Mostrando postagens com marcador assis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador assis. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de maio de 2010

*
*
*
*
Fado
*
*

A mais de 7 palmos
esculpiu uma guirlanda
na hora do besouro
----------------e na cova do besouro
----------------deixou semente de angelim
*
*
E foi naquele labirinto
sufocante e cingido

----------------( não obstante certos mareios
----------------de umidade ilusória )
que brotou uma árvore
já com um pássaro pousado
um balanço de cordas
uma filha sentada
----------------e tudo
e as gargalhadas da menina
deram ao mundo sua canção
*
*
Dedica-se
agora
a rir e a empurrar a criança
em seu destino de nuvem
*
mas, resoluto
----------------o inseto
escarafuncha a galeria por dentro
*
e esse eterno revirar
já rendeu
uma perfuração de úlcera
alguns chiliques
----------------e aquele ar

----------------de quem um dia
----------------pisou na merda
*

segunda-feira, 12 de abril de 2010

*
*
*
*
*
O Mexilhão
*
*
Úmida, rosada
incógnita
--------------------ensimesmada
--------------------nas franjas
de um silêncio entre valvas:
*
broto de um ramo distante
guardião do compasso
--------------------da maré de quadratura:
*

como tornastes
um quase obsceno
refúgio
a exalar a fragrância do cio
e do sal ?
*
que tanto almejaste
em vida
nas noites de preamar
quando fugiam-te
os sumos
nas águas da continuação ?
*
*

Túrgido grelo do tempo
embebido nas dobras
de um paramento
--------------------de vulva:
*
olhar-te assim, amanteigado
--------------------e ardente
desperta a saliva na boca

--------------------traz o encanto
da volúpia

--------------------e uma viva memória
agarrada na rocha

*
*

sexta-feira, 12 de março de 2010

*
*
*
*
Posse e Desfeitura
*
(À memória de um certo umbigo -
gral, que de fundo e belo
poderia conter no vórtice
os ovos de um cuitelo
)
*
*
1/2 lua
e a dança tua
deterei
neste tempo afoito
*
como tudo mais
que se move
*
*
E do fogo que ardia
em teu pelo
gardarei fagulhas:
súmulas do pasto
que me há saciado
*
*
Também
perpetuarei
------------tua boca
a lamber-m'a face
com fúria de lobo

e o que houve de probo
nesse olhar sem cautela
------------andrajoso, roto
entre urros e coitos
*
*
Ah, e por que não
------------ainda
--------------------trancafiar os retratos
das mãos obscenas
no chão
------------parque
--------------------relva
sem muito supor ?
( ... se eram dedos de garoa fina
em pétalas de canção de pássaro ... )
*
*
Do mais, manterei o vinco
Mas atarei, de soberba, ainda
teu umbigo cálido
*
*
E então, num arco de lua
co'a pele tatuada
------------por tua carne crua
e havendo dançado
------------um súbito fado
farei dormir
------------meu sono pesado
*
( dormência de cobra
deste tempo afoito
- torcida no vidro
numa espécie de 8 )
*

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

*
*
*
*
*
Recuerdos
*
*
( Para la Mujer de los Gatos )
*
Enrodilhado
como a cauda
da verdadeira coral
um raio de cisma
brota dos olhos
sem ventar provento
*
- [ cisma de ] um mofo aspergido
--------------------por paredões de grotas
--------------------& palafitas bambas
, vez que mal me lembro
da cisma dançante das algas
*
*
Explode a água na noite do basalto
&
os protagonistas de um bestiário torvo
avançam em hordas
como devotos no anoitecer
dos dias santos
*
*
Encharco
*
*
Pairo medonhas feras
d`uma fauna excomungada
--------------------que rasgam-me vulvas na derme:
*
as bundas primeiro
*
depois
os olhos ciclópicos
olores
córios
âmnios
*
alantóides
e gosma
*
*
Como esquivar
do caruncho do couro
& da broca dos tendões
*
quando a lua vai a pino
*
e uma nítida lembrança
da mujer de los gatos
retorna
*
uma vívida lembrança
de seus gemidos
salobros
--------------------retorna
*
com aquela topografia de noite frescal
morna, úmida & cheirosa

