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sábado, fevereiro 03, 2024

IBGE contrapõe número de templos religiosos à de hospitais/escolas, e expõe seu preconceito institucional

  

 O título da imagem acima é um chamariz. Utiliza a burla do ridículo e do óbvio para atrair.

Outra burla, igualmente obscena, tem sido utilizada pelo órgão oficial, e reproduzida por entes de imprensa e pessoas por todo o pais, na última semana. Ela, a burla, soa literalmente assim:

Brasil possui mais templos religiosos do que escolas e hospitais somados.

Você eventualmente deve ter visto essa "notícia", em suas redes sociais ou sites noticiosos.

O preconceito aqui é axiológico, nasce com a expressão, o próprio "raciocínio" que ela promove.

Religião é coisa de foro íntimo, particular. Templos religiosos, do terreiro de candomblé ao templo budista, passando pelo motivo velado fundamental do ódio, os templos evangélicos, são erigidos com o dinheiro dos fiéis, ou de seus idealizadores. Sim, muitos templos sequer "se pagam", e aquele que os mantém o faz por fé. Outros sim, excedem-se no lucro, e malversam algo que deveria ser sagrado. Mas em ambos, em todos esses âmbitos, eu e você, que dirá o poder público, temos pouco ou nada a ver com isso. 

Já escolas e hospitais dizem respeito a todos, pois são pagos com impostos. Seus gestores, funcionários públicos em sua maioria, estão a serviço da sociedade e por esta remunerados. Perdão, sei que essa pedagogia chega a ser ultrajante. Mas é para dar a dimensão da situação a que chegamos.

Como comparar a esfera particular com a esfera pública? Qual a relação que se busca promover ao comparar a existência de templos religiosos com a de escolas e hospitais? Fica implícito o caráter maniqueísta, de contrapor algo "positivo" a algo "negativo"; ou necessário/desnecessário, ou qualquer outra maniqueismada que se queira.

Vamos deitar um outro vestido ao raciocínio. Você viu alguma postagem ou reportagem (já não são a mesma coisa, diluídas na sopa de ideologias espúrias de seus veiculadores, uns pagos e diplomados, outros entusiastas de sofá?), sim, você viu por acaso reportagem ou postagem (que dirá recenseamento), seja do próprio IBGE, da Folha, de seu primo ateu, de seu professor marxista, nesta linha:


BRASIL TEM MAIS BARES DO QUE ECOLAS E HOSPITAIS


Viu?

Falo agora aos evangélicos. Já é tempo de levantar do canto do ringue e combater o preconceito aberto e velado que muitos vomitam ou excretam sobre nós, dia após dia. O comentário judicioso no grupo de família, escola, trabalho; a postagem tendenciosa do amigo, dO Globo ou do IBGE; o olhar repetidamente atravessado (foco no repetitivo, é sintomático) em qualquer ambiente, da empresa aos coletivos...

Eu costumo aplicar um método desconstrutivo para explicitar o preconceito das falas, preconceito que mal conseguem esconder. O truque, quase socrático em sua rusticidade, consiste na simples substituição de palavras e expressões.

Quando ouvir: "Pastor é tudo ladrão" (vários o são, conheci alguns pessoalmente) troque o "pastor" por "preto", e pergunte à pessoa se ela concorda com a mudança. "Preto é tudo ladrão". Dá até cadeia, hum? Sim, e muito justificadamente. Mas o que muitos não sabem ou não querem fazer valer é que o primeiro comentário e congêneres também. Para o bom funcionamento (e exposição do preconceituoso) vale qualquer substituição, por opção sexual (gay, lésbica, hétero, etc.), por etnia, classe profissional, nacionalidade. A ideia é a de que, quando atingida, a pessoa reflita sobre a própria intolerância que, acredite, muitas vezes é semi-voluntária e segue o abjeto padrão mental do pre-conceito: Economia mental, esforço simplificador para não esforçar-se em raciocinar, em pensar por si mesmo. Sem desconsiderar o ódio gratuito ou pago, mas execute a manobra ao rigor da Lei: presuma inocência.

Além da antiga Lei que protege a liberdade de culto - e o respeito à fé alheia, há poucos dias se comemorou o Dia de Combate à Intolerância Religiosa, firmado pela Lei 11635/07. Tal lei ou data surgiu num contexto de proteção aos cultos de matriz africana, que têm sofrido preconceito histórico, desde sua introdução (ou criação, no caso da umbanda) em nosso país. Mas a primeira Lei não protege apenas estes, assim como a segunda não visibiliza apenas a sua causa. Toda intolerância religiosa deve ser judicializada. E judicializar, você sabe, segue o mesmo processo: Gravam-se falas, "printam-se" comentários, arregimentam-se testemunhas. 

