Viajantes Interplanetários

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sábado, 10 de janeiro de 2015

MILKSHAKE LITERÁRIO

O Desenrolar de Uma Paixão – Parte 3

“Ninguém pode falar de ninguém sem contar uma história. Nenhuma figura humana pode ser estudada em termos literários num vácuo, pois ela pertence a um tempo e a um espaço, tem um passado, vive um presente. É também um contínuo devir, um processo transitivo e não um produto acabado.” 

- Erico Verissimo, em "ALEV - Acervo Literário Erico Verissimo, 03e0789-74".

Erico Verissimo com sua IBM trabalhando em mais uma obra. Foto: Leonid.

Aloha! :D

A prosa de hoje se desenrolará sobre a última parte da Trilogia O tempo e o vento, O Arquipélago. Esta foi subdividida em III tomos lançados mais de 10 anos depois da publicação de O Retrato.

 Confiram as sinopses (cortei algumas informações para evitar spoilers):
Tomo I –
“O arquipélago, última parte da trilogia O Tempo e o Vento, encerra a saga da família Terra Cambará. Neste primeiro volume, o Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Fé se modernizam, Não cabem mais aos planos das oligarquias tradicionais. Os Cambarás retiram o apoio ao governo e aderem à revolução libertadora em 1923: retomam o caminho das armas e das coxilhas ao lado dos maragatos, antes arqui-inimigos.”

Tomo II –
“Neste segundo volume de O Arquipélago, os conflitos delineados no primeiro se adensam. A revolução de 23 chega ao fim e ao Rio Grande do Sul é pacificado, mas por pouco tempo. As novas contradições do Brasil chegam à família Terra Cambará: guarnições militares das Missões se rebelam e Toríbio, o irmão mais velho de Rodrigo, une-se a elas na formação de uma coluna revolucionária que tem um "ilustre desconhecido" à frente, um certo capitão Luiz Carlos Prestes. No plano da memória, em 1945, o escritor Floriano Cambará se deixa tomar por sua paixão pela cunhada, desenhando um conflito ameaçador na já precária paz familiar.”

Tomo III –
“A trilogia O Tempo E O Vento chega ao fim. Os caudilhos gaúchos se rebelam, tomam a capital federal e inauguram uma nova era política no Brasil. Na cidade fictícia de Santa Fé, a família Terra Cambará é abalada por novos conflitos: Toríbio rompe com o irmão e vai ao encontro de seu inapelável destino. Nessa atmosfera tumultuada, Sílvia, a amada do escritor Floriano, revela seu mundo num diário surpreendente, impregnado pela época sombria da Segunda Guerra Mundial. Tudo converge para uma encruzilhada de tempos e memórias: Rodrigo Cambará tem um acerto de contas definitivo com o filho, Floriano, que começa a escrever o grande romance de sua vida.”

O Arquipélago - Volumes 1,2,3 

Nestes volumes fugimos um pouco do Rio Grande do Sul e conhecemos o Rio de Janeiro ainda como capital do Brasil, com a presença de algumas personagens da vida real como Getúlio Vargas e Carlos Prestes. Como sempre, os costumes da época estão presente, revoluções, guerras e contradições do começo até meados do século XX.
O arquipélago foi o comecinho de um dos meus maiores amores literário: Floriano Cambará. Que dizem ser o alter ego de Erico, então...
A personalidade singular, estudiosa, tímida e reservada do primogênito de Rodrigo Neto me encantou. Tão diferente do Pai! Certo, eu sei que ele possui uma tendência à apatia e ao conformismo, medo de entrar em conflitos. O quanto ele amadurece durante a trama me enche de orgulho, no entanto tem uma decisão que ele toma que até hoje não pude concordar... É, ninguém é perfeito.
No último volume também temos um pouco da visão de Sílvia, mais tarde seria publicado a parte sob o título de Do Diário de Sílvia. Apesar de amar Floriano, achei muito bom esse escape de visão, aprendemos e percebemos um pouco mais sobre os outros personagens e sobre o próprio Floriano.

