Viajantes Interplanetários

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terça-feira, 27 de novembro de 2012

É NODA! — #12 (FINAL)


NO TEMPO ADEQUADO
“Por mais que a mão se ponha à obra,
A Arte é longa e o Tempo é breve.”
(Charles Baudelaire)


Como poeta, procuro desconstruir determinadas imagens que alguns canalhas embrincaram ao ofício. Uma das que mais martelo em cima é da passividade do autor. Se você espera a poesia acontecer, tire aí do seu crachá o poeta logo abaixo do seu nome. Tem que sujar as mãos para escavar o poema, camarada. É claro, se você tiver uma pazinha, quiçá uma britadeira... Tudo bem, tranquilo, concordo. O importante é trabalhar.
Se me derem licença, vou entrar numa egolombra. A leitura, portanto, é por sua conta e risco. Vi certa vez, em rede nacional de televisão, que um artista não deveria se preocupar com nada além da sua arte, a burocracia deveria ser passada a quem entende. “A burocracia tem mais é que ser destruída”, fiquei pensando. Papo-água vai, papo-água vem, e a frase não saiu da cabeça. Porra, como assim é melhor entregar o que eu faço aos cuidados de alguém? “Eu quero correr mundo, correr perigo”.
Não que eu esteja negando o papo da pá e da britadeira, mas gosto de sujar as mãos. Eu gozo travado, mas não relaxo. Não enquanto não eliminar intermediários parasitas. O amanhã é logo ali, mas o hoje é agora. Abandonemos a passividade, pois dela nasce a dependência.
É bom saber que a condição do poeta não se resume apenas a escrever. Vai fazer o que depois? Colocar tudo na gaveta? Encadernar bem bonitinho? Criar um blog na internet? Vender em panfleto? Colocar na mão de uma editora? Declamá-los em alto e bom tom? Pichar num muro bem grande? Seduzir alguém? É muita coisa... Às vezes a gente se perde rapidinho e vai deixando pra depois. Mãos à obra no caminho que escolher!
O fazer, porém, não significa, nem de longe, pressa. Trabalhe ao seu tempo.
Escreva seu próprio poema, deixe um pouco de lado a sombra dos grandes. Seja seu próprio revisor, você também entende de gramática e tem um Aurélião aí bem perto de você. Diagrame, ilustre, divulgue, venda. Vamos lá, o Google taí! Com o tempo você melhora, com o tempo seu esforço será notado, com o tempo sua rede vai aumentar: virão revisores, ilustradores, diagramadores, publicitários, editores. Acredite. Basta que o primeiro passo seja seu. Em tudo.


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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
     

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

É NODA! — #11


CARETICE DO CARALHO
“Executarei,/ sem pena//
Este tipo de gente/ de alma pequena”
(Marcelino Freire)


A) EROTISMO?

Olha, sinceramente, meu pau não responderia assim de imediato se alguém pedir que eu umedeça com movimentos linguais a flor salobra entre as suas pernas trêmulas prestes ao êxtase. Ah, é pra chupar buceta, é? Tudo bem, tranquilo, concordo. Se achegue, danada!
Cuzinho, xoxotinha, rola, pentelho, boquete, trepada, chupada. Não tem nada de chulo quando os termos são usados no poema nosso de cada dia. Quem foi @ sem vida sexual que inventou que isso não era bonito? Momento merchan: diz Célio Lima no seu futuro lançamento no Castanha Mecânica: “PO!S MEU PEN!S TE ACHA PERFE!TA/ TANTO DE BOCA,/ TANTO DE BUNDA,/ COMO DE BUCETA”.
Tudo que é autêntico me seduz. Nunca falei em vulva pra nenhuma companheira temporária, por quê essa palavra entraria no meu verso? Vamos viver o hoje com as palavras de hoje, e esquecer do ontem (um pouco, ao menos). É possível sair do ridículo e da piadinha com a tabaquinha ou a cacetão de alguém. Basta trabalhar naturalmente, com o cotidiano de nosso vocabulário. O leitor reconhece o que não é forçação de barra. Você perdeu, poeta preguiçoso. E careta.


