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sábado, maio 16, 2015

O RUÍDO DA RESSURREIÇÃO, poema de Carlos Nejar


O RUÍDO DA RESSURREIÇÃO

Ele não está aqui, porque já ressuscitou.
Mt 28.6

Era o fogo
que impelia
a alma
ao céu aberto.

Com a velocidade
de uma pedra 
que sobe.

2.
Não é possível
ressuscitar
sem o grão
descer
ao cogitar
denso
da terra.
O século
de uma semente.

3.
A pedra tinha um ruído
de eternidade.
E não se confundia
com o anjo
que a empurrava
para deixar entrar
o sol.

4.
E entrou.

Aquela pedra
desposara
o monjolo
das manhãs.

Queimava
queimava.
Separava o corpo
da alma. Era
o corpo que se
desprendia
para que
a morte
fosse uma pedra
de vento.

5.
A luz descia
subia, enxame
de celestes vinhas.

E a colmeia, pedra
harmoniosa, zumbia.

Era a ressurreição.


Do livro Os Viventes (Ed. Record).

sábado, outubro 25, 2014

A poesia cristã de Carlos Nejar




Eva
A culpa toda
me reveste
e eu nua.

Ouvi o que
a serpente
sussurrava
e caí.
Com Adão.

Nos desterrou
o anjo.
Era o conhecimento
de um pudor
ou soluço.

O que pode
a dor,
se nenhum traço
nos julga?

Com medo,
escondo a face.
E opaco, nulo
o riso. Tudo
é desconhecido
fora do paraíso.



Bem-aventuranças

Bem-aventurados os pássaros,
as nuvens, as madrugadas.
Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.
Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.
Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
alí existem.
Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.
A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as ações com elas,
os pensamentos arriados.
Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.
Bem-aventurados os pássaros!

quarta-feira, outubro 31, 2012

Três poemas de Carlos Nejar



Sou Aquele

Eu sou Aquele que é a Palavra. Ap. 19.13

Sou o que rege
o universo, urdi
as almas e presido
o tempo.

Moldo o barro
e o vaso
como quero.

Aos que amo:
oriento, sondo,
provo, velo.
E na luz acordo,
lacro, ressuscito,
selo sob o vento.

E jorro a primavera,
movo a roca
e a dor a faz
finita
no interstício.

Entre o fim
e o princípio,
teço neste fuso,
ajusto o verso.

Depois emerjo.

Crio estes viventes
com o nexo
de amorosa corrente,
que se continuará
criando, desde sempre.


Salmo de Jó na Esperança

Ainda que Deus me mate
terei esperança.
Mesmo que morra,
mesmo que todas as coisas
se despedacem,
há uma luz que irrompe.
Mesmo que morra,
estarei vivo
na tua espera.
Como a criança
que mexe com a pá
a terra e sabe
que num recanto de Deus
ainda é primavera.

Há um extremo de Deus
onde se recomeça.
Mesmo que morra
o que fomos,
um outro em nós
ressuscita
na espera.

Ainda terei esperança,
ainda terei.
Mesmo que morra
a esperança,
em Deus espero.



A Outra Visão de João, o Evangelista

Levado fui diante do trono,
absorvido
de albatroz energia.
E empurrado fui,
lá onde o sonho
trabalhava o dia.

Entrava pela correnteza
de luz e mel. E uma voz
ouvia: “Por misericórdia
vivo permaneces.”

Tinha a percepção
de um completo reino,
com flores novas.
As almas eram
claridade exata.

E consumido,
com a luz ondeava,
sem o peso do eu.
Éramos todos
um só que nos
amava.

Demorei em voltar à tona.
Não queria. Escutava
meu outro nome,
o que está
em Deus, o nome
resoluto, perfeito.

Era a forma do amor
que eu assumia.

