20/05/2026

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

 

Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

 

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso


    Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.

A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.

A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.

Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.

Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Herman José - Na Telefonia (Sem Fios)

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

O RISO ESSENCIAL

 

HERMAN JOSÉ
Na Telefonia (Sem Fios)
LP, Emi – Valentim de Carvalho

     Considerar Herman José um génio não é piada. O humor é coisa séria e Herman não brinca em serviço. No seu caso, ter graça é uma forma de vida, uma maneira de ser e de observar a realidade pelo lado em que esta quebra e se revela ridícula. A piada de Herman José não está (só) na anedota, na explosão final, mas no processo intermédio, na construção de um ambiente ou de uma situação, na exploração delirante de um tique, de uma inflexão vocal, de uma parcela de vida arrancada ao quotidiano. Humor lateral, de pormenores, com sabor a iguaria.

Ao contrário da chalaça burocrática, piadista e populista dos Parodiantes de Lisboa, instituição do humor radiofónico nacional, Herman José inventa e improvisa sem cessar a partir de situações particulares, espremendo de cada uma a essência do cómico. As suas estratégias de desconstrução conceptual e linguística são em parte devedoras dos Monty Python, sacerdotes-mor do humor mais inteligente do mundo ao qual, não por acaso, a maioria dos portugueses permanece indiferente, chamando-lhe “estúpido” ou “sem pés nem cabeça”, sem perceber que o humor é isso mesmo – uma anatomia do absurdo. Os incondicionais, esses veneram John Cleese e co. como figuras de culto. Nessa medida as subtilezas da comicidade de Herman apenas podem ser apreciadas até ao tutano por uma minoria. Só que o humorista bem sabe as linhas com que se cose o riso dos portugueses, conferindo em paralelo ao seu trabalho, na televisão ou na rádio, uma veia mais popular e picaresca, quando no disco incarna as figuras de Ivette Marise (“Os tamanhos” e “A fertilidade”) ou do Estebes (“Entrevista a Rosa Mota”, “A vida de um desportista”). Mas os momentos de antologia desta seleção de “sketches” retirados das sessões diárias na TSF acabam por ser aqueles em que o humor pia mais fino: “Guerra do Golfo”, “Lição de inglês”, “Pedro Almodovar ao telefone” (que ao lado de “Frank Sinatra ao telefone” recuperam os monólogos de Raul Solnado nos anos 60) e sobretudo nos magistrais “Entrevista a John Majors”, “Donald e o ventríloquo” e “Espanha homenageia Amália”, portentos de capacidade histriónica, caricatura e espírito de observação. Com Herman José, com ou sem fios, “é só rir, é só rir”. (8)

 

Egberto Gismonti Group - Infância

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

EGBERTO GISMONTI
Infância
CD, ECM, distri. Dargil


O pecado de Egberto Gismonti é querer parecer europeu. Em “Infância”, o músico perde muito da magia a que nos habituara em trabalhos anteriores à fase ECM e parte do fulgor que hbbita ainda obras já gravadas com o selo alemão. Aqui a intuição dá lugar a um discurso mais analítico, mesmo quando títulos como “A fala da paixão” ou “O amor que move o sol e outras estrelas” parecem sugerir o contrário. Álbum de progressões lentas e de assumida contenção, “Infância” prova que o reconhecido virtuosismo instrumental de Gismonti, ao piano ou na guitarra acústica, por si só não chega para entusiasmar, soando forçado e perdendo-se não poucas vezes em exercícios de estilo destituídos de chama interior, como acontece nas danças finais, nºs 1 & 2, ou na construção dos edifícios harmónicos com o violoncelo de Jacques Morelenbaum, falhos de originalidade e de inspiração. Bastante mais compensador é escutar Gismonti em “Kuarup” – reeditado ao mesmo tempo que esta “infância” desvalida que até vai buscar, na capa, um poema de Pessoa – encontro do músico com as raízes e o mistério da tradição e cultura do povo Xingu da Amazónia. Onde as águas e o génio fluem com a naturalidade que só a convivência com a verdade permite. (6)


David Sylvian & Russell Mills - Ember Glance

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

 

DAVID SYLVIAN & RUSSELL MILLS
Ember Glance
CD, Virgin, distri. Edisom


Subintitulado “The Permanence of Memory”, o trabalho em questão é o tipo de “bibelot” cultural destinado a alimentar polémicas mais ou menos interessantes, mais ou menos estéreis sobre o esteticismo, o classicismo das formas, os novos estilistas e o próximo Wenders. De preferência no Bairro Alto. “Ember Glance” ilustra de forma exemplar uma das facetas da arte atual que tende a valorizar o formato, o primado do aleatório, a ambivalência das formas abertas à informação, a aparência, em detrimento do universal.

Trata-se, se não perceberam já, de uma “instalação de escultura, som e luz” montada no “Temporary Museum” de Tóquio, que faz parte de uma série de “exposições, instalações e ‘performances’ experimentais”. Arte, enfim. Esse mundo maravilhoso que ajuda a fazer deste mundo um mundo melhor. Ao folhear o livro profusamente ilustrado (97 pp.), ao passar os dedos pela embalagem, ao puxar a fitinha (sim, há uma fitinha roxa para puxar) somos siderados com tanta coisa bonita, tanta cor, tantos grafismos pós-modernos, tanta fotografia neoclássica, com luzes, contraluzes, desfocagens, recortes de folhas, tubos, manchas, anotações à margem, “ready-mades” maricas, enfim, por mil e uma variações sobre a aparência das coisas.