Ahhh, quanto mais eu lia mais queria ler! Os fatos são tão amarrados, a conexão entre todos os acontecimentos, desde o primeiro volume, se faz clara. A essa altura do campeonato os nomes são tantos e a árvore genealógica já está tão extensa, que por vezes torna-se confusa. Mas, nada que intimide ou prejudique o entendimento da leitura. Tudo requer apenas atenção.

Uma mãozinha da Wikipédia, clique na imagem para ampliar.

E as citações então? Cada uma melhor que a outra! Vocês podem conferir as que eu selecionei em minha estante do Skoob ;-)
Essas são algumas das favoritas:

"- Estive pensando...- continuou Floriano.- Nenhum homem é uma ilha... O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda a angústia de existir." (VERISSIMO, p. 264 2004)*.
"Ser maragato ou republicano na verdade não significa nada. As revoluções se fazem para melhorar as condições sociais. Que é que esperas dessa revolução? O voto secreto? Mas de que serve isso se o povo não se educa, não aprende a usar o seu voto, a escolher o seu candidato? O que pode resultar dessa choldra toda é uma mudança padrão. O povo continuará na mesma, mal alimentado, malvestido, infeliz..."  (VERISSIMO, p.18, 2004)*

"Olha. Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento... sabias? Pois é. Se não oscilassem viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste intata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossas fraquezas.” - (Irmão Zeca no Diário de Silvia)" (VERISSIMO, p. 348, 2004)*



Chegamos ao nosso 4º e último encontro com Erico Verissimo e O tempo e o vento sob meu ponto de vista. Sinto que fui tão incompleta, que ainda tem tanta coisa que eu gostaria de falar (como a importância da figueira na praça e do sobrado dos Cambará, por exemplo), tantas personagens queridas que merecem ao menos uma pontinha, tantas emoções que me atacaram antes e pós a leitura...
Mesmo assim, espero que todos tenham divertido-se tanto quanto eu (mesmo quase um ano depois). Erico voltará em breve a comparecer por aqui, a próxima etapa ainda é segredo :X
Enquanto isso... Quem se habilita a encarar as aventuras de O tempo e o vento?


Coleção Completa - sonho de consumo esse box *-*

* VERISSÍMO, Érico. O tempo e o vento: o arquipélago III. 3.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 3v. (Obras de Erico Verissimo) [Citações do 1º, 2º e 3º volume respectivamente]


Mahalo :*

domingo, 2 de fevereiro de 2014

MILKSHAKE LITERÁRIO

O Desenrolar de Uma Paixão – Parte 2

"- Todo pasará, hijo. Tu padre, tu hermano, tu tía, tus hijos, tú. Pero el Retrato quedará. Tu envejecerás, pero el Retrato conservará su juventud. Vamos, Rodrigo, despídete del otro. - Fez um sinal em direção a tela. - Hoy ya estás más viejo que en el día en que terminé el cuadro. Porque, hijito, el tiempo es como un verme que nos está a roer despacito y es del lado de acá de la sepultura que nosostros empezamos a podrir."
Don Pepe

Desenhos do escritor nos manuscritos de O Retrato, de 1951. Paulo Dias


Aloha Marcianos! :D

 Dando continuidade a nossa prosa, (eu avisei que seria uma longa jornada), hoje vamos conversar sobre O Retrato.  Este volume é a sequência de O Continente e também foi dividido em dois tomos.
Confiram a sinopse:
Tomo I e II–
Aqui, Rodrigo Cambará, neto* do herói capitão Rodrigo, constrói uma imagem de político popular e generoso, enfrentando as contradições de seus afetos privados e reafirmando sua inteireza ética e sua coragem. Homem sedutor, sobranceiro, torna-se líder populista, amante das causas populares - e da própria imagem. Seu projeto é modernizar tudo - da casa onde vive à cidade inteira - e proteger os pobres. Depois de aderir ao governo de Getúlio Vargas, muda-se para o Rio de Janeiro durante o Estado Novo. Em 1945, porém, com a queda de Vargas e já muito doente, Rodrigo volta à cidade natal para um ajuste de contas com a família. No fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, a família Terra Cambará não se reconhece no país que ajudou a construir.
P.S*: Na sinopse tem Neto, mas na verdade é Bisneto. O Rodrigo de O Retrato é Neto de Bolívar Cambará e Bisneto do Capitão Rodrigo :D