Emitir opinião contrária não é crime. A intolerância se mostra quando os termos são agressivos, quando o ódio vaza do canto das bocas, quando o padrão se repete.

O mal se combate em campo. Tomemos a iniciativa, pois a bovinidade só interessa aos açougueiros, aos carrascos. 


Sammis Reachers

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Publicado originalmente no blog Cidadania Evangélica. A reprodução deste texto é liberada em qualquer meio e plataforma, desde que creditada a fonte.


terça-feira, maio 10, 2022

JESUS, O NOSSO DEUS MISSIONÁRIO, artigo de Jefferson Magno Costa


Jefferson Magno Costa

     Plantar a semente de Vida Eterna nos corações; não impressionar-se com a aridez do solo, a agudeza das pedras, a altura das montanhas e a profundidade dos vales, o rigor do sol e a inclemência dos ventos e da chuva, é dever de todos nós, discípulos de Jesus; nós, que custamos a dor e o precioso sangue do Filho de Deus.
     Nosso Senhor Jesus Cristo é um Deus missionário. Ele veio ao mundo para resgatar a todos nós para Si. O pastor norte-americano D. T. Nils disse certa vez que o ato de evangelizar “é um mendigo contando a outro onde encontrar pão”. Conscientizados de que, como cristãos, nosso maior dever é falar do amor do Filho de Deus ao mundo inteiro, apresentaremos a seguir, como contribuição ao trabalho de Missões nas igrejas, alguns poemas de temática evangelístico-missionária.


SALMO
Murilo Mendes

Ó Tu que mandaste um serafim
purificar os lábios de Isaías com um carvão ardente,
limpa meu coração de todo desejo impuro.
Imprime em mim Tua cruz que desconhece limites.
Faze com que eu renegue a ciência do mundo.
Apaga em mim o encanto pelas conquistas do tempo.
Inspira-me para que eu possa inspirar os outros.
Digna-Te descer a todo instante na minha alma.
Cairão fábricas, palácios e choupanas;
cairão museus, teatros, bibliotecas,
os poetas e os falsos salvadores do mundo.
Mas um anjo de asas unindo o universo de ponta a ponta
levará Tuas palavras até o fim do mundo e por toda a eternidade.


POEMA LIDO NOS MEUS OLHOS
Jefferson Magno Costa

Outros antes de mim
empunhem armas e lutem,
arem a terra,
governem os povos,
busquem a imortalidade
na página, na pedra,
na carne, na tela,
no vento.
 Quanto a mim,
tentarei despertar nos homens
o pensar na vida eterna,
o desejar conhecê-la e possui-la,
estabelecer a necessária conversação
entre eles e Deus.
Ao sol, sob os ventos, semeando nos corações,
pelo Caminho Eterno irei,
questionando o amor, a morte e a vida
irei, rumo ao país da Perpétua Aurora.
E isto é tudo.


SÚPLICA
Emílio Moura

Os inquietados, os loucos, os que ainda
não Te descobriram, e os que nada compreendem,
os que pararam e os que jamais tentaram a grande jornada,
todos eles, Senhor, estão comigo neste momento.
Comigo estão todos os que perderam a grande partida.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram
e os que não souberam amar-Te.
Comigo estão os que não Te amam nem Te compreendem,
os que te negam porque são felizes,
e os que te negam por que são infelizes.
Senhor, todos eles estão agora
na minha insônia e na minha desolação, como a presença
da morte está na máscara dos que nada esperam.
Matai-os em mim, Senhor.


CONFISSÃO
Benedita de Mello Amaral
(poetisa cega)

De cem ovelhas, cada qual mais branca,
apenas eu fui que saí fugida;
e feia e triste e desgarrada e manca,
hoje confesso que fiquei vencida.

Agradecendo a quem me deu guarida
e, quando pode, o meu gemido estanca,
prossigo ainda bendizendo a vida,
esperançosa, resoluta e franca.

Pastor do Céu que todo o bem promove!
Deixei-te perto e me perdi além!
É noite escura, relampeja, chove.