B) VIGILÂNCIA CULTURAL

Que as minorias se levantem. Sou negão e estou aí dando cacetada em quem é racista. Sou homem heterossexual e tô aí dando cacetada em quem é machista e homofóbico (alguns estão até dentro de mim, admito). Mas agora é o seguinte, se for pra ficar com eufemismo, que se foda pra lá.
Ou se mata a chaga pela raiz ou a gente fica aqui fingindo que o preconceito não existe em meio a um vocabulário bonitinho e politicamente correto.
Fico aqui vibrando com as cacetadas que Monteiro Lobato anda levando. Já está na hora de tirar os deuses do altar. Explico. O que observo não é a questão se o careta lá é racista ou não (é claro que ele é). O fato de haver uma corrente popular exigindo revisão é muito digna. Tudo bem, tranquilo, concordo. E que se contamine mesmo. Ah, daqui a pouco os criadores de circo de pulgas vão querer o seu lugar! E daí, camarada? A igualdade te assusta?
É uma caretice do caralho ficar patrulhando obras literárias em busca de algo pro mais novo mimimi da vez. É outra caretice do caralho defender um ídolo da literatura. Pau em todo mundo, seus caretas!


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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
    

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

É NODA! — #10


A PARTE MAIS FRACA DA TRÍADE
“não é o que o autor nomeia,
é o que o leitor incendeia”
(Affonso Romano de Sant’Anna)


Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão. Aposto alto. Aposto a bunda que a maioria conhece o versinho acima; talvez até mais com esparrama, e nem me interessa saber qual é a “certa”. Baixo a aposta e tiro o cu da roda: quem sabe de quem é a autoria? Aí sim é que estou pouco me lixando mesmo, mas se alguém souber se manifeste, por favor... Em tempos da divindade Google, nada é tão difícil.
Sempre acho os poetas engraçados. É muito curioso o modo como alguns esperam pelo reconhecimento de seus versos, uns até falam em suas obras póstumas antes mesmo de chegar aos trinta anos. Creio que levam a sério demais o lance que poeta bom é poeta morto. Será que a Morte vai reescrever o ridículo que deixaram em vida? Às vezes penso.
Além dos grandes autores póstumos vivos, há um tipo curioso também, igualmente engraçados: os iluminados. Estes aí pensam que os leitores (não os seus, pois normalmente são apenas os seus amigos) ainda estão no século XVIII à espera que o caminho do conhecimento seja aberto para eles... Ah, meu luminoso colega de versos, quando você descobrir que tu és a parte mais fraca da poesia, o que vai ser de você? Às vezes penso.
Alguém tem todo o direito de me colocar na parede: e se ninguém escrever como é que fica?! Tudo bem, tranquilo, concordo. Embora hoje indispensável, a humanidade já soube se comunicar sem a escrita, além do que, a poesia está na vida, não no papel. É sempre bom lembrar.
Os leitores sempre existirão e ao longo dos anos vão determinando a importância da obra; a obra, sendo boa, espalha a rama ou esparrama; o autor, sendo bom, desaparece. O anonimato deveria ser céu de todo artista verdadeiro, mas o individualismo nosso de cada dia nos faz distorcer a imagem do que realmente importa.
O seu leitor, a sua obra ou você?


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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
        

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

É NODA! — #09

GAVETA: GRANDE NEGÓCIO?
“abrindo um antigo caderno / foi que eu
descobri / antigamente eu era eterno”
(Paulo Leminski)


Quem participa ou pelo menos sonda os editais de concursos literários já deve ter percebido que grande parte deles exige o envio de obras inéditas. Acho realmente massa que aja uma preocupação em se buscar o novo, ou melhor, a originalidade. Afinal, o Eclesiastes já dizia que debaixo do sol, não há nada novo.
Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas algo me incomoda na formulação de certos editais: alguns não são claros ao que diz respeito à obra inédita. Um poema postado no blog perdeu seu ineditismo? Publicação só é aquela com ISBN? E os panfletos e mosquitos? O videopoema que não há registro do escrito, como fica?
Essas minhas indagações bobas me fazem me debruçar sobre a problemática dos meios de publicação e divulgação da obra. Se as comissões que elaboram os editais não forem transparentes, desgastes desnecessários acontecerão. É preciso ter consciência também, que hoje o autor possui as suas próprias ferramentas e não mais depende de editoras vampiras para a circulação de sua obra. Ou melhor ainda, estão pouco se fudendo para pedir autorização para alguém lhes publicar.
Cabe o relato de um caso interessante: em 2011, meu conterrâneo Daniel Lima, aos 95 anos, foi o grande vencedor do Prêmio Alphonsus de Guimarães (poesia) da Biblioteca Nacional. Sua obra até então esteve completamente inédita: 27 livros, sendo 13 de poesia e 14 de filosofia. Foi pela vontade do próprio autor manter os livros na gaveta, não havia nenhum interesse em sair do seu círculo de leitores amigos para os concursos e premiações literárias. O envio dos originais foi feito por uma amiga do escritor.
Acredito que o caso de Daniel não seja único, mas está longe de ser unânime. Tem muita gente por aí querendo ser lida. É claro, quem quer se aventurar com os editais deve seguir as regras do jogo. Chororô sem cabimento é feio e pega mal. E uma coisa eu digo: há vida fora dos editais.
  