A obra abre (a verdadeira obra de arte é a que abre) com uma citação do Dalai Lama (David Sylvian é muito dado às coisas do Oriente, fundou os Japan, pisca os olhos ao Zen, eu sei lá…): “A qualidade da arte é que faz com que as pessoas que geralmente olham para fora passem a olhar para dentro.” Escutado o CD de ponta a ponta, permanecemos quietos e expectantes à escuta, de ouvidos e olhos em bico, ansiosos para coscuvilhar o lado de dentro, de preferência debaixo do vestido do borracho do lado. Nada aconteceu. O raio X não acendeu. Os cerca de 30 minutos de “música” de fundo, meio restolhar de metais, meio ruído branco, atravessados de 15 em 15 segundos pelo repicar de sinos não foram suficientes. Voltámos a ler o manual: “A estrada que conduz ao aperfeiçoamento de níveis mais altos de consciência alcança-se em parte através de um processo de autoquestionamento.”

Então era isso! Redobrámos a concentração e escutámos o repicar dos sinos, ao mesmo tempo que nos autoquestionávamos, enquanto não fôssemos acusados de descurar algum aspeto, passávamos os olhos pelos bonecos. Em vão. Nenhuns “níveis subtis de perceção” por aí além, nada de ver os acontecimentos de um ponto de vista interior, mais consciente e unificado”. Permanecemos broncos.

“Ember Glance” examina as “ideias de espaço, tempo e memória”, através da utilização de sons, luzes e objetos” deslocados do seu contexto natural e dispostos segundo um espaço teatral, libertos das associações vulgares”. E por aí fora, num tratado de filosofia que procura a todo o custo validar o vazio. No fim de contas, não é o vazio o centro de que falam os budistas? A ideia de “música para instalações” não é nova. Dos Velvet Underground e Andy Warhol e a sua “Exploding Plastic Inevitable”, a Laurie Anderson e Brian Eno, que a música popular (já não falando da infinidade de experiências levadas a cabo no campo das “novas músicas”) tem procurado a todo o custo essa síntese utópica entre as diversas formas de expressão artística, em projetos “multimédia” de menor ou maior dimensão.

Lembremos, por exemplo, alguns projetos de Brian Eno, como o das esculturas-vídeo, o “muzak” ambiental do CD “Thurday Afternoon”, para citar um nome com o qual Sylvian e Mills (pintor, “designer” e ilustrador que já havia trabalhado nas “esculturas de luz” de vários artistas da Land, editora de Brian Eno, ou no “show” de luzes de um espetáculo de Graham Lewis e Bruce Gilbert, dos Wire) mantêm pontos de contacto.

Tudo isto é verdade, interessante e digno de especulação. Sylvian e Mills são artistas respeitados, com um currículo de prestígio. O que não impede que “Ember Glance” seja chato do princípio ao fim. Há ruído e ruído, e não faltam, na música atual, registos cuja audição pode provocar de facto transformações nos hábitos de escuta do auditor, senão mesmo na sua estrutura orgânica, para o melhor e para o pior. “Ember Glance” fica-se pelos sinos e pelas intenções. (4)

Carlos Maria Trindade & Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO
Mr. Wollogallu
LP/CD, União Lisboa/Polygram


O género a que se convencionou chamar “new age” tem as costas largas. Editoras pioneiras como a Windham Hill e a Coda contribuíram para dar à expressão o sentido depreciativo de que geralmente goza, através da edição em série de objetos vinílicos consistindo, na maior parte dos casos, em pianos bucólicos, um toque de flauta e sons de vento e água por trás. Em suma, “new age” costuma ser sinónimo de “chato”.

Por outro lado, há a tendência para utilizar o termo para catalogar toda a música eletrónica de caráter mais intimista, esteja ou não impregnada dos sinais prenunciadores de uma nova idade cósmica. “Mr. Wollogallu”, para além de quaisquer tentativas de classificação, é um objeto fascinante e uma tentativa bem sucedida de dar um rosto humano à música elaborada em computador.

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro tomam como ponto de partida o som como estímulo sensorial. A música de “Mr. Wollogallu” (nome de um tambor primitivo), ao contrário de outras propostas de música “de computador” que jogam na exploração formal ou nas matemáticas digitais, resultando quase sempre em exercícios “frios”, passíveis de fruição exclusivamente racional (Morton Subotnick, Conrad Schnitzler, Emanuel Dimas Pimenta ou Tó Zé Ferreira), liga-se antes às correntes étnicas e a uma conceção dos sons como vibrações afetivas.

Neste aspeto, “Mr. Wollogallu” pode considerar-se parente próximo dos universos luxuriantes criados pelos italianos Roberto Musci e Giovanni Venosta, nos clássicos “Water Messages in Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, por Steve Shehan, em “Arrows”, ou na forma de progressão sonora, por ciclos, com os alemães Cluster e Manuel Göttsching.

