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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

pequenos prazeres

Na seção de doces, o obesinho planejava prejuízos. A mãe ameaçou privações e não deliberou nada, estava especialmente malvada no começo dessa narrativa. Porém, na seção de bebidas, obesinho ousou regalias: fanta uva, mãezinha, fanta uva me faz muito feliz! A mãe virou o rosto: de fato o menino estava constrangedoramente feliz, ninguém tem o direito de ser tão constrangedoramente feliz assim. Aquilo era uma indelicadeza, era a forma mais cruel de impor humilhações: sem sabê-las. A mulher cedeu, mais para se preservar do que por bondade ao rebento rebentando em lágrimas. E ele estourava, estrelando chiliques estrogênicos, enquanto beijava o rótulo da embalagem: muito obrigado, mãezinha, fanta uva me faz muito feliz! A genitora então recuou, abriu a bolsa, mirou o celular fosse um fuzil, pediu: você conseguiria repetir essa sua cena? Conseguiu, e ainda com novos matizes de jactância e arrebatamento. Antes que continuassem, o bacon saltitante ainda foi capaz de cutucar a irmã, que só agora entra na estória, acomodada entre pacotes de macarrão: oi sua chata, tudo bem? A menina só entendia de sujar a fralda, mas o porpeta não se importou com isso: só lhe bastava mesmo ser superior a alguém, divulgando sua alegria. Afinal, por não matar a sede (isso fará o refrigerante), qual outra serventia terá esse tolo sentimento? A mãe se deu por satisfeita com o vídeo que fez, e continuou atravessando o carrinho de compras pelas avenidas do supermercado. Usaria aquelas imagens no futuro, talvez em uma exibição pública, quando o menino pudesse compreender o quanto fora ridícula e despropositada aquela felicidade.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nu frontal

O diretor pediu que eu retirasse a parte de cima e ficasse somente de calcinha, o que delicadamente questionei. Perante ao seu olhar de reprovação, que era também um olhar de superioridade, ainda esbocei gesto de desabotoar o sutiã enquanto o vigia do estúdio, faxineiros, funcionários da técnica se amontoavam para assistir minha exposição, não sem algum salivamento. Eu me sentia completamente absorvida pela realidade exterior, expulsa do meu círculo de convivência íntima, e por isso mesmo incapaz de assimilar a humanidade dessas pessoas, que terminavam por se transformar em seres cruéis, ao meu ver seres desprovidos de afeto, seja por uma filha, ou pais idosos, ou um bicho de estimação. Tornavam-se mais como figuras bidimensionais pintadas sobre placas de madeira, ainda que me remetessem também a imagens de santos barrocos, estátuas de santos barrocos assustadoramente camufladas pelo negror do estúdio gelado. Quando o diretor se voltou, ordenou com descuido: anda menina, que isso aqui é para hoje. Aí lembrei do meu pai, lembrei que sou filha dele, que sou mineira, que sou mulher, lembrei das igrejas de Ouro Preto, e disse que não podia fazer aquilo de modo algum, que eu não era sozinha, que eu representava a culpa de toda uma geração. Na verdade não disse nada disso, mas foi como se eu dissesse, porque a dignidade dos meus mamilos rijos parecia uma cabeça erguida que de algum modo constrangeu os olhares famintos, que de algum modo soava como um discurso duro que não cede à pressão e nem se quebra facilmente. E foi assim, com uma espécie de pudor obsceno contido na minha nudez armada, que ganhei o papel de protagonista numa das novelas da maior emissora do país.

domingo, 15 de agosto de 2010

Fique são

Vida equivocada de acertos,
Rigor nenhum,
Objetos não-batizados;
Contemplo fonemas fossem gravuras
E nunca ouvi um livro.
Ignoro minha presença:
Por isso, só.
Enquanto isso:
Quanta sensação inútil!

