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sábado, agosto 28, 2021

EM TERRA ESTRANHA, um poema de Joanyr de Oliveira

John Martin


 EM TERRA ESTRANHA


Meus dias de menino não viram estes mares,

estes portos, estas frias naves

regidas por palavras de pedra.

Mas, desde os tempos submersos,

bem antes do tempo do homem,

a doce Mão passeia sobre todas as águas.

As jornadas de moço venciam as distâncias

em outros meridianos. Campinas mais vivas

sustentavam o amplo voo dos pássaros.

Mas, as pisadas do Senhor se multiplicam

em favor de todas as veredas humanas.


Os cânticos de minha igreja, de minha terra,

nascem de corações muito maiores!

Há mel e sorriso nos verbos de meu povo,

o calor dos abraços é um mar vastíssimo.

Mas, o Deus de todas as gentes habita

o sem-fim dos quadrantes, beijando-nos!


Existe um país acima das montanhas,

sobre todos os caminhos e vertentes.

Sobre todas as saudades e o peso da nostalgia.

Sobre todas as raças e o desamor das fronteiras.

Lá estarão os que colhem sementes

no sorriso estrangeiro onde suspiros se apagam,

no voo nascido da destra de Deus.


Lá estaremos, os de todas as terras da Terra,

revestidos pelo brilho do Altíssimo.


(Anaheim, EUA, 1990)


terça-feira, janeiro 13, 2015

Dois poemas de Joanyr de Oliveira


O VENCEDOR
Naquela noite em BH, quando o Espírito de Deus
visitou-me de modo memorável,
eu — quase cego — tinha as pontas dos dedos
nas tensas cordas
de uma harpa de vento.

Eu tateava imperiosas trevas
com idade de séculos e milênios...
A Deus clamei, ante as janelas apagadas
a negar-me as paisagens e rostos.
Tudo estava brumoso, mas — como sempre —
a fulgurância divina é que triunfa — e ela veio
e de leve beijou-me a ferida retina.
O Sol de Deus fez-me ver — e conferir—
quem é mesmo sobre todas as coisas,
quem é mesmo de todos o maior
nos céus e na Terra...

AUTO-EXEGESE
O poeta é assim: vai construindo.

Material leve e sem corpo
brota dos canteiros do pensamento.

Moeda não é preciso, nem estudo
de viabilidade. Tudo é viável.
Uma pedra amanhece flor ou pássaro,
o vôo, um sopro de silêncios.
Um féretro matinal pode ser
nada estático ou enfático -
mas compor tênue mancha
a brincar nos ombros da paisagem.

O poeta é assim: surpreende e cala-se. 
Vai abrindo subterrâneos 
nas carnes do nada. Percorre-se 
mesmo enraizado a grutas e argilas. 
(Vem sempre uma criança de luz 
na mãos que navegam o poema.)

O poeta é assim: ninguém lhe traduz 
o rosto a equilibrar o infinito.
Bebendo as veias do mundo,
mastiga as metáforas verdes
e as que se abrem ao beijo da solidão.

Só os anjos amam seu instável idioma. 
O poeta é assim...

Curta a página dedicada ao poeta no Facebook:

quinta-feira, maio 23, 2013

Página no Facebook dedicada à obra de Joanyr de Oliveira


Foi criada, na rede social Facebook, uma página dedicada à publicação dos poemas do grande e saudoso poeta e pastor Joanyr de Oliveira (1933 - 2009). A belíssima página está a cargo de seu filho, o pastor Judson Oliveira. 
Além de suas múltiplas atividades e talentos, Joanyr foi desde sempre um grande incentivador da poesia e dos poetas evangélicos.

Curta a página e acompanhe as publicações: http://www.facebook.com/pages/Joanyr-de-Oliveira/350348548408399?fref=ts

Aproveitamos para publicar dois poemas de Joanyr:

MANIFESTO

Poetas de todos os sonhos, uni-vos!
Nas folhas do silêncio e do verbo
editai as fisionomias do amor,
entrelaçai vossas metáforas.
Dai e recebei vossas mãos
trêmulas sob o peso do universo,
das lágrimas gotejadas pelos milênios,
dos que mataram a vida
amoldada pelos dedos de Deus.