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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
            

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

É NODA! — #08


PELO DIREITO DE SER BOM
“O medo superou todas as possibilidades/ (...)/ Nos deu sapiência
para saber que a poesia/ Não põe mesa na terra dos fracos”
(Lucas Holanda)


Se um bom professor consciente da sua capacidade profissional, do trabalho que realiza em sala de aula e do seu valor social disser: “sou bom”, acho que nenhum filho da puta vai olhar torto ao honrado cidadão. Policiais, advogados, jardineiros, jornalistas, prostitutas, ou seja lá o que for, também tem esse direito(?) de demonstrar a sua utilidade pública.
Entretanto, entre nós existe uma categoria maldita que vive andando pelo mundo de cabeça baixa; que quando muito, classifica o seu trabalho como razoável. Platão estava certo, essa galera realmente não deveria ter vez...
Se uma pessoa em pleno gozo de juízo todos os dias vai à sua estante ou dá um rolê pelas bibliotecas para ler clássicos, bem como todo santo dia liga seu pecezinho e navega atrás de novidades, tomando notas e rabiscando um ou outro poema ali e aqui diariamente, batendo aquele papo com quem também tá na mesma missão for ruim... Realmente, temos um profissional em incompetência.
Agora se o poeta faz o seu dever de casa e diz: “sou bom”, a casa caiu. Garanto que vai ter gente sem levá-lo a sério, gente pra diminui-lo ou algum bom cristão para lhe enfiar uma colherada de humildade goela a baixo. E sabe qual é o resultado? Porco capitalista curtiu isso. Taí um mercado editorial perverso colocando o cabisbaixo poeta no seu lugar.
Bukowski fala que a autoconfiança e o não se por em dúvidas geram obras ruins. Tudo bem, tranquilo, concordo. E muita gente morreu sem saber a grandeza que deixou. Não adianta dizer que é o tampa de crush, a obra que deve se impor. E por vezes ela não está inserida dentro dos padrões estéticos ou ideológicos de seu tempo.
Mas se não houver uma voz, mesmo que interna, baixinha, longe, dizendo: “eu posso, vou tomar o que é meu”, já era. Menos um poeta no mundo. Ainda bem.


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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
   

sexta-feira, 13 de julho de 2012

É NODA! — #07

O que vem a seguir não é inédito, nem de exclusividade da coluna. Trata-se de um escrito da minha coletânea CONTRADIÇÕES COERENTES. As palavras aqui expostas foram organizadas entre 2010 e 2011, mas depois que a postei no Sábados de Caju, achei digno abduzi para o planeta vermelho. A eloquência do discurso difere — naturalmente — do meu tom na coluna, peço desculpas, portanto. Fiquem à vontade para me chamar de preguiçoso. Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas não será regra, será exceção. 

