das mais variadas proveniências, documentos de imprensa dificilmente acessíveis, etc...

Sobre o património cultural da Tourega, antiga sede de freguesia, hoje pequeno lugar a duas léguas de Évora, onde a par das velhas pedras, apenas subsiste uma família já idosa, já aqui nos referimos várias vezes. 


A Igreja, de origem seiscentista, continua a ser o foco principal de interesse patrimonial deste local, cuja valorização poderia constituir-se como uma mais valia alternativa, à excessiva concentração na cidade de Évora, do foco turístico regional.. Mas não é o único potencial do sítio. Nas proximidades, escondidas pelo velho cemitério local, encontram-se as ruínas de uma importante Villa Romana, objecto de um importante projecto de escavação e valorização nos anos 80 e 90, mas hoje praticamente abandonada à sua sorte. A União de Freguesias de Valverde e Guadalupe, consciente da sua importância, a par de intervenções periódicas de limpeza, tem procurado chamar a atenção para o seu significado, promovendo várias iniciativas nesse sentido. 

Procurando contribuir para a urgente "redescoberta" deste sítio, aqui recordamos um artigo publicado no Público em Setembro de 1994, bem como um desdobrável (há muito esgotado) editado pela Câmara Municipal vai para duas décadas, na sequencia das escavações ali desenvolvidas por Luisa Ferrer Dias (já falecida), Catarina Viegas (hoje professora na Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa) e Inês Vaz Pinto, actual responsável pelas Ruínas de Tróia (Grândola).






sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


Tourega, património em meio rural

Exposição na Igreja do Salvador, Évora


Sem grandes pretensões e procurando apenas dar continuidade ao programa de divulgação e de envolvimento da comunidade local na salvaguarda e valorização do património cultural de Valverde e Guadalupe, a Direção Regional de Cultura do Alentejo, com a colaboração dos restantes parceiros (União de Freguesias, Paróquia e Câmara Municipal), organizou uma pequena exposição sobre os alguns bens móveis (imagens religiosas) da Igreja da Tourega, que foram objecto de conservação no âmbito deste projecto "piloto".

A mostra que irá estar patente ao público durante a época natalícia e o próximo mês de Janeiro, pode a partir de ontem (15 de Dezembro de 2016) ser visitada na lindíssima igreja do Salvador, na Praça do Sertório, em Évora. No acto da sua inauguração, para além das palavras de circunstância dos representantes das várias instituições, nomeadamente da Directora Regional de Cultura, Ana Paula Amendoeira, tivémos o grato prazer de poder escutar algumas modas de Cante Alentejano, proporcionadas pelas extraordinárias vozes do Grupo Coral de São Brás do Regedouro (pequena aldeia da freguesia, localizada entre a Tourega e as Alcáçovas), muito valorizadas pelas excelentes condições acústicas da Igreja do Salvador.

Deste evento simples mas pleno de significado, deixamos para registo algumas imagens bem como o LINK https://www.youtube.com/watch?v=fdzekVy4h9o&feature=share para uma das modas ontem ouvidas.

Como forma de documentação e divulgação para aqueles que não tiverem oportunidade de visitar a exposição, aqui deixamos também os "posters" e respectivos textos presentes na Igreja do Salvador.




















O SÍTIO
“É esta freguesia das mais antigas e a mais nobre do termo da cidade de Évora”
P. Manuel Vidigal (1736)
Perdem-se no tempo as origens da Tourega.
A proximidade à via de Ebora a Salatia (Alcácer do Sal), a abundância de águas, a qualidade dos solos ou a amenidade do clima remetem-nos, pelo menos, para a colonização romana.
Desconhecemos o fundamento das lendas que colocam neste local (Cova dos Mártires) os primeiros martírios cristãos, ainda em época romana. No entanto, as ruínas de uma antiga capela permitem supor a continuidade de ocupação deste local para além do final do Império Romano.
Mas a tradição manteve-se, explicando a fundação de uma nova igreja no Século XV, ainda hoje e apesar das muitas transformações, a matriz da paróquia da Tourega. Outras construções anexas, algumas muito arruinadas, testemunham a importância social deste local como centro religioso para as comunidades vizinhas, confirmado ainda no Século XIX com a construção do cemitério da freguesia.
O represamento das águas da Ribeira pela Barragem do Barrocal, já em pleno Século XX, transformou a paisagem envolvente mas trouxe outros atrativos à Tourega, enquanto local de lazer.
Hoje, tal como tantos outros sítios por todo o Alentejo, a Tourega agoniza como espaço humanizado.
A valorização das suas “memórias”, poderá propiciar-lhe uma nova, ainda que diferente vida?