--------------------pra cair
em mantos
de bruma
na relva noite de meus pêlos
*
*

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

*
*
*
*
*
Nos Campos do Norte
*
*

( Para Marcelo Tápia )
*
*

Extraio dos cardais
um poema
---------------do norte
*
*
O bisonte europeu
---------------está ameaçado
; os da América
chegaram a somar
---------------20-30 milhões
---------------de indivíduos
e declinaram para 1.091
---------------em 1.889

*
*
Do meio das inflorescências arroxeadas
que se deitam ao vento na invernada
logo ao fundo da casa
---------------brota uma novilha solitária
---------------que vaga nos sóis
------------------------------e rumina
------------------------------o de sempre
*
---------------
sustém um passo
---------------e me encara nos olhos
*
---------------e então se vai
---------------a largar esterco
*
*

À noite
seus olhos refletirão a lua
enquanto os meus cairão tão baços
quanto as janelas de uma cabana de toras
---------------no frio
*
*

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

*
*
*
*
*
Qahoba Haa: Casa Cadente
*
( Aos poetas Sérgio Medeiros-
tradutor do Popol Vuh para o português-,
Benny Franklin e Benoni Araújo )

*
*

1
*
Imergi meu corpo
num tonel de heranças
bem na quilha daquela hora ressonante
------------Oca hora
do tabernáculo de um grande molusco
devorador de areia e de vidro
*
*
*

2
*
O tempo passa para todos
e abre sulcos
*
*

A vida inteira
imergi minhas amplidões despudoradas
nas fendas de mulheres transparentemente mornas
com dentes nacarados
------------que, via-de-regra
regavam seus quintais com aquavita
*
*

Cheirei de todas as rosas
Provei das gorgônias mais vis
------------------------e agora estou aqui
------------------------neste barranco, velho
a decifrar enigmas
*
*
*
3

*
Tantos assombros, mais um:
um mosquito esmagado
nas páginas do Popol Vuh:

bem no ponto onde Hun Ah Pu
e X Balam Ke, os gêmeos Caçador
e Jaguar Veado
puseram os mosquitos a seguir
pela estrada negra
para picar pessoas e os bonecos
de pau
*
*
*

4
*
R Atit Qih / R Atit Zak
( avó do dia / avó da luz )
Bendita demência escarlate
Minhas avós jamais suspeitaram de seus próprios
conselhos
*

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

*
*
*
*
*
Tocata à Confusa em Três Movimentos
*
( Ao poeta Fabrício Carpinejar )
*
*
Desceram a ladeira
as três confusas
e instilou-se

no lacre da casa
a três-em-uma:
a de humor avesso
a gralha eufórica
a que se viu guerreira
*
e hoje vive(m) no ranço
*
*

Mas tudo começou muito antes
no dia em que assomou à cuesta
num vôo prosaico
de vira-bosta matreira:
pura raque
sem pluma ou carne
a examinar
a horta
*
*
Tentou imperar
mas não conseguiu

então desmandou
sem êxito
de modo a restar
apenas
seu retorno consentido
e gratificado
pro lugar de onde vieram
*
: debandou-se
com o rabo entre as pernas
- caniços de junco
palafitas parcas
das várzeas
da hiléia
*
*
Foram como vieram
ladeira abaixo
mas de traz pra frente
*
a quatro-em-uma
co’a bunda na proa
*
percorrendo os vales
abarbatados na neblina
*
os mamelões
sarapintados de malerbas
*
talvez já com 5, 6
facetas
mal lapidadas
num único grão
de carbono vil
*
*
*
*
Hoje cai noite fria
e o futuro é incerto
*
*
Uma lagartixa
mostra a pança na vidraça
e o céu é carijó de tanta estrela
*
*
*
*
O que há de mais certo
que ser monge ?
*
*

