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20/05/2026

Blowzabella - Vanilla

 Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

BLOWZABELLA
Vanilla
LP/CD, Special delivery, distri. Mundo da Canção



“Vanilla” é o derradeiro testemunho em disco de um projeto único na área das músicas tradicionais e de um dos maiores tocadores de sanfona da atualidade, Nigel Eaton, como tiveram oportunidade de verificar “in loco” todos quantos assistiram à sua recente atuação em Algés, ao lado de Paul James, na gaita-de-foles. Antes da chegada do novo projeto de ambos, os “Scarp”, vale a pena deliciarmo-nos com o som de “Vanilla”, entre a excitação do rock e a religiosidade da música antiga, próximo dos grupos franceses Malicorne e Mélusine. Num registo mais contido que o anterior “A Richer Dust”, “Vanilla” como que captura e traduz a essência de cada instrumento, da sanfona, da gaita-de-foles e da “cittern” medieval, casando-a, sem conflito, com o saxofone, o violoncelo e o baixo elétrico. Sem esquecer as entoações estranhas e frágeis da vocalista Jo Fraser que assombram “I Wish I Wish”, “The Lover’s Ghost” e a longa melopeia “La Belle s’Est Endormie”. A música dos Blowzabella e a sanfona de Nigel Eaton ateiam incêndios. Arde nela o fogo sagrado. (9)

18/05/2026

Ron Kavana - Home Fire

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

RON KAVANA
Home Fire
CD, Special Delivery, distri. Mundo da Canção

 Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Evolução na continuidade ou revolução? Ron Kavana, “outsider” da folk irlandesa, com ar de “rocker” à anos 50, introduz novos dados na questão de como manter viva a chama da música tradicional do seu país. O ponto de partida é uma tentativa de recuperação daquilo a que o autor chama “espírito”, existente nas grandes bandas irlandesas dos anos 70, como os Bothy Band, Planxty e De Dannan, um entusiasmo que entretanto, segundo Kavana, se foi perdendo à medida que o perfeccionismo de estúdio se sobrepôs à espontaneidade e ao “feeling” desses grupos.

A partir destas premissas, Ron Kavana procura então recuperar o tempo perdido, num programa que, constando na maior parte de composições originais da sua autoria, transporta consigo esse “fogo sagrado” em baladas como “Sands of time lament”, “Blackwaterside”, no empolgante jogo vocal de “Home fire” ou no virtuosismo instrumental das sequências de dança, fiéis no espírito às origens rurais que lhe estão subjacentes. Salientem-se, neste capítulo, para além de todo o sortido de cordas tangidas a preceito por Ron Kavana, as prestações de Terry Woods (Steeleye Span, Woods Band, Pogues) na concertina e de Tomás Lynch nas “uilleann pipes”. Politicamente empenhado, por vezes polémico, “Home Fire” constitui uma alternativa interessante à vertente, digamos que mais esotérica, da música irlandesa de raiz tradicional. (7)

 

Hamish Moore & Dick Lee - The Bees Knees

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

HAMISH MOORE & DICK LEE
The Bee Knees
CD, Green Linnet, distri. Megamúsica

 Uma imagem com texto, sinalizar, amarelo, recipiente

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     De Hamish Moore, exímio executante de gaita-de-foles escocês, houvera já a passagem meteórica por algumas discotecas nacionais dos álbuns “Open Ended” e “Cauld Wind Pipes”. Neles se revelava um músico atento às novas vibrações que percorrem a música do universo e, em particular, do mundo celta.

Terreno armadilhado, passível de ser percorrido sem danos, apenas pelos peregrinos genuínos, que têm na estela e no bordão os sinais inconfundíveis da luz interior que lhes serve de guia. Hamish Moore sabe os terrenos que pisa. Por isso não hesita em trocar experiências de viagem, neste caso com o jazz e os metais e o sintetizador de Dick Lee. “The Bee Knees” percorre, entre a vertigem e a contenção, as várias vias possíveis de cruzamento e diálogo entre aqueles dois géneros musicais e, paralelamente, entre os instrumentos de sopro tradicionais (a gaita-de-foles e o “tin whistle”) e os seus congéneres jazzísticos, o saxofone e o clarinete-baixo.

A presença, em dois temas, dos grupos Fuaim (harpa céltica/violoncelo/rabeca) e Dick Lee’s Chamber Jazz (flauta/oboé/trombone/contrabaixo/bateria) sumarizam os polos em tensão, num disco percorrido e sustentado pela dialética de opostos. (8)

 

Four Men & A Dog - Barking Mad

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

FOUR MEN & A DOG
Barking Mad
CD, Cross Border Media, import. Mundo da Canção


Virtuosismo em quinta velocidade e humor em contramão é com estes quatro homens e um cão, alucinados e com a irreverência de um foguete fora de controlo. “Barking Mad”, álbum de estreia, retoma o lado mais lúdico da tradição irlandesa e abraça de passagem os sons que estavam mais à mão: o “rockabilly”, o “funky” céltico e, numa das faixas, até um “whiskey rap”, ou seja, um “wrap”, de boa feitura. É notória, além disso, uma certa aproximação aos ritmos country em grande parte devida ao tom imprimido por Mick Daly (The Lee Valley String Band, Any Old Time) e ao predomínio instrumental dos banjos, aqui manuseados nada menos que por três músicos – Mick Daly, Cathal Hayden (fabuloso no violino; investigue-se o seu álbum a solo “Handed Down”) e Brian McGrath.