Hoje, coleciono ficções
Feito alguém que, das obras de arte,
Guardasse apenas réplicas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dedo de prosa

O livro Noturno do Chile me ensinou palavras como aleive, azáfama, egrégio, curul, barbacã, aguilhoado, literalmente uma aula, recomendo com força. Dia desses vi os filhos do Luciano Huck com os avós no Jardim Botânico, eles me pareceram tão normais, não era isso que eu esperava. Gosto de tudo do poeta L. Rafael Nolli e do poeta Everton Behenck, sou fã do pensamento autoral do Victor Meira. Às vezes quando estou com mau hálito e me olho no espelho, digo: que pena, ou: não era isso que eu esperava para mim, ou: deus está vacilando demais comigo. Agora que consegui o endereço do Chico, intenciono deixar uma cópia do meu livro em sua portaria, tenho esse romance na gaveta, procuro editoras no escuro, mas quem vai querer publicar alguém que nunca foi publicado? Caminhando pela Gávea fui abordado por um mendigo: você está me vendo assim barbudo, mas eu tenho um coração bom. Baixei o filme francês O Profeta mas ainda não vi, dizem que é excepcional, uma aula de cinema. Passo fome, mas não passo um dia sem ouvir a bela Dez Contados, com o Moska e a Céu nos vocais. Vindo ao Rio, não deixe de provar as comidinhas Da Casa da Táta, principalmente o bolo de laranja que é um assombro, esses dias pus a mão no ombro do proprietário e disse: é a melhor coisa que comi na vida. Acho o Rafael Godoy um gênio, do mesmo jeito que semana passada passeando pela rua Augusta conheci o trabalho dum artista chamado Cão e considerei que ele fosse, junto com o Rafael Godoy, um gênio. Genial também é a obra do Davi Caramelo, que costumo intercalar como fundo de tela do meu computador. Fiquei descrente das gentes quando vi o aglomerado gritando assassino! e festejando tragédias. Meu dileto programa para sábado à noite é ler tuitadas, por exemplo: os vinícius que me perdoem, mas beleza é subjetiva, Ney Reis. Ou esta, atribuída a Platão: seja gentil, porque cada pessoa que você encontra está lutando uma batalha difícil.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Qual serei?

Pela superfície diáfana da piscina olímpica, podíamos ver os azulejos mal encerados no fundo, cheios de pegada. Num impulso, mergulhamos nossos corpos miúdos rebentando água, dando braçadas entre as raias. Lembro que tive inveja das outras crianças que podiam nadar até o outro lado, um pouco longe da tutela dos pais. No raso ficaram apenas um pequerrucho e eu. Meus pés já eram capazes de roçar o piso escorregadiço, mas o outro precisava se utilizar das mãos, cavoucando feito um cãozinho, tinha no máximo uns três anos. Não percebi exatamente quando, mas agora o pirralho se afogava discretamente, boca e nariz desproporcionais submersos, os olhos de fora gritando em silêncio. Tive aquele primeiro impulso de prontamente soerguê-lo, mas alguma coisa me impediu o gesto, só não sabia elaborar o quê, na minha pouca idade. Posso afirmar, contudo, que não foi medo. Ao contrário, era fascínio, desejo inexplicável de assistir a tragédia se consumar, eu já entendia que aquilo daria em morte. Durou pouco: a mãe, que tagarelava numa roda de outras mães, correu feito uma selvagem, tive mesmo a impressão que ela caminhou sobre as águas, aí embrulhou ferozmente o filho entre os braços, enquanto me agredia palavras de horror e água: por que você não fez nada? Muitos anos depois, quando Leonel e Patrício se conheceram e encontraram entre si muitas afinidades, como o gosto em freqüentar piscinas e o mar, um deles confessou ao outro este episódio sinistro que promoveu na infância.

sábado, 15 de maio de 2010

Outro!

Escrevo na quietude do quartinho, a barriga protuberante, os pelos pubianos eriçados e o pênis entocado feito um filhotinho doente. Qual a utilidade de deitar palavras, senão pelo desejo incompreensível de ser lido? É isso que realmente almejo, ser lido? E sendo lido, o que espero do outro? Que se emocione, que me tenha no mais alto conceito, que queira ser eu? Talvez acredite piamente que, no instante em que sou lido, estou abrindo a porta de casa para quem quiser me ver desonrado, destituído de dignidade humana, nos moldes: quer me humilhar abre logo a porta do banheiro quando eu estiver cagando. E no percurso da leitura, essa pessoa estará sentada ao meu lado, presenciando o fluxo mental de um homem perecível, contemplando sem julgamentos a nudez relaxada dum homem mofado.

