Viajantes Interplanetários

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segunda-feira, 19 de março de 2012

EPIGRAMA Nº 9

                                                             O vento voa,
                                                             a noite toda se atordoa,
                                                             a folha cai.


                                                             Haverá mesmo algum pensamento
                                                             sobre essa noite?
                                                             Sobre esse vento?
                                                             Sobre essa folha que se vai?


                                                                              Cecília Meireles

E como ultimamente o ORÓS (1977) do Fagner não cansa de girar na minha agulha, segue aí o que o cearense fez com o poema:


E acertou quem imaginou que o arranjo fosse do Hermeto Pascoal.
  

domingo, 26 de fevereiro de 2012

CANÇÃO DE ALTA NOITE

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada.


Cecília Meireles
 

terça-feira, 18 de maio de 2010

MOTIVO

    
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Retrato - Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles