20/05/2026

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

 

Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

 

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso


    Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.

A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.

A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.

Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.

Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Herman José - Na Telefonia (Sem Fios)

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

O RISO ESSENCIAL

 

HERMAN JOSÉ
Na Telefonia (Sem Fios)
LP, Emi – Valentim de Carvalho

     Considerar Herman José um génio não é piada. O humor é coisa séria e Herman não brinca em serviço. No seu caso, ter graça é uma forma de vida, uma maneira de ser e de observar a realidade pelo lado em que esta quebra e se revela ridícula. A piada de Herman José não está (só) na anedota, na explosão final, mas no processo intermédio, na construção de um ambiente ou de uma situação, na exploração delirante de um tique, de uma inflexão vocal, de uma parcela de vida arrancada ao quotidiano. Humor lateral, de pormenores, com sabor a iguaria.

Ao contrário da chalaça burocrática, piadista e populista dos Parodiantes de Lisboa, instituição do humor radiofónico nacional, Herman José inventa e improvisa sem cessar a partir de situações particulares, espremendo de cada uma a essência do cómico. As suas estratégias de desconstrução conceptual e linguística são em parte devedoras dos Monty Python, sacerdotes-mor do humor mais inteligente do mundo ao qual, não por acaso, a maioria dos portugueses permanece indiferente, chamando-lhe “estúpido” ou “sem pés nem cabeça”, sem perceber que o humor é isso mesmo – uma anatomia do absurdo. Os incondicionais, esses veneram John Cleese e co. como figuras de culto. Nessa medida as subtilezas da comicidade de Herman apenas podem ser apreciadas até ao tutano por uma minoria. Só que o humorista bem sabe as linhas com que se cose o riso dos portugueses, conferindo em paralelo ao seu trabalho, na televisão ou na rádio, uma veia mais popular e picaresca, quando no disco incarna as figuras de Ivette Marise (“Os tamanhos” e “A fertilidade”) ou do Estebes (“Entrevista a Rosa Mota”, “A vida de um desportista”). Mas os momentos de antologia desta seleção de “sketches” retirados das sessões diárias na TSF acabam por ser aqueles em que o humor pia mais fino: “Guerra do Golfo”, “Lição de inglês”, “Pedro Almodovar ao telefone” (que ao lado de “Frank Sinatra ao telefone” recuperam os monólogos de Raul Solnado nos anos 60) e sobretudo nos magistrais “Entrevista a John Majors”, “Donald e o ventríloquo” e “Espanha homenageia Amália”, portentos de capacidade histriónica, caricatura e espírito de observação. Com Herman José, com ou sem fios, “é só rir, é só rir”. (8)

 

Egberto Gismonti Group - Infância

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

EGBERTO GISMONTI
Infância
CD, ECM, distri. Dargil


O pecado de Egberto Gismonti é querer parecer europeu. Em “Infância”, o músico perde muito da magia a que nos habituara em trabalhos anteriores à fase ECM e parte do fulgor que hbbita ainda obras já gravadas com o selo alemão. Aqui a intuição dá lugar a um discurso mais analítico, mesmo quando títulos como “A fala da paixão” ou “O amor que move o sol e outras estrelas” parecem sugerir o contrário. Álbum de progressões lentas e de assumida contenção, “Infância” prova que o reconhecido virtuosismo instrumental de Gismonti, ao piano ou na guitarra acústica, por si só não chega para entusiasmar, soando forçado e perdendo-se não poucas vezes em exercícios de estilo destituídos de chama interior, como acontece nas danças finais, nºs 1 & 2, ou na construção dos edifícios harmónicos com o violoncelo de Jacques Morelenbaum, falhos de originalidade e de inspiração. Bastante mais compensador é escutar Gismonti em “Kuarup” – reeditado ao mesmo tempo que esta “infância” desvalida que até vai buscar, na capa, um poema de Pessoa – encontro do músico com as raízes e o mistério da tradição e cultura do povo Xingu da Amazónia. Onde as águas e o génio fluem com a naturalidade que só a convivência com a verdade permite. (6)


