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09 maio, 2024

ou algum dia

- escreves para quem?
- para aquele que não me lê.
- porque?
- para que ele nunca
me decifre.


Claudia Félix

21 junho, 2023

Veneza, da janela de Sartre

"A água está demasiado calma; não a ouvimos. Tomados por uma certa suspeita, eu me debruço: o céu caiu ali dentro. Ela mal ousa se mover e suas milhares de dobras embalam confusamente a enfadonha Relíquia que fulgura por intermitências. Ao longe, a leste, o canal se interrompe, é o começo da grande poça leitosa que se estende até a Chioggia: mas daquele lado, é a água que está de saída: meu olhar desliza para uma vidraça, resvala e vai se perder, tendo em vista o Lido, em uma morna incandescência. Faz frio; um dia nulo anuncia seu palor; mais uma vez Veneza se toma por Amsterdã; aquelas pálidas formas acinzentadas ao longe são palácios. É assim, aqui: o ar, a água, o fogo e a pedra não param de se inverter, de trocar suas naturezas ou seus lugares naturais, de brincar de quatro cantos ou de pega-pega; jogos antigos e sem inocência; assistimos ao treino de um ilusionista. (...)" 


Jean-Paul Sartre em "O sequestrado de Veneza" 



assim vai, livro afora . . . nem de copiar tenho vontade de parar... Trata-se de um ensaio sobre o pintor veneziano Tintoretto, não descrevendo sua obra, mas partindo da trajetória do pintor, Sartre retrata a tragédia da arte moderna.  
Não escrevo mais sobre esta primorosa crônica, para que assim  possas ler e saborear as linhas belíssimas no próprio livro, recomendo. 

E hoje Sartre faria aniversário ... Quis escrever-lhes algo novo sobre ele, dames, mesdames et messieurs: tarefa difícil esta. Lendo este trecho, vejo da minha janela apenas prédios de péssima arquitetura, mas há esta chuvinha charmosa e o início do inverno com suas promessas de cafés e chás e bate-papos. Daqui de minha escrivaninha sonho um dia olharmos por alguma janela em Veneza, com os olhos de Sartre.
Estes olhos que mudaram o mundo...

por Claudia Félix
(Escrito inicialmente em 21 de Junho de 2011, reescrito em Junho de 2023)
Imagem: Foto de um tapete que meu pai trouxe de Veneza, em 1959.

19 novembro, 2020

Qual o som do seu silêncio?

Parte 1

A proposta era mandar uma resposta para a pergunta: "Qual o som do seu silêncio". Apenas 40 pessoas seriam selecionadas e ganhariam "O livro das cores não ditas #2". Eis minha resposta:

"Chilreios suaves de pássaros, latidos ao longe quando em vez, marulho das ondas no fim da rua e o farfalhar de vento nas arvores. (Quando estou sozinha em casa, e a paz baixa por sobre todas as coisas, a vida ao redor pulsa, fazendo este silêncio em mim..."

E um dia me recebi um e-mail dizendo que havia sido sorteada! O livro demorou um tempinho, mas quando chegou, quanta lindeza... Eu deveria mandar em troca algo que tivesse valor afetivo.

Desde ali fiquei pensando no que mandar. A casa cheia de verão e mil coisas por fazer. Só em finais de abril consegui começar. Costurei uma toalhinha de mesa simples (as que mais gosto), uma cestinha de pão, um descansa-bule bordado e junto uma toalhinha de crochê feito por minha avó - era esta a peça afetiva que mandava. E como é difícil doar algo que se ama e de quem se ama. Só em maio enviei. E depois esperei ansiosamente quando chegaria lá, o que elas diriam. Em junho postaram no Facebook.


Parte 2

Tempo para tomar um café-da-manhã. Tempo para tomar chá com a mãe e a irmã caçula. Tempo para fazer um bolo para a amiga que virá. Tempo para sentir um poema. Tempo para costurar um presente. Tempo para o por-do-sol. Tempo para correr com as netas. Tempo para namorar. Tempo para conversar com a filha. Tempo para ver as flores crescendo. Tempo para escrever para as irmãs que moram longe. Tempo para fazer comida com o sobrinho. Tempo para jantar com o enteado. Tempo para perceber as cores. Tempo para trabalhar. Tempo para ouvir o silêncio.