- OMMMMMMMMMM -
*
*
*
_________________
Obs.: Algumas pessoas que leram este poema estranharam a maneira como empreguei os verbos- ora na terceira pessoa do singular, ora na do plural. Minha intenção foi exatamente esta: deixar claro que a criatura retratada (aliás, com bastante fidelidade) vai de una à múltipla, e vice-versa, com uma espontaneidade espantosa.
*
*

sábado, 12 de setembro de 2009

*
*
*
*
*

Na Trilha do Poço Verde
*
( A meus alunos
em excursão à Serra do Mar.
Abril de 2009 )

*
*
Um ninho com dois filhotes
clarões
estalidos
& muco
*
*

Do centro da olheira da noite
esquadrinhamos tudo
*
*

-------------------------Um pequeno rato silvestre
-------------------------saltita na via das luzes
*
-------------------------
& os brilhos afloram
-------------------------das aráceas molhadas
*
-------------------------dos polipódios
-------------------------molhados
*
-------------------------
das bromélias
*
-------------------------
dos bambus
*
*
No sensato silêncio dos grilos
chove indagações e água
*
& tudo aqui dentro
é lampejo / batimento
inquietação
*
*
-------------------------Estrelas
-------------------------sondam
-------------------------dos olhos de um sapo

*
*
*
Obs.: Clique na foto
para ver detalhes do olho do sapo
*
*

segunda-feira, 13 de julho de 2009

*
*
*
*
*
Uma Fábula Patagã
*
*

Revi teus olhos
e o vasto caminho das manadas
*
*
Recordei tua mão em riste
presenciei o vulto da viscacha na noite de Três Cerros
e os fósseis abissais a escamar da cordilheira
pra forrarem o fundo da estepe
------------------------------que precede
------------------------------o cabo
------------------------------do desengano
*
*
Havia barcos no estreito e uma lua no céu
; Calafate dormia feito um cão na praça fria
*
*
Ouvi o regougo dos zorrillos
e o eco das aves que piaram de dia
Maldisse o vento
*
*
Ao vislumbrar Ushuaya, onde estavas
desafiei todas as rajadas
que poderiam marejar teus olhos
*
*
O amanhecer trouxe uma amplidão
------------------------------um silêncio
------------------------------e uma ausência
------------------------------de chão

*
*
*
(Publicado com um dia de atraso
por motivo de viagem)
*
*

terça-feira, 12 de maio de 2009

*
*
*
*
*
Sommerfugl
*
( Para Lyselotte A.
que chegou
se foi
mas ficou )
*
*
Um
mínimo
deslize
Lyse
e minha viela
violou-se
em chispas:
*
vagarosos búzios
a se arrastar
nos areais
de cambraia
e pele
texturas
do interior
das ostras
holotúrias túrgidas
*
*
Oh radiosa
Freya
filha de Njord
mulher de Od
e minha:
converte-me
em
falcão
com esse teu amuleto
de penas
*
*
Abandonaste a rocha
sereia do porto
de København________________________________Copenhague
para roçar-me
com tuas tranças
de sol
teus olhos de casca de mar
tua tez de pérola
juvenil
*
uma terrível
impetuos
( a )
idade
Viking
*
e um silêncio
benigno
quase penumbra
( - indecifrável
carta náutica -
puro mistério )
*
: eis teu belicoso
instrumental
de tortura
sommerfugl____________________________________borboleta
*
*
E ainda trouxeste
pra minha gruta
de rei eremita
o aconchego
de uma casinha
verde
numa borda qualquer
da Jutlândia
com esse cheiro
de pão
exalando do forno
- grahamsbrød -______________________- pão de grãos integrais -
e esse livro
repleto de grunhidos
sobre o criado-mudo:
*
drøm behageligt________________________________bons sonhos
hemmelighedsfuld__________________________cheios de mistério
måne // stjerne_______________________________lua // estrela
måge // bjerg___________________________gaivota // montanha
duftende // markblomst________________cheirosa // flor silvestre
jomfruelig pige______________________________virginal menina
guldførende_______________________________que contém ouro
ildfuldhed_________________________________________ardor
elsker__________________________________________amante
kødets lyst________________________________volúpia da carne
havgudinde__________________________________deusa do mar
udstyrsstykke_________________________________espetacular
ildsprudende bjerg__________________________________vulcão
frugtbar jord____________________________________solo fértil
smøring______________________________________lubrificação
det er regnvejr_______________________________está chovendo
flod_______________________________________________rio
skrige____________________________________________grito
sædvæske________________________________________sêmen
stilhed__________________________________________silêncio
fylde__________________________________________plenitude
havskum__________________________________espuma do mar
*
*