Vem compassivo procurar-me, vem!
Ao teu rebanho de noventa e nove,
deixa que eu volte a completar as cem!


quinta-feira, março 03, 2022

Poemas de John Donne - Artigo de Roberto Torres Hollanda



Roberto Torres Hollanda

http://www.nassau.mus.br/

                   Por causa da medonha e cruel Pandemia (que parece ser impossível de chegar ao fim; se a vontade divina quiser, somente no dia certo acabará), fui levado para a Asa Norte de Brasília, onde sentimos igualmente sua ameaça.

                   Comentando o flagelo sanitário e social imposto pelo COVID-19, de alcance mundial, num sermão o pastor Francisco Carlos Soares de Menezes combateu a ansiedade, agora exarcebada, e resumiu o desfecho com a expressão “Deus não tem pressa”.

                   Tive, então, fazendo uma pausa, bastante tempo para ler alguns poemas, que entraram na hinodia, escritos por um dos mais importantes literatos da Inglaterra, talvez o poeta inglês mais original depois de Shakespeare.

                   John Donne (1572-1631) pelos críticos literários Ben Jonson (1572-1637) e John Dryden (1631-1700) foi associado ao movimento barroco denominado “poesia metafísica”.

                   T.S.Eliot (1888-1965) reavaliou o trabalho de Donne e de outros poetas “metafísicos”, assim definidos pejorativamente pelo crítico Dr. Samuel Johnson (1709-1784). Os ásperos ritmos do poeta Donne aborreceram os ouvidos do crítico.

                   Donne era admirado pelos intelectuais George Herbert (1593-1633) e John Milton (1608-1674).

                   No século 17, a literatura e a música da Inglaterra estavam no apogeu: as peças teatrais de Shakespeare, as críticas de Jonson e Dryden, os poemas de Donne, Herbert e Milton, a alegoria de Bunyan e a versão bíblica de James I.

                   Quando reinaram Stuarts, houve luta entre calvinistas e anglicanos, católicos romanos e católicos protegidos pela Coroa inglesa, entre políticos elizabetanos e jacobitas. Na Europa, ainda propagavam-se a Reforma (protestante) e a Contra-Reforma (católica).

                   Em breve período (1620-1630) Donne foi digno sucessor de William Shakespeare (1564-1616); não sei se Donne em sua poesia retrucava os versos do Bardo, porém a minha consciência introspectiva, por ele ter sido notório pecador, mas regenerado como poeta religioso, diz que Donne teve maiores oportunidades do que o seu modelo literário.

                   Donne também contribuiu para a renovação da poesia do seu tempo; substituiu as alusões mitológicas por conceitos originais; na poesia “metafísica” a conceituação tem muitaimportância. Na mentalidade da época, importava, e muito, o tema da morte, quase sempre tratado melancolicamente.

                   Por ser católico romano, foi discriminado em setores intelectuais (Oxford e Cambridge). Com efeito, abandonou o Catolicismo romano (era ilegal) e entrou numa terceira via.

                   Antes mesmo de tornar-se católico anglicano, entendia a morte de maneira diferente: “quem vier cavar nossa sepultura nos levará, a bispo ou a monarca, quais relíquias” (soneto “The Relic” – A relíquia). Donne adotou a ortodoxia anglicana para se habilitar à ordenação como sacerdote da Igreja oficial.

                   Em 1601 tinha sido demitido do cargo de secretário particular (advogado?) de lorde Egerton, por ter casado secretamente com Anne More; John e sua esposa tiveram 10 filhos.

                   Entretanto, James I (Jaime ou Tiago, rei, 1603-1625) ordenou que John se tornasse ministro anglicano. Em 1611 foi publicada a “King James Version”, obra de uma comissão de 50 eruditos.

                   John Dowland (1563-1626), o maior compositor inglês de música para alaúde, apadrinhou o ingresso de Donne nos círculos palacianos. Por isso, John foi nomeado, em 19 de novembro de 1621, capelão do rei e deão da catedral de São Paulo, em Londres; alí foi um notável orador sacro, talvez, modelo para os sermões do padre Antônio  Vieira (1608-1697).

Nessas funções continuou a ser discriminado por alguns confrades; ele, Dowland, outros poetas e músicos, foram “cancelados” por terem sido “papistas” (católicos ingleses subordinados ao papa). Dowland tinha conseguido, em 1612, ser empregado pela corte inglesa como lutenista de James I. Ele tinha lutado por oportunidades de trabalho na França, Alemanha e Dinamarca. Na Itália, envolveu-se, o que era natural acontecer, com católicos romanos. Sua visão de mundo era profunda e trágica (pecado, pranto e morte); sua obra é melancólica.