Dividido em dois blocos, compostos por cada um dos músicos, “Mr Wollogallu” passa do pendor classicista e da maior linearidade do traço melódico de Carlos Maria Trindade, brilhantes no tema de abertura “The truth” ou na peça para piano “West”, para as explanações fusionistas de “Blu Terra” e “Antica/Burun” ou as abstrações de cristal de “Ven 5” e “Segredos M.”, já antes esboçados no anterior álbum a solo “Plux-Quba – Música para 70 Serpentes”, sem perder a sedução nem o espírito de aventura.

Música aérea, contemplativa, para saborear como um “refresco de chá num zeppelin à deriva”. Um dos melhores discos do ano de música eletrónica. (9)


Blowzabella - Vanilla

 Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

BLOWZABELLA
Vanilla
LP/CD, Special delivery, distri. Mundo da Canção



“Vanilla” é o derradeiro testemunho em disco de um projeto único na área das músicas tradicionais e de um dos maiores tocadores de sanfona da atualidade, Nigel Eaton, como tiveram oportunidade de verificar “in loco” todos quantos assistiram à sua recente atuação em Algés, ao lado de Paul James, na gaita-de-foles. Antes da chegada do novo projeto de ambos, os “Scarp”, vale a pena deliciarmo-nos com o som de “Vanilla”, entre a excitação do rock e a religiosidade da música antiga, próximo dos grupos franceses Malicorne e Mélusine. Num registo mais contido que o anterior “A Richer Dust”, “Vanilla” como que captura e traduz a essência de cada instrumento, da sanfona, da gaita-de-foles e da “cittern” medieval, casando-a, sem conflito, com o saxofone, o violoncelo e o baixo elétrico. Sem esquecer as entoações estranhas e frágeis da vocalista Jo Fraser que assombram “I Wish I Wish”, “The Lover’s Ghost” e a longa melopeia “La Belle s’Est Endormie”. A música dos Blowzabella e a sanfona de Nigel Eaton ateiam incêndios. Arde nela o fogo sagrado. (9)

Novas músicas para novas atitudes [Joaquim D'Azurém, Carlos Maria Trindade/Nuno Canavarro]

 

PÚBLICO SÁBADO, 14 DEZEMBRO 1991 >> Local

 

Novas músicas para novas atitudes

 

Joaquim D’Azurém, Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro escolheram ter voz própria. A nova música portuguesa perdeu o medo de não ser popular. É possível seguir por estradas solitárias e retirar prazer da aventura.

 

Ontem à noite, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, os três músicos, mais alguns convidados, mostraram vias alternativas para a música portuguesa. Na sala, houve quem os acompanhasse na descoberta. E houve quem dormisse, quem não compreendesse. Outras formas de comunicação que urge aprender.

Joaquim D’Azurém gravou, vai para dois anos, um álbum de “transparências”. Ontem trouxe consigo os seus sonhos para a guitarra portuguesa. Primeiro em peças a solo, evocativas de um passado que é fado, amor, luto e tradição. Cruzado de referências à modernidade: o etnominimalismo de Laraaji, nos “clusters” de cristal, no dedilhar circular, nas sobreposições e nos ecos, tudo a fazer lembrar paisagens de Oriente e mediterrânica maresia.

 

Ragas

 

D’Azurém pouco falou ao longo de uma atuação que aliou o virtuosismo à interiorização. Um aceno da cabeça trouxe para o palco o primeiro convidado da noite, um bom tocador de tablas de quem gostaríamos de saber o nome. Excitou e dialogou com os fraseados da guitarra, no batimento de compassos típicos da música indiana. A música fez-se raga, distendeu-se em hipnose, vibrou segundo outras lógicas e latitudes interiores. Percussões que a dado momento ficaram sós no palco, num longo solo encantador. Depois foi a vez de João Pires de Campos (Flak, nos Rádio Macau) se juntar ao duo, arrancando da sua guitarra elétrica sons sintetizados como pano de fundo para as divagações melódico/harmónicas dos outros dois músicos.

De súbito, sem que nada o fizesse prever, Joaquim D’Azurém pede desculpa e abandona o palco, dando a ideia de ter de satisfazer uma necessidade urgente, quiçá de ordem fisiológica. Cumprindo à risca a máxima do “quando mija um português mijam logo dois ou três”, os outros seguem-lhe o exemplo e abandonam por sua vez o palco. Risinhos entre a assistência, indecisa se haveria ou não de lhes imitar o gesto e transformar o evento em ritual de vertimento de águas. Os músicos regressam, mais aliviados, para o último número. E afinal o intervalo viria logo a seguir…

No hall do S. Luiz, notava-se a presença de vários músicos da nossa praça, entre eles José Cid, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão, o LX-90 Rui Pregal da Cunha e os “resistentes” Fernando Cunha e Pedro Ayres, atentos a estas coisas alternativas.