A EMERGÊNCIA DE UM ÉDIPO

Há algo maior para ser escrito. Não por mim; muito menos por mãos preguiçosas de poetas pós-modernos que se dizem herdeiros legítimos da criatividade. Não sei quando a poesia inventará os novos iconoclastas para derrubar os estigmas e as insígnias dos poetas medíocres que nos rodeiam, mas é urgente que alguém seja o parricida de meu tempo.
Ontem rezava ao túmulo dos meus pais: visitava a estante de minhas ambições cada vez mais empoeirada e renegada por meus ideais. Hoje rezo para que surja um novo Édipo para reinar sob a morte dos nossos genitores. Não estou desprezando as forças que me impulsionaram. Muito pelo contrário, estou homenageando-as ao desejar que alguém siga o mesmo caminho outrora trilhado por elas mesmas.
Estão tão cegos que ainda querem entrar em uma luta que não diz respeito a nenhum de nós. Pobres poetas, acaso não veem? O leviatã, cujas suas adagas penetram, há muito, não tem mais vida...
Ainda não vi o impulso de uma nova geração que pare de se preocupar em derrubar metralhas e construa o seu legado. Existe muito que se desconstruir, não nego. Apenas me preocupo com o futuro de uma era que não sabe erguer tijolos sólidos, mas apenas querer que os muros não fiquem mais de pé. Mesmo que tais muros já não protejam muita coisa.
O que quero apenas é que alguém silencie minhas angústias. Não preciso de um destruidor de ruínas, procuro alguém que venha do pó, pó me torne e pó se finde. E, que, tão somente, após me satisfazer, surja um vendaval para renovar o ciclo. Porque as brisas renovadoras não mais me empolgam: que o novo Édipo venha galopando em furacões.

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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
                

terça-feira, 26 de junho de 2012

É NODA! — #06

A SINA DE SHERAZADE
“escrevemos cada vez mais,
para um mundo cada vez menos”
(Alberto da Cunha Melo) 

Comprometimento talvez seja uma das virtudes humanas mais louváveis e mais difíceis de exercer que se tem conhecimento. A chance de se receber um elogio não é grande e basta um vacilo, pra branquinho te olhar meio atravessado e até soltar uma ironia nada elegante: olha o Senhor Certo pisando na bola, ali!
Quando se fala em poesia comprometimento é fundamental. Não tem boquinha, tem que suar muito, tem que ler muito e tem que levar tudo muito a sério. Não, não, não. Não estou defendendo uma poesia sisuda nem de gabinete, afinal o ofício pode (e deve!) ser levado com todo bom-humor que é típico das inutilidades. Mas penso que o que difere um poeta de quem escreve poesia, é justamente o compromisso de levar a sério a sua mensagem, até as últimas consequências. Sem hesitação.
Entre os poetas mais comprometidos que conheci através das interações nos blogs que participo, Assis Freitas é o nome mais digno que me vem à cabeça. A descrição do seu espaço é simples e direta: “neste blog serão escritos 1001 poemas”. Diariamente, desde 2009 o sítio foi abastecido pelo poeta,  a findar sua trajetória na quinta-feira (5/7/12). Também me honrar constar nos autos que desde que Assis Freitas conheceu o meu espaço semanal, jamais deixou de comentar um único post.
Não sei se existe uma fórmula para um poeta vingar, mas acredito que assim como Sherazade, devemos conquistar a nossa sobrevivência diariamente. Que cada poema escrito, oxalá, faça que a nossa existência se prolongue, mesmo que para isso tenhamos que ladrar noite e dia para um mundo cada vez menor. O caminho é tortuoso e pouco compensa, Caju. Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas a gente tem que continuar a continuar...
  

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quinta-feira, 7 de junho de 2012

É NODA! — #05

RECITAÇÕES E OUTRAS RECRIAÇÕES
“o que pesa é ter que criar/ (...)/ não o versinho lindo/
mas o jeitinho dele ser lido por você”
(Chacal)

Tô nem aí se o autor é tímido ou não queira apresentar a sua obra através da recitação. Tem gente muito competente que pode recitar por aí. Alguns performers nem estão diretamente ligados à escrita. Afinal esta não é pré-requisito para aquela.
Mas quero falar dos que recitam. Só para ficar entre exemplos da minha terrinha... Quem já viu sabe que é difícil ficar indiferente ao Miró da Muribeca e a sua linguagem corporal durante seus poemas. Zé de Lara e a sua pegada “trash”, amadurecida ao longo de décadas é outro caso. Não ponho em plano inferior uma poesia bem lida em voz alta, ou quase sussurrada apenas para um ouvido próximo.
Cada interpretação recria uma obra; cada um tem a sua estratégia. Tudo bem, tranquilo, concordo. Tanto que já não tenho nem mais dedos nas mãos para contar quantos poemas passei a amar depois de ter ouvido alguém recitá-lo.
Ainda não achei um formato de sarau atrativo para meus gostos arrogantes. Vejo sempre uma tendência à imitação de shows de músicas em recitais. Lamentável, pois é um espaço bem mais propício para a descentralização da voz e do microfone.
É uma escolha recitar ou não. E é natural existirem poetas em cima do muro. Encarar o público não é fácil para quem é tímido. Mas acho que há alternativas.  Encaro o “vídeo-poema” como uma ótima opção para quem deseja começar a quebrar o gelo. A questão é só encontrar o jeitinho certo para o engate, daí é só gozar.
Com a tecnologia de hoje, rapidinho se captura um áudio, e talvez até mais facilmente, uma imagem. A hospedagem na internet é sem custos e há uma caralhada de softwares livres e gratuitos para edição do vídeo. “E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”. Com um pouco de criatividade se vence a ausência de grandes recursos. E com a iniciativa de se fazer algo diferente, se derrete o gelo da timidez. Até porque a vida é ao vivo, camarada.
  