Dizei às flores o vosso segredo
quando no anverso das coisas caminhais.

Uni-vos contra as foices sorrateiras
e degoladoras do vento, contra os martelos
que pisam sobre a harmonia dos homens,
contra os cifrões obesos e hipócritas.

Poetas de todos os planos, uni-vos,
estendei vossos braços até o infinito:
trazei de volta a Eternidade
pelos condutos de vosso sangue.
Urge casar o Belo de vosso canto perfeito
e a perfeita canção do caminho de Deus.
Escolhei a palavra madura
e a beijai ritualmente.

Poetas de todos os sonos, erguei
Dos submundos doentios
As águas da morte e com um olhar
Transformai tudo em poesia!
Acariciai com o verso mais sereno
Os que não sabem sorrir,
Os meninos amarelos, nus e esquecidos,
Os preclaros donos das guerras do mundo,
Os promulgadores de injustiças.
A estes avisai, poetas,
que sobre a inocência de seus netos futuros
pisarão os implacáveis corcéis da morte.

Poetas, uni-vos nas alamedas do amor
e jorrai vossos soluços unânimes,
porque os relógios do pânico
não dormem – com as bombas, não dormem –
com os terremotos grávidos de ira.
As potestades subterrâneas
apontam agora a última noite.

Urge convocar, poetas, as margens dos oceanos,
os pilotos, os timoneiros, os chefes austeros,
os sepulcros, os golfos solitários,
os mendigos, as meretrizes,
os humilhados pelos fortes, os tripudiadores,
os loucos de todo o gênero, os bastardos,
os reis sem trono, os tímidos, os assassinos,
os leprosos que se casaram com as trevas,
os natimortos, os desesperados sem remédio,
os sonhadores incorrigíveis, os sem honra,
os avarentos, os santos do Senhor de todas as terras,
os calmos viventes e os moribundos.

Porque, poetas, bem perto se anuncia
a última noite. E o ranger de dentes
e o pranto pousarão sobre as coisas e as frontes.
O Dia Eterno abrirá puríssimas asas
sobre as vestes vestidas de branco.
Poetas, emigrai dos sonos e dos sonhos
e cantai como espada e trombeta
as cores iluminadas do Amanhã.
(11/07/1977)

Poema lido pelo autor durante o I Encontro Nacional de Poetas Evangélicos - Rio de Janeiro, 24 de Julho de 1977.




MÃOS CONTEMPLADAS

As mãos tecem o poema.
O roteiro ignoram
de sua tessitura.
As mãos sempre insones
em conchas misteriosas.

A humildade é a sua glória.
Podem os olhos rutilar
navegando no papel;
pode o sorriso vir
luminoso, à doçura
do cantante estribilho.

As mãos se limitam
ao silêncio e ao labor,
à mudez de um oficio.
Eis o seu ministério:
a penosa colheita.

As mãos transitam
entre as margens e a sede:
o papel as contempla.
Os conceitos e sonhos
seguirão os astros
e os caminhos da terra.
As mãos desconhecem
o sabor perenal
de suas muitas palavras.

(Lisboa / São Paulo, 13.7.98)

sexta-feira, novembro 18, 2011

Documento histórico: Carta Origem da Antologia da Nova Poesia Evangélica


(clique na imagem para ampliar)

Carta do poeta Joanyr de Oliveira, de Fevereiro de 1974, ao poeta João Tomaz Parreira, na qual se começava a estruturar o sonho de uma Antologia para divulgar a Nova Poesia Evangélica, distante dos versos passadistas; estava a nascer a Antologia da Nova Poesia Evangélica que a CPAD editou em 1977.
Hoje, passados quase dois anos da morte e partida para a Glória do poeta Joanyr de Oliveira, e para que não haja reivindicações de última hora  no que concerne ao trabalho histórico do insigne poeta na área da Poesia Evangélica, é frutuoso saber que há documentação, em nosso arquivo, documentos escritos epistolares entre JO e outros poetas, sobretudo lusitanos, como Clélia Mendes, Brissos Lino, Samuel Pinheiro e J.T.Parreira, que são fontes da História da Nova Poesia Evangélica em língua portuguesa.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Encontro com o poeta Rui Miguel Duarte



No dia 18 deste mês estive no luminoso bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, para um breve encontro com o irmão, poeta e professor lusitano Rui Miguel Duarte. Rui é formado em Línguas e Literatura Clássicas, e esteve no Rio para participar do XVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos. 