 

Sedução digital

 

Chega então a vez das máquinas terem uma palavra a dizer. Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro ligam os computadores, os “samplers” e outros brinquedos de alta tecnologia e dão um recital de sons étnico/ambientais extraídos do recente álbum “Mr. Wollogallu” (“wollogallu” designa um tambor ancestral), um dos melhores discos do ano na área da música eletrónica. Exploração bem sucedida do universo das fusões, na linha de nomes como os Cluster, Manuel Göttsching ou da dupla italiana Musci/Venosta. Vozes tribais sequenciadas misturam-se com o piano computorizado ou com processamentos de folclores, reais ou imaginários. Em certos temas a música faz-se acompanhar pela projeção de imagens abstratas de computador. Mantras digitais, prenunciadores da “nova idade”.

Já perto do final Carlos Maria Trindade desculpa-se pela falta de diálogo com o público. A culpa é das “exigências da máquina”. O despropósito das palavras não chegou para apagar a sedução dos sons, a predisposição para a aventura.

 

Enquanto o fim do Mundo não chega [Wim Wenders Until the End of the World"]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 13 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Banda sonora antecipa novo filme de Wim Wenders

 

Enquanto o fim do Mundo não chega

 

Em “Until the End of the World”, o realizador alemão rodeou-se de nomes sonantes da música atual, entre eles os Talking Heads, R.E.M., Nick Cave, Lou Reed, U2, Elvis Costello e Depeche Mode. Sob a aparência sombria, as canções – como o cinema de Wenders – perseguem a luz.

 


 

Conhece-se, viajando. Mas conhece-se apenas enquanto esse movimento de deslocação corresponder a uma dupla transformação: do sujeito que evolui e, como consequência, do território percorrido, já que a visão da realidade está condicionada pelo “lugar de onde se olha”. Uma questão de perspetiva. O cinema de Wenders dá a ver as várias fases de um percurso, o que está “antes da curva da estrada”. Viagem iniciática, de procura e descoberta, em espiral.

Cineasta da viagem, Wim Wenders analisa-a nos seus múltiplos registos. “Alice nas Cidades”, “Ao Correr do Tempo” (obra-prima sobre os infinitos da comunicação, da permuta de sentidos, do silêncio para-gramatical que nos habita e, no limiar do território, nos transcende), “Paris, Texas” (demanda do amor e da linguagem, de certa forma inversa à de “Ao Correr do Tempo”), “Luz sobre a Água” (viagem terminal até ao derradeiro limite – ritual de transformação/decomposição do corpo e do cinema, e da redenção pela voz dos personagens que à deriva sobre as águas, dissertam sobre o que é, ou foi, a vida e o cinema, tema recorrente em “O Estado das Coisas”) e o novo “Until the End of the World” perseguem a transfiguração, a luz (da luz e dos jogos de iluminação nos fala ainda Wenders em “As Asas do Desejo”), o real nas suas duas vertentes: a das imagens cinematográficas e aquela que julgamos mais consistente, do “mundo material”. Em qualquer dos casos, projeções.

 

A lei do movimento

 

Para compreender o que o termo “road movie” significa na economia do autor, é preciso compreender primeiro o preceito Zen (caro ao cineasta), segundo o qual o sujeito que observa e a realidade “observável” constituem uma realidade única, decorrendo a pseudo separação da subjetividade da razão analítica.

Pode definir-se o cinema de Wim Wenders em termos de geografia: humana, planetária e metafísica. Mesmo quando o movimento, circular, anti-iniciático e luciferino (como o entende Abellio), não leva a lado nenhum – “Movimento em Falso”, presente apenas no alinhamento temporal das palavras, da fala destituída de sentido (isto é de direção) por forma a permitir a ilusão. O “realismo” confunde-se aqui com o não-movimento existencial de “Para Além do Paraíso”, de Jim Jarmusch). David Byrne define na perfeição esse lugar de morte: “O paraíso é um lugar onde nunca acontece nada.”

“Until the End of the World” almeja a totalidade, a visão global do planeta. Viagem culminante, de síntese apocalíptica que, a partir da Europa e do seu lastro cultural, acaba por fixar-se e centrar-se nessa terra de ninguém que é o continente australiano, lugar paralelo, alternativo, de início, que se presume ser o único capaz de sobreviver à catástrofe nuclear.

 

Canções de luz e desespero

 

A banda sonora chegou até nós primeiro do que as imagens. É-nos concedido algum tempo de prazer antes do “juízo final”. Muito do sortilégio que anima o cinema de Wim Wenders vive do contraponto sonoro. “Until the end of the world” não foge à regra. O realizador escolheu a dedo os músicos e estes corresponderam de forma exemplar, dando às respetivas composições a toada sombria, derradeira, que o ambiente das imagens sugere. Não por acaso, o papel de “pivot” do projeto foi entregue a Graeme Revell, compositor e teórico australiano, fundador dos SPK, dado a obscuras manipulações sonoras, entre o classicismo gótico, a música industrial e as experimentações eletrónicas com computadores.

“Opening Titles”, “Claire’s Theme”, “Love Theme” e “Finale” são peças instrumentais de recorte clássico, parasitadas por sons samplados e acrescidas do violoncelo solo de David Darling, escolhidas para enquadrar as canções propriamente ditas, à exceção da dos U2, compostas de propósito para a banda sonora. O CD não integra os temas de Peter Gabriel e Robbie Robertson que constam do duplo álbum.