Todos estes tempos o Coletivo Xícara me fez pensar. No tempo que já se foi, no tempo que estamos, no que virá. Em como cada vez mais as pessoas tem pouco tempo para o contato real com o mundo. Como a relação de compra substituiu a generosidade da troca. Como o afeto é importante entre nós.

...

Parte 3

E neste dia que escrevi estes parágrafos acima, com a idéia de terminar mais tarde, recebi a notícia de que uma amiga muito jovem e muito querida morreu.

O silêncio tocou fundo, o silêncio das lágrimas que caem para dentro. Minhas palavras perderam o sentido. Ainda preciso construir este tempo: o de estar mais com todas as pessoas que amo, pois o tempo que perdemos não se recupera, mas o tempo que compartilhamos se multiplica para a eternidade!


((Só tenho a agradecer por todo o tempo que compartilhei nesta vida contigo, Danielle, uma das pessoas mais alegres e divertidas que já conheci.))

(((Escrito em 2014))) 


24 setembro, 2015

do tempo

un-gif-dans-ta-gueule:

variation of an old gif…



Os anos passaram rápido 
por nossos olhos, peitos, cabelos, 
por todos os dias e horas 
que nem sabemos mais 
quanto riso e quanta lágrima, 
quanto amor e angústia, 
quanto sonho.


Claudia Félix


19 maio, 2015

Fonfom



E assim a vida segue: as flores desabrocham, as borboletas alçam vôos pela tarde ensolarada, os aviões somem no azul, a saudade vai virando epiderme, pois a vida segue, aqui e lá longe, para lá onde aviões e borboletas migram, para lá onde moram os sonhos, para lá onde meu sobrinho Fonfom fez mais um ano, para lá, para além mar, é para lá que hoje seguem todas as coisas lindas: a vida! 



Claudia Félix
..........

Um looooongo abraço em ti, cheio de amor e saudade, meu sobrinho amado.


10 outubro, 2014

HER

ATENÇÃO - Contém Spoiler! 

Muitos falaram deste filme quando lançado. Li o mínimo que pude, sabia apenas que ele, Joaquim Phoenix, se apaixonava por um programa de computador. Até demorei a assistir porque, creio, eu tinha certo preconceito com este tema. Mas acabo de terminar de assistir e precisei vir correndo escrever.

HER, com direção e roteiro de Spike Jonze, traz no elenco Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, e Scarlett Johansson (a voz do Sistema Operacional). Não sabemos ao certo em que ano se passa a história, sem dúvida num futuro não muito distante, na cidade de Los Angeles. Theodore trabalha escrevendo lindas cartas para "terceiros". Apesar de trabalhar, encontrar amigos, jogar vídeo-games, fazer tele-sexo, caminhar pela cidade, Theo está distante de todos, isolado, solitário. Certo dia resolve comprar um novo Sistema Operacional ao ver uma propaganda que dizia "Quem é você? o que você pode ser? Para onde você vai? O que há la fora? Que possibilidades existem? O OS1 é um sistema operacional de inteligência artificial, uma entidade intuitiva que o escuta, o compreende e o conhece. Não é apenas um SO, é uma consciência."

Theo começa a usar seu novo "sistema", um programa de computador muito atento que, além de escutá-lo, percebe sua tristeza, suas indecisões, ajuda-o a organizar sua vida, as coisas que deixou pendentes. A medida que vai usando, Theo começa a estabelecer um relacionamento com o "Sistema", que se batizou "Samantha". Ela, Samantha, vai aos poucos aprendendo sentimentos, criando novos pensamentos, compartilhando suas descobertas e alegrias com Theo.

Aos poucos Samantha vai se tornando parte da vida dele, aquela com quem consegue conversar sem medo nem melindres, aquela com quem divide seu cotidiano, compartilha problemas. Theo começa a sair de seu isolamento e a se relacionar com os colegas e amigos de outra forma. Theo e Samantha vão se apaixonando e se deparando com os problemas de ser uma relação entre um homem e um sistema operacional. Assim como uma pessoa modifica-se ao longo do tempo, das experiências, Samantha também foi mudando e suas possibilidades se ampliando. Ao invés de retirá-lo da realidade, Samantha foi fazendo Theo perceber novamente o som, o sol, as pessoas a sua volta. O fez perceber sua vida, resgatar seus sonhos.

