segunda-feira, 24 de maio de 2010
____* queda
quarta-feira, 24 de junho de 2009
À meia noite
Para acompanhar leitura: Back To Black
(Amy Winehouse)
Era tarde, muito tarde para retroceder. Ela sabia!... Nada do que lhe dissesse naquele momento far-lhe-ia algum sentido...
Consternada com a sua súbita reação, ela ringe os dentes e lhe interpõe uma fala silenciosa, cujos significados são postos ao acaso e grudam nas paredes como estampas envelhecidas em um retrato natural.
No móvel, imóvel, as imagens distorcidas de uma cena de natal: árvores pitorescas, sinônimos à mesa. Objetos e retalhos de uma vida real. Mas era tarde, realmente muito tarde. O relógio preso à sala de estar, antigo préstimo de família, anunciava-se pau sa da mente à meia-noite.
Talvez se não fosse pela insistência daquela humilde e pretensa sonoridade, podia-se dizer que a sala impregnava-se de a companhia nefasta de um agouro congruente ao cingir de seus dentes.
Eram os sons do silêncio, os sons das madrugadas mal-dormidas, das luzes intransigentes, das letras repartidas. Eram os sons dos vultos saltando os muros, dos saqueadores de tesouros escondidos no interior dos túmulos. Eram os sons dos vermes que vagam na noite com o tridente de Netuno.
Mas ela nada pôde fazer.
Não havia como enunciar simples palavra de conforto, posto que a vela apagara-se há meia-noite, junto ao silenciar dos seus badalos e dos seus açoites.
Ela nada pôde dizer.
O candelabro ainda enfeita o centro, porém a chama na vela o vento soprara rompendo, sem mesmo a companhia de algum mimo ou acalento.
Ela nada pôde dizer. Ela nada pôde entrever.
Acompanhava-lhe o espírito apenas o denso e grotesco rugido dos dentes estampido no ar; perdido no cais, no vácuo, no mar...
– Rsss... Ela nada pôde fazer!
* Mini-conto extraído do livro: ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília: 2006, p. 75-76). Publicado no site Garganta da Serpente, na categoria Contos de Coral.
** Texto “revisitado” pela autora em 24 de junho de 2009.
*** Imagem disponível no site Word Art Friends.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Resistência
O mundo mudou e eu ainda não me dei conta. Ainda me pego contemplando as estrelas, desafiando a lua e invocando São Jorge para me proteger – com sua espada - do dragão. Muito embora, também aspire corromper o herói em vilão.
O mundo mudou e eu ainda fico de bobeira, vagando noite adentro, madrugada inteira, só para colorir e admirar borboletas. Ainda busco significados nas lendas, ainda me reservo o direito de cultuar uma Helena. Ainda desenho, costuro e cinjo palavras de otimismo, mesmo quando o mundo parece-me um enorme abismo. Ainda falo pelos cotovelos mesmo sabendo que o momento pede silêncio. Ainda me recuso a ouvir o óbvio, porque o tédio é o meu ópio. Porém, ainda alimento o opróbrio para fabricar uma bomba-relógio.
O mundo mudou e eu ainda caminho olhando para debaixo da ponte. Só para ver as lavadeiras tecendo longas e alvas cantilenas e as crianças festejando nas águas poluídas as suas existências. O mundo mudou e eu ainda escrevo versos em prosa; ainda falto aula, dissimulo em prova. Ainda desafio o professor, ainda rio para aliviar minha dor.
O mundo mudou e eu ainda leio José de Alencar, ainda choro com o beijo na novela. Torço pela boa sorte da personagem e me penalizo com o castigo do antagonista. Ainda me divirto com a dualidade dos espiritualistas e com a ignóbil racionalidade dos positivistas e de todos os demais istas. Ainda me levo à risca e busco verdade na retidão, só para ouvir a voz do meu coração. Ainda procuro ser justa com um irmão e ser-lhe fiel como a um bom cristão. Ainda acredito em tentação, pecado, obsessão, mas me recuso a ouvir sermão...
O mundo mudou e não deu tempo eu escrever - à mão-livre - uma carta de amor. Não deu tempo eu colar nas curvas-linhas de minha grafia uma boca pintada de carmim. Não deu tempo eu encharcar o texto de perfume e dedicar, ao amado, um fragmento da prosa poética de Eça de Queirós. O mundo mudou e eu não pude cuidar, ninar, alimentar o meu amor.
O mundo mudou e eu ainda sinto vontade de me sentar no banco da praça, e ficar lá - por algum tempo - entre flores, folhas, insetos e pássaros. O mundo mudou e eu ainda sinto saudade do sítio, de tomar banho de chuva quando o sertão anuncia inverno. De mergulhar na água quente do açude nas madrugadas enluaradas.