AS RAÍZES ROMANAS
“Mostram hoje estas minas que foram antigamente lagos ou tanques de banhos dos que usaram os Romanos”
P. Manuel Vidigal (1736)
As mais antigas referencias escritas aos vestígios romanos da Tourega, remontam ao Século XVI, quando André de Resende fala de uma lápide que estaria na Igreja. Mas o reconhecimento das ruínas era anterior, explicando a origem da tradição martirológica do local.
A lápide funerária, hoje no Museu de Évora, foi recolhida no início do Século XIX, por Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora e amante de antiguidades. A inscrição nela gravada, é dedicada por uma dama romana, aos filhos e ao marido Quinto Junio Maximo, um alto funcionário do Império cuja “villa” (casa de campo) se localizava na Tourega.
A dimensão das “termas” ou “banhos”, a parte melhor estudada e conservada destas ruínas, fazem supor a existência de uma grande casa agrícola, condizente com o elevado estatuto social dos proprietários.
Estas ruínas arqueológicas foram objeto de um programa de escavações conduzido nos anos 80 e 90 do século passado. Posteriormente a Câmara Municipal de Évora promoveu a respetiva “musealização”. Apesar de evidentes problemas de conservação, estas ruínas romanas são atualmente as únicas visitáveis no meio rural de Évora.





A TRADIÇÃO RELIGIOSA
“Foi esta Senhora da Gloria nos séculos antigos milagrosa donde concorriam romeiros de toda a parte do Alentejo”
P. Manuel Vidigal (1736)


A Igreja Matriz da Tourega remonta ao Século XV mas foi remodelada no final do Século XVI por iniciativa do Arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança (1578-1602). A capela-mor recebeu então uma cobertura semi-esférica, com decoração de estuque, e um belíssimo retábulo de madeira lavrada com nove pinturas coevas.
O interesse pela Tourega de D. Teotónio e do seu antecessor Cardeal D. Henrique (1574-78), fundador do vizinho Convento do Bom Jesus de Valverde (Mitra), obedecia a um programa apologético da igreja eborense, legitimado pela presença das antiguidades romanas, assumidas como provas das lendas fundacionais do próprio Arcebispado. Os vestígios romanos, a par das ruínas da Ermida e da Fonte Santa, davam corpo às narrativas que colocavam nestas paragens os martírios de São Jordão, segundo Bispo de Évora e sucessor de São Manços, e das suas irmãs Santa Comba e Santa Inominata.
A Tourega ganharia então um estatuto especial como centro de concorrida devoção, centrada sobretudo na sua Fonte Santa, a “Cova dos Mártires”, a cujas águas eram atribuídas propriedades curativas.
No Século XIX, apesar da crescente perda de importância face à emergência de outros cultos, como a Senhora d’Aires, a Tourega manteve o estatuto paroquial, confirmado pela construção do cemitério.


Desta antiga e forte tradição religiosa, edificadas que foram no final do Século XX, uma nova igreja e um novo cemitério em Valverde, o povoado que cresceu à sombra da “Escola Agrícola da Mitra”, resta hoje apenas a antiga fama, evocada anualmente pela “missa de finados”.