A medida que a relação vai se complexificando, eles também vão se deparando com problemas comuns a qualquer relação amorosa: ciúmes, inseguranças, épocas sem tesão, mentiras, brigas, afastamentos. Ele a quer só para ele, ela lhe diz "Sou sua e não sou". Eis a antiga questão do amor sado-masoquista, profundamente trabalhada por Jean-Paul Sartre em "O Ser e o Nada": o impasse de desejar aprisionar a liberdade do outro. Mas Samantha "é" consciência, e consciência é liberdade. E não é possível aprisionar uma "consciência", nem uma artificial ou virtual, pois o outro sempre nos escapa, não nos pertence, não é coisa!

ELA, o Sistema Operacional, interage com ELE, Theo, estabelecendo desde o início um diálogo no qual ELA o vai conhecendo, criando uma cumplicidade e, ao mesmo tempo, ELA vai pontuando questões que identifica como problemas nele e colocando questões para ele refletir, mostrando caminhos para mudar. ELA organiza a agenda, a escrivaninha, revê tudo que ELE sonha e dá seguimento ao que ELA vê que é importante para ELE. ELA o leva  a retomar as relações com os amigos, ex-namorada, novas possibilidades amorosas. ELA cria uma relação afetiva com ELE e vai ampliando a reflexão dela sobre o próprio relacionamento deles e sobre os próprios sentimentos deles. ELA se move como liberdade e não se deixa apreender por ELE e, ao partir, faz com que ELE seja sujeito de sua vida, que encare o mundo como uma grande possibilidade, que saia da solidão e busque a amiga, que também está sofrendo. ELA faz com que ELE compreenda como cada relação é preciosa e transforma e enriquece cada pessoa, mesmo quando elas se separam.

A fotografia é um caso de amor a parte: poética, primorosa. Joaquin Phoenix é outro caso de amor a parte, consegue levitar nas cenas, interpretando o sensível Theo com uma densidade e uma entrega rara de se ver. O figurino e a maquiagem "retrô-futurista" dão consistência à atmosfera nostálgica. A direção é de uma delicadeza impressionante; o roteiro, ganhador do Oscar, instigante e belo.

O filme foge dos clichês ao mostrar o futuro e a tecnologia sem apocalipse, sem super-heróis, sem bandidos nem mocinhos, sem mocinhas (literalmente). Ao contrário, o mundo é esperançoso, a tecnologia está a serviço da superação dos problemas humanos. O futuro está em aberto e depende da ação de cada um e da relação com os outros. Porém, a meu ver, mais do que tratar da relação homem/computador, homem/tecnologia,  o filme é uma reflexão belíssima sobre o fenômeno do processo amoroso: desde o início até a separação. Trata da paixão, do amor, da conexão entre os seres, da tristeza de uma relação que chega ao fim, mesmo amando o outro e sendo amado. Do caminho de volta. Esta é a grande questão do filme, e uma das grandes questões da vida!


Claudia Félix

...

A carta de final de amor mais linda, digna, delicada que já vi...

Querida Catherine.
estou aqui pensando em tudo pelo qual eu gostaria de me desculpar
Por toda a dor que causamos um ao outro
Toda culpa que eu lhe atribuí
Por tudo o que eu precisava que você fosse ou você dissesse
Sinto muito por isso
Sempre vou te amar porque nós amadurecemos juntos
e você me ajudou a ser quem eu sou
eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim
e que sou grato por isso
quem quer que você venha a se tornar e onde você estiver no mundo
estarei lhe mandando o meu amor

Você é minha amiga para sempre.

Amor, 

Theodore

....

Escrevi as primeiras impressões logo depois de ver o filme, há mais de mês. Hoje revisei e acrescentei novas linhas para podermos conversar sobre :)

Beijos

19 agosto, 2014

Irmãs...


Hoje é dia do aniversário de minhas irmãs gêmeas.

Passei o dia todo com minha dupla de netinhas e, por conta de minhas irmãs morarem fora e nossos fusos diferentes, não consegui falar com elas, nem por Skype.

