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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO


há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte,
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute

inédito

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

Sylvia Beirute
4Águas, 2011
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domingo, 3 de abril de 2011

AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM - SYLVIA BEIRUTE


















AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM


a minha língua é o ponto mais pequeno
da minha linguagem.
o azul é o ponto maior da minha insegurança.
esta chuva pode ser um homem desfeito.

o inseto vive o mesmo tempo que o seu desejo.
as coisas imortais nunca tiveram corpo.

a dificuldade de escrever revela uma leitura
ineficaz do espírito.

o instinto fechado é a metamorfose em bloco
sem um exercício atual da estátua.

o futuro exorciza o passado e esse exorcismo
é o presente.

nada do que disse acima é correto.
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Sylvia Beirute
publicado no "uma casa em beirute"
.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FECHAR OS OLHOS - SYLVIA BEIRUTE

























FECHAR OS OLHOS

precisas de conhecer a insatisfação das palavras
para escreveres bem.
as subsequências têm de ser uma absorção
linguística do momento histórico.
qualquer produção
tem de mover-se como detonação de entranhas
desde o tempo passado até à arquitectura
da conversão actual.
é impossível fechares os olhos quando tudo
é cortado em metades e essas metades
procuram metades alheias e formam novos todos.
a literatura, onde quer que exista, faz deslizar
as palavras que mais não são do que documentos
contendo novas invenções do mundo,
novos pares de invenções do mundo.
e é assim onde quer que elas sejam ditas. em qualquer
situação minimamente provável.
a palavra que falta ao pensamento é livre. pode
ser dita. escrita. e viciar-se no branco polar
de uma distância verbal. e tu:
continuas a falar. e eu: não consigo ouvir-te.

Sylvia Beirute
também publicado no blogue "uma casa em beirute"
.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

AMO-TE ASSIM SEM CORPO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























AMO-TE ASSIM SEM CORPO


................................{a um namorado}

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute
inédito
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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Contra a Página Branca - Sylvia Beirute

CONTRA A PÁGINA BRANCA

contra a página branca.
contra a página branca ignorar a consciência
que isola a poesia.
e imediatamente
ultrapassar o significado. contemplar
a inexistência que existe para além dele.
e preceder tal resistência que o reinaugura
como uma operação inverificável,
ininterpretável nos seus mecanismos
de duração. de génese.
e precedê-la tão urgentemente como ser-se um
pequeno preconceito nos arredores
da materialidade fluida da ideologia,
do valor de uma confirmação livre,
documentada na redução elástica
da individualidade e do espírito.

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CÓDIGO BINÁRIO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CÓDIGO BINÁRIO

{um pouco inspirado pelo que me ficou de uma leitura de alejandra pizarnik}

nada posso dizer-te, excepto 
talvez
que é tarde de mais e
a sombra é a dívida do corpo, a 
vacuidade
que o acompanha 
até ao destino quieto e 
sem regência; que fracassámos 
a fazer a ausência
quando os nossos corpos 
tropeçaram
na luz de um espírito prévio
que ainda morria 
bem dividido 
na pequena sombra do 
meu hímen intacto.

Sylvia Beirute
inédito
 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Canção para Leonard Cohen (Poema de Sylvia Beirute)



























CANÇÃO PARA LEONARD COHEN

enquanto nos faltarem fotografias
o futuro estará à deriva.
pero si. yes. la ciudad. a cidade.
a cidade que assinala a urgência no meu
vestido comprido e justo, saída do banco
com o dinheiro negro. the money.
money likes rain. chove.
é insuficiente dizer que chove.
é como dizer dinheiro. ou love. (love não
quer dizer amor). d'accord, got it, há
máximos e mínimos.
concepções copernicianas do espaço.
leonards cohens que espiam atrás de
canções bifurcadas. gerações diferentes.
a realidade não dá conta do recado
because it depends on, you know, pois
depende do expressável. representável.
não basta dizer «tudo tem uma duração».
é preciso dizer «tudo é uma duração».
pero si, chica. la ciudad! a cidade. sim.
mas cala-te um pouco. a cidade
onde agora faz sol. sabe: o sol só é
auto-expressável porque é cópia de si mesmo.
todos os dias copia a fórmula recém-passada
de aplanar nos rostos que vão
demolindo a arte de acordar. wake. up.
e nada resulta para mim.
e nem a metáfora é analgésico.
talvez seja a frequência do subterrâneo
desta cidade de vídeo e respeito
onde cada medo seu espreita atrás de um outro
e um tédio urbano
me surrealiza o dom dos olhos.

inédito

sábado, 3 de julho de 2010

Modelo de Admissão (Sylvia Beirute)























MODELO DE ADMISSÃO

é como disseste:
só uma pessoa que ama outra
pode e sabe guardar o seu silêncio, mover as suas
falhas orgânicas e os seus vultos erguidos,
ler os erros que não são mais do que instintos que perdem
a consciência, tornando-se
autênticos e desmetafóricos.
e uma falha no silêncio pode não gerar uma fala
ou outro silêncio, sequer meter um ebulidor da
linguagem, bem como
uma falha no tempo de morrer pode não querer
representar a vida comunicante.
uma coisa é certa, e assim o oculto: um quilómetro
enrolado será sempre um quilómetro,
ainda que manifeste uma memória imediata,
uma distância perto.