TOUREGA_ PRESENTE E FUTURO
“É possível e desejável transformar o sítio da Tourega, outrora aprazível e habitado, num polo de visita turístico-cultural no contexto das rotas patrimoniais eborenses”
Prof. Vítor Serrão (2015)

A Tourega como sítio religioso, já não tem futuro, sobretudo a partir do momento em que o Cemitério também perder a sua função. Se a queremos preservar como “memória e património”, teremos de encontrar-lhe outros destinos.
Atualmente, ainda que conjugando boas vontades de vários parceiros (Junta de Freguesia, Paróquia, Câmara Municipal e Direção Regional de Cultura), as intenções são limitadas:
- estabilizar e conservar o património mais sensível da Igreja (imagens, retábulo, pinturas);
- manter limpas as ruínas romanas;
- divulgar a importância cultural deste património, através de iniciativas que envolvam a comunidade local;

Mas apenas um plano de recuperação do conjunto patrimonial e paisagístico da Tourega, integrado numa estratégia sustentável de valorização do património rural eborense, poderá salvar a Tourega do destino de outros núcleos semelhantes, hoje irremediavelmente perdidos:

- recuperação arquitectónica da Igreja Matriz e reintegração do seu património móvel;
- conservação, restauro e interpretação in situ das ruínas da Villa Romana da Tourega;
- estudo, consolidação e interpretação in situ das ruínas da Ermida de Sta Comba e da Fonte Santa;
- melhoria das condições da “morada” anexa à igreja, favorecendo a continuidade da sua habitabilidade, como condição fundamental de sustentabilidade do sítio;

- programa de arquitetura paisagista e valorização cultural, para o conjunto patrimonial da Tourega, prevendo áreas de estacionamento e de lazer; percursos de acesso às diversas ruínas e ao plano de água; núcleo interpretativo na Igreja;

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

JORNADA CULTURAL NA TOUREGA (2)


Cumprindo os objectivos preconizados, chamando a atenção da população local para a importância do sítio, decorreu no passado dia 1 de Novembro a Jornada Cultural na Tourega. Nela participaram algumas dezenas de "vizinhos", trazendo alguma animação a um sítio hoje esquecido e quase abandonado mas que, como tantos outros nos arredores das cidades e vilas do Alentejo, era regularmente procurado por razões religiosas, culturais e até sociais ou económicas. Temos consciência de que, face ao progressivo despovoamento do interior, cada vez será mais difícil  evitar o abandono e ruína destes locais, muitos dos quais são já hoje pura "arqueologia". Mas não deixa de ser reconfortante ver congregar esforços, por vezes com motivações diferentes é certo, que prolongam um pouco mais a vida destes sítios: as senhoras da vizinha aldeia de São Brás que na véspera procederam a uma limpeza geral da Igreja (como esta já não via há muito) mas que lamentaram o facto do altar (retábulo) não estar "douradinho como novo" como esperavam, face aos trabalhos de conservação em curso e de que ouviram falar... Os funcionários da Junta que cortando as ervas da villa romana, recordaram a sua participação (há mais de 20 anos) nas escavações de Luisa Ferrer Dias, Catarina Viegas e Inês Vaz Pinto...Os membros do Coro Eborae Musica que apesar de residirem em Évora,  a pouco mais de uma légua, desconheciam este sítio etc...

Para memória futura desta jornada, aqui ficam algumas imagens em jeito de reportagem, que agradeço ao meu colega e amigo Panagiotis Sarantopoulos (o grego mais alentejano que conheço) que também colaborou nesta jornada, acompanhando aqueles que aproveitaram para "descobrir" as ruínas romanas da Tourega.

Uma "ocupação" especial.

Um ensaio improvisado (à porta do cemitério) enquanto decorria a missa


Desta vez não era preciso pedir a chave ao sr. "Charuto"

A missa de "Todos-os-Santos"


O sr. "Charuto", o antigo funcionário da Junta hoje reformado, que habitando no local com a restante família, tem obstado que a degradação seja maior.