Fiquei observando as duas irmãzinhas, irmãs no sentido mais puro e primordial do termo: em todas as idas e vindas, uma ficava tentando chegar primeiro que a outra nos lugares. A maior muitas vezes enrolando a menor, a menor chorando e ganhando a disputa com a intervenção da mãe. As duas querendo um mesmo livro, um mesmo carrinho, uma mesma boneca, um mesmo tudo. A maior brincando num brinquedo, a menor esperando a vez. A menor comendo tudo, a maior enrolando. Uma correndo para um lado a outra disparando para outro e nós dividindo pra qual lado correr. As duas falando ao mesmo tempo e querendo o meu olhar. A menor falando numa língua incrível, mistura de português com olhares arregalados, cabeça no ombro e boca de beijinho, complexo demais para mim, e a maior traduzindo com muita calma, explicando que ela falava do passarinho que bateu no vidro e fez dodói. As duas rindo juntas, as duas chorando juntas, ... A maior abraçando a pequenina com olhar de tanto amor. A menor olhando a maior com adoração eterna...

Lembrei muito de vocês, muito de nós, irmãs, de como esse nosso amor foi sendo construído desde tão pequeninas, entre muitos tapas e beijos, disputas e solidariedade. Lembrei de como é fundamental a vida de vocês em minha vida. Lembrei da saudade que faz parte de meu rosto no espelho da manhã. Lembrei de como é bom saber que, aconteça o que acontecer, temos umas às outras.

Como queria estar hoje aí comendo um bolo de morango com chantilly, jogando conversa fora e, simplesmente, sentindo na pele o calor suave de ter vocês perto de meu coração.


Claudia Félix

Foto: Netinhas no meu coração. Florianópolis. 19 agosto 2014

19 junho, 2014

Meu caro amigo Chico,


O que seria te ouvir no vivo do dia? O que seria ver a clareza de teu olhar? O que seriam teus gestos espontâneos pegando o violão, olhando para um lado outro? Quando fui ao Rio, certa feita, orava ao Redentor para te ver passando e não te ver, pois não sei o que de mim seria depois desse dia.

Tua voz é uma das minhas lembranças mais remotas e está entrelaçada a meu ser, tal forma não conceberia um mundo sem a rouquidão das tuas músicas. 

Pulava pequenina esperando ‘A banda’ passar, cantando coisas de amor. Mais tarde, numa aula ginasial compreendi o ‘Cálice’, que se tornou o hino que eu entoava em meu peito adolescente nas brigas familiares, em plena ditadura. ‘Geni’ era o nome de minha avó, e ficava na fula da vida toda vez que ouvia teus impropérios! Muito mais tarde compreendi o que dizias.  Quando engravidei, aos 17, ouvia ‘O caderno’ aos prantos e, ao término do malfadado namoro, num dezembro triste, ‘Anos dourados’ foi o som das noites insones. E depois ‘Folhetim’.

Ninei minha filha, e agora minhas netas, cantarolando ‘João e Maria’. ‘Roda-viva’ eu cantava nos bares, na época da faculdade, abraçada aos amigos, vislumbrando um mundo melhor . 'Apesar de você’ foi o tema da festa de fim de ano, depois da derrocada de Lula para Collor. Tantas desilusões amorosas depois passaram, ‘Todo sentimento’ era o fundo de cada término de um amor. E quando minha grande amiga morreu os ‘Pedaços de mim’ que faltaram tiveram som. E depois, o de todos os que se foram.

E quando o ‘Cotidiano’ me prendia com seu tédio, lembrava que todo dia-a-dia tem alguma poesia.  E quando a paixão me tirava do chão e eu não sabia ‘O que será que será’, e seria. 

E é um mundaréu de sons e palavras belas, poemas, todas ressoando em algum lugar de meu ser e de toda gente. Seja burguês, pobre, proletário, dama, prostituta, mocinha decente, bandido, machista, feminista, homossexual, transsexual, heterossexual, indeciso, triste, alegre, louco, criança, jovem, velho, doutor, analfabeto, sulino, nordestino, capitalista, socialista, petista, anônimo, artista, seja quem for, onde for, tua arte é para todos sem distinção de qualquer espécie (exceto nazistas).

Estás dentro do arco que compreende minha existência, som que embala o sono bom, som dos carnavais, som que cria esperança nos dias tristes, um pedaço azul do céu, uma estrela nas noites de festa, uma chama nas noites de ardor, um alento nas noites de solidão. O mundo é mais bonito com teu olhar, Chico, luzeiro tão lindo de ouvir, palavras que tocam na gente como pele. Como gente. 

