Durante muito tempo, os gregos
desconfiaram da pala-vra escrita como a linguagem cifrada de um mundo obscuro
que só levava à danação, diferentemente do que se aprende “de cor”, ou com o
coração, como está na etimologia. Homero, o inventor da literatura ocidental,
era maior porque também nunca escrevera nada e suas estrofes inaugurais tinham
sido transmiti-das oralmente, de coração em coração.
Meu convívio forçado com o
computador, sua conveniên-cia, seus mistérios e seus perigos, me faz pensar
muito sobre a precariedade da palavra. Pois um pré-eletrônico como eu está sempre
na iminência de ver textos inteiros desaparecerem sem deixar vestígio na tela.
O computador nos transforma todos em reféns sem fuga possível da palavra e pode
acabar, num segundo, com um dia inteiro de trabalho da pobre musa dos cronistas
em trânsito. Ao mesmo tempo, nos transformou na primeira geração da História que
tem toda a memória do mundo ao alcance de um dedo.
O computador resgata a memória
como mestre da Histó-ria ou, ao contrário, nos exime de ter memória própria, e
decreta o domínio definitivo da escrita sobre quem a pratica? Sei lá. É melhor
acabar aqui antes que este texto desapareça.
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis
Fernando. Diálogos impossíveis. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 58)