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terça-feira, 17 de julho de 2012
versos de circunstância
porque é inverno e chove
porque por acaso faz frio
os frascos da memória
se me abrem
no cheiro acre de mofo
que emana das gavetas
no cheiro doce do chá
fumegando sobre a mesa
no vestir da blusa cinza
de lã fina
que me deste num antigo
aniversário
porque era inverno e chovia
porque por acaso era frio
Márcia Maia
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domingo, 17 de junho de 2012
como napalm
não rasgam-se as cortinas
nem cobrem-se os céus de relâmpagos
não ouvem-se trombetas
tampouco proclamas
só o silêncio escuro e espesso da ausência
entranha-se como napalm
à pele à mente à alma
Márcia Maia
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sábado, 17 de março de 2012
saudade
essa coisa que dá um nó na gente
que aperta aperreia e faz chorar
e não tem jeito claro pra explicar
que diacho é aquilo que se sente
mais parece ser coisa de demente
não é raiva ou tristeza nem mania
nem remorso ou amor nem latomia
alegria então mesmo é que não é
é uma falta de ver quem ver se quer
é querer ter quem tanto se queria
Márcia Maia
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
quase um poema de amor
enquanto adormecido me abraças escuto teu coração
que me fala de cansaço algumas dores pequenos prazeres
do gol marcado aos quarenta e seis e meio do segundo tempo
da dor súbita fisgada na coxa
fisgada outra no peito que não sara
de histórias de ônibus e jardins
de estradas desertas noites estrelas
música às vezes lua à porta dos pequenos povoados
fala de metrô e poesia de filhos pequenos e crescidos
de amores sonhados vividos perdidos
beijos sem fim em parati jasmins de inverno
no sono teu braço me envolve mais próximo adormeço
e seguem-se segredos
como se teu coração apenas falasse de nós
dos sonhos que se escondem no avesso de teus olhos
onde rio onde ris e me amas — amas?
tua mão em meu rosto roçar ligeiro lábios teus meus
desperto
entre os lençóis vazios sinto o calor do teu sono ainda
na boca o gosto do beijo que foi sem nunca ter sido
Márcia Maia
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012
sábado, 17 de dezembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
poeminha antes de dormir
talvez arriscar apenas letras
digitá-las
[
vez que escrevê-las à mão
caligraficamente
desenhadas
ou apressada
mente desdenhadas
segundo alguns
é inconcebível no século XXI
]
na tentativa de
ao fim
vê-las travestidas de poema
fátua fantasia
de quem prefere a poesia
ao popular rivotril
Márcia Maia
digitá-las
[
vez que escrevê-las à mão
caligraficamente
desenhadas
ou apressada
mente desdenhadas
segundo alguns
é inconcebível no século XXI
]
na tentativa de
ao fim
vê-las travestidas de poema
fátua fantasia
de quem prefere a poesia
ao popular rivotril
Márcia Maia
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
tango
um tango na vitrola um vermute
à meia-luz na sala
promessa de pecado e de desfrute
mas inda se cala
aberto até acima do joelho
revela-se o vestido
decote debruado de vermelho
como prometido
e a mão conduz a mão até a dança
desliza no cabelo
daí ao colo à boca ao corpo e avança
mais — sem atropelo
e agora o que era dança beijo seja
e o que se oferecia
tomado e repartido se anteveja
como apetecia
(...)
manhã terno e vestido em desalinho
a um canto do sofá
um corpo noutro corpo faz seu ninho
— o que mais falar?