Na ocasião, tive a honra de ser presenteado com três pequenos tesouros poéticos: O livro Muta Vox, do próprio Rui, que reúne a fina produção do autor; o livro Encomenda a Stravisnky, primorosa edição bilíngue (português - espanhol) de nosso mestre J.T.Parreira; e a oportuna antologia Nada Onde Pousar o Sonho, iniciativa do Desafio Miquéias de Portugal, congregando a obra de onze poetas evangélicos portugueses, livro com design gráfico digno de nota (ao estilo livro antigo, vide imagem).

Meus abraços fraternais ao Rui, agradecido pela felicidade de poder continuar estreitando os laços que unem poetas evangélicos de Brasil e Portugal, tradição que remonta ao tempo do saudoso poeta Joanyr de Oliveira, quando, em sua coluna na Revista A Seara (na década de setenta do século passado), mantinha já profícuo intercâmbio com bardos lusitanos como J.T.Parreira e Brissos Lino, dentre outros.

A poesia evangélica segue cumprindo sua função de evangelizar, edificar e promover a unidade do grande corpo de Cristo!

quarta-feira, outubro 12, 2011

Dois poemas de Joanyr de Oliveira


Diego Rivera: Construção do Palácio de Cortéz (detalhe)


ESCONDO-ME


Escondo-me de Hernán Cortez
(como os astecas: súditos e reis),
dos bacamartes de Espanha
que emergiram sorrateiros.


Escondo-me da fome de esmeraldas
que bebeu rios de sangue
nas veredas do Anhanguera.


Com os escravos brancos
daquelas guerras antigas,
com os cativos soluçantes
(ah, os zonzos navios negreiros),
vou estendendo meu grito
nos subterrâneos do dia.
Com os pássaros enlouquecidos
e os nativos do sul,
escondo-me de corpo inteiro
- antes da vinda do Sol –
da ordem unida dos “marines”,
e das nuvens de napalm
a apunhalar as alturas,
e das nuvens de napalm
a incendiar o galope
dos meninos amarelos.
Escondo-me dos tanques vermelhos,
com a grande estrela do pânico,
nos brancos portais de Praga.


Escondo-me das mãos
que mataram as canções longas
do poeta Federico,
das baionetas noturnas
que assustaram toda a ilha
e os sóis de Pablo Neruda.


Escondo-me das mãos ainda
que escrevem com cassetetes
a suja palavra: “apartheid”.


Escondo-me dos que me exilarão
de itinerários antigos,
se barrigas indiscretas
roncam seu pleno vazio
e os roncos fendem meu sono.


Escondo-me com meus irmãos
dos loucos tecelões da noite.




Quase à Guisa de Bertold Brecht


Os donos da indústria bélica
louvam a destreza das máquinas
em seus partos desvairados
de canhões, morteiros, bombas,
fuzis, metralhas e lâminas
nos campos da guerra.

Aplaudem os genocídios,
freneticamente. Brindam à saúde
de suas contas bancárias.
Os donos da indústria bélica,
sem olhos para os órfãos,
sem tímpanos sensíveis
ao clamor lancinante
das noivas e viúvas.

Os donos da indústria bélica,
parceiros de corvos, de abutres,
brindam ao regozijo das trevas
nos campos de batalha,
a sorver na mais funda sofreguidão

o sangue dos mortos.


in Tempo de Ceifar (Thesaurus Editora, 2002)

domingo, dezembro 12, 2010

UM POUCO DE POESIA À SOMBRA DO GÓLGOTA

.

Jefferson Magno Costa 


     O nascimento, o ministério, os ensinamentos, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo constituem o alicerce do cristianismo. Cristo não foi um líder a mais a fundar uma religião, mas o único que, com o seu sangue derramado na cruz do Calvário, abriu para a humanidade o único caminho que conduz ao Céu.

     No decorrer de quase dois mil anos, o cristianismo tem inspirado inumeráveis obras literárias. Por não querer cometer o pecado da prolixidade, reuni aqui tão-somente quatro poemas sobre o significado da morte de Jesus. 

