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domingo, 19 de abril de 2026

OLEANNA

 

“Qualquer que seja o lado que você fique, você está errado”

(David Mamet)

Em primeiro lugar louve-se a qualidade do texto do dramaturgo norte-americano David Mamet (1947 -) escrito em 1992 que, por meio de diálogos ágeis e consistentes, nos mostra o embate entre John, um professor universitário muito seguro de si e Carol, uma aluna de classe social inferior que está com dificuldades em acompanhar o curso.

Na primeira parte da trama o professor vale-se de sua retórica e, detentor do poder naquele momento, procura manipular a jovem em função da inferioridade (intelectual e de classe) que vê nela.

Na segunda parte, Carol sentindo-se humilhada e assediada pelo professor o denuncia por elitismo, sexismo e até assédio físico fazendo com que ele possa perder as possibilidades de uma promoção; agora é ela que detém o poder, enquanto ele tenta convencê-la a retirar a denúncia.

Esse ping pong de poder e de argumentos é o cerne da peça levando o espectador a cada momento,  dar razão a um dos lados, fazendo valer o pensamento de Mamet em epígrafe.

O jogo entre as personagens proposto pelo autor é complexo e exige intérpretes de alto nível e isso é o que não falta a Velson D’Souza e Juliana Gerais que se entregam de forma brilhante ao embate. O espectador tem o privilégio de apreciar tanto a personagem que tem a vez de falar como as reações daquela que a escuta. Momentos mágicos que só a arte teatral tem o dom de oferecer.

Daniela Stirbulov, uma jovem encenadora que já havia surpreendido em “O Mercador de Veneza”, reitera seu talento com uma direção enxuta totalmente focada na interpretação realista de Velson e Juliana, cuja proximidade com o público cria um clima de cumplicidade com o mesmo.

O cenário (Carmem Guerra) e os adereços (Rebeca Oliveira) também de cunho realista se fantasiam um pouco com a iluminação mais impressionista de Fran Barros.

Todos esses fatores colaboram para tornar esta montagem de “Oleanna”, um dos pontos altos da temporada teatral paulistana de 2026.

Curiosidades:

1 - Por que “Oleanna”? David Mamet retirou o título de uma canção folclórica norueguesa que recebeu letras em inglês de Pete Seeger e que fala de Oleanna, um lugar onde a utopia seria possível.

2 – A peça teve duas montagens importantes apresentadas nos palcos paulistanos: em 1996 com Antonio Fagundes e Mara Carvalho dirigidos por Ulysses Cruz e em 2015 dirigido por Gustavo Paso com Luciana Fávero como Carol e Miwa Yanagizawa/Walter Breda revezando-se no papel do professor.

3 – A versão cinematográfica dirigida pelo autor data de 1994 tendo William H. Macy e Debra Eisenstadt como intérpretes 

OLEANNA está em cartaz no Espaço Convivência do Teatro Vivo até 07 de junho. Sexta e sábado 20h e domingo 18h.

NÃO DEIXE DE VER! 

19/04/2026

 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

OLEANNA


 


        O brilhante texto de David Mamet foi montado sem maior repercussão em 1996 por Antonio Fagundes com direção de Ulysses Cruz e agora recebe esta bem sucedida tradução cênica de Gustavo Paso que o valoriza e privilegia a cumplicidade do público, pois são apenas 40 pessoas (20 de cada lado do espaço cênico) que testemunham a um palmo do nariz o terrível embate entre as duas personagens.
        Um dos e, talvez, o maior mérito do texto de Mamet é o verdadeiro pingue pongue que ele faz com o raciocínio do espectador que ora se vê do lado da aluna e ora está dando razão à professora. A peça termina sem a definição de um lado certo, pois não há lado certo no mundo em que vivemos.
        A trama é bastante simples: uma aluna dirige-se à sala de sua professora para pedir que esta revise sua nota de reprovação. Num jogo de palavras aonde vêm à tona os problemas de cada uma delas a relação entre as duas vai se tornando tensa transformando-se em uma verdadeira batalha de gato e rato, onde cada uma tem a sua vez de ser este ou aquele; as posições vão se alternando para mostrar a crueldade que se apodera de quem está com o poder. A peça mostra uma situação limite, mas tal fato pode ocorrer em maior ou menor escala (e não por isso menos terrível) em qualquer relação: aluno/professor, subordinado/chefe (muito bem mostrada na peça Contrações de Mike Bartlett, ainda em cartaz na cidade), filho/pais, companheiro/companheira, torturado/torturador e até entre amigos.        
        A peça depende essencialmente do trabalho das atrizes, fato levado em consideração pelo encenador que foca sua montagem na atuação das mesmas. Cenário simples e funcional, assim como, figurinos e iluminação não fazem o espectador desviar os olhos do poderoso jogo interpretativo. Miwa (pronuncia-se Miuá, segundo informação da própria atriz) Yanagizawa desincumbe-se com muita garra do papel de professora reforçando o talento já demonstrado em Trágica.3 e Luciana Fávero vai com muita desenvoltura da insegura e frágil aluna do início à perversa manipuladora do final. Trabalhos intensos que devem ser lembrados nas listas dos melhores do ano.
 
 
        Além desta há outra versão da peça onde o professor é interpretado por Marcos Breda. A conotação homossexual dá lugar a um assédio hetero, mas o jogo do poder e o estupro moral (temas principais da peça) devem permanecer os mesmos. Como curiosidade cabe lembrar que na última semana de apresentação a personagem do professor será vivida simultaneamente por Miwa e Breda.

        OLEANNA é um espetáculo intimista de forte carga emocional que precisa ser visto pela atualidade do tema tratado (a manipulação pelo poder). Em cartaz no Sesc Pompeia até 05 de julho, sextas e sábados às 21h e domingos às 19h.

        Paralelamente à peça o Sesc Pompeia está apresentado filmes que envolvem o nome de David Mamet como também debates sobre a sua obra. Nesse verdadeiro Festival Mamet cabe lembrar que está em cartaz no Teatro Vivo a peça de sua autoria O Sucesso a Qualquer Preço, que também trata dos malefícios do poder.

 

Fotos de Monica Vilela.

 

22/06/2015