Sylvia Beirute
inédito

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Beijo de Rodin - poema de Sylvia Beirute
























O BEIJO DE RODIN

não quero fazer filhos
sobre desejos adicionais
e tardios, desejos sobre a tela tardia da tarde,
desejos sobre o azul infindável
de boas razões indesejáveis.
não quero desejos de desejos,
desejos que retiram desejo a desejos de
tempo raso
e de feitio de auto-pertença e
leves contradições sem alarme e gafanhotos.

não é em vão que
o beijo de rodin é de pedra.

inédito

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Útero - poema de Sylvia Beirute
















ÚTERO

procurando a tua cabeça: quero acordar-te, devolver-te
ao meu útero, teu colar planetário,
fazer-te regressar ao sangue de olhos fechados e incubadoras,
soterrar o teu nome no meu nome, o teu movimento
no meu santuário faminto,
a minha culpa e aguaceiros no teu desejo indeciso de
beleza e desvios. dar-me-ás o teu azul
para que o meu vermelho denso o golpeie de ocupação e pele,
para que duas solidões
se aconcheguem e tornem uma só. e depois, mais tarde,
numa meia-noite de existência avulsa, dentro de mim
dirás o sexo, o sexo
como arredores de um lugar belo.

inédito

sábado, 3 de abril de 2010

Poema de Beneficência - Sylvia Beirute

POEMA DE BENEFICÊNCIA

introduza um colapso numa dúvida. recolha-a por elementos. coloque perguntas ao redor. as respostas situam-se entre tempos verbais. um detalhe apaga-se para dar lugar a outro. a memória como um todo. qualquer força para medir é uma inexpressão na arte. não há um só caminho aberto em direcção a um caminho aberto. imperdibilidade é um modo feio de beleza. as coisas mais belas são decíduas porque não assíduas. como aquele fragmento de biografia sem palavras que procura corporalidade no texto. o seu instinto difásico é como um diálogo em que as duas linguagens se friccionam e encontram como que numa orla central em que tudo o resto se autopune até à morte, ficando um quadro de órgãos estrelados. quem entrou aqui introduziu um colapso numa dúvida, recordo. quem tem dúvidas não morre verdadeiramente. recolher elementos de dúvida é uma ocupação como qualquer outra. os ocupados não morrem. a estética escultural do olfacto é mais importante do que as auto-estradas. por isso, vá a pé na imaginação férrea do silêncio. cheire a paisagem que se absorve lentamente ao fundo e que rasga com ternura a ternura do céu de outono. não ande demasiado. quanto mais andar mais esperança surge. surgir esperança é surgir um espelho, e um espelho é difuso apenas na interioridade. intimidade. é como o poema. o poema que mudou. que se deslocou até aqui porque fez uso das possibilidades, probabilidades, matemáticas e deslumbres que a arte oferece. ontem, quando o visitei, o poema era literatura. hoje é mistificação das bases. e ter um pensamento único, convenhamos, é a fruição da vanguarda. a vanguarda converte porque gera metades de tudo o resto. e tudo o que é metade se perde.

inédito

quarta-feira, 3 de março de 2010

Império (poema de Sylvia Beirute)























IMPÉRIO

posso exigir apenas até à hesitação.
hesitação.
hesitação que externa uma abertura
que externa uma condição.
uma condição que externa uma verificabilidade
condicionada.
uma compulsão que consome para não
multiplicar.
multiplicação. primeira multiplicação.
segunda. terceira. infinita. imperativa.
{todo o infinito tem imperatividade
ou império}.
prossecução. calculador da cegueira
das estrelas. reinício. poderei
exigir-te, recordo, apenas até à hesitação.
a hesitação está muito antes do mundo
e o maior paradoxo
é procurar-me a mim mesma
e o sangue ficar do meu lado.

Sylvia Beirute
inédito

mais poemas {aqui} 
 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Aviso (poema de Sylvia Beirute)
























AVISO

se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

inédito

domingo, 3 de janeiro de 2010

Açúcar-Matéria (poema de Sylvia Beirute)















AÇÚCAR-MATÉRIA

já ter acontecido:
à falta de um vício, ser-me proposto um exemplo
de não exemplo,
o projecto de ser uma mulher de açúcar,
e reverberar a personagem no meu rosto.
e nos anti-corpos da pré-exibição
ver um piazzolla, um piazzolla também de açúcar
e uma composição instantânea, o tango
de uma escalada em condição de cristal.

sim, já ter acontecido, já ter acontecido muitas vezes:
sermos feitos de açúcar, porque
assim que a dança começa, piazzolla,
sempre os corpos desabam.

inédito