David Sylvian & Russell Mills - Ember Glance

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

 

DAVID SYLVIAN & RUSSELL MILLS
Ember Glance
CD, Virgin, distri. Edisom


Subintitulado “The Permanence of Memory”, o trabalho em questão é o tipo de “bibelot” cultural destinado a alimentar polémicas mais ou menos interessantes, mais ou menos estéreis sobre o esteticismo, o classicismo das formas, os novos estilistas e o próximo Wenders. De preferência no Bairro Alto. “Ember Glance” ilustra de forma exemplar uma das facetas da arte atual que tende a valorizar o formato, o primado do aleatório, a ambivalência das formas abertas à informação, a aparência, em detrimento do universal.

Trata-se, se não perceberam já, de uma “instalação de escultura, som e luz” montada no “Temporary Museum” de Tóquio, que faz parte de uma série de “exposições, instalações e ‘performances’ experimentais”. Arte, enfim. Esse mundo maravilhoso que ajuda a fazer deste mundo um mundo melhor. Ao folhear o livro profusamente ilustrado (97 pp.), ao passar os dedos pela embalagem, ao puxar a fitinha (sim, há uma fitinha roxa para puxar) somos siderados com tanta coisa bonita, tanta cor, tantos grafismos pós-modernos, tanta fotografia neoclássica, com luzes, contraluzes, desfocagens, recortes de folhas, tubos, manchas, anotações à margem, “ready-mades” maricas, enfim, por mil e uma variações sobre a aparência das coisas.

A obra abre (a verdadeira obra de arte é a que abre) com uma citação do Dalai Lama (David Sylvian é muito dado às coisas do Oriente, fundou os Japan, pisca os olhos ao Zen, eu sei lá…): “A qualidade da arte é que faz com que as pessoas que geralmente olham para fora passem a olhar para dentro.” Escutado o CD de ponta a ponta, permanecemos quietos e expectantes à escuta, de ouvidos e olhos em bico, ansiosos para coscuvilhar o lado de dentro, de preferência debaixo do vestido do borracho do lado. Nada aconteceu. O raio X não acendeu. Os cerca de 30 minutos de “música” de fundo, meio restolhar de metais, meio ruído branco, atravessados de 15 em 15 segundos pelo repicar de sinos não foram suficientes. Voltámos a ler o manual: “A estrada que conduz ao aperfeiçoamento de níveis mais altos de consciência alcança-se em parte através de um processo de autoquestionamento.”

Então era isso! Redobrámos a concentração e escutámos o repicar dos sinos, ao mesmo tempo que nos autoquestionávamos, enquanto não fôssemos acusados de descurar algum aspeto, passávamos os olhos pelos bonecos. Em vão. Nenhuns “níveis subtis de perceção” por aí além, nada de ver os acontecimentos de um ponto de vista interior, mais consciente e unificado”. Permanecemos broncos.

“Ember Glance” examina as “ideias de espaço, tempo e memória”, através da utilização de sons, luzes e objetos” deslocados do seu contexto natural e dispostos segundo um espaço teatral, libertos das associações vulgares”. E por aí fora, num tratado de filosofia que procura a todo o custo validar o vazio. No fim de contas, não é o vazio o centro de que falam os budistas? A ideia de “música para instalações” não é nova. Dos Velvet Underground e Andy Warhol e a sua “Exploding Plastic Inevitable”, a Laurie Anderson e Brian Eno, que a música popular (já não falando da infinidade de experiências levadas a cabo no campo das “novas músicas”) tem procurado a todo o custo essa síntese utópica entre as diversas formas de expressão artística, em projetos “multimédia” de menor ou maior dimensão.

Lembremos, por exemplo, alguns projetos de Brian Eno, como o das esculturas-vídeo, o “muzak” ambiental do CD “Thurday Afternoon”, para citar um nome com o qual Sylvian e Mills (pintor, “designer” e ilustrador que já havia trabalhado nas “esculturas de luz” de vários artistas da Land, editora de Brian Eno, ou no “show” de luzes de um espetáculo de Graham Lewis e Bruce Gilbert, dos Wire) mantêm pontos de contacto.