Vou te dizer duas coisas
radiante Lyse:
*
1- Ele estava errado
nunca houve nada de podre
no Reino da Dinamarca
*
2- Estou ficando
completamente
maluco
*
*

domingo, 12 de abril de 2009

Ocarina



( Para Leila Miccolis )


O sopro morno
nas entranhas
da argila
dura

o enlevo crescente

os dedos leves
num gentil prelúdio
de um dedilhar de mulher

o calor das mãos

tudo
reinventa o segredo das conchas


Algo se avulta
no oco

o novo reaviva o velho

e o som leve do hálito
partido
rompe o hímem do tempo
e crispa a pele do silêncio

- libélulas, pardais
rebrotam
do horizonte

da melodia
afloram
os presságios
Poema de Chico Mello

quinta-feira, 12 de março de 2009

*
*
*
*
Entardecer no Sahel
*
*

Um arrepio de vento que passou
lonjuras de albatrozes, planícies
imensidões de orvalho...
*
*

- assim era ela
que se choveu pela tarde
enovelou-se na noite
enevoou a manhã
mas não ficou
*
*
Quisera
eternizar seus passos
naqueles campos de relva
mas
agora
só esta foto me resta
e por isso dobro-me
no bafo tórrido
deste lajeão de pedra
a divagar
num pôr de sol
rente à touças de carrapicho
*
*
Habita este meu viés
uma velha naja cuspideira
e pequenos nimbos de moscas
pairam
acima do arbusto espinhento
que silencia
entre o fulvo do céu
e este balão de viuvez imposta
*
*
Amadou, meu amigo Bambara
Moussou e duas inglesinhas
sorridentes
( a mais vívida é Morag; a outra
nunca soube )
ajudam-me a destocar grilos
da terra seca
e não questionam minha invalidez
*
*
Hoje sou das moscas
Gafanhotos roeram tudo por aqui
*
*
Impressiona
o olhar dos tuaregues
Olhos graves
que se destacam
das faces ocultadas
e levam corpos
que nunca param
*
*
Impressionam os perfis
de umas mulheres magras
quando se vão ao longe
vestidas de preto como se em luto
*
- carregam baldes, vitualhas na cabeça
e sorriem com polidez
quando cruzamos suas rotas
na savana ressequida
*
( Que povo é esse
de mulheres tácitas
e homens nunca vistos ? )
*
*
Os Bambara são coloridos, os Dogon
- homens e mulheres
coloridos e alegres
a trajar estampas como jardins
*
*
Possíveis cromos da fêmea numa tarde saheliana:
*
*
1-
saias longas, seios nus
mãos de couro de réptil
a socar nos pilões o amendoim
o milhete
que o inseto refugou
cantando-------------------------------
cantando---------------
cantando
*
*
2-
um olhar enxuto e bondoso
o filho às costas
caminhando ao sol
sem dar um pio
*
*
3-
amamentando à sombra
cantando, cantando
*
*
4-
publicando
um tratado sem letras
sobre as artes
de superar e de sorrir
*
*
Ó Mourdiah, Ó Dilli, Ó Nara !
Bendito o aconchego de teus
corações
nessas casas de adobe
e estrume de cabra
*
*
Benditos tuas roças
----------------infibuladas
----------------proibidas
o ensinamento
das brigadas fitossanitárias
as lições da locusta, suor
e guerra química
*
*
E mais que bendita a imagem
daquelas crianças rezando e batendo
latas na cabeça
numa procissão de mirrados
a implorar por chuva
*
*
O Brasil e sua verdura deitam-se ao longe
além do tempo
*
( - levou ela consigo
suas imensidões de orvalho- )
*
e também o Niger
com seu delta inusitado
corre longínquo
e não há mais rios
por aqui
*
*
No bafo desta pedra exangue
não há remédio:
*
a vida
num cantil
de água salobra
e o mosquedo turbina
e uma naja me espreita
despejando a noite
*
*