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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
    

segunda-feira, 14 de maio de 2012

É NODA! — Especial Semana de Aniversário do Poetas de Marte

FILHOS DE MARTE

Em 18 de maio de 2009, surge na internet o maior blog interplanetário das Américas, que se auto definiu como: “Coletivo de Poetas pernambucanos que veem na Poesia sua forma de expressão. A via de indignar-se, de manifestar-se, de poetizar tudo: da dor ao amor” (postagem n. 01 do Poetas de Marte). Originariamente de Bezerros, Pernambuco, era distribuído em forma de panfletos.
Hoje algumas coisas mudaram. O coletivo rompeu as fronteiras da cidade, e alcançou amplitude inimaginável para um simples panfleto. A história do Poetas de Marte está muito mais ligada ao imprevisível e à vontade de se fazer ali e agora, do que planos e metas. Sempre houve mais ideias que recursos. Tudo foi acontecendo. E só aconteceu o que deveria ter acontecido.
A poesia conviveu com outras expressões artísticas inviáveis para o panfleto: música, artes plásticas, cinema, teatro; além da possibilidade de interação em tempo real. Os panfletos não foram extintos pelo blog. Coexistem. Apenas circulam em menor grau devido à falta de tempo, custos e outros entraves que só quem panfleta sabe.
D.Everson, Filipe Melo, Marcone Santos, Célio Lima, Wagner Mopho, Ialy Cintra, Kleves Gomes, Ícaro Tenório, Lucas Holanda, Wesley Moreira, Cristiano Marcell, Jair Lopes, Aline Negossaki, Marcantonio Costa, Oswaldo Paes e Laut Long Fu são os colaboradores que dividem comigo o prazer de fazer parte desse coletivo, do qual sou filho legítimo.
Entrei no blog após um encontro de panfletos e de lançamentos de uma coincidência absurda: na época circulava com o meu Amplitude Compacta pelas bibliotecas da UFPE e acabara de terminar o Monopólio da Solidão, Daniel tomou contato com o panfleto e já estava com o seu Poemas de S(ó)l pronto. Alguns meses depois, já estava abduzindo e sendo abduzido por novidades no blog e na minha cabeça.
Erros e falhas existem. Não é nenhuma máquina que atualiza o espaço. Somos humanos. Não é necessário ser um profissional para se levar algo a sério, como disse, a superação da escassez de recursos sempre foi driblada através das ideias. Que mais 57 mil pessoas acessem o blog. Vida longa e vida louca ao Poetas de Marte!

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

É NODA! — #04

O ALMOÇO JÁ ESTÁ NA MESA
“Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./
Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta.”
(Cecília Meireles)