Muita vida, Chico, e felicidade, sim!


Claudia Félix


Ainda sonho um sonho possível: te ouvir ao vivo, e aqui!  E fica aqui registrado meu apoio à campanha: Vem pra Floripa, Chico, vem!

04 junho, 2014

melancolia


É tarde, sei, tenho que dormir. Mas faz tempo que não escrevo e hoje preciso. É que meus pés ficaram gelados o dia todo apesar das muitas meias. Sinto falta de algo quente. Hoje revi antigas amigas: um sabor de saudade, de tempo que passa. Tenho me deparado com esta questão do tempo: o rosto no espelho, a vontade de arrumar umas coisas, jogar fora outras, de apagar frases mal ditas, de mudar o cabelo, de aproveitar os minutos e, se possível, diminuir a rotação da Terra.

Faz tanto frio em meu quarto, os pés gelaram até pensamentos. Meu rim dói. Tive medo. Quero um colo, um afago, teus pés esquentando os meus. Hoje especialmente.

Ou amanhã.




Claudia Félix

(Num dia frio de 2012)



18 maio, 2014

ausência





e a tardinha cai
suave
e no alto uma pandorga
avisa do vento
ao pescador atento
a vida segue
e fica apenas
esta saudade
esta ausência
no mundo
que a brisa
leva




Claudia Félix





hoje fui na praia deixar o vento me abraçar neste dia de memória e lamento: dia do aniversário de meu pai, que se foi, e fica sempre este algo estranho no peito, nestes dias que já foram de comemorar... 

27 janeiro, 2012

Luto y nieve



Palabras hay que llegan con su luto
también otras que llegan con su nieve
el lenguaje que va cortando el aire
es una arma del tiempo o de la suerte

hay un río verbal con dos orillas
que transcurre deshilachadamente
y aunque nadie lo asume es un dialecto
que dice cosas cuando todos duermen

hay un vocabulario misterioso
que crea voces y pese a quien pese
nos penetra con o sin fundamento
y en el pozo del alma se sumerge

hay palabras que llegan con su luto
en cambio ya no vemos las de nieve
la tristeza a hurtadillas nos vigila
y su silencio cándido estremece

el bosque nos desvela con su sombra
y es poco lo que el mundo nos promete
se van los pajaritos y las nubes
y nos quedamos solos como siempre


Mario Benedetti


Foto: Réquiem. Campeche. Florianópolis.
. . .


Os passarinhos me olharam calmamente no fio de luz em frente ao quarto na praia. O sol nasceu tímido, brincando de esconde nas nuvens. O dia transcorre melancólico, lento e silencioso. A casa está vazia, há apenas eu que caminho pelos cômodos e pelas horas. Tudo aqui hoje é saudade. 

19 outubro, 2011

XIII - Amavisse



De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo.

Entardecido de sons que não compreendo.
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas.

Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entardecer. E do ouro que sae
Da garganta dos loucos, o que há de ser?


Hilda Hilst


Foto: Ponte Velha. Florianópolis. SC.


Há uma ponte desativada há décadas na minha cidade, a "Ponte Velha". Este final de semana paramos ali por um acaso: fazer o quê num domingo cinza no centro da cidade enquanto esperávamos Inácio? ver a ponte, de perto. Lembro menina passar por ela de carro ou ônibus, o trajeto sinuoso e de repente o mar. Certa vez, na sexta série, gastei o dinheiro do ônibus no lanche e tive que voltar a pé um trecho (estudava na Trindade e morava no continente, pegava dois ônibus então). Passei pela longa e ventosa passagem de pedestres em madeira, foi este meu contato mais íntimo com a ponte. A questão é que há a ponte, está sempre ali, desde a lembrança mais remota do mais antigo vivente. Ela é o nosso Redentor. Ela é uma constância em minha vida, uma das poucas. Não tenho esperanças dela ser reativada. Pode ser uma inutilidade gigantesca e dispendiosa, para uns. Ela é uma interrogação no coração deste povo pacato. Mas  não tenho dúvidas do que hoje ela é: uma ponte para os sonhos, a lembrança ...  