O Retrato - Tomo I e II


O primeiro tomo li em sequência aos dois anteriores, nesse eu fiz histórico de leitura, e não porque a leitura foi menos apaixonante! Muito pelo contrário, me instigou a anotar cada detalhe e colocar tudo na ponta da caneta para procurar mais informações depois.
No entanto, as bibliotecas do sistema da UFPE entraram em greve e eu entrei no segundo semestre para o preparo do TCC e só voltei a ler os romances da saga depois da defesa. Foram 6 MESES (sim, você leu certo) de saudades e ansiedades pela continuação.
Em janeiro, faltava menos de um mês para a colação de grau e eu perderia o vínculo com a biblioteca. Como a minha matrícula estava com a capacidade máxima de livros (como sempre), convoquei Everson Daniel para me ajudar nessa missão e retirar os 4 volumes restantes da saga, nada como convocar uma reunião bibliotecária.  Acabei por ler todos no mesmo mês :D
O reencontro com O Retrato II foi emocionante! Carregar aquela pequena pilha de livros para casa foi sensacional. Só de imaginar o que eu tinha por descobrir, apareceram- me estrelas nos olhos.
Nos dois volumes nos deparamos com o lento processo de urbanização da cidade fictícia de Santa Fé, onde vivem os Terra Cambará. As origens humildes ficaram para trás, desde que Bolívar Cambará casou-se com Luiza Silva e o único filho do casal, Licurgo, herdou toda a fortuna da mãe. Agora o dinheiro corre solto na casa do Sobrado, onde nasceram Rodrigo Bisneto e Toríbio, também filhos de Alice Terra.
O agora Dr. Rodrigo volta de Porto Alegre cheio das empolgações e ideias revolucionárias da juventude, acostumado à boa vida cheia de luxo e com as facilidades da moderna capital, regada a muita boêmia, música clássica, mulheres e saraus (fico me perguntando: a quem será que ele puxou? ¬_¬). Ao chegar a Santa Fé, os contrastes são gritantes. Toríbio é o típico homem do campo, ligado a sua terra e as suas raízes gaúchas, em nada se parece com o irmão.
Naturalmente aparecem novos personagens como o enigmático Don Pepe, artista plástico de mão cheia, que pinta o “retrato vivo” de Rodrigo. Este passa a decorar a entrada do Sobrado e cujo acontecimento nomeia a obra em questão. Flora Quadros, a futura Senhora Cambará, também surge por agora. E o começo do namoro deles é lindo, dá gosto de ver. Mas...  Eu continuei em um caso de Amor x Ódio com os “Rodrigos Cambarás” dessa família. O bisneto me provou a veracidade do antigo dito popular: a gente só colhe o que planta. O seu Pedro Terra é que tinha mesmo razão em me advertir e eu insistia em não lhe dar ouvidos (assim como Bibiana o fez).
O texto traz muitas discussões sobre o cenário político da época, ainda mais sendo Getúlio Vargas um gaúcho, permeadas de diálogos filosóficos e reflexivos entre as personagens.

“A democracia - replicou o tenente de artilharia - é uma ficção baseada na romântica ilusão de que o homem é essêncialmente bom e que portanto a vontade da maioria será sempre uma expressão da verdade.”
O Retrato, v.2, p.136
.
Ahhh, tem também um trechinho sobre o Carnaval daqui, morri de emoção quando li, *muitos risos*.

"- Queria que você conhecesse o Norte - disse Rubim-, que visse o Carnaval do Recife com os seus tradicionais blocos como os "Vassourinhas", os "Abanadores"... E as danças! e as cantigas! O chão-de-barriga. o frevo, o maracatu, as congadas! Aquilo é que é riqueza folclórica, seu Rodrigo. O Bumba-meu-boi, os Pastoris, as cheganças..."