Do livro Arca da Aliança (Ed. Pergaminho, 2004)


Carlos Nejar é poeta, ficcionista, ensaísta e tradutor. Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia. Autor de mais de 50 livros. É pastor da igreja Comunidade Evangélica do Deus Vivo, no Rio de Janeiro. Leia aqui uma entrevista com Nejar.

sábado, setembro 01, 2012

Entrevista com o Poeta e Pastor Carlos Nejar


       As letras e a Palavra sob a ótica de Carlos Nejar
Originalmente publicado em http://pibnet.com.br
Carlos Nejar, casado com Elza Nejar, pai de 4 filhos, pastor há 2 anos na Comunidade Evangélica do Deus Vivo, no Rio de Janeiro. Procurador de Justiça aposentado é poeta, ficcionista, crítico e ocupa a 4ª cadeira na Academia Brasileira de Letras. É autor de vários livros internacionais e cerca de 50 títulos publicados no Brasil.
O que Jesus representa em sua vida?
Tudo. Ele vive sem mim, mas não vivo sem Ele. Rick Warren expressou com felicidade, citando Cl 1.16 - "Pois todas as coisas, absolutamente todas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis começaram, Nele e Nele encontram seu propósito". Ainda mais que só podem chegar a Deus Pai, através do Filho, Jesus. Por remir todas as raças, crenças e nações, como diz no Apocalipse. O Cordeiro, o único digno de abrir o Livro da Vida e da Eternidade. Há que viver a Palavra que se revela em vida e plenitude.

Qual é sua relação com a Palavra de Deus?
Minha relação é total! É o centro. A Palavra nos purifica e nos salva. Cremos através de ouvir a Palavra de Deus, assim, a Palavra é o princípio e o fim de nossa fé. O centro da ComunidadeEvangélica do Deus Vivo, na Urca a qual sirvo com o Ministério, é a Palavra de Deus.

Como poeta, qual sua análise dos livros poéticos da Bíblia: Salmos, Eclesiastes e Cantares?
Os Salmos nos falam da glorificação a Deus -"tudo o que tem fôlego louve ao Senhor"; Cantares fala do amor entre Jesus, o noivo e a Amada, a Igreja fiel; o Eclesiastes nos põe diante do tempo que passa, a sabedoria de viver em Deus. Ainda estamos no antes, vendo os sinais do depois: "Antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro; e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço. E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu" (Ec 12.6-7).

A internet é um risco para literatura impressa?
Não. Completa com nova instrumentação. O único risco é o da burrice ou ignorância, que não vêm, felizmente, da técnica sabiamente utilizada. É como a pá, o arado e o trator.

O que representa a honra em fazer parte da Academia Brasileira de Letras?
A Casa de Machado é o privilégio de conviver com grandes inteligências, algumas geniais - deste País. E presidentes, ministros, embaixadores, educadores e a maioria, grandes criadores de nossa literatura. A corrente de Machado pugnou pelos escritores e Joaquim Nabuco, pugnou pelas personalidades eminentes. Há ali um constante diálogo de cultura, sejam nas conferências abertas ao público nas terças, seja nas publicações, sejam nas duas bibliotecas, ambas primorosas. E o importante: A Academia se abriu para o povo. E o povo para a Academia, hoje a mais valiosa entidade cultural da América Latina.

Como está a academia hoje?
Tem avançado no tempo, para que a poeira não a enterre. E a imortalidade, como afirmava Sartre, deve voltar-se para a vida. Cícero Sandroni foi um grande presidente, com visão institucional. Atualmente o Ministro Marcos Vilaça dirige a instituição e é um homem voltado para o coletivo e a modernidade.

50 livros publicados, cada um deles é especial, certamente é como se fosse um filho, mas fale de um em especial?
Sim, os livros não são apenas nossos filhos, muitas vezes são nossos pais. Nascemos deles. Mas há um que amo sobremaneira e está esgotado – Todas as fontes estão em ti. Foi editado em 2000 pela Eclesia e ganhou o prêmio do melhor livro religioso do ano, em S. Paulo. Fala da vinda de Jesus (mantidas as distâncias) - é o meu Cântico dos Cânticos.
Tenho novidades editoriais: a primeira é “A Poesia Reunida” pela Ed. Novo Século, de São Paulo, “História da Literatura Brasileira”, ampliada até autores atuais, pela ed. Leya; a publicação até junho de “Os Viventes”, em 3ª edição, com mais de 300 novas criaturas, formando uma espécie de Comédia Humana em miniatura. Trabalho há mais de 30 anos essa obra, sempre em progresso. Penso que agora é a versão definitiva.