Algumas palavras antes do Concerto


O Concerto propriamente dito, já ao lusco-fusco da tarde 




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015




Guadalupe-Tourega: uma jornada memorável






Desde que o Francisco Bilou propusera à União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe, a edição do manuscrito do Pe Manuel Vidigal, que se assumira o compromisso de convidar para a apresentação o Professor Vitor Serrão, conhecido Historiador de Arte e meu antigo colega de curso. Não foi fácil, entre tantos compromissos do Vitor encontrar uma data disponível. Mas finalmente, acabado de chegar de uma conferencia no Brasil, Guadalupe e Valverde tiveram a honra de mais uma sua visita. Naturalmente não é a primeira vez que o Vitor Serrão anda por estas paragens, que há muitos anos teve oportunidade de descobrir na companhia do saudoso Mestre Túlio Espanca e ainda recentemente por aqui andou revisitando locais que faziam parte do tema do seu mais recente livro “Arte, Religião e Imagens em Évora, no tempo do Arcebispo D.Teotónio de Bragança, 1578-1602”. Mas, numa terra patrimonialmente tão rica como esta, cada passagem pode ser oportunidade para novas recolhas, novos dados para o sempre inacabado puzzle da História. Iniciámos a memorável jornada pela visita à Igreja de Guadalupe, onde a atenta observação dos frescos (retábulo, capela mor. sacristia e nave abobadada) em conjunto com o Francisco Bilou proporcionou a Vitor Serrão novas reflexões e considerações que de imediato divulgou na sua página do Facebook e que, com a devida vénia abaixo transcrevo. Partimos depois para a Tourega, onde se nos juntou entre outros, o P. Fernando Marques, Pároco local, e por coincidência nosso antigo colega de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Curso de 1970-1975). Antes da visita à Igreja e ao seu retábulo que Vitor Serrão tanto tem elogiado, aproveitando as excelentes condições metereológicas, fomos à redescoberta dos vizinhos lugares santos da Tourega, hoje muito esquecidos e abandonados: a "Fonte Santa" e a Capela de Santa Comba, uma das mártires evocada na Tourega. Sobre estes sítios fala-nos naturalmente o texto do Sèculo XVIII agora editado e sobre o seu significado ideológico teoriza o Prof. Vitor Serrão no importante livro já referido. Tudo leva a crer que a importância que estes antigos lugares de culto adquiriram no final do século XVI, início do Século XVII, quase sempre edificados sobre vestígios da época romana que lhe davam a devida "autenticidade", fizeram parte de um programa ideológico de combate contra o paganismo e a "Reforma", decorrente das instruções concretas do Concílio de Trento (ver a este propósito http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/12/a-padroeira-dos-arqueologos-foi-no.html) Desta visita que não esqueceu a Igreja da Tourega propriamente dita e a actual Igreja Paroquial de Valverde, onde se guardam também algumas das preciosidades da Tourega, como uma antiga tábua quinhentista (muito repintada) e uma magnífica Senhora do Leite, aqui deixamos algumas imagens que incluem também a apresentação do livro, bastante concorrida, que teve lugar no Restaurante O Ricardo.


Francisco Bilou e Vitor Serrão, na Igreja de Guadalupe, 5 de Dezembro de 2015
O P. Fernando marques na Fonte Santa da Tourega
Junto às ruínas da Ermida de Santa Comba

Revisitando o retábulo da Igreja da Tourega
Na nova Paroquial de Valverde, analisando a tábua quinhentista ali guardada.



A Senhora do Leite da Tourega, guardada na Paroquial de Valverde
O Vitor Serrão fazendo a apresentação do livro "Notícias da Tourega em 1736"