                   O jovem Pelham Humfrey (1647-1688), em seu estilo patético, musicou o poema religioso “To God, the Father”. 

                   No século 20, Donne não foi citado por Alphonso Gerald Newcomer em sua “History of English Poetry”.

                   A obra póstuma de Donne (publicada em 1633) compõe-se de: I – poesia profana: a) canções; b) sonetos; c) elegias: d) sátiras. II – poesia religiosa: a) poemas (sonetos); b) hinos. III – prosa: a) devocionais: b) sermões.

                   Donne influenciou Ernest Hemingway (1899-1961) com a meditação devocional XVII “never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee” – nunca mandes indagar por quem o sino dobra; ele dobra por ti.

                   John Dowland (1563-1626) foi dos primeiros compositores a aproveitar peças literárias de Donne, com a canção profana “Go and catch a falling star” – Apanha a estrela cadente; trata-se de peça de cunho misógino; além dessa, compôs “Sweet stay a while” e “To ask for all thy love”.

                   A obra de Donne expressa o realismo e a objetividade de sua vida; nela a Morte é lugar-comum em seus sermões, como nas cantatas sacras de J.S.Bach (1685-1750).

                   Tanto em prosa quanto em verso, Donne se preocupa com a morte e o conflito entre corpo e alma.

                   Num verso de caráter político, manifesta sua submissão ao rei Jaime I: “O my America! My new-found land, my kingdom, safeliest when will one man manned – Oh, minha América!

Oh, meu novo continente, meu reino (a Inglaterra), a salvo porque um homem, e não uma mulher, tens à frente. Além de machista, é imperialista: “My mine of precious stones, my empire, how blest am I in this discovering thee!” – Minhas minas de pedras preciosas, meu império; que abençoado sou por descobrir a ti!. James I recitava, com muita satisfação, estes versos.

                   Para dar uma noção a respeito da poesia religiosa (hinos) de Donne, transcrevo e traduzo:

a)   “Hymn to God, my God, in my sickness”:

 

1.   Since I coming to that holy room where with Thy choir of saints, for evermore, I shall be made Thy music; as I come, I tune the instrument here at the door, and what I must do then, think here before. 

– Oh, Deus, meu Deus, em minha enfermidade: Como ao sacro aposento estou para chegar, onde sempre estarei, afino aqui, antes de entrar, meu instrumento, meditando sobre o que devo fazer ao passar por Teus umbrais.

                   4. Is the Pacific Sea my home? Or are the eastern riches? Is Jerusalem? Anyan, and Magellan, and Gibraltar, all straits, and none but Straits, are ways to them, whether where Japhet dwell, or Cham, or Shem 

– Será verdade que o Oceano Pacífico é meu lar? As riquezas do Oriente? Ou é Jerusalém?

Seja por Anyan (estreito de Bering), Magalhães, ou Gibraltar, somente estreitos, não mais do que estreitos (Donne, irônicamente, diz que esses lugares só foram importantes depois de conquistados pela Inglaterra), são caminhos para a terra de Jáfé, ou a de Cam, ou a de Sem (não sou um “ressentido”, como explicado por Harold Bloom, mas creio que Donne, nestes versos, põe na boca do Império Britânico os seus projetos expansionistas; faz referência aos três filhos de Noé, cujos descendentes repovoaram a Europa, a África e a Ásia, e ao “estreito da febre”, para significar que deveria passar apertadamente pelo sofrimento durante a enfermidade.

                   5. We think that Paradise and Calvary, Christ’s cross, and Adam’s tree, stood in one place. Look, Lord, and find both Adams met in me; as the first Adam’s sweat surrounds my face; may the last Adam’s blood my soul embrace. 

– Pensamos que o Paraíso e o Calvário, a cruz de Cristo e a árvore de Adão, ficam em um lugar. Oh, Senhor, procura e acha (aqui Donne está petulante) os dois em mim; o suor do primeiro estará na minha face; que o sangue do último Adão minha alma abrace.

                   6. So, in His purple wrapped, receive me, Lord; by these His thorns give me His other crown; and, as to others’ souls I preached Thy word, be this my text, my sermon to mine own; therefore that he may raise the Lord throws down. 