“Sax and Violins”, dos Talking Heads, introduz o registo “down” que prevalece ao longo do disco, dando a ouvir um David Byrne menos frenético mas mais desolado do que é costume. Julee Cruise traz consigo resíduos das trevas fluorescentes de David Lynch e Angelo Badalamenti, no pesadelo cor-de-rosa “Summer Kisses, Winter Tears”, de Elvis Presley. De base rítmica hipnótica, os temas dos Can (que já haviam colaborado em “Alice nas Cidades”) e, em versão “dub”, de Neneh Cherry, adensam o mistério. Não soam menos fantasmagóricos o minimalismo poético de Patti e Fred Smith, a “country” etérea de Jane Siberry com K.D. Laing e de Daniel Lanois, e os “blues” espectrais de T-Bone Burnett. Os Crime & The City Solution e Nick Cave, amigos de Berlim, transitam das “Asas do Desejo” com a mesma força e negritude. Cave cada vez mais empenhado em tornar-se uma espécie de Leonard Cohen cavernoso. Lou Reed sinuoso como sempre sobre uma guitarra saturada de eletricidade, Elvis Costello com uma versão de “Days”, dos Kinks, os Depeche Mode e os R.E.M. apresentam canções tristes de acordo com o tom de desespero do enredo.

É preciso esperar até ao título-tema dos U2, extraído de “Achtung Baby” e editado em versão especial para a banda sonora, para que o fogo se reacenda. Enquanto o fim não chega.

18/05/2026

Os sons da diferença [Festivais de Lisboa]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festivais de Lisboa

 

Os sons da diferença

 

OS ESPETÁCULOS de hoje e amanhã à noite, no S. Luiz em Lisboa, integrados nos “Encontros de Música” dos Festivais de Lisboa, prometem ser diferentes. Joaquim D’Azurém e a dupla Nuno Canavarro/Carlos Maria Trindade atuam hoje, às 21h30. O primeiro toca guitarra de água, de cristal. “Transparências”, álbum de estreia editado há dois anos, inventa novas cores e filigranas para a guitarra portuguesa e é uma incursão serena no território das músicas ambientais. Fado astral?

Nas áreas do ambientalismo, com porta aberta para mundos paralelos, movem-se Carlos Canavarro e Carlos Maria Trindade, o primeiro ex-Street Kids, o segundo ex-Heróis do Mar. “Mr. Woologallu”, álbum acabado de editar, conta histórias de mil sons enredos, nascidos dos sonhos do computador. Imagens, sinais que se cruzam. Realidades virtuais que no cosmos de um instante se fazem e desfazem, contemplados de um “tapete voador zen, silencioso mas não sem turbulências”.

No dia seguinte a música acelera, torna-se rude, entrelaça-se em estruturas milimétricas, quase fractais. O silêncio dá lugar ao grito, a contemplação à improvisação. Da selva urbana, mensagens tecnojazz via Plopoplot Pot, de Nuno Rebelo, Luís Areias, Rodrigo Amado, Paulo Curado e Bruno Pedroso, e Máquina do Almoço Dá Pancadas, de João Pires de Campos, Rodrigo Amado, Gui, Luís Filipe Valentim, Lívio e Alberto Garcia. As duas bandas cruzam-se no CD coletânea “Em Tempo Real” onde provam que há uma ordem no delírio e prazer nesse delírio. O cérebro não necessita das pernas para dançar.

Em ambos os grupos os sopros de metal sustentam um edifício de paranóia, de vertigem. Desestruturar para estruturar mais à frente e encontrar o outro lado das formas, novos equilíbrios e maneiras de coabitar o pesadelo. “Catástrofes de todo o mundo desaguando nas planícies do silêncio?” O cataclismo supõe uma estratégia, a exigência de mudança, passagem, revolução. Nada é definitivo. Do silêncio depois do caos os sons renascem. Sempre pela primeira vez.

Ron Kavana - Home Fire

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

RON KAVANA
Home Fire
CD, Special Delivery, distri. Mundo da Canção

 Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Evolução na continuidade ou revolução? Ron Kavana, “outsider” da folk irlandesa, com ar de “rocker” à anos 50, introduz novos dados na questão de como manter viva a chama da música tradicional do seu país. O ponto de partida é uma tentativa de recuperação daquilo a que o autor chama “espírito”, existente nas grandes bandas irlandesas dos anos 70, como os Bothy Band, Planxty e De Dannan, um entusiasmo que entretanto, segundo Kavana, se foi perdendo à medida que o perfeccionismo de estúdio se sobrepôs à espontaneidade e ao “feeling” desses grupos.

