Viajantes Interplanetários

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sábado, 29 de novembro de 2014

CONFRONTOS E CONFLUÊNCIAS


A dor de ser poeta, a dor e os poetas: Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira e Paulo Leminski.


HINO À DOR

Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam..


És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro 
De que as próprias desgraças se engalanam!


Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tacto
Prendo a orquestra de chamas que executas...


E, assim, sem convulsão que me alvorece,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!

- Augusto dos Anjos -



DOR ELEGANTE

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


- Paulo Leminski -



RENÚNCIA

Chora de manso e no íntimo... procura
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa
Sofre sereno e de alma sombranceira
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

- Manuel Bandeira -



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ultima Canção do Beco


Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhas,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhas!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobre quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa -- Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmola para os pobres,
- Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vem na porta do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste a sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

Manuel Bandeira, 


sexta-feira, 29 de junho de 2012

SATÉLITE


Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.

Ah, Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.

(MANUEL BANDEIRA)



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Poema Tirado de uma Notícia de Jornal



João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.


- MANUEL BANDEIRA -

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CONFRONTOS E CONFLUÊNCIAS

Confesso que o gostinho de colocar alguém conhecido no ar sempre é bom. E colocar alguém conhecido junto a alguém consagrado deixa tudo mais gostoso. Falando um pouco do consagrado, trata-se do querido Manuel Bandeira com o seu Vou-me embora pra Pasárgada que deixarei vocês curtindo ao som e voz de Paulo Diniz. E a conhecida não é nenhuma novidade na coluna ou aqui em Marte: Cris de Souza com a sua Ode à Pasárgada, retirado de seu Válvula de Escape. Acho que minha ausência por aqui e pelo Cronisias dão indícios que ando meio ocupado, portanto espero perdão por minhas faltas. Abraços!


ODE À PASÁRGADA

revoa
no espaço
o pássaro
que dá
bandeira

reina
a poesia
nas asas
rumo
à pasárgada


(Cris de Souza)
   

sábado, 21 de maio de 2011

Bandeira por Paulo Autran

Paulo Autran em pleno estado de ereção poética recita "Profundamente" de Manoel Bandeira, sob trilha de Clint Mansell:

    

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

CONFRONTOS E CONFLUÊNCIAS

Como estou com pouco tempo, hoje o Confrontos e Confluência vai e vem de trem. Escolha o seu maquinista e divirta-se! Créditos para imagem de Kleves Gomes.

TREM DE ALAGOAS
(Ascenso Ferreira)

O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.

— Adeus!
— Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

— Adeus morena do cabelo cacheado!

Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Na boca da mata
ha furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe...
No entanto avistamos
bem perto outro mar...

Danou-se ! Se move,
se arqueia, faz onda...
Que nada ! É um partido
já bom de cortar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Cana caiana,
cana rôxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

— Adeus morena do cabelo cacheado!

— Ali dorme o Pai-da-Matta!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...


TREM DE FERRO
(Manuel Bandeira)

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo 
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
    

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Gazal em Louvor de Hafiz

Escuta o Gazal que fiz,
Darling en louvor de hafiz:

Poeta de chiraz, teu verso
Tuas mágoas e as minhas diz.

Pois no mistério do mundo
Também me sinto infeliz.

Falaste "Amarei constante
Aquela que não me quis".

E as filhas de Samarcanda,
Camaleiros e sufis.

Ainda repetem os cantos
Em que choras e sorris

As bem-amadas ingratas,
São pó; tu, vives, hafiz !!!

Manoel Bandeira



Hafiz criou uma poesia cristalina, sobre o amor divino sexual. Por mais de 50 anos escreveu movido pela inspiração divina, porém muitos dos seus 500 gazéis** cantam a riqueza e a beleza de Shakh-e Nabat, que ocupa em sua obra o mesmo lugar que Laura de Petrarca. Além de ser poeta da corte de Abu Ishak e depois do xá Shuja, Hafiz foi um mestre divino. Seus conhecimentos religiosos estão embutidos em seu nome de esctitor: Hafiz indica aquele que memorizou o Corão. De uma grande tradição poética Lírica expressa em sua obra, celebrou interligações entre o erótico e o espiritual.

Matthew Sperling

OBS: ** Os gazéis de Hafiz", um corajoso trabalho de tradução de Aurélio Buarque de Hollanda, publicado em 1944 pela Livraria José Olympio Editora. A tiragem foi de 200 exemplares numerados.Raríssimos volumes. Possivelmente Bandeira foi dono de um desses.


Rerência:

501 GRANDES escritores.Rio de Janeiro: Sextante, 2009. 640 p.: il.

CANTO Caracol.blogspot. Acesso em: 23 04 2010

sábado, 26 de setembro de 2009

MADRIGAL MELANCÓLICO - Manuel Bandeira

O que eu adoro em ti
Não é sua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza
O que adoro em ti lastima-me e consola-me
O que eu adoro em ti é A VIDA !!!