Viajantes Interplanetários

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terça-feira, 15 de abril de 2014

Reféns da palavra


Durante muito tempo, os gregos desconfiaram da pala-vra escrita como a linguagem cifrada de um mundo obscuro que só levava à danação, diferentemente do que se aprende “de cor”, ou com o coração, como está na etimologia. Homero, o inventor da literatura ocidental, era maior porque também nunca escrevera nada e suas estrofes inaugurais tinham sido transmiti-das oralmente, de coração em coração.

Meu convívio forçado com o computador, sua conveniên-cia, seus mistérios e seus perigos, me faz pensar muito sobre a precariedade da palavra. Pois um pré-eletrônico como eu está sempre na iminência de ver textos inteiros desaparecerem sem deixar vestígio na tela. O computador nos transforma todos em reféns sem fuga possível da palavra e pode acabar, num segundo, com um dia inteiro de trabalho da pobre musa dos cronistas em trânsito. Ao mesmo tempo, nos transformou na primeira geração da História que tem toda a memória do mundo ao alcance de um dedo.

O computador resgata a memória como mestre da Histó-ria ou, ao contrário, nos exime de ter memória própria, e decreta o domínio definitivo da escrita sobre quem a pratica? Sei lá. É melhor acabar aqui antes que este texto desapareça.


(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Diálogos impossíveis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 58)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Uma do Verissimo no começo da década de 90:

INTELECTUAIS

Nunca entendi muito bem o que é um intelectual. É alguém que pensa? Todo mundo pensa, mesmo que precise fazer um esforço. É alguém que tem idéias novas, que vive do que pensa? A perfeita descrição de um vigarista profissional, também. Alguém que lê muito? Ler muito, dependendo do tipo de livro, pode substituir o pensamento. Certos livros fazem para a mente o que o respirador artificial faz para o pulmão, enchem de ar para ele pensar que está funcionando. Um erudito não é necessariamente um intelectual. Cultura não é inteligência, inteligência não é cultura e agilidade mental pode ser apenas um dom performático, como mexer as orelhas. Se você se declarar um intelectual e alguém disser "Prove", o que é que você vai fazer? Usar óculos não é argumento, também existe a miopia burra e o astigmatismo sem qualquer redenção cultural. Você tem teses publicadas? Teses são como cheques, meu caro, como é que eu sei que elas têm fundamento? Também não adianta você me dizer uma coisa inteligente, pode ser decorado. E espontaneidade não é prova de poder intelectual, pode ser só reflexo elétrico. Você tem uma reputação como intelectual? Entre quem, outros intelectuais? Quero ver as credenciais deles. Podem ser falsas. Precisamos de provas. DNA. Impressões digitais. Dizem que dedão de intelectual não deixa impressão, deixa arrazoado. Será?
Gramsci escreveu que todo mundo é intelectual mas poucos têm a função de um intelectual numa sociedade. Assim o que define o Intelectual como categoria é a sua função social. Qual é a função social do intelectual gramisciano? O próprio Gramsci (citado por Edward Said no seu último livro, "Representações do intelectual") não ajuda. Diz que há dois tipos de intelectual — iiiihh — : o estático e o orgânico. O que mantém a sua função tradicional de transmissor dos cânones de uma geração a outra e o que se envolve nas lutas da sua geração, e quer ser conseqüente. Mas o intelectual orgânico também tem que respeitar uma tradição: a de, segundo Said, "levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar a ortodoxia e o dogma em vez de produzi-los, não ser facilmente cooptado nem fazer alianças com o PFL". Desculpe, essa última parte não é do Said, só está subentendida. Éfe Agá seria um exemplar intelectual orgânico na concepção de Gramisci se preenchesse todos os requisitos de Said. Nós somos o nosso comportamento, não os nossos títulos.
Mas o que me preocupa mesmo é que pela primeira vez na nossa história vamos ser governados por um sociólogo. Entende? Em vez da gente fiscalizá-lo, ele é que vai estar nos estudando. Éfe Agá não estará fazendo um governo, estará fazendo uma pesquisa de campo. É capaz até de dar certo. Pelo menos vamos todos nos esforçar para não sair mal na tese dele. Eu, no dia da posse, vou pra frente da televisão de banho tomado e gravata.


Luis Fernando Verissimo
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Verdade

O homem é o único animal que ri dos outros. O homem
é o único animal que passa por outro e finge que não
vê.
É o único que fala mais do que papagaio.
É o único que gosta de escargots (fora, claro, o
escargot).
É o único que acha que Deus é parecido com ele.
E é o único...
...que se veste
...que veste os outros
...que despe os outros
...que faz o que gosta escondido
...que muda de cor quando se envergonha
...que se senta e cruza as pernas
...que sabe que vai morrer
...que pensa que é eterno
...que não tem uma linguagem comum a toda espécie
...que se tosa voluntariamente
...que lucra com os ovos dos outros
...que pensa que é anfíbio e morre afogado
...que tem bichos
...que joga no bicho
...que aposta nos outros
...que compra antenas
...que se compara com os outros
O homem não é o único animal que alimenta e cuida
das suas crias, mas é o único que depois usa isso
para fazer chantagem emocional.
Não é o único que mata, mas é o único que vende a
pele.
Não é o único que mata, mas é o único que manda
matar.
E não é o único...
que voa, mas é o único que paga para isso
que constrói casa, mas é o único que precisa de
fechadura
que foge dos outros, mas é o único que chama isso
de retirada estratégia.
que trai, polui e aterroriza, mas é o único que
se justifica
que engole sapo, mas é o único que não faz isso
pelo valor nutritivo
que faz sexo, mas é o único que faz um boneco
inflamável da fêmea
que faz sexo, mas é o único que precisa de manual
de instrução.



Luiz Fernando Verissimo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Chico Buarque et Luis Fernando Veríssimo

Num papo descontraído Chico Buarque Et Luis Fernando Veríssimo falam sobre suas viagens a Europa – com foco na França, Paris. Conversam sobre música, envolta a putaria, Chico parece nunca esquecer os seios que vira nas bancas de revistas na infância, mesclado a Veríssimo falando da edição nº. 1 da revista Playboy.