– Em Sua púrpura envolto, Senhor, dá-me a Sua outra coroa, em vez da do sofrer (Donne diz que a coroa de glória substituirá a coroa de espinhos). Como a outros, preguei a Tua palavra. Continua a ser meu texto e meu sermão, para eu mesmo ler, pois o Senhor derruba, a fim de soerguer”.

b)   “Hymn to God, the Father”

“1. Will Thou forgive that sin, when I begun, which was my sin, though it were done before? Wilt Thou forgive that sin, though which I run and do run still, though still I do deplore? When Thou hast done, though hast not done, for I have more.

O poeta, subliminarmente, põe o nome de sua família (Donne) neste verso.

          - Esquecerás o pecado quando eu começar a praticá-lo; que era o meu pecado, embora o tenha praticado anteriormente?

            Esquecerás o pecado, quando cometo e volto a praticálo, embora eu o deplore? Quando Tu o tenhas perdoado, ou isto não o tenhas feito, porque eu tenho mais pecado.

                   Agora, um exemplo de poesia profana (canção):

                   “Go and catch a falling star”

                   “If thou beest born to strange sights, things invisible go see, ride ten thousands days and nights, till age snow white hairs on thee; thou, when thou return’st, wilt tell me all strange wonders that befell thee, and swear nowhere lives a woman true and fair” 

– Se tens atração por visões estranhas, queres ver coisas invisíveis, precisarás de dez mil noites e dias (27 anos), até que a idade faça a neve cobrir tua cabeça com cabelos brancos; então, quando retornares, narrarás todas as estranhas maravilhas que te surpreenderam, e jurarás que em algum lugar vive uma mulher bela e pura.

                   Em 1945, Benjamim Britten (1913-1976) ao visitar um campo nazista para extermínio dos Judeus, teve a inspiração de compor nove músicas (opus 35) para sonetos religiosos de Donne para o VII escrevendo: “All whom the flood did, and fire shall overthrown, all whom war, dearth, age, agues, tyrannies, despair, law,

chance, hath slain, and you whose eyes shall behold God, and ne-

ver taste death’s woe” 

– Todos os que no dilúvio foram, e no fogo irão; todos que a guerra, a peste, a idade, o crime, os acasos, as tiranias, o desespero, a lei e a oportunidade mataram, e você, cujos olhos verão a Deus, nunca experimentarão o amargor -da morte.

                   No soneto religioso X, corajoso, Donne afirma:

“Death, be not proud” – Morte, não te orgulhes. ‘One short sleep past, we wake eternally, and death shall be no more. Death, thou shalt die”. – Morte, um breve sono a vida eterna traz, e vai-se a morte. Morte, morrerás.

                   A poesia de Donne foi descurada durante quase 400 anos; em sua juventude produziu os poemas profanos, ou excitantes; na velhice, os religiosos, ou calmantes.

                   Seu dualismo prenunciou a fragmentação cultural e espiritual dos tempos modernos. Pensamos, com Anniia Jokinen, que ainda enfrentaremos novos desafios e pressões, culturais e sociais.

                   Até a MPB (Música Popular Brasileira) garimpou na poesia profana de Donne (elegia XIX: “all rest my powers defy” - Meu corpo desafia todos os ócios – 1620): a versão de Augusto de Campos, musicada por Péricles Cavalcanti, deu (em 2020, depois de 400 anos) a chancela à linguagem malemolente, na voz de Caetano Veloso.

                   Se o prezado leitor tiver conhecimento de algo escrito por John Donne que possa ser aproveitado na hinodia evangélica, sua contribuição será muito bem recebida por mim.


                   Referências bibliográficas

Edições impressas

CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Universal,

                                           Vol.3, 2ª. Ed. Rio de Janeiro:

                                           Alhambra, 1980.

GEORGE, Timothy. Lendo as Escrituras com os Reformadores.

                                 São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2016.

GRIERSON, HERBERT. Donne: Poetical Works. Oxford: 1933.

HILL, Christopher. O século das revoluções (1603-1714).

                                  São Paulo: Editora UNESP, 2012.

HUNT, C. Donne’s Poetry. New Haven, USA: 1955.

INSTITUTE OF HISTORICAL RESEARCH. Fausti Ecclesiae

                                 Anglicanae, Vol. 1. London: St.Paul’s, 1969.

JOKINNEN, Aniina. Donne Songs and Sonnets.

                                  Helsinki: 2000.

JOKINNEN, Aniina. Poems of John Donne, Vol.I.