Observo conhecidos que transitam pela cidade, convivendo em bares, em teatros, em lotações. Engajados em algum projeto pessoal ou coletivo, inscritos em cursos de verão ou academias de ginástica, todos muito mais felizes que eu. E isso me parece ridículo! Me recuso a adotar um estado de espírito que seja circunstancial! No entanto, escrevo estórias. Mais que isso: preciso que sejam lidas. Há! Existe algum elemento químico, bio-lógico, por trás disso, uma lacuna fisiológica na compreensão de arte: ela deveria ser foco de estudo de cientistas, não de artistas. A arte é um caso clínico.

Cada vez que me privo do contato humano, mais personagens e mais diálogos crio no papel. Será que teremos que conviver, de um jeito ou de outro?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ponto de fuga

Mastigavam o pernil e a farofa, os copos formigando de coca-cola, a casa simples na penumbra. Eumar Rodrigues Luz espiava o par de irmãs, apenas a menor o encarando sem pudor. A mais mocinha enxugava o choro miúdo com a palma da mão, os olhos enfiados no feijão. Tinham vontade de rir, ainda que não soubessem de quê. A mãe de Eumar esfregou-lhe a mão, com tato desesperado, e suspirou Estou muito contente. O rapaz sentia-se bem em saber que era o motivo dessa alegria silenciosa à mesa. O pai, contudo, alertou-lhe cuidando em ser gentil, Mas você sabe que não pode ficar, tem que voltar, viu filho? Eumar tinha certeza de que o sabor da ceia pobre em sua boca era diferente da dos seus familiares, era como se se lembrasse das coisas pelo paladar. Por exemplo, o refrigerante cáustico, quando ingerido garganta abaixo, fazia arder o tronco lenhado: algumas costelas foram quebradas ao pular muro alto. Suportou noite aperreada entocado no pântano, escondido em mato com carrapato, ouvindo os cachorros loucos. Subindo serra fechada o corpo não era bem-vindo pela ventania gelada a contrapelo, o inverno rigoroso descia feito avalanche. Ia pedindo comida e água pelos lugares, “em charcos onde lâmpadas de mistério desenhavam pedaços de casebres”. Certa vez foi preciso até fazer companhia a uma caduca que o obrigara a costurar enxovais em troca dum prato de sopa e cobertor; foi assim que aprendeu o crochê, hábito que hoje tanto aprecia e lhe acalma. Dois dias de caminhada, encontrou um par de meninos na beira de um precipício sinuoso, o sol a pino: haviam fugido de casa na madrugada, o mais velho foi quem explicou, enquanto apalpava os cabelos crespos do seu protegido:

- Tô levando meu irmão pro programa do Luciano Ruqui, ele quer ser cantor sertanejo.

crédito do trecho entre aspas: Victor Meira

segunda-feira, 15 de março de 2010

Alma sebosa




O céu remelento boceja um hálito de febre pelas encostas, pelas ruas, pelas árvores da praça verdíssima. A Gávea está derretendo, o ar está abarrotado de gordura, quanto mais caminho, mais me sinto melar como se meus suores não fossem meus nem brotassem dos poros e sim do roçar estreito com o mormaço tangível. Contudo esse calor sonso, que atrita tudo ao seu redor, não é aquele calor com crachá, que se profissionalizou, que assumiu sua sexualidade. Não, esse calor é enrustido, guarda ares de bom rapaz, desejava ser ameno e outonal, quando, não conseguindo driblar sua natureza, escolheu a representação. Esse calor do bairro é um dissimulado, e não erro ao afirmar que sua substância é leve ainda que encorpada, que contradição. É como se, sobre toda a praça Santos Dumont, dos portões do Jockey até aos bares na esquina do Baixo Gávea, o corpo sudoríparo de um gigante obeso estivesse esparramado, e eu simplesmente fosse obrigado a atravessar por dentro das suas camadas adiposas, suas entranhas quentes e úmidas, sua alma sebosa. O calor do Rio é um corpo sutil cheio de banhas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Poesia barata

Essa poesia barata
é mulata
escrevi na vala
acendi uma vela
e cuspi nela.

A tinta pra letra
é a graxa preta
pútrida do esgoto.

Essa poesia fiz num desgosto
e tem gosto
de cachaça, de carcaça de jasmim,
ex-flores.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo essa poesia barata
que é meu corpo furioso
contagioso
minha carne exposta
decomposta
fundida e mal paga.

