O povo agora chora o futebol, a perda do sonho do hexa, que pode ser
conquistado amanhã quem sabe. Por que não chorar a dor de quem
perdeu sua família em acidentes como o do viaduto em Belo Horizonte que
desmoronou, a dor de quem chora querendo um atendimento médico, mas que não
consegue pois os hospitais estão em greve. Ou a desesperança de quem não aprende por que não há escolas preparadas, e os professores andam desmotivados,
desvalorizados, falta estrutura, falta livros nas escolas, falta merenda e pão
nas casas onde pais desempregados choram o dia em que vivem, matando a cada
instante um leão para criar filhos sem esperança de futuro. A bola rola no campo,
são gols da Alemanha , o Brasil perde? Quem perde?
Quem no bolso perde milhões?
Só deveríamos chorar a má sorte, a falta de paz e de segurança, a
violência que mata a torto e à direito inocentes num país sem dono, onde a
multidão se volta para a copa do mundo, para esperar um título que não trás
nada pra gente que é gente, e nem acrescenta em educação, em empregos, em
oportunidades reais.
Choremos pelas famílias brasileiras que sofrem o frio da noite sem moradia, que perdem suas casas nas enxurradas e alagamentos, que vivem a
tragédia de perder os entes queridos, pelas crianças analfabetas, que nunca
possuirão um livro da moda, ou a roupa e o calçado das muitas propagandas da
televisão, são crianças que correm de pés no chão sonhando serem craques do
futebol, e morrem á míngua de fome e de doenças que seriam tratáveis
se tivessem o direito ás vacinas e a consultas periódicas.Morrem por causa da
bala perdida, das drogas que entram fácil neste país, pela prostituição que as
obriga venderem corpo e alma para alimentar o desejo de doentes que vem e vão
sem serem pegos pela polícia, entram no nosso estádio como se fosse sua casa e
tocam a bola da vez, matam nossos sonhos, roubam nossa infância, destroem os
sonhos de inocentes que não serão nem craques e nem hexacampeãs
Choremos o futuro, não a perca do hexa; sonho de um país que vive
encarando os fatos enganados ás vistas curtas, onde milhões são
gastos na troca de estádios de futebol, de obras superfaturadas para agradar a
FIFA e aos visitantes gringos que chegam aqui e esquecem do povo que vive a
mercê do salário mínimo e da bolsa alimentação. Choremos a ilusão do povo que
não sabe discernir entre política e carnaval, futebol e acarinhar favores,
troca e venda de votos e promessas feitas na cara de pau por coisas que nunca
serão cumpridas.
Choremos a falta de amor, as famílias destruídas, a falta de emprego, os
muitos males sobre nossas cabeças, a falta de fé esquecida, a igreja dormindo
sem velar pelos enfermos e os que vivem na solidão. Soframos pelas mazelas que
assolam a nossa nação.
É claro que como brasileiros queríamos ver a seleção campeã, a conquista do título, a taça na mão, mas se não foi desta vez, se não houve boa preparação é aprender com os erros e tocar a vida pra frente.
É claro que como brasileiros queríamos ver a seleção campeã, a conquista do título, a taça na mão, mas se não foi desta vez, se não houve boa preparação é aprender com os erros e tocar a vida pra frente.
A bola uma hora outra vez rola, o campo não será fechado, o mundial o
tempo trará, e serão também novos jogadores, Thiagos Silva, Davis, Neymars. Tudo passa, a vida continua e a gente pode começar um novo tempo, sem tantos gols contra, sem pé de vento e fraturas na coluna, e traumas que o tempo pode curar.
Agora me dis e o futuro de nossas crianças? O amanhã o que será?
Agora me dis e o futuro de nossas crianças? O amanhã o que será?
Paula Belmino