O Retrato, v.2, p.182

Próximo sábado teremos a terceira e última parte do desenrolar de minha paixão por esse gaúcho arretado. Confesso que já estou com saudade! Reviver esses momentos deliciosos de minhas leituras com vocês é uma sensação única.
Vemos-nos próxima semana ;)
Mahalo :*


sábado, 25 de janeiro de 2014

MILKSHAKE LITERÁRIO

O Desenrolar de Uma Paixão – Parte 1

Ler Erico Verissimo é essencial para a compreensão da mentalidade brasileira...”
 Moacir Scliar

Erico Verissimo, 1940. Fonte


Aloha :D 

Como dito no post anterior (não viu? Clique aqui), O Continente abre a Trilogia do Tempo e o Vento, este volume foi dividido em dois tomos. A Trilogia completa nos conta 150 anos de pura história real (formação do Rio Grande do Sul, com acontecimentos que definiram, de certa forma, a história do nosso país) e ficção (formação da família Terra Cambará). Só não se iluda com essa aparente simplicidade, pois desafio você a descobrir onde uma começa e onde a outra termina.

Confiram as sinopses -
 Tomo I:
Num constante ir e vir entre o passado - as Missões, a fundação do povoado de Santa fé - e o tempo de Sobrado sitiado pelas forças federalistas, em 1895, desfilam personagens fascinantes, eternamente vivos na imaginação dos leitores de Erico Verissimo - o enigmático Pedro Missioneiro, a corajosa Ana Terra, o intrépido e sedutor capitão Rodrigo, a tenaz Bibiana.
Tomo II:
“Aqui, as lutas da Revolução Federalista e a guerra no casarão chegam a um desfecho dramático na fictícia Santa Fé. Numa guerra sem quartel, Bibiana confronta-se com a nora pela posse do Sobrado e do menino Licurgo, herdeiro da família.”

O Continente Tomo II conclui a primeira parte de 'O tempo e o vento'. Juntos contam com 7 capítulos (A FonteAna TerraUm Certo Capitão RodrigoA TeiniaguáA GuerraIsmália Caré e O Sobrado).

O Continente - Tomo II

Considero O Continente um volume mais descritivo, cheio de mitos, permeado pela historiografia. Contém trechos enigmáticos de deixar frio na barriga, diversos conflitos armados como a Revolução Federalista, Farroupilha, Guerra do Paraguai, e a rudeza dos modos que demarcam estas ações do período. Ambição, dominação, diretrizes políticas e romances proibidos permeiam toda trama. Outra família também se faz importante para o contexto, os Caré Amaral.
As personagens são apaixonantes. Como sofre a pobre Ana Terra, impossível não se solidarizar com ela. Rodrigo Cambará tem cada peripérsia e logo depois um charme irresistível, que me fez andar na corda bamba das emoções extremistas o tempo inteiro. E como nem tudo são flores, Luiza Silva, a então dona do famoso Sobrado, que falaremos mais adiante, foi a personagem que mais me tirou do sério.
Li esses tomos tão rápido, com toda avidez da paixão, que não parei nem para fazer histórico de leitura (hoje estou sentindo falta disso), agora só com a releitura para remediar. Juro que esta quando feita, não será nenhum sacrifício. Erico tem um jeito apaixonante só seu, quando começo um de seus livros quero ler todos eles de uma vez.

No que diz respeito ao período literário, essa obra está inserida no chamado romance regionalista da segunda fase modernista, na década de 30, do século passado. Da qual também fazem parte Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, entre outros.
Estes dois volumes são os mais conhecidos da trilogia, e já receberam diversas adaptações para a televisão e o cinema. Sendo a mais recente, em 2013. 


