****Entardecer no Sahel
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Um arrepio de vento que passou
lonjuras de albatrozes, planícies
imensidões de orvalho...
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*- assim era ela
que se choveu pela tarde
enovelou-se na noite
enevoou a manhã
mas não ficou
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Quisera
eternizar seus passos
naqueles campos de relva
mas
agora
só esta foto me resta
e por isso dobro-me
no bafo tórrido
deste lajeão de pedra
a divagar
num pôr de sol
rente à touças de carrapicho
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Habita este meu viés
uma velha naja cuspideira
e pequenos nimbos de moscas
pairam
acima do arbusto espinhento
que silencia
entre o fulvo do céu
e este balão de viuvez imposta
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Amadou, meu amigo Bambara
Moussou e duas inglesinhas
sorridentes
( a mais vívida é Morag; a outra
nunca soube )
ajudam-me a destocar grilos
da terra seca
e não questionam minha invalidez
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Hoje sou das moscas
Gafanhotos roeram tudo por aqui
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Impressiona
o olhar dos tuaregues
Olhos graves
que se destacam
das faces ocultadas
e levam corpos
que nunca param
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Impressionam os perfis
de umas mulheres magras
quando se vão ao longe
vestidas de preto como se em luto
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- carregam baldes, vitualhas na cabeça
e sorriem com polidez
quando cruzamos suas rotas
na savana ressequida
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( Que povo é esse
de mulheres tácitas
e homens nunca vistos ? )
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Os Bambara são coloridos, os Dogon
- homens e mulheres
coloridos e alegres
a trajar estampas como jardins
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Possíveis cromos da fêmea numa tarde saheliana:
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1-
saias longas, seios nus
mãos de couro de réptil
a socar nos pilões o amendoim
o milhete
que o inseto refugou
cantando-------------------------------
cantando---------------
cantando
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2-
um olhar enxuto e bondoso
o filho às costas
caminhando ao sol
sem dar um pio
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3-
amamentando à sombra
cantando, cantando
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4-
publicando
um tratado sem letras
sobre as artes
de superar e de sorrir
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Ó Mourdiah, Ó Dilli, Ó Nara !
Bendito o aconchego de teus
corações
nessas casas de adobe
e estrume de cabra
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Benditos tuas roças
----------------infibuladas
----------------proibidas
o ensinamento
das brigadas fitossanitárias
as lições da locusta, suor
e guerra química
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E mais que bendita a imagem
daquelas crianças rezando e batendo
latas na cabeça
numa procissão de mirrados
a implorar por chuva
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O Brasil e sua verdura deitam-se ao longe
além do tempo
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( - levou ela consigo
suas imensidões de orvalho- )
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e também o Niger
com seu delta inusitado
corre longínquo
e não há mais rios
por aqui
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No bafo desta pedra exangue
não há remédio:
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a vida
num cantil
de água salobra
e o mosquedo turbina
e uma naja me espreita
despejando a noite
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