Márcia Maia
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sábado, 17 de setembro de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
para um poema de amor
acordei querendo escrever um poema de amor
um poema que de amor reluzisse
nessa manhã sem azul
que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido
e reinventasse ninhos no pinheiro
e fantasmas amigos na varanda
vivos ou não
um poema que verdágua transbordasse
num misto de mar e capibaribe
de paralelepípedo e mangue
e que fizesse florir em pleno inverno os
baobás e todas as acácias
guardando os flamboyants para o verão
um poema que se negasse ao corriqueiro
eu te amo e dissesse do amar
com verso e rima
numa voz peculiar de gesto novo
que fosse efêmero como o bronze esverdeado
das estátuas e permanente como o brilho
que há nas bolas de sabão
que dissesse de mim sem me dizer
e alardeasse o querer de cada gente
dispensando os como os quando e todos os porquês
e que algum dia em um livro em um blogue
onde quer que alguém o visse
que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler
Márcia Maia
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domingo, 17 de julho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
impertinência
sei de tantos descaminhos
desolhares desistências
sei como é estar sozinho
sem nenhuma indulgência
sem nunca pedir clemência
sei de mim — um ser marinho
perdido a meio caminho
do deserto na iminência
de esquecer o mar — vizinho
de abismo e insolvência
mas não será desse espinho
que hei de morrer — paciência
a tal vil redemoinho
ofereço a impertinência
de quem conhece a ciência
do sobreviver— sem vinho
herói quixote ou moinho
sigo adiante — e de ausência
cinjo-me enquanto escrevinho
meus versos de inexistência
Márcia Maia
desolhares desistências
sei como é estar sozinho
sem nenhuma indulgência
sem nunca pedir clemência
sei de mim — um ser marinho
perdido a meio caminho
do deserto na iminência
de esquecer o mar — vizinho
de abismo e insolvência
mas não será desse espinho
que hei de morrer — paciência
a tal vil redemoinho
ofereço a impertinência
de quem conhece a ciência
do sobreviver— sem vinho
herói quixote ou moinho
sigo adiante — e de ausência
cinjo-me enquanto escrevinho
meus versos de inexistência
Márcia Maia
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terça-feira, 17 de maio de 2011
íntimo
sentes?
esse arrepio que disfarço
essa chuva que dentre as pernas
se me brota
umedecendo-me secretamente
esse descompassado bater do meu
coração urdindo
jam sessions de desejo
dentro em mim
enquanto olhar sereno riso
nos lábios
todas as tuas histórias escuto
sem que te apresse
sem que me apresse
sentes?
Márcia Maia
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domingo, 17 de abril de 2011
itinerário
não sei de aranhas
nem de fios
sei de teias
não sei de pássaros
tampouco de borboletas
sei de vôos
sei de vertigens e abismos
de asas partidas
de mãos vazias de gestos
(da ausência de versos)
e sei também de dor e desamor
mas isso fica para
outro poema
Márcia Maia
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quinta-feira, 17 de março de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
quase um frevo-canção
era a noite era o pátio era o frevo
era o povo era o passo era a rua
a cerveja esfriava na mesa
e uma a uma as orquestras passavam
se uma história doída findava
(sem sequer revelar-se à tevê
cuja luz bem ali se acendia)
uma nova se já pressentia
(só a lua sabia o porquê)
quando spock edgar jazzeava
e as canções do coral evocavam
do passado o valor e a beleza
nos despiram depois noite e lua
e mais nada direi — não me atrevo
Márcia Maia
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
o avesso do desejo
te encontraria
no deserto
às dez e meia
tonto de luz
passos trôpegos sobre a areia movediça
eu te desnudaria
meio-dia
sol a pino
e te manteria prisioneiro
até que tingisse
a tua pele
o mais negro ou rubro tom
e cegasse os teus olhos o sol da tarde
te abandonaria então
nu e insone
meio às sombras
sem sonhos
onde te escondias das noites quentes
de antigos janeiros
por fim partiria
liberta
de ti
e do cárcere gelado
dos interditados verões do teu amor
desejo ao avesso
ainda pulsando em mim
Márcia Maia
imagem: lilya corneli©
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
poema à toa
escrevo papoula
como se semeasse a primeira
cor da primavera
escrevo deserto
como se me desafogasse
e partisse
o que sonho escrevo
(finjo)
não minto
Márcia Maia
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
um poema à hora do almoço
um poema à hora do almoço
tecido em pensamento
sem caneta
teclado
guardanapo
um poema de sentir saudade
germinado entre folhas
de alface
hortelã
manjericão
diluído em burburinho
(afinal é hora do almoço)
na fumaça
de automóveis
e cigarros
é provável que se perca rápida
e definitivamente
entre a conta
e o último
gole do café
pois para que serve um poema
de saudade
(escrito
em pensamento
à hora do almoço)
senão para perturbar o apetite e
o coração
Márcia Maia
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sábado, 16 de outubro de 2010
de insônia
madrugada de distâncias infinitas
que escorrem liquefeitas à janela
e cintilam no asfalto rua afora
entre cães adormecidos e mendigos
liquefazem-se as distâncias não o tempo
que este escorre indiferente à madrugada
e branqueia o cabelo enruga a face
num rosário de alegrias e desditas
onde a vida embora vida não é bela
e se bela é de ontem não de agora
que ora alterna-se entre leitos e jazigos
e onde amor é sempre tédio ou contratempo
corpo aqui corpo acolá numa enxurrada
de vazio e solidão por desenlace
Márcia Maia
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