A notícia no Diário do Sul



MEMÓRIA DE SÍTIO COM OS FRESCOS DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE
A igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, grande templo rural a cerca de 15 kms de Évora, não longe da estrada nacional 114, nasceu no ano de 1609 por esforço de um grupo de cidadãos, devotos desse culto, que a fizeram erguer, altaneira e imponente, dominando a paisagem alentejana do sítio. Esses mordomos da confraria, responsáveis da obra, que o historiador Túlio Espanca, em 1957,registou para memória futura, foram Manuel Carvalho, Mateus Dias, João da Costa e Pedro Fernandes Pichorro, e em 1615 o templo era solenemente inaugurado pelo vereador mais velho, Diogo Pereira Cogominho, depois de visita do Arcebispo D. José de Melo. Sabe-se que o historiador Manuel Severim de Faria, devoto da Senhora de Guadalupe, era um dos frequentadores do imóvel religioso. A igreja destaca-se na mancha da actual aldeia de Guadalupe: apesar de muito depauperada por obras (em 1964) que a privaram do conjunto de casario de romeiros que a envolvia, e lhe dava por certo uma consentânea nota de pitoresco, a arquitectura mantém a volumetria tridentina, de severo gosto ‘teotonino’, acaso devido ao arquitecto Pero Vaz Pereira, o construtor oficial ao serviço do Arcebispado nesses anos.
Desejo falar da pintura mural e registar as minhas notas da visita recente. Grande interesse têm esses frescos, fruto de sucessivas campanhas, a mais antiga das quais decorou a ousia da capela-mor (cerca de 1612), com os tectos da nave e presbitério, e a mais recente o tecto da sacristia (este, datado de 1639). Sabemos que o ‘retábulo fingido’ da ousia se deve ao pintor José de Escovar, o mais prolixo dos fresquistas activos no aro eborense no início do século XVII. Mas é o conjunto de murais que recobrem o presbitério que maior interesse iconográfico oferece, até por ser praticamente omisso nas descrições do templo (incluindo as do sempre atento Túlio Espanca). Esse tecto inclui nove ‘painéis’ escalonados na estrutura fresquista, com cenas de adoração e milagres de Nossa Senhora do Guadalupe, e dão ênfase a um aspecto relevante da iconografia da Senhora: a remissão dos cativos. É por isso que se vêem orantes genuflexionados com suas correntes de ferro, num outro dois fidalgos de gorjeira encanudada evocando a Virgem, e em dois outros o singular ‘milagre de Belmonte’, o que constitui presença raríssima num programa iconográfico como este.
A lenda do cativo de Belmonte (representada apenas, que eu saiba, numa tela setecentista numa igreja de Penamacor e numa tábua maneirista no Museu de Ponta Delgada) narra a aventurosa saga de Manuel, soldado natural dessa vila beirã, que foi preso pelos mouros em Argel, onde foi feito escravo por um mouro muito avaro. Não deixou nunca de invocar Nossa Senhora da Esperança para o auxiliar e, segundo narra o milagre, a Virgem apareceu ao cativo na véspera do dia de Páscoa e anunciou que iria ser brevemente liberto. De facto, a arca em cujo interior Manuel dormia acorrentado, com o mouro deitado sobre a tampa, elevou-se no ar e desapareceu acima do mar, chegando no sábado de Aleluia a Belmonte, onde a população, à hora da missa, viu chegar a arca com o cativo e também com o seu senhor, que assim se converteria ao cristianismo. Foi erguida no local uma capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança e existe em igreja de Penamacor, como disse, uma tela do século XVIII (dada a conhecer em monografia de José Manuel Landeiro), que narra este raríssimo milagre mariano.
Também a historiadora Maria Eugénia Diaz Tenas (2007), segundo me informa Francisco Bilou, relata num artigo seu a partir das crónicas do Mosteiro de Guadalupe uma série de outros milagres alegadamente cultuados nesse mosteiro extremenho e registados pelos peregrinos portugueses que já no século XV demandavam o célebre cenóbio, todos eles ligados às curas de maleitas e à libertação de cativos cristãos. Conhece-se ainda, no tomo VI do ‘Santuário Mariano’ de Frei Agostinho de Santa Maria, uma descrição dos milagres da Senhora de Guadalupe, que é preciso analisar, e tomo nota ainda, da autoria de Pilar González Modino, de um livro recente chamado «La Virgen de Guadalupe como Redentora de Cautivos», que ajudará por certo a deslindar o complexo e raro programa iconográfico pintado na cobertura afrescada da igreja eborense.
Sobre o artista eborense que executou este tecto, em data pouco anterior a 1615, trata-se de um pintor maneirista de limitados recursos, mas com certo sabor, por certo um dos oficiais da ‘escola’ de José de Escovar, mas com estilemas diversos, e que me parece afim ao mesmo autor dos frescos da próxima igreja de São Matias e dos da igreja do Sabugueiro (Arraiolos). Pistas para desbravar neste laboratório vivo que é, sempre, o património artístico alentejano !