                                  London: E.K.Chambers, 2014.

KUHN, Anne W. Early English Hymns of the Pre-Wesleyan Period.

                             Asbury Seminary, 1949.

LE HURAY, Peter. Music and the Reformation in England – 1549-

                                1660. New York, NY, USA: 1967.

PARKS, Edna D. English Hymns and their tunes in the 16th and

                            17th Centuries.

                            Yale University, 1935.

PARKS, Edna D. Early English Hymns: an Index.

                            Metuchen, New Jersey, USA: Scarecrow, 1972.

VIZIOLI, Paulo. John Donne, o poeta do amor e da morte.

                            São Paulo: Ismael Editora, 1985.

WEBER, V. Contrary Music. The Prose Style of John Donne.

                            Madison, 1964.

EVANGELICAL LUTHERAN HYMNARY, no. 498.

THE HYMNAL (1982), nos. 140, 141 e 322.

 

Edições eletrônicas

Canção “To ask for all thy love” – Nicholas Murray/Elizabeth

                                                            Kenny

Canção “Weep you no more” – Anne Sofie von Otter

Canção “Go and catch a falling star” – John Renbourn

Canção “I fear no more” – Anton Batagov

Coral “On the death of the righteous” – Jennifer Higdon

Elegia XIX – Caetano Veloso.

Hino “Hymn to God, the Father” – Pelham Humfrey

Hino – “To God, the Father” – Michael Tippet

Hino “Hymn to God, the Father” – The White Brothers

Soneto X – Charles Szabo.