     Dois deles foram escritos por poetas com quem eu tive o privilégio de conviver (Joanyr de Oliveira e Gióia Junior), servos de Deus que já partiram para encontrar-se com o Senhor Jesus, que lhes havia inspirado os mais belos poemas. Foram convocados para participar do encontro de poetas que já tem data marcada para acontecer no Céu, sob a liderança do sublime e inspiradíssimo salmista Davi. Esse é o encontro que eu jamais quero perder. 

     Entre esses poemas, inclui um soneto que escrevi em 1986 (naquela época, com vinte e poucos anos, eu era ingênuo o suficiente para cometer este e outros atentados contra a poesia).




SENHOR, EU VEJO

Joanyr de Oliveira



Com alguns pregos

trêmulos e um madeiro

pesado de angústias

e remorsos futuros
feriram-te, Cristo.
Hoje, Senhor, eu vejo.



Todo o peso do inferno

e a humana culpa

sobre ti desabaram

na extrema hora
da amarga colheita.
(Mas de plena vitória
sobre os braços da morte.) 
Hoje, Senhor, eu vejo.



E eu lá estava, Jesus,

nessa carga de fel

e de agudo silêncio.

Teus olhos em sangue
sobre mim pousaram.
As gotas da fronte
apagaram abismos
de minhas trevas.
Hoje, Senhor eu vejo.



Vera vida brotou

de tua morte, Cristo.

E as colunas da noite

mergulhadas em pânico
gotejaram seu medo.
Mesmo os céus rasgaram
as cortinas do azul.
Em teu corpo moído
as máguas e as dores
deste mundo insano,
deste mundo em pântanos,
deste mundo infame.
Hoje, Senhor, eu vejo.




RECONQUISTA UNIVERSAL NO GÓLGOTA

Jefferson Magno Costa



Prego e carne,

têmpora e espinho,

lábios, sede

e sangue



soerguidos em cruz:

por entre pedras,

trapos de véu,

tremores



e túmulos iluminados,

rasgam um caminho,

vertical e límpido.



Equilibram, pesam

e compram

horizontes reencontrados.




A GRANDEZA DO AMOR DIVINO

José de Abreu Albano



Amar é desejar o sofrimento,

E contentar-se só de ter sofrido,

Sem um suspiro vão, sem um gemido,

No mal mais doloroso e mais cruento.



É viver desta vida tão isento

E neste mundo enfim tão esquecido,

É por o seu cuidar num só sentido,

E todo o seu sentir num só tormento.



É viver qual humilde carpinteiro,

De rudes pescadores rodeado,

Caminhando ao suplício derradeiro.



É viver sem carinho nem agrado,

E ser enfim vendido por dinheiro,

E entre ladrões, morrer crucificado.




ENCONTRO

Gióia Júnior



No espaço

sem luz

um traço

seduz.



Reduz

cansaço,

conduz

meus passos.



E avisto

o espaço

em luz. 



– É Cristo

nos braços

da cruz!

Visite o blog do Pastor Jefferson: http://jeffersonmagnocosta.blogspot.com/

domingo, junho 20, 2010

VOZES CELESTIAIS DA POESIA CRISTÃ DE LÍNGUA PORTUGUESA I - Jefferson Magno Costa

*

Jefferson Magno Costa

CANTO SOBRE AS ÁGUAS DA ILHA
José Santiago Naud

 

Eu, poeta, profeta, biógrafo de Jesus Cristo,
João,
Quero dizer aos homens
Como o mar se espraia na ilha,
E é linda a moldura do céu sobre os rochedos.

Eu, solitário, homem hebreu, peregrino,
Boanerges,
Quero contar às mulheres
Como o trovão é doce,
E é delícia o caminho que o raio traça nos céus.


Eu, habitante de Patmos, homem ancião, vidente,
Apóstolo,
Quero suplicar às crianças
Como as crianças são,
E pedir-lhes a conservação de sua humildade sem véus.


Eu que sou todos, dentro do amor que sofro,
E sou sábio, sob a luz do Paracleto,
E sou santo, pelo sangue de Cristo,
Quero dizer que não vos desespereis,
Homens de rede sem peixe,
E que compreendais o vento,
navegantes sem rumo,
E que vos perdoo doentes,
ao me arrancardes da ilha,
Para que gema convosco.