A partir destas premissas, Ron Kavana procura então recuperar o tempo perdido, num programa que, constando na maior parte de composições originais da sua autoria, transporta consigo esse “fogo sagrado” em baladas como “Sands of time lament”, “Blackwaterside”, no empolgante jogo vocal de “Home fire” ou no virtuosismo instrumental das sequências de dança, fiéis no espírito às origens rurais que lhe estão subjacentes. Salientem-se, neste capítulo, para além de todo o sortido de cordas tangidas a preceito por Ron Kavana, as prestações de Terry Woods (Steeleye Span, Woods Band, Pogues) na concertina e de Tomás Lynch nas “uilleann pipes”. Politicamente empenhado, por vezes polémico, “Home Fire” constitui uma alternativa interessante à vertente, digamos que mais esotérica, da música irlandesa de raiz tradicional. (7)

 

Hamish Moore & Dick Lee - The Bees Knees

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

HAMISH MOORE & DICK LEE
The Bee Knees
CD, Green Linnet, distri. Megamúsica

 Uma imagem com texto, sinalizar, amarelo, recipiente

Descrição gerada automaticamente

     De Hamish Moore, exímio executante de gaita-de-foles escocês, houvera já a passagem meteórica por algumas discotecas nacionais dos álbuns “Open Ended” e “Cauld Wind Pipes”. Neles se revelava um músico atento às novas vibrações que percorrem a música do universo e, em particular, do mundo celta.

Terreno armadilhado, passível de ser percorrido sem danos, apenas pelos peregrinos genuínos, que têm na estela e no bordão os sinais inconfundíveis da luz interior que lhes serve de guia. Hamish Moore sabe os terrenos que pisa. Por isso não hesita em trocar experiências de viagem, neste caso com o jazz e os metais e o sintetizador de Dick Lee. “The Bee Knees” percorre, entre a vertigem e a contenção, as várias vias possíveis de cruzamento e diálogo entre aqueles dois géneros musicais e, paralelamente, entre os instrumentos de sopro tradicionais (a gaita-de-foles e o “tin whistle”) e os seus congéneres jazzísticos, o saxofone e o clarinete-baixo.

A presença, em dois temas, dos grupos Fuaim (harpa céltica/violoncelo/rabeca) e Dick Lee’s Chamber Jazz (flauta/oboé/trombone/contrabaixo/bateria) sumarizam os polos em tensão, num disco percorrido e sustentado pela dialética de opostos. (8)

 

Four Men & A Dog - Barking Mad

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

FOUR MEN & A DOG
Barking Mad
CD, Cross Border Media, import. Mundo da Canção


Virtuosismo em quinta velocidade e humor em contramão é com estes quatro homens e um cão, alucinados e com a irreverência de um foguete fora de controlo. “Barking Mad”, álbum de estreia, retoma o lado mais lúdico da tradição irlandesa e abraça de passagem os sons que estavam mais à mão: o “rockabilly”, o “funky” céltico e, numa das faixas, até um “whiskey rap”, ou seja, um “wrap”, de boa feitura. É notória, além disso, uma certa aproximação aos ritmos country em grande parte devida ao tom imprimido por Mick Daly (The Lee Valley String Band, Any Old Time) e ao predomínio instrumental dos banjos, aqui manuseados nada menos que por três músicos – Mick Daly, Cathal Hayden (fabuloso no violino; investigue-se o seu álbum a solo “Handed Down”) e Brian McGrath.

Gino Lupari, gordo de não caber na fotografia, é o mestre das percussões (inexcedível nos “bones” e no “bodhran”) e piadista de serviço. Temas como “Wrap it up” (o tal “wrap”…) e “Short fat family” não parecem ter muito a ver com folk mas não é por isso que deixamos de os dançar. Richard Thompson e Peter Case contribuem com a assinatura de dois temas, “Waltzing’s for dreamers” e “Hidden love”. O resto é a loucura das jigas, “reels” e polkas, e seja o que Deus quiser. (7)

 

Chuva de estrelas [Genesis, Rui Veloso]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

CHUVA DE ESTRELAS

 

Este Natal é uma fartura. É costume artistas consagrados aproveitarem a quadra para regressar às lides editoriais. Mas poucos terão sido os anos, desde a saudosa década de 60, em que o período deu origem a tamanha colheita de novos discos de artistas de primeiro plano (para já não falar de compilações de êxitos). Diz-se que foi da guerra do Golfo, que fez as grandes editoras atrasarem para agora o produto que se previa para antes ou a exigirem antecipações de artistas que planeavam lançar mais tarde.

É esta “rentrée” recheada de vedetas que se revê no presente “dossier”. Consideram-se os nomes mais sonantes, num plano internacional ou nacional, que acabam de editar trabalhos originais de estúdio ou ao vivo. Trata-se de cada um a título daquilo que é fundamental, ou seja, a sua dimensão de fenómeno mediático e comercial, recordando-se os antecedentes e o contexto que assistiram a tais retornos. Nessa medida, as avaliações dos discos respetivos passam para segundo plano.

Introdução não assinada de um texto coletivo, em que FM escreve sobre Genesis e Rui Veloso

 

GENESIS

 

 

Phil Collins, Tony Banks e Michael Rutherford chamam “nova era” ao período discográfico iniciado com “Abacab” e cujo penúltimo capítulo remontava a 1986 e a “Invisible Touch”, que, diga-se de passagem, foi número um em tudo o que é sítio. Os três Genesis enaltecem as virtudes do estúdio próprio, que, dizem eles, lhes garante um som impecável. Aliás, pode dizer-se que estão em condições de enaltecer tudo. Phil Collins, então, não tem razões de queixa.

Assim, os motivos que os levaram a não pôr, por enquanto, cobro ao dinossauro são de ordem exclusivamente artística. Faz-lhes falta o som de grupo, a companhia mútua, o acréscimo de criatividade segundo a lei de que “três cabeças trabalham melhor que uma cabeça só”.