Confiram aqui o site e o trailer do filme:




Ainda não assistiu? Corre para ver! Mas se quiser ler a obra primeiro, eu apoio totalmente :D
Só para adiantar, próximo sábado teremos a continuação da minha saga com Erico. No entanto, que tal me contar o que está achando de tudo isso até agora? Logo mais, seguiremos com O Retrato! Estão prontos? Até lá.
Mahalo :*


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

MILKSHAKE LITERÁRIO

O Despertar de Uma Paixão: 
O Tempo, O Vento e A Literatura





Aloha! :D

Hoje eu venho colocar a conversa em dia, já anunciar o nosso próximo encontro e prosear sobre meu novo (antigo?) amor. O diálogo de hoje será breve, mesmo assim, puxe a cadeira e peça o seu leite batido para me acompanhar.
Em 2003, a aula de literatura veio acompanhada de um texto sobre Um Certo Capitão Rodrigo, muito altivo em seu cavalo, imponente, misterioso e desafiador. Essa personagem e seu respectivo momento, nunca saíram de minha memória, contudo ficaram adormecidos no caos dos dias que se seguiram e na minha recente paixão arrebatadora por José de Alencar.
Com um salto no tempo, estamos em 2008. Conheço Uma Certa Paranaense apaixonada por Erico Verissimo. Como o amor é contagiante, me peguei pesquisando sobre o autor e reavivando as lembranças de Rodrigo, com Aline Negosseki. No entanto, a biblioteconomia ocupava parte do meu tempo e mais uma vez (não sei por que), deixei o assunto por conta da memória.
Dando corda no relógio, outra vez, vamos parar em 2011. Em uma de minhas andanças pelas ruas repletas de livros da Biblioteca Joaquim Cardozo (minha preferida do SIB UFPE), ao esbarrar nos livros de Erico, decidi que não dava mais para adiar a leitura. Disse que ia começar pelo meu inesquecível Capitão, sem saber  que o livro do mesmo é composto por capítulos extraídos de O Continente, que compõe O tempo e o vento. E veio a dúvida: como está composta essa famosa saga? 
“São 150 anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil que o escritor compôs em três partes - O Continente, O Retrato e O Arquipélago - publicadas entre 1949 e 1962. O primeiro volume de O Continente abre a trilogia.” Então, já que ia começar, que fosse em grande estilo. Voltei de lá com O Continente (Tomo I).


E que Delícia! Mistura indescritível de contentamento e resignação por ter adiado tanto uma leitura tão prazerosa, verdadeira... Mas,  do que se trata? 
Isso é assunto para o post de sábado. Aguardo vocês ;)

Mahalo :*




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Epopeia de Massada

por Erico Verissimo 

O drama de Massada começou no ano 66 da Era Cristã, quando na Judéia a resistência dos judeus ao jugo romano tomava o caráter de guerra revolucionária. Tendo compreendido a importância deste penhasco como fortaleza natural de alto valor estratégico, um grupo de hebreus comandado por Menachen Ben Yehuda assaltou-o e conquistou-o, liquidando a guarnição romana que aqui se mantinha desde os tempos de Herodes, o Grande.

No ano de 67 Nero incubiu Vespasiano de reprimir a revolta dos judeus. Em 68 este comandante havia já completado a conquista da Galiléia, da Transjordânia e do litoral da Judéia. Os judeus, porém, haviam reconquistado Jerusalém, instituindo um governo nacional, que proclamou os objetivos de sua guerra. Eram contra o imperialismo e colonialismo de Roma, contra a idolatria e tráfico de escravos. Inspirados na justiça de Jeová, o Deus único, queriam estabelecer em sua terra um regime em que se respeitasse a dignidade tanto moral como física do homem.

Morto Nero, Vespasiano tomou a Roma, onde foi coroado imperador, deixando seu filho Tito no comando das forças romanas que ocupavam a Judéia. Como é sabido, no de 70, após um cerco de cinco meses, as hostes de Tito recoquistaram e saquearam Jerusalém, ateando fogo ao Segundo Templo. Para escaparem ao massacre ou à escravidão, muitos judeus fugiram para o Deserto da Judéia e alguns deles, em companhia de suas famílias, buscaram refúgio na fortaleza de Massada, então sob o comando de Eliezer Ben Jair.