Eu, João Boanerges Apóstolo, biógrafo
de Jesus Cristo.



CANTARES VII
(Filha do Rei)
Joanyr de Oliveira


Os teus passos, filha do Rei,
acariciam a face translúcida
do dia; os caminhos, os campos.



Teu andar se harmoniza
com o mar e os pássaros,
em louvações perfeitas.

O imaculado corpo, teu corpo,
Estende-se ao longo da paisagem,
bendizendo os ofícios do Sol.


Nas têmporas do monte,
teus olhos equilibram as águas
construídas em meigo azul.


Ramos ataviam as alturas.
A cabeça nívea, serena.
A cabeleira flutuante no tempo.

O esquio porte, de palmeira.
Espargem teus cachos na Terra
taças de unções indizíveis.

Tens aroma – que estremecem e inebriam
as várias colunas da noite,
porque beijas o soluço e a dor

e os transmudas em flores.
Bem-aventurados teus filhos,
ó vero amor de delícias!

Sobre as piscinas de Hesbom,
deslizando as saudades antigas,
mosto de romãs, perfumes.

Bem-aventuradas tuas sandálias
sob a altiva torre do Líbano
e as frontes iluminadas do Eterno!


    No dia em que o primeiro homem ergueu o seu olhar para o céu e entoou um hino de louvor e agradecimento a Deus, nasceu a Poesia Religiosa. Era a mais bela e sublime poesia jamais brotada de lábios humanos. Depois Abel ofereceu a Deus as primícias dos seus rebanhos, acompanhadas de orações tão puras quanto o seu coração; os patriarcas registraram o relato de suas grandiosas peregrinações, os cânticos de Moisés e os Salmos de Davi foram ouvidos, e a harpa sagrada dos profetas ressoou, revelando os desígnios de Deus e inundando de beleza e majestade as páginas da Bíblia.
    Trazer uma mensagem nova (as Boas Novas) em linguagem contemporânea sem perder, contudo, o tom grandioso, inspirado e ungido dos poetas bíblicos, deve ser o objetivo de todos os que almejam propagar e enaltecer o nome de Cristo através da poesia evangélica.
    Os poetas evangélicos José Santiago Naud e Joanyr de Oliveira conseguiram alcançar em seus poemas um alto nível técnico e inspiracional.
    Há no poema de José Santiago Naud, Canto sobre as águas da ilha, uma tonalidade de céu e mar, uma amplitude e um ritmo que o aproxima da grandiosidade de muitas passagens bíblicas - aquele mesmo tom majestoso e grandiloquente que caracterizou o estilo do profeta Isaías e do apóstolo João.
    Há no poema de Joanyr de Oliveira, Filha do Rei, uma cadência suave, um fluir musical que nos faz lembrar o próprio caminhar leve e majestoso de princesa. Joanyr debruçou-se sobre a mesma fonte lírica (as pessoas, os costumes e a geografia da Palestina) de onde Salomão retirou os substratos para escrever o livro de Cantares (o  Cântico dos Cânticos).
    Mar, pássaros e campos se entremesclam com palmeiras, sandálias, piscinas de Hesbom e torres do Líbano. Joanyr (o meu grande amigo e confrade Joanyr, ex-companheiro de trabalho e um dos nossos maiores modelos de poeta exímio, que em dezembro último
partiu para encontrar-se e viver eternamente na companhia do Rei dos reis, e a quem estou devendo uma crônica neste blog) alcança uma plenitude lírica que o aproxima do gigantesco e universal poeta chileno Pablo Neruda, um dos cinco maiores poetas modernos da América Latina.
    No seu poema O Cântico Repartido (como em grande parte de sua vasta obra poética), Neruda usa elementos líricos extraídos da geografia de seu país. Eis um pequeno trecho do seu poema como exemplo:


Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.

A cordilheira branca.
O mar cor de selva.

Regressei de minhas viagens com novos orvalhos.
E o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu depus os dons
que recolhi no mundo.

Eu regressei repleto
de uvas e cereais.