                                      - x –

Brasília, DF, 27 de fevereiro de 2022. Roberto Torres Hollanda

http://www.nassau.mus.br/

http://www.hinologia.org/       http://poesiaevanglica.blogspot/


domingo, junho 20, 2021

A INFLUÊNCIA POSITIVA DA LITERATURA EVANGÉLICA



Filemon Martins

Nascido em Ipupiara, interior da Bahia, filho de pais Batistas, não seria necessário afirmar que recebi forte influência evangélica que norteia a minha vida até hoje e o meu modesto trabalho. Escritores e poetas do EVANGELISMO NACIONAL, especialmente de poetas que tinham e têm suas poesias declamadas todos os domingos nas inúmeras Igrejas Evangélicas do País. Estudei com professoras que foram enviadas ao Sertão Baiano, pela Junta de Missões Nacionais, da Convenção Batista Brasileira (CBB).
Contudo, devo reconhecer que a primeira grande influência veio de meu pai, Adão Francisco Martins, que, embora vivendo no interior da Bahia, primeiro em Morpará, onde foi comerciante e proprietário da loja de tecidos, ¨A PRIMAVERA¨, depois em Ipupiara, sem quaisquer recursos, era autodidata, tornando-se excelente pregador evangélico, escrevendo sermões, discursos políticos e redigindo documentos em sua velha máquina de escrever marca Remington, onde também aprendi a escrever. Mário Ribeiro Martins, em seu livro “CORONELISMO NO ANTIGO FUNDÃO DE BROTAS” informa que “Adão Francisco Martins foi nomeado Prefeito de Brotas de Macaúbas, em 1946, pelo Interventor Federal na Bahia (1946 – 1947), General Cândido Caldas e permaneceu no cargo de Prefeito, até abril de 1947.” Era assinante de revistas da época, como, por exemplo, a revista “O Cruzeiro”, que ele leu e colecionou por muitos anos. Comprou, colecionou e leu obras famosas, entre outras, ¨O Peregrino¨ de John Bunyan, “A História Universal” de César Cantu, com 32 volumes.
Mais tarde grandes nomes da literatura evangélica viriam influenciar meu trabalho, entre os quais, Mário Barreto França, do Recife, autor de dezenas de livros, como: “Sob os Céus da Palestina”, “Como as Ondas do Mar”, “Rios no Ermo”, “Vejo a Glória de Deus”, “Primícias da Minha Seara”, entre outros. Outro gênio da poesia evangélica foi Gióia Júnior, de Campinas – SP, político e poeta, autor de “Canto Maior”, “Cântico Novo”, “Bem-me-Quer”, “Estátuas de Sal”, “Aparecem as Flores na Terra”, com sua poesia social e humana.
Formando a tríade de poetas evangélicos, vem Jônatas Braga, de Sucupira, no Recife. O ilustre poeta pernambucano é autor de “O Milagre do Amor”, “O Cântaro Junto à Fonte”, “O Suave Convite” e outros. Além destes, cite-se também Carlos Ribeiro Rocha, da Bahia, com sua poesia simples, mas profunda, autor de “Sertão Florido”, “Pingos de Mim”, “Rastros de Uma Vida”, “Meditações, Lições”, “Porta Aberta”.
Outros nomes merecem citação, como Joanyr Ferreira de Oliveira, mineiro, autor de “Antologia da Nova Poesia Evangélica”, “Cantares”, entre outros. Eudaldo Silva Lima, baiano, de Mundo Novo, Presbiteriano, autor de “Cantigas de Fim de Safra”, “Romeiros do Meu Caminho”, “Escravos da Serra”. As poetisas Myrtes Mathias, autora de “Encontro Marcado”, “O Presente Para o Menino”; Stela Câmara Dubois, autora e tradutora de vários livros, com o seu excelente “Ramalhete de Mirra”; José Britto Barros, maranhense de São Bento, autor de “Criançada, Vamos Recitar” e o seu imortal livro “Memórias do Nazareno” e muitos outros livros.
David Gomes, de Itaúna, Minas Gerais, que atuou como Secretário Geral da Junta de Missões Nacionais, da Convenção Batista Brasileira, de 1954 a 1968, autor de 22 livros; Ebenézer Gomes Cavalcanti, de Santa Maria do Belém, Pará, homem de inteligência invulgar, diplomou-se em Mestre em Teologia, no Seminário Teológico Batista do Recife, mas radicou-se em Salvador, Bahia, onde se tornou Pastor da Igreja Batista Dois de Julho por 41 anos. Escritor, pesquisador, orador, polemista, foi um dos maiores colaboradores d´O JORNAL BATISTA, com sede no Rio de Janeiro, escreveu, entre outros, OS BATISTAS E O ECUMENISMO, A GAZELA DE JOPE (romance).
Como se vê, a lista de poetas evangélicos é extensa e a influência exercida sobre o meu trabalho não há como negar. Estes são apenas alguns que eram mais conhecidos, mas existem outros não mencionados aqui. Aliás, os evangélicos (refiro-me ao protestantismo clássico, entre os quais estão os Presbiterianos, Batistas, Luteranos, Metodistas, entre outras) têm contribuído de forma exemplar para o desenvolvimento da sociedade brasileira, com trabalhos importantes, tanto na educação, saúde, política e literatura, sejam através de médicos, hospitais, educadores, jornalistas, professores, escritores, poetas, cientistas, pensadores, colégios e faculdades. Essa influência não pode ser negada e tão pouco menosprezada e esquecida.

Acesse o blog do autor:


