Foi quando tivemos essa primeira conversa sobre nós que disseste: «Porque é que as mulheres se desgostam de mim?».
Eu pensei que estavas a brincar, era uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, poderia alguém desgostar-se de ti, mas tu insististe, e havia na tua voz um leve traço que não era de amargura mas de cansaço, creio que, naquele momento, tu acreditavas sinceramente que era isso que se passava, mas parecia-me estranho que o confessasses, afinal um homem tem meia dúzia de ideias enterradas na cabeça, como é que um homem pode admitir que as mulheres se desgostam dele, tu riste-te divertido, e disseste, se calhar é porque não sou bem um homem, e isso era ainda mais absurdo, eu nunca tinha conhecido um homem como tu, mas também, é verdade, eu não tinha idade para ter conhecido tantos homens como isso, fizeste-mo notar, mas aos poucos fui percebendo o que querias dizer com o desgosto, e não era uma acto de modéstia, pelo contrário, dentro de ti havia qualquer coisa que te murmurava a mais humilhante de todas as perguntas, como é que uma mulher se pode desgostar de mim, e era isso que tu não suportavas, isso era muito pior que todas as traições e todas as infidelidades, que todos os divórcios e todas as rupturas, no fundo tu gostarias que mesmo as mulheres a quem tivesses dito acabou-se conservassem por ti um sentimento mais profundo, que de alguma forma fizesses parte da vida delas, mas não exactamente da forma como uma pessoa faz parte da vida passada de outra, isto é, arrumada na memória, antes como uma imagem recorrente (esta palavra é tua, desculpa), uma espécie de saudade que o tempo transforma mas que nunca se consegue anular.
E eu disse-te que não, que não era possível, não sei bem se porque achava mesmo que não era possível, ou se porque intuí que talvez fosse isso que querias ouvir, mas jurei-te que eu gostava de ti, há semanas, meses, dias e noites que vivia em função de ti, dos teus desejos, da tua alegria, do teu sorriso e também, eu podia dizer-to, dos teus beijos, da forma como os teus dedos me tocavam ao de leve nos ombros e lentamente me percorriam até à cintura, e da forma como o teu corpo se colava ao meu, fazes-me tão feliz, disse-te, eu até talvez nunca tivesse sabido o que era a felicidade, nunca tinha amado ninguém assim, e tu franzias o sobrolho, repetias-me, nunca se diz nunca, e rias-te, cada um de nós ama sempre absolutamente quando ama, e parece que nunca houve nada assim, e eu exasperava-me, porque é que havias de relativizar tudo, de reconduzir todos os absolutos de que a nossa cabeça está cheia até à insuportável indiferenciação do mundo das pessoas crescidas, eu disse pessoas crescidas, e tu riste-te de novo, mas sem condescendência, apenas muito casual, e disseste, repara, é esse o mundo definitivo, aquele em que se entra para nunca mais se sair, o resto, a infância, a adolescência são etapas, estações, disseste estações, lembro-me perfeitamente, e eu segui um raciocínio qualquer, e de repente tinha-me perdido de todo da conversa e ouvi a minha voz perguntar-te, em que estás a pensar, e tu, muito admirado, em nada, meu amor, e ficámos assim. Isso foi da primeira vez que falámos sobre nós.
Foi depois disso que percebi a tua vulnerabilidade. Eu explico: o que me intrigava em ti era a tua capacidade de defenderes uma moral da vulnerabilidade sem nunca mostrares que a tua vida também se regia por ela.
Por exemplo, falavas do ciúme, da paixão, do fanatismo das convicções, do subjectivismo e da solidariedade incondicional com os amigos e a família, e, no entanto nem uma vez eu fora capaz de te apanhar a praticar esses pequenos excessos, desvios a uma conduta socialmente virtuosa, falhas numa compleição mental moldada pelo dever-se do mundo dos da tua geração.
