O lamento de Anne Desbaresdes recomeçou, tornou-se mais forte. Pousou de novo a mão sobre a mesa. Ele seguiu o gesto com os olhos e, penosamente compreendeu, ergueu a sua mão que parecia de chumbo e colocou-a sobre a dela. As suas mãos estavam tão frias que se tocaram ilusoriamente, na intenção apenas de que aquele gesto ficasse feito, mais nada, já não era possível. As mãos ficaram assim, imóveis na sua posição mortuária. No entanto, o lamento de Anne Desbaresdes cessou.
Marguerite Duras, Moderato Cantabile
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evening blues
O pequeno, imóvel, olhos baixos, foi o único a notar que a tarde explodira. Teve um arrepio.
Marguerite Duras, Moderato Cantabile
Marguerite Duras, Moderato Cantabile
o infortúnio de amar
Um dia sem os olhos dele, e ela morre.
Rapariguinha de Nevers.
Pequena sedutora de Nevers.
Um dia sem as mãos dele, e ela acredita no infortúnio de amar.
Rapariguinha sem importância.
Morta de amor em Nevers.
Pequena tosquiada de Nevers, voto-te esta noite ao esquecimento.
História sem importância.
Como com ele, o esquecimento começará pelos teus olhos.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, o esquecimento levará a tua voz.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, arrebatar-te-á inteiramente, pedaço a pedaço.
Reduzir-te-ás a uma canção.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
Rapariguinha de Nevers.
Pequena sedutora de Nevers.
Um dia sem as mãos dele, e ela acredita no infortúnio de amar.
Rapariguinha sem importância.
Morta de amor em Nevers.
Pequena tosquiada de Nevers, voto-te esta noite ao esquecimento.
História sem importância.
Como com ele, o esquecimento começará pelos teus olhos.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, o esquecimento levará a tua voz.
Da mesma maneira.
Depois, como com ele, arrebatar-te-á inteiramente, pedaço a pedaço.
Reduzir-te-ás a uma canção.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
um pouco cansada
Estão os dois sob o chuveiro do quarto do hotel.
Estão alegres.
Ele põe a mão sobre a fronte dela, de tal maneira que lhe dobra a cabeça para trás.
ELE - És uma bela mulher, sabias?
ELA - Achas?
ELE - Acho.
ELA - Um pouco cansada, não?
Ele acaricia-lhe a face, até a deformar. Ri.
ELE - Um pouco feia.
Ela sorri à carícia dele.
ELA - E não te importas?
ELE - Foi o que notei ontem à noite, no café: o teu modo de ser feia. Além disso...
ELA (completamente abandonada) - Além disso...
ELE - Como tu te aborrecias!
Ela tem um gesto de curiosidade.
ELA - Continua...
ELE - Tu aborrecias-te daquela maneira que desperta nos homens vontade de conhecer uma mulher.
Ela sorri, baixa os olhos.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
bem me dizias tu que as mulheres cansadas são as mais bonitas
Estão alegres.
Ele põe a mão sobre a fronte dela, de tal maneira que lhe dobra a cabeça para trás.
ELE - És uma bela mulher, sabias?
ELA - Achas?
ELE - Acho.
ELA - Um pouco cansada, não?
Ele acaricia-lhe a face, até a deformar. Ri.
ELE - Um pouco feia.
Ela sorri à carícia dele.
ELA - E não te importas?
ELE - Foi o que notei ontem à noite, no café: o teu modo de ser feia. Além disso...
ELA (completamente abandonada) - Além disso...
ELE - Como tu te aborrecias!
Ela tem um gesto de curiosidade.
ELA - Continua...
ELE - Tu aborrecias-te daquela maneira que desperta nos homens vontade de conhecer uma mulher.
Ela sorri, baixa os olhos.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
bem me dizias tu que as mulheres cansadas são as mais bonitas
a memória do esquecimento
ELA (baixo) - ... Ouve.
Como tu, eu sei o que é o esquecimento.
ELE - Não, tu não sabes o que é o esquecimento.
ELA - Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.
ELE - Não, tu não és dotada de memória.
ELA - Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
Como tu, eu sei o que é o esquecimento.
ELE - Não, tu não sabes o que é o esquecimento.
ELA - Como tu, também eu sou dotada de memória. Conheço o esquecimento.
ELE - Não, tu não és dotada de memória.
ELA - Como tu, também eu tentei lutar com todas as minhas forças contra o esquecimento. Como tu, esqueci. Como tu, desejei ter uma memória inconsolável, uma memória de sombras e de pedra.
Marguerite Duras, Hiroxima Meu Amor
Subitamente tenho uma dor.
Mal a sinto, é muito leve. É o bater do coração deslocado para ali, para a ferida viva e fresca que ele me fez, aquele que me fala, aquele que fez o prazer desta tarde. Já não ouço o que ele diz, já não escuto. Ele vê, cala-se. Digo-lhe que continue a falar. Assim faz. Escuto de novo.
Marguerite Duras, O Amante
Marguerite Duras, O Amante
Pergunto-lhe se é costume estar-se triste como nós estamos.
Ele diz que é porque fizemos amor durante o dia, no momento em que o calor é maior. Diz que é sempre terrível depois. Sorri. Diz: quer nos amemos, quer não, é sempre terrível. Diz que há-de passar com a noite, assim que ela chegar. Digo-lhe que não é só por ter sido durante o dia, que está enganado, que estou numa tristeza que já esperava e que só vem de mim. Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza também nas fotografias em que sou muito pequena. Que hoje essa tristeza, reconhecendo-a embora como a que sempre tive, poderia dar-lhe o meu nome, de tal modo se me assemelha.
Marguerite Duras, O Amante
Marguerite Duras, O Amante
Muito cedo na minha vida foi tarde demais.
Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi opera-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal.
Marguerite Duras, O Amante
Marguerite Duras, O Amante
solidão
The solitude of writing is a solitude without which writing could not be produced, or would crumble, drained bloodless by the search for something else to write.
Marguerite Duras, Writing
Marguerite Duras, Writing
esta noite chove
Ao mesmo tempo que já não te amo não amo mais nada, só a ti, ainda.
Esta noite chove. Chove em volta da casa e sobre o mar também. O filme vai ficar assim, como está. Não tenho mais imagens para lhe dar. Já não sei onde estamos, em que fim de que amor, em que recomeço de que outro amor, em que história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme. Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma imagem mais poderia prolongá-lo.
O dia de hoje não amanheceu e não há o menor sopro no alto das florestas ou nos campos, nos vales. Não se sabe se é o verão ainda ou o fim do verão ou uma estação mentirosa, indecisa, horrível, sem nome.
Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo. No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.
Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.
Marguerite Duras, O Homem Atlântico
Esta noite chove. Chove em volta da casa e sobre o mar também. O filme vai ficar assim, como está. Não tenho mais imagens para lhe dar. Já não sei onde estamos, em que fim de que amor, em que recomeço de que outro amor, em que história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme. Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma imagem mais poderia prolongá-lo.
O dia de hoje não amanheceu e não há o menor sopro no alto das florestas ou nos campos, nos vales. Não se sabe se é o verão ainda ou o fim do verão ou uma estação mentirosa, indecisa, horrível, sem nome.
Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo. No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.
Estou num amor entre viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.
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