Cagada no chão
ressecada
virou casulo
virou borrão.

E o povo todo nulo
enojado
fulo
com azia
presencia
a aparição cascuda, abusada,
da barata
que é: a errata
da poesia defecada,
metamorfoseada.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo a poesia,
Barata,
que todo mundo pisa,
mas não mata.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Não se fala com os muros



Mergulho na Rua Jardim Botânico.
De um lado, murada em perspectiva
- cheia de pichações e grafites fantásticos.
Do outro, palmeiras imperiais e: semiocultas
- a não ser que erga meu olhar,
nunca conhecerei seu cume rebentando nuvem.

* * *

Na verdade: mergulhei na Rua Jardim Botânico.
Agora estou diante de uma folha reciclada,
Lembrando sensações.

Me frustra que algumas palavras
Em nada lembrem um lugar.

* * *

À minha direita (naturalmente caminho saindo da Gávea)
Está a muralha surrealista:
Uma profusão de cores, favelas oníricas,
Semblantes de meninos com os olhos vazados.
Tenho a impressão de estar de fronte a uma mitologia moderna.

Aqueles desenhos parecem de corpos etéreos,
O corpo da cidade quando dorme,
O seu inconsciente coletivo derramado dos sonhos cariocas
Até se compactarem contra o muro.

Mas não se fala com os muros…

* * *

Artistas pobres geraram, através de grafites-desabafos,
A fotografia subjetiva do Rio.

* * *

Ao terminar essa dissertação, levantarei da mesa desse café, enterrarei esse papel ao pé da décima terceira palmeira (contando a partir da primeira fileira que, da rua, fica à direita de quem entra pelo portão principal) do Jardim Botânico e, feito num jogo de subterrâneos, deixarei ali (aqui) para que algum poeta o colha mais tarde, em tempos necessários.

* * *

E quando, à hora de sair,
Eu já tiver cruzado novamente o portão do Jardim Botânico,
Saiba que estarei (estive) pensando em você,
Leitor do ano que vem.
Leitor que ainda pode nascer.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Explicação do poema




A palavra é para explicar a ideia de uma letra.
No carbono mora a possibilidade da palavra brancoo.
Casa não é asa só por causa de uma letra!
A ideia de uma palavra obriga-nos à construção do seu uso.
Não é palavra um punhado de ideia.
Não é ideia um punhado de palavra.

A palavra mora em uma casa
Onde a possibilidade de uma letra é asa:
Para revelar o que foi gerado, não no carbono,
Mas naquilo que está em branco.

Onde, em uma palavra possível, foi gerado o seu potencial de organismo?

domingo, 15 de novembro de 2009

Invólucro



para L.Rafael Nolli, que me ajudou a aparar as arestas do poema.

Só sou sincero no momento do orgasmo.
Para todo o resto na vida há as mentiras.

No jorro de um branco híbrido
Lançamos ao mundo ralas tentativas
De ilustrar divindade.
O sêmen é a alma em estado líquido.

Tive sede de verdades.
Degustei-as antes de engoli-las,
Gota após gota,
Saboreando em minha curiosa língua
Litros e mais litros
Temperados por minha cínica saliva
Tendo os dentes como represas…

A minha busca é fina.
Já percebo a sutileza do que finda
E busco sua perpetuação.
Um aceno de mão, um gesto,
Um giro de tronco,
Um arquear de pernas,
Um dar de ombros,
São movimentos efêmeros,
Como peixe escrevendo na água.
Uma vez feitos
Perdem sua força de intenção,
Esgotam-se no espaço.
Por isso os guardo para mim.
Porque são mais poderosos quando não existem.
Minha busca é neutralizar o supérfluo,
É conter energia avulsa, potencializando-a.
Por isso me sinto tão bem aqui dentro,
É todo o chão que preciso.
A atrofia do corpo dilata a mente.
Fortalece as utopias.

De quase tudo me livrei.
Do verbo ainda não,
Esse movimento invisível
Igual vôo de pássaro riscando horizonte.
Ainda não o sublimei.
Ainda escrevo palavras fantasmagóricas:
Cheias de som, mas sem corpo algum.

Quem sabe quando morrer
Ou então
Quando não forem meus dentes mais represas
Nem minha língua abrigo de cinismo
Nem minha saliva o motivo da minha embriaguez
Quem sabe
(talvez) Eu me cale?