“We Can’t Dance” é ainda um objeto terapêutico, uma purga, remédio santo para o “stress” dos artistas: “aliviou-nos da tensão” – garante Tony Banks, o mais tenso dos Genesis, por acaso aquele que dos três se saiu menos bem nas atividades a solo e, por isso, o mais atreito à hipertensão.

Passados tantos anos sobre as saídas de Peter Gabriel e Steve Hackett, os Genesis resolveram que queriam ser “diferentes”. Por exemplo, Tony Banks descobriu que existiam outros registos no sintetizador para além das cordas sintéticas e que era possível, com um sampler, imitar um som de órgão. No próximo álbum, lá para 2010, talvez nos mostre como é possível produzir, com um órgão, o som de um sampler sintético de cordas. Tony Banks é um infeliz. Sente-se “frustrado” pela falta de sucesso dos seus discos. Os outros apiedaram-se.

Para Phil Collins, mais um ou menos um disco dos Genesis tanto se lhe dá como se lhe deu – é mais uma diversão que outra coisa, uma pequena extravagância “raffiné”. Está bem instalado na vida. Não necessita de fazer ondas para fazer dinheiro. Um “aid” aqui, um protesto ali, um depoimento humanitário acolá garantem-lhe a manutenção da imagem “clean” e o caudal de divisas. Condescende em dar-se ares de rufia e diz que gosta de pornografia e que é contra a censura. Ah, valente!

Mike Rutherford toca baixo e tem cara de parvo.

Seria muito bonito, e muito digno, e tudo isso, a lenda, o mito, o nome, se não nos quisessem impingir os discos. Sim, é verdade, o Natal é boa altura para “dar música”. Mas o que é de mais enjoa. Adeus ó vão-se embora.

 

RUI VELOSO


Não edites amanhã o que podes editar hoje, parece ser o lema das editoras neste final de ano. Coincidência ou não, portugueses e estrangeiros escolheram o Natal para deitar cá para fora os frutos, verdes ou maduros, nalguns casos podres, da sua inspiração. É um ver se te avias. À partida, com Rui Veloso, o risco de “flop” comercial é diminuto, tendo em conta que é o nome mais sonante do rock português, o que, com o empurrão das operações de “marketing”, garante desde logo o escoamento do produto.

Encomendado pela Comissão dos Descobrimentos e beneficiando de um “budget” que terá rondado os seis mil contos, “Auto da Pimenta” tem ainda por cima algumas vantagens adicionais: é um objeto de apresentação luxuosa que, independentemente do conteúdo musical, convida à aquisição. Tudo na embalagem, desde o grafismo imaculado à profusão de imagens que piscam o olho ao aventureiro dos mares que vive em cada um de nós, grita “comprem-me”. Goste-se ou não, ouça-se ou não, “Auto da Pimenta” não é difícil adivinhar que vai ser a prenda de Natal mais procurada. É um valor seguro, um “bibelot” cultural capaz de fazer boa figura na discoteca ou na compacteca, da mesma forma que a coleção encadernada das obras completas de Eça de Queirós serve para abrilhantar a estante da biblioteca.

Depois, há os Descobrimentos e blá, blá blá, somos todos heróis, o mar, o fado, caravelas e saudade, ah que saudades do Império (do cinema, bem entendido…), Camões, Fernão Mendes Pinto, o Centro Cultural de Belém e para o ano, se Deus quiser e não houver bronca entretanto, a CEE. Assim, quem este Natal não comprar “Auto da Pimenta”, não é bom português nem bom chefe de família.

O disco, coitado, não tem culpa nenhuma. É um bom disco, tão bom ou melhor que os outros já gravados pela dupla. Rui Veloso e Carlos Tê fizeram o que se lhes pedia, a revisão moderna da epopeia dos Descobrimentos, e fizeram-no bem. “Auto da Pimenta” é um manual honesto do “português moderno”, pintado com as cores do sonho. Uma aventura de trazer por casa.

Battlefield Band - New Spring

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

BATTLEFIELD BAND
New Spring
CD, Temple, distri. Mundo da Canção

 

Detentores de uma já extensa discografia, os Battlefield Band têm exercido um notável trabalho de dignificação e recuperação da música tradicional escocesa, equivalente, em termos de atitude e formulário estético, ao papel desempenhado na década de 70, em Inglaterra, por grupos como os Fairport Convention ou Steeleye Span. À semelhança dos nomes citados, embora menos sensíveis ao apelo da rítmica rock, os Battlefield Band procuram novas vias para a música antiga escocesa. Os resultados, na forma de disco, têm variado entre o ótimo (“There’s a Buzz”, “Celtic Hotel” e sobretudo o magnífico “Home is Where the Van is”, aqueles em que a vertente tradicional não chega a ser pervertida pela, por vezes despropositada, utilização da “caixa de ritmos” eletrónica) e o sofrível (“Anthem for the Common Man”, pelas razões inversas às atrás apontadas ou “Homeground”, registo ao vivo onde o entusiasmo não serve de desculpa ao tom de “desbunda” para onde por vezes descamba).