E, de repente, percebi que tinhas ciúmes, e que vivias desesperadamente contigo esse sentimento do qual, em última análise tinhas vergonha, e dia após dia era um mal-estar que crescia entre nós, comecei por pensar que era uma das tuas neuras, mas as tuas neuras, tão intensas, normalmente são passageiras, então assustei-me, pensei o inevitável, que estavas absolutamente farto de mim, que bruscamente tinha deixado de te interessar, até fisicamente, parecia-me, alguma coisa se tinha quebrado entre nós, com o coração apertado comecei a preparar-me para o dia em que ias voltar-te para mim muito sério e dizer, ouve, temos que ter uma conversa, há uma coisa que já ando para te dizer há uns dias, tenho estado a pensar que era capaz de ser melhor afastarmo-nos por uns tempos, preciso pensar, de perceber que rumo quero dar à minha vida, desculpa-me, eu sei que sou muito complicado, mas que queres, as minhas manias acabam por tornar-me insuportável até a mim próprio, mas não quero magoar-te e até gostava que ficássemos amigos, devia ser assim, eu tinha lido exactamente essas frases no livro de um autor português, e eu ia ficar sucumbida, não, isso é que não, eu não podia ficar sucumbida, não isso é que não, eu não podia ficar sucumbida à tua frente, ia levantar-me muito depressa, nem sequer seria capaz de te olhar de frente, ia dizer-te então adeus, e tu, espera, não tens nada para me dizer, e depois, meu querido, tu sabes como são as mulheres quando se põem a imaginar, depois haveria lágrimas e os teus olhos iam comprimir-se numa aflição, ias atrás de mim até à porta, agarravas-me no braço esquerdo, vejo a cena perfeitamente, vi-a durante esses dias tantas vezes e era sempre igual, agarravas-me no braço esquerdo e puxavas-me para ti, muito devagar, e a tua voz seria por uma vez sincera, eu queria ouvi-la como se fosse sincera, e dizias-me, preciso tanto de ti, e como de costume eu ia desfazer-me nos teus braços e tudo seria como dantes, talvez melhor, pelo menos isso eu deixava em aberto, interessava-me mais a fulgurância do meu sonho suspenso no tempo, para sempre inscrito na minha memória de ti, do que o que se poderia seguir e este momento dramático na minha imaginação.
Mas não era isso. Pelo menos dessa vez não era isso, e creio que nunca chegou a ser. Durante o tempo em que estivemos juntos, um Verão inteiro, lembras-te? Evitámos o drama, ou evitaste-o tu pelos dois, e é isso que eu dizia, a vida descrita por ti devia ser um vulcão de excessos, uma aventura no limiar do irracional, era quase uma ficção, e eu deveria ter percebido que essa é a tua maneira de viver, um romance vale mais que mil ensaios, dizias muitas vezes, e tinhas razão, pelo menos tinhas a tua razão, e é por isso que percebo o que querias dizer com a história do bêbado e da vida dele, sim, cada um vive por dentro a sua própria metade da vida convencido que é apenas uma metade, mas na realidade é a sua vida inteira, a sua vida incomunicável, sentida como coisa tão inteiramente sua que nem sequer vale a pena partilhá-la, e isto é mentira, é uma mentira moral, não se trata de não valer a pena, isso é uma desculpa com que se ilude o pavor de não se poder transmitir e partilhar, estamos tão longe uns dos outros, é isso que eu sinto, como estou longe de tudo e de ti, meu amor.
Mas dessa vez, percebi os teus ciúmes. E dei-te pretextos, suponho, mas eu era tão desajeitada nisso como noutras coisas, acho que era tão inocentemente óbvia que tu nem tinhas coragem, uma coragem estética, digamos, de levantar a questão, devias viver dentro de ti um combate feroz, mas isso era uma coisa que tu achavas que só podias resolver contigo, e eu precisava, juro-te que precisava que me dissesses qualquer coisa, que mostrasses, com toda a crueldade de que eras capaz quando te sentias ferido, que era uma ferida o que te estava a doer, eu só queria uma razão, mínima que fosse, para me lançar nos teus braços, e jurar-te a única, a mais absoluta das verdades, que te amava, que não podia conceber amar mais alguém, que o amor, tu tinhas que perceber isso, não é uma coisa que se acrescente a outras coisas que já se têm, que não consente sobreposições nem contiguidades, eu sentia isso assim de uma forma muito simples, mas não tenho a certeza de que essa não seja a melhor forma de sentir as coisas mais importantes da nossa vida.