Tudo isto é verdade, interessante e digno de especulação. Sylvian e Mills são artistas respeitados, com um currículo de prestígio. O que não impede que “Ember Glance” seja chato do princípio ao fim. Há ruído e ruído, e não faltam, na música atual, registos cuja audição pode provocar de facto transformações nos hábitos de escuta do auditor, senão mesmo na sua estrutura orgânica, para o melhor e para o pior. “Ember Glance” fica-se pelos sinos e pelas intenções. (4)

Carlos Maria Trindade & Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO
Mr. Wollogallu
LP/CD, União Lisboa/Polygram


O género a que se convencionou chamar “new age” tem as costas largas. Editoras pioneiras como a Windham Hill e a Coda contribuíram para dar à expressão o sentido depreciativo de que geralmente goza, através da edição em série de objetos vinílicos consistindo, na maior parte dos casos, em pianos bucólicos, um toque de flauta e sons de vento e água por trás. Em suma, “new age” costuma ser sinónimo de “chato”.

Por outro lado, há a tendência para utilizar o termo para catalogar toda a música eletrónica de caráter mais intimista, esteja ou não impregnada dos sinais prenunciadores de uma nova idade cósmica. “Mr. Wollogallu”, para além de quaisquer tentativas de classificação, é um objeto fascinante e uma tentativa bem sucedida de dar um rosto humano à música elaborada em computador.

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro tomam como ponto de partida o som como estímulo sensorial. A música de “Mr. Wollogallu” (nome de um tambor primitivo), ao contrário de outras propostas de música “de computador” que jogam na exploração formal ou nas matemáticas digitais, resultando quase sempre em exercícios “frios”, passíveis de fruição exclusivamente racional (Morton Subotnick, Conrad Schnitzler, Emanuel Dimas Pimenta ou Tó Zé Ferreira), liga-se antes às correntes étnicas e a uma conceção dos sons como vibrações afetivas.

Neste aspeto, “Mr. Wollogallu” pode considerar-se parente próximo dos universos luxuriantes criados pelos italianos Roberto Musci e Giovanni Venosta, nos clássicos “Water Messages in Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, por Steve Shehan, em “Arrows”, ou na forma de progressão sonora, por ciclos, com os alemães Cluster e Manuel Göttsching.

Dividido em dois blocos, compostos por cada um dos músicos, “Mr Wollogallu” passa do pendor classicista e da maior linearidade do traço melódico de Carlos Maria Trindade, brilhantes no tema de abertura “The truth” ou na peça para piano “West”, para as explanações fusionistas de “Blu Terra” e “Antica/Burun” ou as abstrações de cristal de “Ven 5” e “Segredos M.”, já antes esboçados no anterior álbum a solo “Plux-Quba – Música para 70 Serpentes”, sem perder a sedução nem o espírito de aventura.

Música aérea, contemplativa, para saborear como um “refresco de chá num zeppelin à deriva”. Um dos melhores discos do ano de música eletrónica. (9)


Blowzabella - Vanilla

 Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

BLOWZABELLA
Vanilla
LP/CD, Special delivery, distri. Mundo da Canção



“Vanilla” é o derradeiro testemunho em disco de um projeto único na área das músicas tradicionais e de um dos maiores tocadores de sanfona da atualidade, Nigel Eaton, como tiveram oportunidade de verificar “in loco” todos quantos assistiram à sua recente atuação em Algés, ao lado de Paul James, na gaita-de-foles. Antes da chegada do novo projeto de ambos, os “Scarp”, vale a pena deliciarmo-nos com o som de “Vanilla”, entre a excitação do rock e a religiosidade da música antiga, próximo dos grupos franceses Malicorne e Mélusine. Num registo mais contido que o anterior “A Richer Dust”, “Vanilla” como que captura e traduz a essência de cada instrumento, da sanfona, da gaita-de-foles e da “cittern” medieval, casando-a, sem conflito, com o saxofone, o violoncelo e o baixo elétrico. Sem esquecer as entoações estranhas e frágeis da vocalista Jo Fraser que assombram “I Wish I Wish”, “The Lover’s Ghost” e a longa melopeia “La Belle s’Est Endormie”. A música dos Blowzabella e a sanfona de Nigel Eaton ateiam incêndios. Arde nela o fogo sagrado. (9)