Senhores agora de toda a Palestina, os romanos poderiam tranquilamente permitir que os defensores de Massada, imobilizados no alto de seu rochedo, se cozessem no próprio caldo, sob o sol do deserto. Era-lhes porém incômoda a idéia de que novecentos e sessenta e sete pessoas pertencentes ao partido religioso dos zelotes – homens, mulheres e crianças – continuassem livres, recusando submeter-se à autoridade do mais podereso império do mundo. Ademais, consideravam um perigo deixar vivo aquele foco de insurreição e esperança. Era preciso consquistar Massada!

Com oito acampamentos fortificados, os soldados romanos estabeleceram metodicamente o cerco da fortaleza dos rebeldes. O sítio durou vários anos. O ataque final começou em fins de 72 e foi levado a cabo pela Décima Legião romana, forte de dez a quinze mil homens.

O que se sabe desse dramático episódio nos é narrado de maneira magnífica por Flavius Josephus no seu livro A Guerra dos Judeus. Tendo perdido toda a esperança de continuar a resistência e vendo que os romanos estavam prestes a derrubar e transpor as muralhas de Massada, Eliezer Ben Jair reuniu seus companheiros e falou-lhes assim: Nós que nunca pudemos suportar nem mesmo a menor das servidões, não nos devemos desonrar com uma escravidão que significará sem dúvida o mais terrível sofrimento, se cairmos nas mãos dos romanos. Penso que Deus nos faz um favor particular colocando-nos numa posição de morrer como homens livres.

Segundo ainda Flavius Josephus, todos os homens de Massada aceitaram e cumpriram o pacto de morte que seu chefe lhes propôs. Cada um deles liquidou com as próprias mãos sua mulher e seus filhos. Depois amontoaram as coisas que possuíam e atearam-lhes fogo. Dez deles foram sorteados para executar os demais companheiros. Cada homem deitou-se ao lado do cadáver da esposa e dos filhos, abraçou-se com eles e ofereceu a garganta aos executores. Os dez sobreviventes então liquidaram-se a si: o nono matou o décimo, o oitavo matou o nono e assim por diante, até que restou um único homem no topo de Massada. E essa personagem de tragédia grega se pôs a vaguear por entre os corpos, para verificar se em algum deles restava ainda algum vestígio de vida, caso em que ela lhe daria o golpe de misericórdia. Terminada a horrenda missão, o sobrevivente incendiou o palácio da fortaleza e por fim suicidou-se, tombando ao lado dos membros de sua família.

Penso nessas nove centenas de cadáveres sobre a rocha manchada de sangue, ao sol cru do deserto. E imagino que o silêncio desses mortos deva ter pesado como uma derrota no espírito de Flavius Silva, o procurador romano na Judéia.

Texto extraído de Israel em Abril, 1966
(Nissan 11, 5726) Página 191

Tenho planos de inaugurar alguns marcadores mais, são muitas novas ideias.
Quero começar com esse texto, do Erico. :) Vou postar alguns pequenos textos ou trecho de obras que me marcaram.
Eu me emocionei muito quando li esse texto, enquanto devorava seu relato da viagem que escreveu da Pesach de 1966 em Israel, a convite do governo daquele país.
O que você faria para impedir de ser escravizado, e que sua família fosse violentada, e escravizada ou morta?
Quantas misérias mais, e nenhuma é pior, gera mais horror, que a guerra entre povos, a humanidade terá de enfrentar até que venha o dia da justiça?