Outrora disse por aqui que não cabe ao poeta finalizar um poema, que este é sempre matéria lacunar e incompleto pela sua própria natureza. Uma síntese ou um fragmento de um incômodo que não pode mais ser de morada exclusiva de quem escreve. Tudo bem, tranquilo, concordo. Já foi dito.
Poema feito não tem destino. Mas me incomoda um pouco os rumos possíveis que alguns tentam levar o poema (estou tratando-o como acabado e já desgarrado do autor). Às vezes fico com a impressão que nem o próprio poeta se contenta em sua criação existir apenas como ela é.
Um poema musicado parece ser a honraria máxima que alguns poetas desejam para a sua obra. Como se ela ganhasse mais valor ao receber uns acordes. Não tenho nada contra. Poetas consagrados como Vinícius de Morais fizeram uma ponte direta entre a música e o poema, assim como músicos como Itamar Assumpção fizeram o versa da situação. Não quero nem entrar na falida discursão da poeticidade da música. Apenas fico feliz com o meu poema no papel: estático e pronto para ser lido.
Recitar é outra arte à parte. E creio não ser de obrigação do poeta. Se ele o faz bem, ótimo; caso contrário, não deve ser condenado. Para mim a atividade primeira do poeta é escrever. Pode maluco me dizer — e até gritar — que a poesia é feita para ser recitada (e com emoção), pois assim ela nasceu. Foda-se. A escrita, a leitura e o silêncio formam um belo triângulo amoroso.
Adaptações teatrais e ilustrações também fazem parte do bolo. Também não as condeno. Tenho certeza que os “upgrades” nos poemas levam a poesia onde ela é incapaz de chegar, como arte menor que ela sempre será.
Jamais levantarei bandeira contra a fusão e o diálogo de diferentes expressões artísticas.  Sei que é importante uma dieta rica em variedades. Mas hoje eu quero almoçar apenas poemas, sem acompanhamento nem sobremesa.

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quarta-feira, 4 de abril de 2012

É NODA! — #03

TRANSGRESSÃO NÃO PRECISA DE INSTRUÇÃO
“Há o escritor que acredita/ Que, bem, só ele é que leu/
E repete a toda hora: / ‘O grifo é meu’.”
(Millôr Fernandes)

Penso que a obscuridade do texto poético e as lacunas deixadas pelos autores são as plataformas de embarque para a viagem que a leitura nos permite. Como leitor, gosto de completar o que leio com as minhas próprias experiências (ou falta delas). Um poema completo jamais existirá, porque não cabe ao poeta finalizá-lo.
“Quem não entender que se dane”, assim sentenciou Hélio Oiticica, em 1971 na imprensa carioca. Entender um poema não é descobrir a fonte de origem dos versos ou desvendar a biografia do autor, mas, sim, nutri-lo de sentidos, ao bel prazer de cada um. E depois nada como uma mesa de bar ou uma roda de fumo fino para dialogar cada ressignificação dada à obra.
Entretanto, há autores que jogam um balde de água fria em quem os leem, deixando todos de asas presas para alçar voo. Por pretensão ou ingenuidade, os que assim agem, voluntariamente ou não, acabam deixando a poesia subserviente à normalidade. Por ser arte menor e penetra na festa do mercado, a poesia tem mais é que transgredir. Usar e abusar da imaginação do leitor.
Pensando o poema como uma mancha gráfica, tal qual Leminski, ou em um delírio tipográfico, a la Mallarmé, a escolha e o uso das palavras é fundamental. As ferramentas de caixa alta, negrito, itálico, parênteses e aspas são recursos disponíveis para a fluência do texto, e usados a torto e a direito pelos concretistas (ou assim autointitulados). Tudo bem, tranquilo, concordo. Mas às vezes um destaque desnecessário na palavra, tira o gostinho da descoberta pelo leitor.
Conforme canta Arnaldo Baptista: “Eu quero mais é decolar toda manhã”. Não preciso, portanto, de gritos nos meus olhos ou guias de como eu devo ler o poema. Também sou plenamente capaz de perceber cada olé que for dado na gramática. Se Manoel de Barros ou João Guimarães Rosas viessem com manual de instruções, eles não seriam quem são, afinal.

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sexta-feira, 16 de março de 2012

É NODA! — #02

POR UMA METAPOESIA MAIS INTELIGENTE (OU MAIS INERENTE)
“Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais”
(Manuel Bandeira)