terça-feira, 31 de março de 2015


"Arqueogoogle"

Recinto Megalítico dos Almendres (Monumento Nacional)

Em 1996 tive a sorte de ter um lampejo do "futuro" que, afinal estava mais próximo do que imaginava. Para fazer o planeamento dos trabalhos arqueológicos nos 20 000 hectares de território ameaçado pela inundação do Alqueva, a EDIA  pôs à disposição da minha equipa, um levantamento de fotografia aérea de todo o território abrangido pelo EFMA (Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva), distribuído por algumas dezenas de CD Roms, que nos permitia visualizar as áreas de trabalho no ecrã do computador graças a ortofotomapas, momocromáticos, na escala 1.2000. Como já tínhamos então um ficheiro Filemaker (compatível com uma tabela tipo Excel) com as coordenadas (M e P, da CMP-1:25000) de todos os sítios inventariados, conseguíamos identificar e visualizar com relativa facilidade e alguma nitidez, todas as estruturas que tivessem alguma expressão física no terreno. Isso permitia de imediato realizar as seguintes operações: confirmar ou corrigir as coordenadas da estrutura ou sítio em causa, determinar o seu contorno e, por fim confirmar a respectiva "altitude", para saber se estava ameaçada total ou parcialmente pela inundação. Mais tarde, com o apoio do Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova (mais tarde KIRON), o "pai" do ENDOVÈLICO, começámos a instalar o SIG ambiental da EDIA que ainda hoje (com outros meios e outras tecnologias) serve de apoio á gestão das centenas de intervenções arqueológicas promovidas pela EDIA no Alentejo. Pois, tudo aquilo que só era possível porque a EDIA encomendara a uma empresa internacional do ramo, um levantamento aéreo específico que custou então alguns largos milhares de "contos", está hoje praticamente ao alcance de todos graças às ferramentas disponibilizadas universalmente por sistemas do tipo "Google". E os arqueólogos sabem disso e usam-no praticamente no dia a dia, não apenas para planeamento, mas até para prospecção. É um bom exemplo da utilidade das imagens Google, a identificação nos últimos tempos,  pelo arqueólogo António Valera, de vários "recintos de fossos" no Alentejo, completamente inéditos e praticamente imperceptíveis à superfície.
Esta reflexão vem a propósito da circunstancia de ter verificado há poucos dias, que as imagens do GoogleEarth referentes ao território de Guadalupe/ Valverde tinham sido actualizadas recentemente e, esse é o aspecto mais relevante, com uma resolução mais acurada, mesmo no que respeita a zonas rurais. Aproveito para mostrar alguns exemplos, todos referentes à minha freguesia (União de Freguesias de Nª Sº da Tourega e Nª Sª Guadalupe) que demonstram isso mesmo.

Menir dos Almendres (Imóvel de Interesse Público)

Recinto Megalítico de Vale Maria do Meio (Monumento Nacional)


Recinto Megalítico da Portela de Mogos (Imóvel de Interesse Público)

Anta Grande do Zambujeiro, Monuento Nacional (coberta por uma estrutura "provisória", instalada há 30 anos)
Anta 1 da Herdade do Barrocal (Monumento Nacional)
Castelo do Giraldo_ Atalaia medieval, com pré-existências do Calcolítico e Idade do Bronze (não classificado)

Mamôa  e Menir de Vale Rodrigo (Monumento 1 do Conjunto Megalítico de Vale Rodrigo, Monumento Nacional)


Ruínas romanas da Tourega (Imóvel de Interesse Público)





segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ruínas da Tourega

Por razões mais que compreensíveis, o património de Guadalupe e Valverde, marcará
presença assídua neste Blog. Hoje deixo apenas um cheirinho fotográfico das Ruínas Romanas da Tourega, sítio pouco conhecido dos turistas apressados, mas que pela carga histórico-arqueológica associada e pelo enquadramento paisagístico merecerá alguma atenção especial em futuras entradas.



As Ruínas da Tourega em foto de José António Barbosa (1904)