Acordo cedo com o canto do galo no quintal, e os
passarinhos fazendo festa em minha janela. São pequenos pardais e colibris, rolinhas
e pombos a rulhar, quem sabe um galo de campina desgarrado de seu bando, numa melodia
afinada a chamar o sol.
A luz chega ao meu quarto, entra pelas frestas das
portas, e das janelas, e por cima de meus olhos, abre as fendas de uma noite em
pesadelo ou ansiedade. A luz e a cantoria da passarada iluminam minha alma e me
convidam a ir para fora.
Escorrego-me entre os lençóis, espreguiço-me ainda
cansada, piso o chão com firmeza de quem sabe está tudo bem, apesar do caos dentro
de si. E com a alegria de viver a primavera, arrasto-me para sair da penumbra.
Jogo água nos olhos cansados, e aperto-os bem, é preciso
abrir a visão para o que me espera logo ali. Ponho os óculos e saio, e eis que no
quintal a pequena Buganvília florida, sobre ela apresenta-se um gracioso balé de
flores a dançar com o vento a se abrirem às muitas borboletas, umas estampadas,
outras bordadas, amarelas, alaranjadas, pretas e brancas. É quase impossível
dizer qual delas é a mais bela.
O sol queima minha
face, esquenta minha cabeça, mas o vento da manhã refresca a minha alma e me
perco ali, a voar com as borboletas, leve e feliz.
Esvoaço-me com asas de sonho, enxergo as cores e as
formas das flores, em contraste com o céu azul claro, um quadro mágico que
pincelo, enquanto me imagino ser o fruto seco no galho, onde o pequeno pássaro
alisa sua asa. Já não sou mais eu, sinto-me também ser fruto, e de repente, já sou ave.
Devaneio, ora sou folha a farfalhar no telhado, ora sou ave a piar,
sou vento a dançar e também sou a cor azul
Fecho os olhos por um instante, como quem não quer
acordar do sonho,e ao abri-los prendo a atenção no pistilo da pequena flor que se abriu. Está
ali o que mais me torna feliz: a borboleta a brincar de ser flor e folha a
voar, beija e ama, esvoaça e pousa. Leve bailarina de vestido colorido a enfeitar
o jardim.
Só assim o dia amanhece, e me despertam passarinhos,
galos de campina e a luz da manhã. Canta dentro de mim o terno sonho de ser
como as borboletas, leves e livres. Por isso vou à caça delas todas as manhãs
onde meu olhar cansado pode avistá-las, mesmo tendo a certeza que as almas das borboletas sempre se acasulam em mim, e quando o sol rompe a aurora, elas abrem as asas
e fazem panapaná para sair por entre meus olhos de volta ao jardim.
Paula Belmino