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

*
*
*
*
*
Elvira

( À memória do poeta Benjamin Péret )

*
*
Às peles de Elvira
não bastava o chenile
no colchão
----------------iam ao chão
tocavam as poltronas de napa
naqueles dias suados de calor
( e abraçavam as pernas tortas
da penteadeira art nouveau
como um tipo de ameba
a fagocitar
uma espiroqueta orgulhosa e vã )
ganhavam a cozinha
o espaço debaixo da pia
----------------do fogão
vazavam pelas ruas
, bem me lembro
*
*
Entravam nas bocas de lobo
as dobras de Elvira
caiam nos arrabaldes
( não havia favelas então )
cobriam as colinas das fazendas
sufocando o gado
achatando o terreiro
dos porcos
os canaviais colinosos
amolgando planícies
engolindo varjões
, ah se me lembro
*
*
As crianças temiam Elvira
quando os pais demandavam silêncio
*
e, no entanto,
um eterno cheiro de bolo
exalava da casa do papão rosado
como o aroma do cafezinho sempre fresco
represado num bule de ágata
*
*
Quando mocinha
Elvira já era
uma Vênus de massa
paleolítica, italianada
- vim a saber depois
*
*
Já tinha a cabeça sumida nos bobes
feito uma batata
num panelão de brajolas
nas domingueiras paroquiais
*
*
E ria, como ria...
Ria como se fosse morrer
*
*
Ao partir
já com 80 e tantos
não houve caixão
pra tanto perímetro:
*
improvisou-se um imenso sudário
com sacaria de estopa puída
doada pela beneficiadora de algodão
e todas as mulheres da cidade
ajudaram na confecção do manto
com cara esquisita
*
*

No sétimo dia de costura após costura
- os dedais já gastos
o cadáver roxo
os olhos saltando, a língua pra fora -
os homens da corporação tentaram embrulhá-la
com solenidade não convincente
*
mas nem o coração de Elvira
coube nas léguas de pano
pois era, de fato, uma santa
e tudo nela
coração
*
*
Ninguém chorou por Elvira
e hoje as crianças têm vergões na bunda
de tanto fazer bagunça
*
*
*

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

*
*
*
*
*
*
O Louco Diante do Espelho
*
( Para Michael McClure,
Ann Waldman e Gary Snyder )
*
*
Estou no rastro
das noites
; busco a leveza
do óleo
e o ímpeto hormonal
do meio-dia
*
*
É com olhos
e lentidão molusca
que vejo o mundo
e também trago a casa às costas
*
*

Relevo toda viscosidade
todos os géis, plasmas
; qualquer latejar é um caro amigo que tenho
*
*

Afago a brisa e o vento
Retribuo suas carícias
quando meus pelos se eriçam
nas touceiras dos guaraxains
*
e bendigo o leite da lua
que se derrama sobre a flora
que penetra na solidão ondulante do mar
que reluz, concentrado, na superfície limosa da turfa
*
*

Já paraste num acidente da paisagem
pra sentir nesses átimos
teu próprio respiro ?
*
pois então... diz-me quem sou
que
dessas coisas
me nutro
*
*