Postado originalmente em: www.alineteixeira.com

Aline N. T. -- 20h15min

sexta-feira, 6 de maio de 2011

 PRATELEIRA DA PIÚLA - I


Por causa da Ialy, que é uma flor de romantismo, eu passei a frequentar o Poetas de Marte. E vim me deliciar com seu “Milk Shake Literário”. Conheci os marcianos e vi que tinha uma coluna dedicada a nada menos que os grandiosos Haicais! que me encantam há pelo menos uma década... Aprendi muitas coisas no “Haicais de Domingo” e como tenho versos correndo na alma como fora sangue metafísico, muitas outras coisas foram me encantando!
Eu nunca imaginaria que me tornaria também colunista – e marciana. Agradeço por ser convidada a estar no sarau e espero abduzir quem ousar futricar na "Prateleira da Piúla" a um marte cheio das alegrias que só a literatura infantil/infanto juvenil pode proporcionar. A "Prateleira da Piúla" não tratará de poesia. Ou talvez sim. Vai depender das aventuras literárias que eu viver com a Piúla e vier vos confidenciar. A Piúla é a minha filha, que tem esse apelido por causa da minha avó. Ela, mina avó, falava um italiano de um brasileiro interiorano, uma bela mistura que se tornou num dialeto que só a família entendia. Significa, segundo minha mãe, pequena, terna... Minha mãe era a Piúla quando pequena. Eu, não sei por que, nunca fui. Tive meus próprios apelidos carinhosos. Mas quando nasceu a Sarah ela se tornou quase que automático em Piúla.  Não lembro bem como foi, mas quando percebemos a chamávamos todos assim. E quando ela foi ganhando entendimento e a chamávamos pelo nome, ela protestava com um belo bico: “Só sô Piúla...” Até que entendeu que poderia ter os dois...
Então essa coluna será a “Prateleira da Piúla”. O que será que tem na prateleira de livros da minha filha? É que vamos descobrir ao longo do tempo.
Desde que ela estava na barriga, tenho lhe dado a ler muitas obras.
Há duas semanas li para ela a história de um elefantinho muito bobo, que todos haveriam de querer levar para casa. Eu tinha, afinal, de dar um jeito de começar falando em Erico Verissimo aqui... É que muitas pessoas não sabem, mas ele também escreveu para crianças.