Como foi a chamada de Deus para ser um pastor?
Passei vinte e seis anos na Igreja de origem presbiteriana (Igreja Cristã Maranata) e ali Deus já me usava com graça na Palavra. Dali desliguei-me fraternalmente, depois que em 11 de janeiro de 2008, pela Igreja da Assembléia de Deus, Tabernáculo de Israel, fui ungido. Havia sinais há mais de dois anos, prenunciando a unção e eu protelava. Antes, em sonho , recebi de Deus o nome do Ministério - Ministério do Deus vivo, que assumi na plena alegria de servir.

Qual é o seu autor brasileiro preferido?
Na nossa literatura, para mim, há Machado de Assis e depois, Guimarães Rosa, de Grande Sertão Veredas. Poetas, Drummond, João Cabral, Jorge de Lima e Cecília Meireles.

Qual é sua opinião sobre as recentes declarações de José Saramago sobre a Bíblia?
Na capa do Jornal de Letras, de Lisboa, de 21 de outubro de 2009, lê-se “José Saramago – o peso de Deus!”. E Deus não é peso para quem o conhece ou aceita. Ao contrário, leva sobre si todo o nosso peso, infortúnio, enfermidade. E é quem nos liberta e restaura. E digo isso por experiência própria. Não é a soberba humana ou a petulância que o tocam. Está acima dos conceitos. Acima da luciferina inteligência. E Saramago não deixa de ser um predicador às avessas. E por mais que vocifere ou raciocine, não mudará Deus num til. [...]

Qual é seu maior sonho?
Estar com Deus, o dia mais jubiloso, Aquele que é meu Amigo e é fiel. Antes, guerrear pela Palavra, para que o maior número de vidas sejam salvas. Quero subir com uma multidão, fazendo com que Deus alcance também os grandes deste mundo. Já dei há muito o primeiro passo - como ensina Rick Warren - os demais são de Deus em nós.

Deixe uma mensagem para os nossos leitores
"Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos"(Salmos 126.6). Não viemos para a derrota, viemos para fazer a diferença. Não viemos para ser cauda, mas cabeça. Louvado seja o Senhor, por isso!

domingo, outubro 02, 2011

Dois poemas de Carlos Nejar



FONTES, AROMAS


Todas as fontes
estão em ti, amado.
Estão em ti
as fontes, os poentes,


as pontes, os cálidos
aromas. Em ti
o que não tocas,
persiste.


E avança.
As nascentes
avançam. Todas
as fontes
cantam. Todas
as fontes
do amor
estão jorrando.






O CORAÇÃO É NOVO


o coração é novo,
igual àquele fogo
que um dia conduzia
o sonho do menino.
Não inventava. Era
com as mãos
que ele sonhava.


Mas descobri na escola,
entre árvores, túneis,
em letras e tabuadas,
suas plumas de alva.


Andei por terras e ondas,
por raízes e guerras,
nas casas, forasteiro
como de mim, estava.
Nas páginas e amadas,
velhas caligrafias
de ervas, biografias,
a voz do amado era
o que mais procurava.


E ouvia a voz no vento
e pela sombra casta
gota de luz filtrava
a presença do amado.
Ah, como é curto o sonho
no sono tão pesado!


Do livro Todas as Fontes Estão em Ti (Editora Eclesia, 2000)

domingo, maio 01, 2011

Dois poemas de Carlos Nejar



SEM ESTRELA

A morte ia comigo e eu, com ela.
E vi o seu ridículo vestido,
o andar desajeitado e sem sentido,
o rosto com penteado de donzela,

sendo tão velha, velha, no ruído
de suas meias e sapatos de heras.
Então não resisti e me ri dela,
caçoava de seus gestos confundidos.

E desta sisudez que nada espera,
mas sabe que na vida um só gemido
pode fazê-la emudecer. Insisto

em rir de sua passagem sem estrela,
sem grandeza nenhuma. E se resisto,
é porque está em mim quem vai vencê-la. 




CETRO


Tens de meu reino, o cetro.
Tudo o que me sucede
é futuro em tua rede.

Estás no princípio
e fim. Mais forte
que as coisas
que estão em mim. 


Do livro “Todas as Fontes Estão em Ti”, Editora Eclesia



Via blog http://eliotkalamos.blogspot.com/
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