Nunca deixei de enaltecer o leite
----------das fêmeas
o leite que veio do leite do macho
*

e sempre há, ao longo das trilhas
um lagarto verde
que me acena
co’a cauda
*
*
Sou também sensível ao tempo
e ao tato
feito uma planária na planície
ou uma pequena elevação
de tecido erétil
encravado no vértice
de um pequeno fiorde
logo ao norte de Kristiansund
*

daí
encrespo-me ao vento
, como disse
*
*

E não sou homem de bares
Cultivo um mar de samambaias sob a pele
um mar de avencas
e bons presságios
*
e por mais que migrem os pássaros
as batuíras sempre retornam a mim
pois sou homem de amar

*
*

Já desfiei tramas densas de sisal e ódio
mas clareio as olheiras
dos que minguam na sombra
*
; destilo iras
e devolvo alento
Retorno afeição
*
*

Há quem me veja
----------como o louco na torre
o doidão na bastilha
( Mas também não se vive de ilha ? )
*
*

Silêncios também me sustentam
: mesmo mortos
os escribas de Hamurabi
os grão-vizires
Bach e o tropel dos hunos
ressoam
em minhas manhãs
*
*
Prefiro ter-me
como o airado aéreo das amplidões
, aquele a quem
as antigas bruxas
cantam e cavoucam a terra
dando forma a meus jardins
Tenho brisa perfumada
no alvorecer
*
*

E tu
que ora me fitas nos olhos
e súbito baixas a guarda
quando me desligo
pra elaborar um pensamento
, como é que tu me estimas ?
*
*

O que dizes
das qualificações que recebo
dos robôs cartesianos
que passam a vida
repetindo tarefas
e
etiquetando latas ?
*
*

De que vale
semear relógios ?
*
*

Esta compulsão
ao pentear a barba
me traz alívio
momentâneo
Portanto sou feliz
e abraço o mundo
*
e nunca vi galinhas
a desprezar insetos
nem porcos um banho de lama
então repito que sou feliz
e abraço o mundo
*
*

Na estação das águas
contemplo os canteiros das bruxas
; no estio
retiro os camarões das tocas
- eis de onde vem minha extrema felicidade
em abraçar o mundo
*
*

Eis de onde vem
o primeiro cio das potras
a paisagem em semi-tons
e o olvidar constante
*
*
*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

TRÊS POEMAS PARA PAUL CELAN


*
*
Disjunção
*
*
Às vezes começo a lembrar
daquilo que sugere
uma certa tarde nas dunas
de abóbadas alaranjadas
num fim de tarde
------------------com pombos
------------------e folhas arrastadas
*
de manhãs de sol com crianças
------------------lambuzadas de frutas
e de uns estalidos de velhos que mascam a língua
sob o chapéu
*
*

De repente tudo pára
:
uma senhora
( um gato )
atravessa
o pátio
sem qualquer cerimônia
e arremessa minhas visões
para nenhures
*
para além
-----------de
-----------um
-----------poço
-----------cavado
-----------jamais
*
*
*
*
*
Apnéia
*
*

A tarde acorrentada
a um cano de torneira
e a noite mouca
*
*
À manhã
nem me ouso referir
: a claridade ofusca
*
*

Uma dama sentada à sombra
embala o vento que me foi roubado
*
*
*
*
*
O Louco
*
( Dedicado também a Michel Foucault )
*
*
... e vagava
pela medula da própria alma
exilado
corporificado em água e polpa
como as entranhas de um coco
que se encarceram
na fibrosa intransigência
*
*

Nos bolsos
pensamentos ferviam-lhe
como besouros no guano
*
idéias vertiam
dos canais lacrimais pródigos em vida
*
e, se no escuro
tinha consciência
das próprias pústulas
*
no claro
era branco como giz
*
*

Talvez soubesse das coisas
*
Talvez guardasse a chave
das grandes verdades
*
pois enquanto muitos se mataram
na larica de viver
---------------ele banqueteou
em seu casulo de fibra
sem ter que se morrer
*
e nos dias úteis da semana
quando as pulgas se vestiam de gala
e entoavam recitais com pompa de barão
ele dançava [ mas não ouvia ]
*
E ria
*
*
Autor: Assis de Mello
*