Viajantes Interplanetários

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domingo, 26 de agosto de 2012

Visão Periférica: Ilhados culturalmente (Ou o clássico desconhecido)

Aqui no Brasil, temos um pequeno problema em relação aos demais países da América Latina: o português. Não falo isto por não gostar de nossa língua-mãe ou por não achá-la sonora ou ainda por talvez achar o espanhol mais melodioso que ela. Nada disto é verdade. A discussão se uma língua é "mais bonita" que outra também me parece totalmente irrelevante e bobinha, coisa de criança que disputa com o coleguinha quem tem o "brinquedo mais legal" ou "pai mais forte".
O português é um problema graças ao isolamento linguístico que ele nos provoca. O brasileiro médio nem pára para lembrar que é latino americano, até porque em um país de monoglotas, o espanhol ou qualquer outra língua ainda são duras barreiras a serem ultrapassadas. Portanto, parece sempre que há um "eles" latino-americanos e não necessariamente um "nós".
Além disto, a grande mídia, em geral, nos dá acesso quase sempre ao que há de pior dentro da cultura alheia, ou seja, tudo aquilo que seja capaz de vender de carros a pasta-de-dente, absorventes e ração para gatos. Isto é simples de se notar quando sabemos que o escritor brasileiro mais vendido no mundo é Paulo Coelho e que o sucesso mundial do último janeiro foi o Michel Teló com sua incomparável "Ai... se eu te pego".
Por isso, mesmo as pessoas com uma maior formação cultural em relação a maioria dos brasileiros, ignora quase que totalmente o que acontece com nossos vizinhos latinos. Então se você já leu Neruda, Borges, García Márquez, Quiroga, Galeano ou Vargas Llosa, pode ter certeza que você faz parte de uma minoria (bem minoritária) da população brasileira. São escritores que não deveriam ser ignorados, mas ensinados nas escolas. Melhor que os meninos conheçam bons livros do que essa preocupação bairrista de que um jovem de catorze anos leia "A Moreninha", um dos livros mais medíocres da literatura mundial e que é insistentemente martelado pelos nossos queridos professores de literatura. Não que não existam bons autores no Brasil, mas é que além de lermos pouco os bons autores, gastamos muito tempo fazendo com que nossas crianças odeiem ler.
Enfim, falo tudo isto aqui, por uma questão bem simples: quem aqui já ouviu falar de Los Jaivas? Essa é uma banda chilena fundada desde 1963 que segue em atividade constante,  seu som mistura a música folclórica andina com rock progressivo, jazz etc. Eles já gravaram músicas de diversos grandes compositores, tais quais Violeta Parra, Victor Jarra, Osvaldo Rodríguez (sei que são desconhecidos da maioria, mas posso garantir que são de primeira linha) e ninguém menos que Pablo Neruda.
Ponho aqui um clássico: a gravação completa da TV peruana feita em 1981, em Macchu Picchu do disco em que Los Jaivas musicaram os poemas de Neruda. Além disto, no vídeo vários poemas do mesmo autor são recitados por Mario Vargas Llosa e, para completar o cenário, tudo foi gravado nas Alturas de Macchu Picchu, que é, inclusive, como se chama este trabalho. Um amigo peruano quando me mostrou pela primeira vez esta banda disse "Es el Pink Floyd andino", depois de escutá-los, achei bastante pertinente a associação. 
Deixo vocês aqui com a certeza de não estar jogando pérolas aos porcos.



terça-feira, 6 de março de 2012

Peixe Preso Dentro do Vento


Tu perguntas
o que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas
'mais firme que uma hora e um mar certos?' Eu sei.
Perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar,
arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra dura e lisa encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais
de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando a estrela sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento.

Pablo Neruda (1904-1973)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

...


XV

Nós os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.

(Neruda / Livro: Aún)



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Neruda


Quando não te doeu acostumar-te a mim,
à minha alma solitária e selvagem, 
a meu nome que todo afugentam. 
Tantas vezes vimos arder o luzeiro 
nos beijando os olhos e sobre nossas cabeças 
destorcer-se os crepúsculos em girantes abanos. 
Sobre ti minhas palavras choveram carícias. 
Desde faz tempo amei teu corpo de nácar ensolarado. 
Chego a te crer a dona do universo.
Te trarei das montanhas flores alegres,
copihues, avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos. 
Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas.


Pablo Neruda
  

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Poema 15

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Pablo Neruda

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

integrations

After everything, I will love you
as if it were always before,
as if after so much waiting,
not seeing you and you not coming,
you were breathing
close to me forever.

Close to me with your habits
with your color and your guitar
just as countries unite
in schoolroom lectures
and two regions become blurred
and there is a river near a river
and two volcanoes grow together.

Close to you is close to me
and your absence is far from everything
and the moon is the color of clay
in the night of quaking earth
when, in terror of the earth,
all the roots join together
and silence is heard ringing
with the music of fright.

Fear is also a street
and among it's terrifying stones
tenderness somehow is able to march
with four feet and four lips.
Since, without leaving the present
that is a fragile ring,
we touch the sand of yesterday
and on the sea, love reveals
a repeated fury.


Pablo Neruda