21 maio, 2011

há tanto

Fiquei com saudade de mim, há tanto tempo não me encontro. 

É que hoje de tarde entrei numa livraria e procurei por um livro que há muito desejava. Quando o encontrei e o segurei nas mãos, pareceu-me repentinamente egoísta, quase indecente, comprá-lo. 

Por pouco não levei um outro livro para meu namorado, como a justificar meu ato. 

Mas o toque frio da capa, as páginas não lidas, o cheiro de novidade me colocaram diante de um futuro possível: deitada em minha cama na noite fria que logo seria e, quietamente, descobrir com quais palavras o autor comporia sua obra. 

Não tinha expectativas maiores. 

Apertei-o de encontro ao peito como um antigo amor desconhecido. 

Agora repousa ali na bolsa e, estranhamente, prorrogo o momento de deitar-me com ele e abrir-lhe 

as páginas.


Claudia Félix
Foto: Num dia azul de verão. Florianópolis. By L.R.Marques

19 março, 2011

mira

Distante. Campeche. Florianópolis.









para alumbrar tus ojos lejanos
en esta noche que sopla fuerte el viento
sobre mis sueños

Claudia Félix

15 março, 2011

réquien

o dia não amanheceu do outro lado do mundo: uma mãe não beijou o filho antes da aula; um casal de namorados não se disse tudo; uma senhora olha para os escombros: sua vida, sua vila, seu país.

o dia não amanheceu, nem entardeceu, nem anoiteceu lá. aqui, paralisada diante da tv, vejo de longe o impensável e não me coloco na pele daquela mãe, daquele namorado, da senhora: não posso.

e no fundo dos dias, dos sóis de fim-de-tarde, no anoitecer silencioso do sul em ventania, algo não identificado dói no que há de humano em nós: e nem sabíamos.




Claudia Félix
Foto: Ferida. São Martinho. SC.

14 outubro, 2010

a ilha bonita



Terça fez festa nos céus da nossa ilha: dezenas de coloridos parapentes e asas deltas voaram junto às nuvens, aos pássaros e aos aviões longínquos. O dia azul, o vento forte, o feriado na cidade. Voavam para lembrar que é preciso voar mas, sobretudo, é preciso pousar. O campo dos seus pousos pode desaparecer, junto com a mata, o céu, os morros, os sorrisos das tardes ensolaradas.

Na nossa ilha velozmente o verde das matas e montes vira moeda e concreto. Construções sem bondade, sem arte, sem ciência, sem cuidado se avolumam e empurram o sol, o mar, o amor cada dia mais longe. Carros se amontoam em todos os cantos. Shoppings lotados. Praias poluídas. Políticos mercenários. Povo de olhos vendados. Futuro pra essa gente é hoje a noite e amanhã.

Mas digo: sim, meu bem, nossa ilha é linda! Ainda.

Das coisas incríveis: E hoje, das entranhas da terra, mineiros chilenos nasceram novamente. E todo um país. E todo o mundo. E eu também, aqui em frente à TV na sala de meu apartamento, na nossa ilha distante.

Foto:: Céu de outubro. Florianópolis. SC.


16 setembro, 2010

Felicidade sim



Desejo-te tanta felicidade, mas não a felicidade fast food comprada em shopping centers ou vendidas em filmes enlatados. Desejo-te a felicidade de ser forte, de não perder a esperança, a felicidade de construir um caminho lindo com tuas próprias mãos (que nunca são apenas duas). Desejo-te a felicidade de superar a dor, se doer. Desejo-te a felicidade mais bela de todas: a que compartilha, a que não mutila, a que não cega nem é instantânea - a felicidade que apenas acontece quando somos quem desejamos ser.


Foto: Giramundo ou Flor-de-filha. 
.

08 setembro, 2010

passinhos








Passo breve, com passos leves para não acordar os que já dormem. Apenas passo para não deixar passar em brancas nuvens que, prefaciando a primavera, uma florzinha nasceu e o mundo - incrivelmente - ficou mais doce.

 

(Vovó) Claudia Félix
Foto: Docinha. Florianópolis.

* Registro dos acontecimentos extraordinários: bochechas fofas com suspiros doces e mini-boquinha em forma de menina!

patiodotempo.blogspot.com

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"e o mundo é meu, o mundo é seu, de todo mundo..." Zeca Baleiro