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sábado, novembro 03, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - JACQUES PRÉVERT (2)


Ainda o "Para fazer o retrato de um pássaro"

Caro Poeta,

Cumprimentos. Este meu novo contacto é só para informar que já sei quem é o autor da tradução que lhe mandei. Como não fiquei satisfeito, e como de vez em quando sou persistente (para não dizer teimoso), resolvi investigar, até porque me lembrava muito vagamente de o ter visto publicado. E era verdade! A tradução é do Eugénio de Andrade, publicada pela primeira vez na revista
Vértice e depois em 1980 no livro de traduções com o título "Trocar de Rosa". Nele constam dois poemas do Prévert. O outro é o "Bairro Livre", cortado pela censura e que transcrevo abaixo.


BAIRRO LIVRE

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.


Renovo cumprimentos
Amílcar Mendes


quinta-feira, setembro 20, 2007

Poesia & Lda, feito pelos seus leitores - JACQUES PRÉVERT


“Caro Dr., perdão, poeta,

Os meus cumprimentos. Parabéns pelo seu blog
Poesia & Lda do qual sou um habitual e atento frequentador. Aliás já me tenho socorrido dele para as minhas dizeduras por aí. Espero que não mo proíba! A razão do meu contacto é o poema do JACQUES PRÉVERT. Tenho comigo o livro "Poemas" onde consta o original e a tradução de Silviano Santiago. Tenho também comigo há já alguns anos uma outra tradução da qual não sei o autor, pois chegou-me sem essa indicação. Alguém me disse há tempos que seria do Assis Pacheco, do que duvido. Tenho também uma outra que consegui recentemente no sítio www.tanto.com.br/ronaldo é que do Carlos Drummond de Andrade. Na minha modesta opinião de simples leitor, qualquer destas duas está mais bem conseguida que a do Silviano. Sem querer roubar-lhe muito tempo, permito-me enviar o original e as traduções. Faça delas o que entender por bem (…).

Cumprimentos,
Amílcar Mendes




POUR FAIRE LE PORTAIT D'UN OISEAU

A Elsa Henriquez

Peindre d’abord une cage
avec une porte ouverte
pendre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d’utile
pour l’oiseau
placer ensuite la toile contre une arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l’arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l’oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pás le décourager
attendre
attendre s’il le faut pendant des années
n’ayant accun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l’oiseau arrive
s’il arrive
observer le plus profond silence
attrendre que l’oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un a un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes
de l’oiseau
Faire ensuite le portrait de l’arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l’oiseau
peindre aussi
le vert feuillage et la fraîcher du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêttes de l’herbe dans la chaleur de l’été
et puis attendre que l’oiseau se decide à chanter
Si l’oiseau ne chate pás
c’est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s’il chante c’est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l’oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau


§


PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro


§


COMO PINTAR UM PÁSSARO

Tradução-Homenagem: Carlos Drummond de Andrade

Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvores
em dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro."




segunda-feira, setembro 03, 2007

JACQUES PRÉVERT

JACQUES PRÉVERT (Neuilly-sur-Seine, 1900 - Omonville-la-Petite, 1977) foi, entre outros ofícios, poeta, argumentista (de películas dirigidas por Jean Renoir e Marcel Carné, entre outros), letrista (de canções interpretadas por artistas como Juliette Gréco ou Yves Montand), tendo-se popularizado nestas duas artes ainda antes de ser conhecido como poeta. O seu primeiro livro de versos foi um sucesso de vendas e um fracasso de crítica. A editora francesa Gallimard, actual responsável pela reedição da obra poética de Prévert, recusou o seu primeiro livro “Paroles”, na pessoa de Jean Paulhan, com o argumento de que considerava os seus versos quotidianos “repugnantes”. Instigado por Henri Michaux (Namur, Bélgica, 1899 – Paris, 1984), Prévert cedo havia abraçado o surrealismo, no caso concreto, como se verá, com a dose certa de sarcasmo, absurdo e humor. A fotografia que ilustra este post é disso mesmo testemunho. Os poemas que se seguem foram retirados do livro "Poemas de Jacques Prévert”, edição Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2000), numa selecção e tradução de Silviano Santiago. Alguma sensação de estranheza que possa resultar, para o leitor português, da leitura deste ou daquele verso, nesta tradução para português do Brasil, é abundantemente suplantada pela informadíssima introdução e avisada selecção operadas por Silviano Santiago, a quem passo a roubar, com a devida vénia, estas três traduções. A primeira, devolve-me à memória certas telas de René Magritte; a segunda, certos poemas de Daniil Harms. Isto anda realmente tudo ligado.




PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


de “Paroles” (1945)


§


A PESCA DA BALEIA


À pesca da baleia, à pesca da baleia,
Dizia o pai com voz colérica
Ao seu filho Próspero, deitado ao lado do armário,
À pesca da baleia, à pesca da baleia,
Você não quer ir,
E por quê posso saber?
E por que irei, papai, pescar
Um animal que não me fez nada,
Vá velho, vá você mesmo pescá-la,
se isso lhe dá tanto prazer,
Prefiro ficar em casa com minha pobre mãe
E o primo Gastão.
Então na sua baleeira sozinho o pai se foi
Pelo mar encapelado…
Eis o pai no mar,
Eis o filho em casa,
Eis a baleia enraivecida,
E eis o primo Gastão que vira a sopeira,
A sopeira com caldo.
O mar estava bravo
A sopa estava boa.
E eis que Próspero sentado se entristece:
À pesca da baleia não fui
E por que não fui?
Talvez a gente a tivesse arpoado,
E então teria sido possível comê-la.
Mas eis que a porta se abre e, escorrendo água,
O pai aparece sem fôlego,
Trazendo a baleia às costas.
Joga o animal na mesa, uma bela baleia de olhos azuis,
Um animal como raramente se vê,
E diz com voz queixosa:
Depressa, vamos esquartejá-la,
Tenho fome, tenho sede, quero comer.
Mas eis que Próspero se levanta,
Olhando o pai no branco dos olhos,
No branco dos olhos azuis de seu pai,
Azuis como os da baleia de olhos azuis
E por que vou esquartejar um pobre animal que nada me fez?
Azar o meu, desisto da minha parte.
Depois joga a faca no chão
Mas a baleia pega da faca e, arremessando-se contra o pai,
Fura-o de um pai ao outro.
Ah, ah, diz o primo Gastão,
Isso me lembra a caça, a caça das borboletas.
E eis
Eis que Próspero que redige o aviso fúnebre,
A mãe que fica de luto pelo pobre marido
E a baleia com lágrimas nos olhos, contemplando o lar destruído,
grita de repente:
Por que matei esse pobre imbecil,
Agora os outros vão me caçar numa motogodile
E depois vão exterminar todos os meus.
Então, soltando uma gargalhada inquietante,
Caminha para a porta e diz
Casualmente à viúva:
Ó dona, se alguém me procurar,
Seja gentil e responda:
A baleia saiu,
Queira sentar
E esperar,
Dentro de uns quinze anos talvez esteja de volta…


de “Paroles” (1945)


§


E DEUS EXPULSOU ADÃO…


E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra

E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóscele e sagrado
um biângulo isopicante brilhava
e eclipsava o outro.


de “Histoires” (1963)



§


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