A Vida do Elefante Basílio



Você sabe o que é biografia?
Bem, o autor, logo de início, explica de um modo lúdico o que é. E para iniciar a heroica vida do elefantinho mais fofo que já vi na literatura, ele remonta aos tempos da arca de Noé. Sim. O Erico e suas genealogias... Irresistíveis genealogias...
Os antepassados de Basílio, o protagonista do mini enredo, foram mesmo aqueles que com Noé e sua família, embarcaram para salvar os paquidermes de tromba da grande destruição pelas águas.
Sabem o que é engraçado? Fiquei imaginando ao ler, e depois lendo em voz alta para a Sarah Piúla, as personagens conversarem em gauchês! Como não “ouvir” o sotaque quando lemos algo que o Erico escreveu?
Depois o tempo passa bem depressa, e o tataraneto do tataraneto, do bisneto do tataraneto e etc do casal de elefantes que entraram na arca é o pai dum elefantinho roliço, engraçadinho, que vem a luz em plena selva indiana.
Então é narrada de forma muito clara e nítida para a imaginação a infância, a adolescência do elefante que ainda mal começou a viver suas aventuras. Chega a ser engraçada as recomendações que o pai elefante faz a seu filho sobre os cuidados que deve tomar com os animais da selva e, com o pior de todos, o humano está entre os piores na “lista temível” para a manada de elefantes.
Eles capturam, arrancam as presas, e podem fazer todo tipo de horror.
E nosso herói já está adulto quando se afasta da manada e vai parar no fundo de um buraco. Passa um medo... morremos de dó dele. A Sarah tem grandes olhos castanhos brilhantes e pude ver que ela sentia a aflição por “ver” o já seu amiguinho preso no fundo escuro.
No outro dia ele acorda sendo erguido por cordas.
Fica sem suas belas presas e a Sarah sofreu um bocadinho quando ouviu eu narrar esse trecho. Ainda por cima, eu faço um drama, entonando os fatos e dramatizando tudo...
O elefante, vendido, vai parar num zoológico em Londres e gostei muito da postura otimista que ele teve, baseado nos ensinamentos de seu pai. Quando se sabe que não adianta de forma alguma controverter ante uma situação, ao menos que se tente tirar aprendizado disso.
Há lá um hindu que entende elefantês e ensina nosso amigo a falar inglês e ele já se sente até feliz com a presença constante das crianças, amendoins, torrões de açúcar... quando é vendido para um circo português.
Lá ele aprende a fazer números, e ganha um nome: Basílio.
Basílio fica feliz com seu nome cristão e sente muita saudade de casa, da família. Mas é um pouco feliz ali, com seu amigo Tristeza, o palhaço!
O Circo viaja para o Brasil, para o Rio de Janeiro. Basílio sofre como o quê na viajem, mas se emociona com a beleza carioca quando a trupe chega ali.
Na noite de estreia acontece o inesperado: entre a efusão maravilhosa da noite de espetáculo, Basílio entrou para apresentar seu número, quando vê ao longe um menininho pulando e gritando em desespero para seu pai para que lhe comprasse aquele elefantão! Basílio distraiu-se e só sei que logo o circo estava pegando fogo, uma algazarra tremenda de correria e fuga e gritos.
Basílio que só tinha olhos para o menininho salva-o em seu choro do pior, e se torna o herói da noite.
O pai do garoto, que é milionário, compra logo Basílio para o filho e o leva para casa, que é uma mansão. Basílio ganha não só um fiel amigo, mas um quarto, um rádio (esse livro deve ter sido escrito na era do rádio *-*) e todo o tempo livre para fazer ginástica, porque se acha gordo, comer amendoim e ir ao cinema.
E até recebe aulas de Português.
Um dia Basílio vê pela janela, em minha opinião esse é o trecho mais lindo da história, uma borboleta a voar, flanando com sua beleza excelsa de rainha dos insetos e ele fica condoído, comovido, tanta é a beleza e a graça que vê diante dos olhos.
Quando encontra Gilberto, o menininho, Basílios diz a chorar:
“Quero ser baaarbuleta...”
Oooounnnnn *---*
Barbuleta? Morri do coração, e a Sarah também, de tanto achar terno. Imaginei perfeitamente a cena de um elefante falante, choramingando para seu “amo” desejando o impossível com tanta emoção.
Basílio se acha grande demais, desajeitado e quer ser belo e simples como uma borboleta. Mas Gilberto insiste que ser elefante é ainda muito melhor que borboletear, mas e quem convence nosso herói disso?
A borboleta, ser borboleta, já estava marcada em seu coração.
Naquele mesmo dia, quando todos dormiam pela tarde, ele saiu desesperado para o campo, pensando em seu infortúnio elefantístico, ansiando borboletícies...
Encontra um ser, digamos, estranho, e não vou entregar as pequenas emoções... mas Basílio se torna, acreditem!!!, uma borboleta. Porém, não como imaginava. Ele continua elefantão, com enormes asas de borboletas que lhe saem pelas costas.
Ora, é melhor que coisa nenhuma!
Vocês imaginam o que acontece quando enlevado com sua recém borboletície, ele tenta pousar numa flor?
Mas essa ainda não é a última peripécia pela qual ele passa. Depois, magoado por uma lagoa zombeteira, ele acaba chumbado, estropiado num hospital...  ôôôôô dóóóó que eu tive, que a Sarah teve!!
Bom, resumi um pouco no final porque o post está ficando grandão.
Vocês acham que é pouco uma garotinha de 5 anos ficar entretida por “longas” 24 páginas de leitura (sem uma ilustração sequer), em velhas páginas de papel jornal, querendo e querendo saber o que vem? Por uma história publicada em 1957?

Já temos aqui em casa 3 cachorros, uma ovelha, 5 galinhas, um marreco, um gato, um vaga-lume, trocentas formigas, lagartixas e aranhazinhas de estimação. E sabem o que deu vontade máxima depois de ler A Vida do Elefante Basílio?
Ter um elefante aqui em casa! *-*
A-hã. Eu queria.
Eu disse:
“Sarah, que tal se a gente pedir para o papai comprar um elefante?”
Ela, entre um pulo empolgado e uma verdadeira esperança:
“Ebaaaa!”

Espero que tenham gostado! Esse livro que é para toda idade tem muito a divertir, enternecer e ensinar.
Beijos e um fim de semana abençoado a todos...

Leia A Vida do Elefante Basílio em: Gente e Bichos, VERISSIMO, Erico, 4.ed. – São Paulo: Globo, 1996


Aline Negosseki Teixeira -- 20h12min