Mas não foi possível arrancar-te uma palavra e acho que foi aí que tudo começou.
Foi um sentimento vago, a princípio eu achava que era uma criancice, uma crise passageira, eu gostava tanto de ti, precisava de ouvir a tua voz a todas as horas do dia e isso era gostar, sim, era gostar verdadeiramente, fisicamente, percebes, sentia a tua falta nos lugares onde estava e desejava correr para casa, abraçar-te muito, ficar ali a ler e a conversar contigo, ouvíamos ópera e canções de cabaré e depois amávamo-nos, às vezes íamos jantar fora e tu bebias, ficavas num estado de euforia incontrolável, e desarmavas-te, dizias-me que me amavas e os teus olhos ficavam líquidos de felicidade, eu sei, meu amor, eu sei que era verdade, mas agora é tarde, só depois é que percebi que essa era a tua única forma possível de viveres de acordo com a tua moral desregrada de vida, que esse estímulo exterior, esse excesso, era exactamente à medida da transgressão de sentimentos que defendias, mas nessa altura não, de repente apercebia-me de que só me falavas assim quando bebias e isso mais me confirmava na convicção de que contigo nada seria nunca demasiado sério, e que esse teatro meio ébrio com que me cobrias de ternura era, ainda e sempre, uma forma de ocultares a tua indiferença, não digo indiferença, mas pelo menos a forma tão relativa como gostavas de mim.
Sentia que me amavas por fora de mim, que entre nós só existia uma precariedade feita do simples desejo de estarmos um no outro, e que isso tornava absurdo todos os sonhos que sonhara contigo, tenho pudor em escrevê-los e também agora já não interessa, mas a minha vida imaginada ficara pelo caminho e eu tentava desesperadamente perceber onde é que falhara e, era curioso, ao mesmo tempo tinha a sensação confortável de que o nosso fora um episódio sem falhas, nem tuas nem minhas, e isso revoltava-me, porque era injusto que duas pessoas tão obviamente feitas uma para a outra, desculpa a vulgaridade, se atropelassem assim, na pressa de partirem cada uma para seu lado.
Quando dei por mim, dei comigo a desejar estar contigo e a suportar mal a tua presença.
E isso talvez não fosse uma sensação nova na minha vida, apenas que, pela primeira vez, o desejo de te tocar era tão forte como a vontade de partir.
Demorei muito tempo até perceber verdadeiramente que, de uma forma ou de outra, eu tinha saído da tua vida, e tu compreendeste-o primeiro do que eu, é natural, uma vez mais encontravas-te perante uma situação reconhecível, mas eu nessa altura achava que não, que tu no fundo é que nunca tinhas querido entrar na minha vida, que pela tua cabeça nunca tinham passado projectos de que eu tivesse feito parte, tu sabes como é, meu querido, começamos por responsabilizar os outros e quando tomamos consciência de que o que está em causa somos nós, a nossa metade que é a nossa vida inteira, já deitámos tudo a perder, nem sequer somos capazes de preservar a contiguidade que está tão próxima do amor, talvez fosse isso que querias dizer quando falavas em gerir a vida como uma economia de troca, mas também essa é uma verdade que se aprende muito depois, ainda agora não me sinto preparada para a aceitar, não sei se alguma vez estarei do teu lado, mas já sei, digo isto porque na minha idade vê-se a vida só como futuro e o futuro não pode ser outra coisa que a projecção quase automática do presente.
Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa.
Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes?
Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio.
Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem o espaço inteiro que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.
Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever.
E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas, por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição.
Pronto. Tinhas razão, é preciso escrever para que as coisas nos apareçam com a clareza que nos serve, eu sei que tudo se torna nítido não porque os nossos olhos tenham mudado, apenas porque a escrita funciona como uma lente que apura os contornos e permite compreender os finíssimos laços que os afectos entretecem entre as pessoas.
Agora, vou deixar-te esta carta no escritório, em cima da secretária, e depois atravesso o corredor às escuras, rodo o manípulo da porta muito lentamente e vou sair sem fazer barulho. Para não te acordar.
António Mega Ferreira
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