O paraíso foi antes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

POEMA CANÔNICO?



(para o Heyk Pimenta)

Caso, intestino solto,
Desejasse aliviar-me na moita,
E comigo apenas um pedaço
De poesia num papel,
Qual seria o papel da poesia
Senão o de limpar-me as partes?

* *

Que importa se Peri vai
Ou se Peri vem?
À floresta basta existir
E tudo o mais será
Árvore, Peri, riacho.

* *

Do mesmo jeito, um poema
Que se olhe no espelho
E afirme: sou profundo e visceral
Ou: sou um nervo exposto
Mais ainda: sou cheio de símbolos,
Não passa de sumo de discurso de gente,
Não passa de performance gráfica de autor,
Não passa de menta de pimenta.

* *

Coitado do Maiakovski
Que morreu sem conhecer os poetas de hoje!
Infeliz da Pessoa
Que nunca lerá os poemas do dia!
Pobre do Drummond
Ignorante de tanta rima recente!
Tornar-se-ão menos sábios, ó extintos senhores,
Ao desconhecerem tanto engenho novo...

* *

E coitado de mim
Que, já com os punhos roucos,
Não ponho nesses versos poucos
Mais do que um discurso irônico.

* *

Só ao leitor caberá dizer
Se um poema é canônico.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pé de firmamento



Um galho de raio
Arranha o semblante azul
E o infinito
Fica mais bonito
Ferido

Silêncio: raio é rachadura rangendo...

(Cada raio é raiz arrancada)

O monumento azul
Desaba
Pelos corredores do ar
E se acaba!
Feito um cadáver
Chamado mar

(Quantos céus desabaram para um oceano se formar?)

Mas basta sobrar um pé de firmamento
Bom de se pendurar estrela
Para o menino, cheio de atrevimento,
Subir para acendê-la.

sábado, 15 de agosto de 2009

Delicado



(Clique no texto para ampliar)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Café que é a fé



Não quero ser poeta de papel
Quero ser poeta de grão
Poeta de colheita
Poeta de mãos enterradas
Que plantam
No seu ventre de mulher
O adubo da terra natal.

Quero ser poesia na sua vida
Poesia saltando pros seus olhos
Poesia feita de café
Poesia moída na sua mesa
Na sua coxa
Na sua cozinha.

Vidinhaminha
Purifica meus grãos
Separa aqueles que maus
Moí-me
Ama-me
Aroma-me.

Põe-me na saca
Coa-me
Ecoa-me
No bule.

Verta-me
Engula-me
Converta-me
Na sua goela.

De noite
Sêmen
De manhã
Café.

Dentro de ti
Semente
Que é a fé
De que foi plantado
Na gente
O futuro do amor.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Das definições da poesia




Um lugar onde o sentimento
Que apenas pressinto
Se antecipa ao momento
De ser começo.
E fica parecendo que minto
Quando digo que não o conheço.

Um tempo que é preciso,
Que o verbo não alcança.
E talvez até por isso
Cause impacto:
Onde tudo mais avança
Ele se preserva intacto.

Outra coisa inexplicável
É que nomeia o que me falta.
Usando uma língua descartável
E palavras que já sei,
Conjuga, não as que ressalta,
Mas as que nunca pronunciei.

Pode ser um corpo que se enfeita,
Ou um rio muito comprido.
Pode ser colheita
Que o homem lavra,
Ou somente um texto erguido
Pelo prestígio das palavras.


OUTRAS DEFINIÇÕES DE POESIA:

Dante Alighieri: “É a ficção retórica posta em música”.

Edgar Allan Poe: “Criação rítmica da beleza”.

Álvares de Azevedo: “O fim da poesia é o belo”.

Octavio Paz: “A poesia é fome de realidade”.

Oswald de Andrade :”Aprendi com meu filho de dez anos/ Que a poesia é a descoberta/ Das coisas que nunca vi”.

Paulo Leminski: “Poesia não é literatura. É arte, mais para o lado da música e das artes plásticas”.

Luis Garcia Morales: “É a memória mágica do país. É nossa poesia e nosso patrimônio perdurável”.

Ferreira Gullar: “A arte é impasse e indagação. A morte da arte está na fórmula. O que define a falsa arte é a facilidade e o conformismo. Não sou viciado em poesia, não tomo entorpecentes.”