O mundo mudou e eu ainda busco a Deus e me escandalizo quando, por acaso, sinto-me ateu. O mundo mudou e eu ainda insisto em quebrar barreiras, evocar uma revolução que, de alguma forma, ressignifique simbolicamente os valores humanos.
O mundo mudou e eu mudei? Não sei, não sei... Sei que estou a me perguntar (e já faz algum tempo): ― Quem eu sou?
Enquanto tantas pessoas estão no mundo buscando prazer na transitoriedade e acreditam que há felicidade na superficialidade, eu me pergunto: ― Onde está o sentido da vida?
Talvez, para muitas pessoas esse comportamento, essa viagem, esse mergulho em torno do ser “eu” pareça pura perda de tempo, considerando que o mundo mudou!...
* Texto selecionado, em 3◦ Lugar, na categoria crônica, no XX Concurso Internacional Literário de Inverno, promovido por Arnaldo Giraldo (Edições AG), em agosto de 2006. A escrita fora selecionada para integrar o livro "Ritmo Vital". FERNANDES, Hercília M. Resistência. In: ____. GIRALDO, Arnaldo (Vários Autores). Ritmo vital: conto, poesia e crônica. All Print Editora: São Paulo, 2007, p. 108-109.
** A prosa-poética Resistência também integra o livro: Agá-Efe: ruínas & quimeras. (FERNANDES, Hercília, 2006). E, encontra-se disponível no site: Artigos.com.
terça-feira, 24 de março de 2009
Mania de Maria-só-zinha
Imagem: Eu e minha boneca
Eu ainda brinco de boneca
e a minha boneca chama-se Maria.
Durante o dia, dentro de um armário,
eu guardo, com cuidado, a minha bonequinha.
Depois cuido para que ninguém perturbe
nem que alguém machuque
a minha doce Maria-só-zinha.
Porque a Maria é feita de delicados panos
cada qual com metros de bordados
e coloridos mantos.
Porque a Maria é curiosa, é formosa,
mas ainda é muito pequena.
Por isso, pode desmanchar suas tranças
e perder-se nas rendas;
Ou nas areias turvas e claras e sardentas.
Mais eu ainda brinco de boneca
Só para pentear alvos e enormes cabelos.
Fazer-lhe roupas, inventar-lhe nomes,
namorados e segredos.
Depois desmanchar tudo; sem, contudo,
destruir-lhe os sonhos, parafraseados e adereços.
Porque eu ainda brinco de boneca
e construo casas bem “azulzinhas”
para que a minha Maria-só-zinha não se sinta sozinha
e possa fazer gostosuras em sua farta cozinha.
Isso tudo porque eu brinco de boneca
e a minha boneca chama-se Maria.
É Maria que pinta em tonta-tinta as minhas curvas-linhas.
É Maria que liga ponto a ponto a ponte da minha varinha.
Porque ainda sou criança e meu natural é imaginar
Porque criança que é criança,
brinca mesmo sem saber jogar.
Porque criança não se preocupa por que sonha,
nem o porquê do sonhar.
Simplesmente sonha porque nasceu para amar.
É por isso que eu digo:
― Eu ainda brinco de boneca
É essa a minha mania!
*Do livro Agá-Efe: entre ruínas & quimeras (FERNANDES, Hercília, 2006, p. 95-96).
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Mar de chuva e sóis
A luz no corredor
A porta entreaberta
A sala quase deserta
O relógio na parede
O perfume ainda no ar.
.........A cadeira de balanço
.........Os óculos no armário de estanho
.........A fumaça do cigarro
.........A canção no rádio
.........A foto 3X4
.........O abajur, as cortinas, o porta-retrato.
A mesa na sala de jantar
A TV em preto e branco
O sofá, o centro, o candelabro
E os meus tamancos.
........A gravata amarela e a sua seda azul.
O colarinho em desalinho
O paletó em puro linho
O vinho tinto, a alva porcelana.
........Os discos de vinil
........Carlos Gardel na vitrola
........O velho e bom colchão de mola
........A colcha de chenil.
Os bordados nos lençóis
A purpurina, a lamparina, o brio.
Rosas, borboletas, girassóis...
Mar de chuva e sóis no meio de nós.
(Hercília Fernandes, in: Ritmo Vital, p. 21).
*Poema classificado em 5° lugar, na categoria poesia, em Concurso Literário Internacional, promovido por Arnaldo Giraldo (Edições AG), em 2006, para composição da antologia Ritmo Vital (All Print Editora-São Paulo, 2007, 118 p.).