Novas músicas para novas atitudes [Joaquim D'Azurém, Carlos Maria Trindade/Nuno Canavarro]

 

PÚBLICO SÁBADO, 14 DEZEMBRO 1991 >> Local

 

Novas músicas para novas atitudes

 

Joaquim D’Azurém, Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro escolheram ter voz própria. A nova música portuguesa perdeu o medo de não ser popular. É possível seguir por estradas solitárias e retirar prazer da aventura.

 

Ontem à noite, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, os três músicos, mais alguns convidados, mostraram vias alternativas para a música portuguesa. Na sala, houve quem os acompanhasse na descoberta. E houve quem dormisse, quem não compreendesse. Outras formas de comunicação que urge aprender.

Joaquim D’Azurém gravou, vai para dois anos, um álbum de “transparências”. Ontem trouxe consigo os seus sonhos para a guitarra portuguesa. Primeiro em peças a solo, evocativas de um passado que é fado, amor, luto e tradição. Cruzado de referências à modernidade: o etnominimalismo de Laraaji, nos “clusters” de cristal, no dedilhar circular, nas sobreposições e nos ecos, tudo a fazer lembrar paisagens de Oriente e mediterrânica maresia.

 

Ragas

 

D’Azurém pouco falou ao longo de uma atuação que aliou o virtuosismo à interiorização. Um aceno da cabeça trouxe para o palco o primeiro convidado da noite, um bom tocador de tablas de quem gostaríamos de saber o nome. Excitou e dialogou com os fraseados da guitarra, no batimento de compassos típicos da música indiana. A música fez-se raga, distendeu-se em hipnose, vibrou segundo outras lógicas e latitudes interiores. Percussões que a dado momento ficaram sós no palco, num longo solo encantador. Depois foi a vez de João Pires de Campos (Flak, nos Rádio Macau) se juntar ao duo, arrancando da sua guitarra elétrica sons sintetizados como pano de fundo para as divagações melódico/harmónicas dos outros dois músicos.

De súbito, sem que nada o fizesse prever, Joaquim D’Azurém pede desculpa e abandona o palco, dando a ideia de ter de satisfazer uma necessidade urgente, quiçá de ordem fisiológica. Cumprindo à risca a máxima do “quando mija um português mijam logo dois ou três”, os outros seguem-lhe o exemplo e abandonam por sua vez o palco. Risinhos entre a assistência, indecisa se haveria ou não de lhes imitar o gesto e transformar o evento em ritual de vertimento de águas. Os músicos regressam, mais aliviados, para o último número. E afinal o intervalo viria logo a seguir…

No hall do S. Luiz, notava-se a presença de vários músicos da nossa praça, entre eles José Cid, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão, o LX-90 Rui Pregal da Cunha e os “resistentes” Fernando Cunha e Pedro Ayres, atentos a estas coisas alternativas.

 

Sedução digital

 

Chega então a vez das máquinas terem uma palavra a dizer. Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro ligam os computadores, os “samplers” e outros brinquedos de alta tecnologia e dão um recital de sons étnico/ambientais extraídos do recente álbum “Mr. Wollogallu” (“wollogallu” designa um tambor ancestral), um dos melhores discos do ano na área da música eletrónica. Exploração bem sucedida do universo das fusões, na linha de nomes como os Cluster, Manuel Göttsching ou da dupla italiana Musci/Venosta. Vozes tribais sequenciadas misturam-se com o piano computorizado ou com processamentos de folclores, reais ou imaginários. Em certos temas a música faz-se acompanhar pela projeção de imagens abstratas de computador. Mantras digitais, prenunciadores da “nova idade”.

Já perto do final Carlos Maria Trindade desculpa-se pela falta de diálogo com o público. A culpa é das “exigências da máquina”. O despropósito das palavras não chegou para apagar a sedução dos sons, a predisposição para a aventura.