segunda-feira, maio 11, 2020

10 Coisas Que Você Precisa Saber Sobre Deus e a Poesia – Leland Ryken

Gustav Klimt

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  1. Deus espera que você compreenda e aprecie poesia.
Esta não é uma declaração tão polêmica quanto parece. Sabemos que Deus espera que compreendamos e apreciemos poesia porque cerca de um terço da Bíblia está em forma poética. Para começar, temos livros poéticos como os Salmos e os Cantares de Salomão. Depois, temos os livros proféticos, em que grandes porções são expressas de forma poética. Além disso, há o livro de Apocalipse, vazado sobretudo em imagens e símbolos. E, ademais, as epístolas estão saturadas de imagens e metáforas.
  1. Jesus é um dos poetas mais famosos do mundo.
Como Jesus nunca se proclamou poeta, não costumamos pensar nele como tal, mas esta é uma omissão. Os discursos de Jesus valem-se muitíssimo da linguagem poética: “vós sois a luz do mundo”; “eu sou o pão da vida”. Adicionalmente, os ditos de Jesus são altamente aforísticos, e a beleza verbal é um elemento eminente da poesia. Assim, se começarmos com o fato de que os discursos e os ditos de Jesus estão entre os mais famosos do mundo, e acrescentarmos nossa consciência de que essas declarações são altamente poéticas na forma, é apropriado pensar em Jesus como um poeta famoso.
  1. A poesia requer “leitura lenta”.
As duas declarações anteriores pretendiam conquistar uma recepção inicial favorável para a importância da poesia na vida cristã, e mais se seguirá, mas todo esse elogio será infrutífero para aqueles que jamais adquiriram a capacidade de ler poesia. A regra mais importante para ler poesia é simples: a poesia requer uma leitura lenta e meditativa. Isso não significa negar que outras técnicas de leitura precisam ser acrescidas à caixa de ferramentas das habilidades de leitura de poesia, mas qualquer um pode compreender poesia ao refletir sobre um poema e viver com ele por dez ou quinze minutos em vez de submetê-lo à leitura rápida que faz parte de nossa vida diária.
Poesia é um modo de pensar e sentir antes de ser uma forma de falar ou escrever.
  1. Todos são poetas em algum momento.
Essa, tampouco, é uma declaração revolucionária, mas, em vez disso, é algo facilmente comprovado. Todos fazemos poesia inconsciente ao longo do dia. Falamos metaforicamente do nascer do sol embora saibamos que ele não nasce de modo literal. Quando alguém faz uma oferta conciliatória, nos referimos a ela acenar um ramo de oliveira, mesmo sabendo que nenhum ramo de oliveira esteja à vista. Por que insistimos em falar metaforicamente? Porque num nível inconsciente sentimos que o discurso poético transmite a verdade efetivamente, e muito mais efetivamente do que a prosa literal.
  1. A poesia não é uma forma artificial de discurso.
A poesia não é nosso modo normal de falar e escrever, mas é importante afirmar que não é um modo artificial de discurso. Na história da literatura, a poesia antecedeu a prosa como forma consumada de escrever na maioria das culturas. O erudito literário Northrop Frye perguntava com razão: “Como isso poderia acontecer se a prosa fosse realmente a linguagem do discurso ordinário?”. Além disso, como particularmente defendia Owen Barfield, a maioria das palavras em nossos dicionários começou como imagens concretas e metáforas. Mais uma vez, não seria este o caso se a poesia fosse inerentemente artificial como modo de falar.
  1. Poetas falam uma linguagem própria.
O sentido das cinco afirmações anteriores é fazer a poesia parecer acessível e familiar. Este é um retrato inteiramente preciso da poesia. É acessível quando a abordamos do modo correto. Entretanto, não se ganha nada ao negar o fato óbvio de que a poesia difere da prosa cotidiana. Poetas falam num idioma poético. Esse idioma consiste primeiramente em imagens e figuras de linguagem. Poetas preferem o figurativo ao literal como modo de expressar a verdade sobre a vida.
  1. Poesia é uma forma de lógica.
Uma coisa que a poesia compartilha com a linguagem do discurso cotidiano é que é uma forma de lógica. A lógica depende de estabelecer relações precisas entre duas coisas. O poeta moderno Stephen Spender escreveu um ensaio memorável chamado “A formação do poema” no qual afirmou que “o desafio apavorante” que o poeta enfrenta é: “Será que consigo pensar sem a lógica das imagens?”. Na lógica da poesia, as imagens do poema hão de ser certeiras para encarnar as experiências retratadas. As comparações que constituem muito do idioma poético têm de ser comparações precisas. Se o luto com a morte de um ente querido é “a hora da passagem”, precisamos ser capazes de ver a precisão do vínculo.
  1. Poetas pensam em imagens e figuras de linguagem.
Poesia é um modo de pensar e sentir antes de ser uma forma de falar ou escrever. Poetas escrevem num idioma poético porque é assim que experienciam a vida e a registram. Precisamos reconhecer os poetas que possuem uma habilidade ausente na maioria das pessoas.
  1. A poesia é concentrada.
Uma das coisas que um poema busca é ser compacto. Como observado acima, isso quer dizer que não devemos ler um poema o mais rápido possível e seguir para nossa próxima atividade. Em vez disso, a compactação da poesia é o que exige de nós uma leitura lenta. Quando o fizermos, ficaremos maravilhados com o quanto um poema expressa num espaço compacto. C. S. Lewis falou das delícias linha a linha que a poesia tem. Ela oferece muito mais por linha do que a prosa. Isso faz parte de seu apelo, mas somente se aceitarmos a premissa da leitura lenta e contemplativa.
  1. A poesia é altamente artística.
Os próprios poetas reivindicam a beleza como seu território. Robert Frost chamava um poema de “uma performance em palavras” – uma performance comparável à do atleta ou do músico, admirada como exibição de habilidade. O poeta devocional vitoriano Gerard Manley Hopkins disse que a forma artística de um poema existe “por si mesmo e por seu interesse até mais do que o interesse de seu significado”. O corolário é que, como leitores, precisamos valorizar a beleza artística da poesia.
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