 

    Que os poetas evangélicos da atualidade acumulem uma atenta e vasta leitura das obras dos grandes poetas da língua portuguesa e de outras línguas, nomes que encabeçam as diversas listas de autores das literaturas antigas e modernas. 
    Que os poetas evangélicos não escrevam os seus poemas tão-somente impulsionados pela inspiração. Que sejam artesãos da palavra, operários habilidosos no difícil ofício de escrever poemas. Que conheçam e façam uso dos diversos recursos técnicos com os quais podem aprimorar suas composições.  
    Que sejam dotados de uma ampla perspectiva temático-poética, para que possam expressar poeticamente os temas de interesse do povo evangélico (fé, amor, gratidão a Deus, desafios existenciais, atitude diante da morte, esperança de vida eterna, e outros), e não meros poetas voltados para si mesmos, que só sabem expressar mediocremente suas frustrações, mágoas, dor de cotovelo. 
    Que tenham consciência de que escrever poemas é uma arte, e ser verdadeiramente um poeta evangélico é uma honra, um imenso compromisso assumido diante de Deus. Um ministério. 
    Portanto, meu conselho aos poetas evangélicos da atualidade é que não escrevam seus poemas confiantes e tão-somente movidos pela inspiração. Pois o produto final desta não passa, muitas vezes, de um atestado de incultura.

Jefferson Magno Costa
Visite o blog do autor:  http://jeffersonmagnocosta.blogspot.com/
 

domingo, fevereiro 14, 2010

MANIFESTO - Poema de Joanyr de Oliveira

*


MANIFESTO



Poetas de todos os sonhos, uni-vos!
Nas folhas do silêncio e do verbo
editai as fisionomias do amor,
entrelaçai vossas metáforas.
Dai e recebei vossas mãos
trêmulas sob o peso do universo,
das lágrimas gotejadas pelos milênios,
dos que mataram a vida
amoldada pelos dedos de Deus.


Dizei às flores o vosso segredo
quando no anverso das coisas caminhais.


Uni-vos contra as foices sorrateiras
e degoladoras do vento, contra os martelos
que pisam sobre a harmonia dos homens,
contra os cifrões obesos e hipócritas.


Poetas de todos os planos, uni-vos,
estendei vossos braços até o infinito:
trazei de volta a Eternidade
pelos condutos de vosso sangue.
Urge casar o Belo de vosso canto perfeito
e a perfeita canção do caminho de Deus.
Escolhei a palavra madura
e a beijai ritualmente.


Poetas de todos os sonos, erguei
Dos submundos doentios
As águas da morte e com um olhar
Transformai tudo em poesia!
Acariciai com o verso mais sereno
Os que não sabem sorrir,
Os meninos amarelos, nus e esquecidos,
Os preclaros donos das guerras do mundo,
Os promulgadores de injustiças.
A estes avisai, poetas,
que sobre a inocência de seus netos futuros
pisarão os implacáveis corcéis da morte.


Poetas, uni-vos nas alamedas do amor
e jorrai vossos soluços unânimes,
porque os relógios do pânico
não dormem – com as bombas, não dormem –
com os terremotos grávidos de ira.
As potestades subterrâneas
apontam agora a última noite.


Urge convocar, poetas, as margens dos oceanos,
os pilotos, os timoneiros, os chefes austeros,
os sepulcros, os golfos solitários,
os mendigos, as meretrizes,
os humilhados pelos fortes, os tripudiadores,
os loucos de todo o gênero, os bastardos,
os reis sem trono, os tímidos, os assassinos,
os leprosos que se casaram com as trevas,
os natimortos, os desesperados sem remédio,
os sonhadores incorrigíveis, os sem honra,
os avarentos, os santos do Senhor de todas as terras,
os calmos viventes e os moribundos.


Porque, poetas, bem perto se anuncia
a última noite. E o ranger de dentes
e o pranto pousarão sobre as coisas e as frontes.
O Dia Eterno abrirá puríssimas asas
sobre as vestes vestidas de branco.
Poetas, emigrai dos sonos e dos sonhos
e cantai como espada e trombeta
as cores iluminadas do Amanhã.
(11/07/1977)


Poema lido pelo autor durante o I Encontro Nacional de Poetas Evangélicos - Rio de Janeiro, 24 de Julho de 1977.

In Antologia da Nova Poesia Evangélica (CPAD, 1977)

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