Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-lo
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
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um homem (uma mulher)
De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
O POETA EM LISBOA
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
O MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS
Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída - a real, a única - e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.
Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.
(...)
MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.
Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.
(...)
MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite - um a um mordem os pulsos e cantam - sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.
Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos
EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR
minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca
conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século
agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo
MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites....
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar
DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
POEMA
São eles - os amantes no seu leito de morte chegando a espaços de clareiras infernais, quarenta noites de insónia, de fogo, de dentes numa girândola implacável, todos os suicidas e as mães que tiveram antes, as mães que tiveram depois e aqui e ali, por toda a parte, automóveis abandonados às chamas, animálculos, perguntas, cortesãs, decapitações através dos cartazes, dois rapazes no cais enquanto a morte rouba flores à infância, grande festa do poeta na gare esperando o comboio para uma morte horrível, a trapezista dos meus tempos de ócio medieval e do trapézio dos adolescentes, minha mãe das minhas noites de menino e hélices lunares cobrindo de cristais e de pavor as tuas mãos, simples roda de cores e anel de namorada; fotografia dela guardada ainda na mesma carteira velha, ainda rugindo pela infância, ainda viva pelas coisas imperdoáveis, próxima e feroz como um punhal nas costas, desde Lisboa, desde uma flor na minha boca e uma hora ao pé de ti, vertiginosa e alta nos teus olhos, nos teus ombros velozes ao crepúsculo, numa salva de prata à esquerda pelas nuvens, pelos naufrágios de vento à mão direita, entre cães de latidos luminosos e a muralha da china - esta noite em que a terra é um ponto em Lisboa e não tem importância que não haja outro lugar para estar morto, mas para viver é muito importante que seja um continente que nos espere.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
MEMÓRIA
À flor da terra a flor de fumo
dos meus cigarros adolescentes
fumados amorosamente entre fantasmas
desse tempo
os meus pulmões que dançam
os meus olhos de desobediência civil
fascinados
que saúdam o arco histérico do desejo
o meu nome que flutua
na orla do furor
desse tempo
uma paisagem de nuvens inventadas
para as minhas aves altíssimas
suspensas sobre a morte
chuva do princípio do mundo
escrita na minha pele
com a língua das tempestades
todas as ruas secretas
por onde não passa
o manequim de patas de alcatrão
devorador do ar
eu beijei o crânio azul da noite
ajoelhado numa bandeira ardente
entre a bela e o monstro
dormi entre frases imensas e bárbaras
e puríssimas
pronunciadas pelo mistério
desse tempo
uma onda de silêncio deslumbrante
onde voam flores negras
quando anoitece do lado do amor
e um homem com passos escarlates
que atravessa o nevoeiro
agora a sombra no meu peito
de um avião que passa
à velocidade da erupção dos teus cabelos
quando amanhece neles
como uma coroa de versos
na estátua jazente do único
a cabeça voltada para o lado intelectual da morte
os olhos muito abertos para o pranto de súbito
todos os nus uma criança incluída
presos por um fio de sangue
definitivamente ás estrelas
e a minha assinatura do fígado sobre as águas
em vez do meu nome leiam
Mil Crimes de Amor numa torre de marfim
eu sei
uma pequena multidão petrificada
ameaça escurecer os rostos os mais belos
é ela que avança contra os relógios de sol
eclipse total se não há
espelhos para as insónias negras
se não há para a biografia completa do homem
um grande amor da cama à música das esferas
passando por um tremor de terra
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
dos meus cigarros adolescentes
fumados amorosamente entre fantasmas
desse tempo
os meus pulmões que dançam
os meus olhos de desobediência civil
fascinados
que saúdam o arco histérico do desejo
o meu nome que flutua
na orla do furor
desse tempo
uma paisagem de nuvens inventadas
para as minhas aves altíssimas
suspensas sobre a morte
chuva do princípio do mundo
escrita na minha pele
com a língua das tempestades
todas as ruas secretas
por onde não passa
o manequim de patas de alcatrão
devorador do ar
eu beijei o crânio azul da noite
ajoelhado numa bandeira ardente
entre a bela e o monstro
dormi entre frases imensas e bárbaras
e puríssimas
pronunciadas pelo mistério
desse tempo
uma onda de silêncio deslumbrante
onde voam flores negras
quando anoitece do lado do amor
e um homem com passos escarlates
que atravessa o nevoeiro
agora a sombra no meu peito
de um avião que passa
à velocidade da erupção dos teus cabelos
quando amanhece neles
como uma coroa de versos
na estátua jazente do único
a cabeça voltada para o lado intelectual da morte
os olhos muito abertos para o pranto de súbito
todos os nus uma criança incluída
presos por um fio de sangue
definitivamente ás estrelas
e a minha assinatura do fígado sobre as águas
em vez do meu nome leiam
Mil Crimes de Amor numa torre de marfim
eu sei
uma pequena multidão petrificada
ameaça escurecer os rostos os mais belos
é ela que avança contra os relógios de sol
eclipse total se não há
espelhos para as insónias negras
se não há para a biografia completa do homem
um grande amor da cama à música das esferas
passando por um tremor de terra
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar
DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE O TEU ÚLTIMO CABELO
António José Forte
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar
DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE O TEU ÚLTIMO CABELO
António José Forte
ainda não
Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José Forte
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José Forte
hoje alguém deu à manivela para nascer o sol
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
do «bem bonito»
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
Alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
Alguma coisa onde tu ao Norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
Alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
Alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
Alguma coisa onde tu ao Norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
Alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
a torre de pisa
A torre de Pisa
em Itália
como qualquer torre
não fala
Inclina-se
para a frente
e cumprimenta
a gente
Não é como
a torre de Belém
que não cumprimenta
ninguém
António José Forte
em Itália
como qualquer torre
não fala
Inclina-se
para a frente
e cumprimenta
a gente
Não é como
a torre de Belém
que não cumprimenta
ninguém
António José Forte
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