Já que estamos no único blog interplanetário das Américas, e, portanto, conectados à internet, nada nos custa utilizar a melhor ferramenta de coleta de dados pessoais — digo, de buscas — da rede para melhor nortear as próximas linhas. Pois bem, utilizando-se do buscador, logo na primeira página de pesquisa encontraremos que metapoesia é a poesia enquanto poesia. Tudo bem, tranquilo, concordo. Com o conceito em mente, que tal agora parar e pensar nos seus usos e abusos?
Cresci lendo um perito no assunto: João Cabral de Melo Neto, e não demorou muito fui parar nos versos do Alberto da Cunha Melo. Antes mesmo de parar para pensar no que Cabral queria dizer com “Poesia te escrevia: / flor! conhecendo / que és fezes. Fezes / como qualquer” ou ver Alberto realizar a sua Oração pelo poema. Achava interessantíssimo o modo como ambos tratavam a poesia quando não faziam nenhuma menção à própria. Estava tudo tão inerente para mim que seria um pleonasmo pensar nesses pernambucanos escrevendo metapoemas.
Acredito que nos poetas há uma constante preocupação com o exercício de escrever e que essa preocupação pode e deve ser engessada a qualquer tema imaginável. Ora, para quê raios o leitor precisa saber que escrever um poema é assim ou assado para um poeta? Penso que a metapoesia pode ser incorporada de uma maneira muito mais próxima do leitor, de modo que os universos do transmissor e do receptor se encontrem em um objeto comum. Fazer uma metapoesia voltada para os trejeitos e artimanhas de quem escreve serve apenas para engrossar a triste estatística — sem base numérica nenhuma, a não ser nas minhas pretensiosas observações — de que o maior público dos poetas são os próprios poetas.
Não sou dos que escrevem para póstumos, não tenho medo de sofrer a contestação dos vivos. Sei que é o leitor a parte mais importante da recepção do poema e ele quem determina a qualidade da obra, mas o poeta não deve se eximir da sua responsabilidade ao escrever. Sei, também, que voluntariamente, ou não, há poetas capazes de por em prática, sem pedância, as suas agonias para quaisquer públicos.

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

É NODA! — #01

QUALQUER PESSOA
“Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta”
(Maurício Pacheco)

É completamente irreal (mas não impossível) para mim que alguém que nunca tenha dado uma única pincelada na vida resolva fazer uma exposição do seu não-trabalho e que ainda haja um curador disposto a ceder um espaço ao mais novo artista plástico da vez. Fazendo uma transposição dessa situação para a música, seria o mesmo que uma banda onde nenhum “músico” nunca sequer tenha tocado um único instrumento seja contratada por uma grande gravadora. E na poesia, será que a transposição é tão irreal e longínqua assim?
Arte menor por natureza, a poesia tem disso: a possibilidade de qualquer pessoa expressar o que sente (ou não) através de versos (ou não). Tudo bem, tranquilo, concordo. Qualquer pessoa tem plena capacidade de se aventurar na poesia, até mesmo sem precisar saber ler ou escrever, que dirá saber de formas, fôrmas, métricas ou rimas.
Tem muita gente, todavia, achando que o pós-modernismo escancarou as portas do fazer poesia e agora quem quiser pode entrar. E que todo mundo pode oswaldear como bem entender. Mas muitos se esquecem de que quem abriu essa porta foram os próprios poetas.
E nunca é demais lembrar que o poeta não é qualquer pessoa. Insatisfeito, dissonante e perdedor, o poeta foge à regra. Porque quem não se incomoda e vence em tudo na vida, da poesia só quer, no máximo e na melhor das hipóteses, se dedicar à leitura.
O abismo que separa o poeta a qualquer pessoa é o mesmo abismo que separa a poesia de ambos. Portanto, aceito o pressuposto que qualquer um pode escrever poesia, mas por corporativismo e defesa da classe, fico com a poesia escrita por poetas.
Assim como também prefiro ler críticas, resenhas e considerações literárias daqueles que realmente se dedicam ao assunto. Cabe-me como autodefesa afirmar que a impressão de um mero caju, quando muito, não passa de uma simples noda.

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Fred Caju responde pelas suas próprias opiniões, que não estão necessariamente em unanimidade com a equipe do blog, que preza pela livre iniciativa de seus colaboradores.
    

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

EM BREVE...

Em sinal de perigo o gambá exala seu perfuminho gostoso em seu adversário. O polvo, quando cercado, solta aquela tinta preta e se embala num estalo. Já o lagarto de chifres esguicha sangue pelos olhos em seus predadores... São apenas alguns exemplos de como se comportam os mais frágeis na presença de um inimigo mais forte.
Ganha um doce quem souber como o caju se comporta quando está em mãos perigosas. Com noda! Chupar ou espremer um caju requer perícia e cuidado, do contrário é noda na certa...
Após o carnaval (ninguém é de ferro...), vão rolar aqui no POETAS DE MARTE as impressões de um sujeito chamado Caju na nova coluna: É NODA! Porque se fosse foda era bom...
Espero vocês assim que o ano começar!