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quarta-feira, setembro 03, 2008

Ary dos Santos - Desfolhada



Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor

filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.

É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.

Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.

Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.



Ary dos Santos (Poeta português, 1937-1984)

Escrita em 1968. Foi inicialmente patenteada com o título Desfolhada Portuguesa, modificado pelo autor em 1969 para Desfolhada.
Este poema foi musicado por Nuno Nazareth Fernandes e interpretada por Simone de Oliveira. Concorreu ao Festival da RTP em 1969, obtendo o 1º lugar e foi representar Portugal à Eurovisão.




segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Jorge Antunes - Fado/Saudade



Foto: Fado, JoanLovesPaper


Diz-se por ai
Diz quem sabe
Que o fado nasceu da saudade
Saudade que nasceu aqui

Neste lugar
Neste mar
Neste pequeno país

Diz quem sabe
Que não cabe
A um poeta ser feliz

E deste povo poeta
Desta alma sempre incerta
Do seu imenso sentir

Da pena fez-se profeta
Em verso escreveu modesta
A lágrima de ver partir

Fez dos sonhos uma canção
Fado, fado, ilusão
Para sempre eternidade

Diz quem sabe, que da razão
Não vive quem tem coração
Quem o tem, vive a saudade





jorge@ntunes (Poeta português, publica no poetik4ever)

domingo, junho 17, 2007

Fernando Pessoa - Mar Salgado



Foto: Adraga, de Luís Ferreira



Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.



Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

Fernando Pessoa - O Infante



Infante Dom Henrique (Impulsionador dos Descobrimentos, 1394-1460)



Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



Fernando Pessoa (Poeta Português, 1988-1935)

domingo, junho 10, 2007

Luís Vaz de Camões - Os Lusíadas (Canto I, 1-3)



Imagem de João Pedroso (1825-1890) que retrata um episódio dos Lusíadas



1

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

(...)



Luís de Camões (Poeta português, 1524 ou 1525 - 1579 ou 1580)


Os Lusíadas on-line 1

Os Lusíadas on-line 2