Maiacóvski: “É dever do poeta desenvolver em si mesmo o sentido do ritmo. E não decorar métricas alheias”.

T. S. Eliot: “Toda verdadeira poesia é uma visão de mundo”.

Goethe: “Poesia é verdade”.

José Jorge Letria: “A poesia é por essência um contrapoder. A poesia é um pacto com a inquietação”.

Borges: “É uma modesta magia verbal; escrever um poema é uma pequena operação mágica. Um verso é uma coisa dita com certa cadência e não há leis para a poesia. É uma arte não menos misteriosa do que a música; talvez seja mais misteriosa.”

Rodrigo Madeira: “A poesia é segurar dentro da água um peixe por cinco segundos”.

Mário Quintana: “Poesia é invenção da verdade. Poesia é comunicação… a sós”.

Manoel de Barros: “Poesia é voar fora da asa”.

# #

Quem quiser contribuir com sua própria definição de poesia, deixe-a nos comentários feito o molde acima; toda participação vai enriquecer essa postagem com certeza!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Memória do sentimento



Uma voz de cor negra
Pode ser da empregada da infância

Um cheiro de quintal
Cheio do cheiro de quem ali estava

Uma melodia maternal
Mas pode ser do filme que vi ontem.

A memória é meio devassa
Lima, confirma, ameaça

Faz chorar por pessoas,
Não pelo que elas são

Mas por aquilo
Que um dia representavam.

Uma convulsão que arrebata
Que não trabalha bem com data

Que te põe sempre fora
Pra tudo parecer retrato

Que põe num cômodo vazio
Um sentido de plenitude

Que enche a palavra saudade
Do sentimento que a explica

Que me faz ansioso por um futuro
Apenas pra dele guardar as lembranças

Que me coloca em posição indesejada
Sempre em atraso com a vida

Mais preocupado em senti-la
Do que, de fato, vivê-la.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Mural do Dia



Sol a pino
No mural do dia...

Suor pinga dos telhados
E molha os lembretes,
Os bilhetes de amor
Neste painel de recados.

Sol a pino
Segura o mundo pela beiradinha
Sem laço, sem tacha, sem bainha.

Mormaço racha a cortiça
E o cortiço se atiça suado
Mas tem preguiça
De pintar o astro dourado
De azul enluarado.

(No calor ninguém tem pudor
E não pecar fica sendo o maior pecado)

Até que um albino
Torturado
Decide tirar o sol alpino
Desse mural de pecados

Cuidado!

...

Agora podem despregar o céu estrelado
Enrolar e botar em cima do caminhão
Quando o pino do sol a pino foi descravado
Caiu-se do mundo o mural
E não sobrou na parede chão sobre chão.

# #

domingo, 15 de março de 2009

No dia em que a poesia vier ao mundo



No dia em que a poesia vier ao mundo

Na biblioteca, sobre a bancada
Páginas serão derramadas
Brancas de espanto

Talvez, num canto
Algum ponto de interrogação:
Para onde (es)correram
As palavras então?

No dia em que a poesia vier ao mundo

Vai ter poema sendo encontrado
Violentado no mato, dentro do rio
Brotando suado nos muros

Esquecido na seção de frios
Vai ter poema em hortifruti
Maduro entre as tangerinas

E ao invés da caixa registradora
Bater cifras assustadoras
A nota fiscal vai imprimir rimas.

No terreiro, o caboclo
Não vai baixar Orixá
Mas versos roucos,
Sonetos oxalá.

No dia em que a poesia vier ao mundo

Pacientes obturados
Obedecerão boquiabertos
Dentistas inspirados.

Suportarão suas dores
Para não interromper, de certo,
Os arroubos dos doutores.

Mulheres em parto
Iluminarão todo quarto
Pelo cordão umbilical:

Do ventre escuro
Surgirá o poema prematuro
Com fome gramatical

No dia em que a poesia vier ao mundo

Da repartição
Ao chefe de nação
Antologia poética:

Todo cidadão
Em qualquer profissão
Só vai dizer com métrica.

No dia em que a poesia vier ao mundo
Vai cair de boca, na boca do mundo
Vai cair da boca de todo mundo
No dia em que a poesia vier ao mundo.

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