“New Spring”, gravado após mais uma alteração na formação dos Battlefield Band (da original permanece o teclista Alan Reid), nada adianta em relação a anteriores trabalhos. Falta-lhe a ousadia, substituída pelo repisar de fórmulas que já se vão tornando gastas. Exemplo desta atitude de “deixar andar” é a balada “Darien”, repescagem melódica de “The rovin’ dies hard”, de “Celtic Hotel”. Permanece intocável a reconhecida competência instrumental dos músicos e o prazer de reescutar a alma céltica no som da gaita-de-foles das terras altas, de Iain MacDonald. Talvez fosse o convívio excessivo com os fantasmas que tenha retirado encanto ao castelo. (6)

16/05/2026

"Revolver" [The Beatles]

 

TELE PÚBLICO
Domingo 08.12.1991

NA CAPA

 

“REVOLVER”

 

Paul, John, George e Ringo são nomes próprios de uma década que sonhou mudar o mundo. Os quatro mudaram mais depressa do que o mundo e um deles mais depressa do que todos os outros. Só as canções são eternas. Há 30 anos tocavam numa “caverna” em Liverpool.




Escrever sobre os Beatles, porque não? Revolver o passado à procura do que não falta dizer. Difícil resistir ao apelo do óbvio, da devassa. Para o leitor é o prazer da mastigação fácil de algo já mil vezes digerido. Para o jornalista, o orgulho, apesar de tudo, de fornecer alguns dados novos.

Os Beatles (“escaravelhos”, sabiam?) eram quatro (sabiam?): John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. O primeiro, faz hoje onze anos, morreu assassinado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, com um tiro de revólver. Não fora Mark David Chapman ter acordado mal disposto naquela manhã fatídica de 8 de dezembro e talvez os “fabulous four” de Liverpool tivessem podido realizar o sonho acalentado durante anos por milhões de fãs espalhados pelo mundo, de ver o quarteto de novo reunido, a cantar “All you need is love”. Mas para que tal acontecesse teria sido necessário que o carrasco, em vez de Lennon, tivesse disparado sobre Yoko Ono e Linda McCartney. E já agora, sobre Elton John. Infelizmente escolheu o alvo errado. O destino preferia os Rolling Stones.

Recuemos ao passado. Os Beatles começaram por tornar-se célebres pelo comprimento do cabelo. Foram eles que deram origem ao termo “cabeludos”, em geral utilizado pelos nossos pais com um sentido pejorativo, quando queriam refrear a nossa rebeldia. A música, tendo em conta o que à época se fazia, não era má: uma combinação explosiva dos “rhythm ‘n’ blues”, que então começavam a maçar os jovens britânicos, com uma indesmentível capacidade melódica e um jogo vocal que ameaçavam fazer sombra aos seus rivais americanos Beach Boys.

Foi graças a esta saudável rivalidade entre os dois grupos (ou será mais correto dizer entre Paul McCartney e Brian Wilson?), que a música Pop evoluiu, em termos de composição e de produção. As audiências, de um e outro lado do Atlântico rivalizavam, por seu lado, na histeria e nas receções apoteóticas.

Em agosto de 66 os Beatles editam “Revolver”. Os Beach Boys respondem no mesmo ano com a obra-prima “Pet Sounds”, que se diria inultrapassável em génio melódico e no aproveitamento das técnicas de estúdio. Mas Brian Wilson almeja a perfeição. “Smiley Smile”, aquele que seria o testemunho definitivo do seu génio, sofre sucessivos adiamentos motivados por uma crescente megalomania e insatisfação. Os Beatles não esperam e, em 1967, dão o golpe fatal com o clássico dos clássicos “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Para Brian Wilson era o fim.

Libertos do fardo da competição (os Rolling Stones eram um caso à parte e as suas histórias eram outras…) os Beatles têm agora tempo para se dedicarem ao psicadelismo, aos ensinamentos do guru Maharishi e às viagens de LSD em submarinos amarelos. Organizam “Magical Mystery Tours”, abrem boutiques de roupa e uma editora própria. Aproveitam e substituem as mulheres. Paul McCartney casa com Linda. Lennon sucumbe aos encantos (!) de Yoko Ono.

A partir dessa altura as coisas complicam-se. John e Yoko passam a maior parte do tempo nus, em frente às câmaras de televisão, a cantar “Give peace a chance”. Dizem-se virgens e gravam um disco de música experimental “Unfinished Music, no.1”. Paul, por seu lado, é mais dado às lides domésticas. George continua nas aulas de “sitar” enquanto Ringo vai contando anedotas.

Até 1968 e à gravação do célebre duplo-álbum branco, “The Beatles”, para muitos a derradeira obra aproveitável. “Abbey Road” (1969) e “Let It Be” (1970) fecham com chave de lata o jogo da glória. Os Beatles alcançam o estatuto divino (embora já tivessem declarado antes serem mais populares que Jesus Cristo) no momento em que decidem subir ao telhado dos estúdios “Abbey Road” e aí tocarem ao vivo, num gesto que marcaria a sua despedida como quarteto. Nunca chegaram a descer.

 

ARTES E LETRAS
DOM. 8, TV 2, ÀS 00H50