Gino Lupari, gordo de não caber na fotografia, é o mestre das percussões (inexcedível nos “bones” e no “bodhran”) e piadista de serviço. Temas como “Wrap it up” (o tal “wrap”…) e “Short fat family” não parecem ter muito a ver com folk mas não é por isso que deixamos de os dançar. Richard Thompson e Peter Case contribuem com a assinatura de dois temas, “Waltzing’s for dreamers” e “Hidden love”. O resto é a loucura das jigas, “reels” e polkas, e seja o que Deus quiser. (7)

 

Battlefield Band - New Spring

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

BATTLEFIELD BAND
New Spring
CD, Temple, distri. Mundo da Canção

 

Detentores de uma já extensa discografia, os Battlefield Band têm exercido um notável trabalho de dignificação e recuperação da música tradicional escocesa, equivalente, em termos de atitude e formulário estético, ao papel desempenhado na década de 70, em Inglaterra, por grupos como os Fairport Convention ou Steeleye Span. À semelhança dos nomes citados, embora menos sensíveis ao apelo da rítmica rock, os Battlefield Band procuram novas vias para a música antiga escocesa. Os resultados, na forma de disco, têm variado entre o ótimo (“There’s a Buzz”, “Celtic Hotel” e sobretudo o magnífico “Home is Where the Van is”, aqueles em que a vertente tradicional não chega a ser pervertida pela, por vezes despropositada, utilização da “caixa de ritmos” eletrónica) e o sofrível (“Anthem for the Common Man”, pelas razões inversas às atrás apontadas ou “Homeground”, registo ao vivo onde o entusiasmo não serve de desculpa ao tom de “desbunda” para onde por vezes descamba).

“New Spring”, gravado após mais uma alteração na formação dos Battlefield Band (da original permanece o teclista Alan Reid), nada adianta em relação a anteriores trabalhos. Falta-lhe a ousadia, substituída pelo repisar de fórmulas que já se vão tornando gastas. Exemplo desta atitude de “deixar andar” é a balada “Darien”, repescagem melódica de “The rovin’ dies hard”, de “Celtic Hotel”. Permanece intocável a reconhecida competência instrumental dos músicos e o prazer de reescutar a alma céltica no som da gaita-de-foles das terras altas, de Iain MacDonald. Talvez fosse o convívio excessivo com os fantasmas que tenha retirado encanto ao castelo. (6)

10/12/2025

Rosa Zaragoza - Les Nenes Bones Van Al Cel; Les Dolentes, A Tot Arreu

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 JUNHO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

ROSA ZARAGOZA
Les Nenes Bones Van al Cel; les Dolentes, a Tot Arreu
CD, Saga, distri. Mundo da Canção
 
Uma imagem com texto, parede, quadro, vários

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     As raparigas boas vão para o céu, as más (Rosa Luxemburgo, Violeta Parra, Safo de Lesbos, Angela Davies, Camille Claudel ou Janis Joplin, entre outras mencionadas na capa) não se percebe bem, mas deve ser para o inferno. Se bem que isto de raparigas “boas” ou “más” seja muito relativo, dependendo da maneira como se olha. Cicciolina, por exemplo, é “boa” ou “má”?

Rosa Zaragoza é boa, nos dois aspetos. No segundo, contudo, já foi melhor, em álbuns anteriores – como “Cançons de Noces del Jueus Catalans / Canciones Judeo-Españolas” e “Cançons de Bressol del Mediterrani” –, nos quais canta a música que lhe é mais querida, dos judeus sefarditas do Sul de Espanha. Em “Los Nenes...”, pelo contrário, Rosa opta pela “canção de protesto”, colocando a sua voz magnífica (terna e intimista ou angustiante e próxima do grito, tal qual uma Diamanda Galas da folk) ao serviço de minorias étnicas como a cigana e a índia, ao mesmo tempo que vai defendendo a causa feminina.

“L’esperança de la meua vida”, melopeia árabe encantatória, “Niggum”, um tema tradicional hassideano (hassideanos – presumíveis antepassados dos fariseus), “Aixi s’acaba la vida”, pungente, letra escrita em 1954 por um índio americano em carta dirigida ao Presidente dos EUA, “Una abraçada d’amor”, maravilhosamente judia, ou o esoterismo basco de “Baga biga higa” justificam por si sós a audição atenta e a descoberta de uma voz ímpar da atual música popular.

Para os amantes da tradição musical sefardita, uma referência final para a coletânea “Todas las voces de sefarad”, que inclui os seus melhores intérpretes, como La Bazanca, Raices, Simane, Joaquin Diaz, a própria Rosa Zaragoza, para além de gravações recolhidas em direto da comunidade israelita de Madrid. Bons ventos, soprando do Mediterrâneo. ****

 

La Bottine Souriante - Chico & Swell

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 JUNHO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

LA BOTTINE SOURIANTE
Chic & Swell
CD, Green Linnet, distri. Megamúsica
 
Uma imagem com texto, pessoa, pousar, fato

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     Acredite-se ou não, o Canadá também tem folclore. Evidentemente, é uma mistura, mas uma mistura fascinante. A música tem “cajun”, as jigas, “reels” e demais danças irlandesas, juntamente com as suas congéneres francesas, combinaram-se de modo a dar origem a um novo estilo que, dos ingredientes, soube retirar a quintessência. Os La Bottine Souriante, prosseguindo uma tradição que remonta à “explosão” dos “fous du folk” dos anos 70 e à existência, no Canadá, de grupos como os Harmonium, Séguin ou La Chiffonie, retomam as experiências então realizadas no seio da editora francófona Hexagone (que em breve terá representação nacional), burilando as arestas mais ásperas das sonoridades rurais para lhes sublimar a elegância e o requinte, num trabalho formal que só a distanciação e a pesquisa permitem. Fabulosas, em “Chic & Swell”, as harmonias vocais (partilhadas pelos cinco elementos da banda) e o violino de Martin Racine, ao longo de uma imparável sequência de danças e canções (sublime, “Le Rossignol Sauvage”) capazes de juntar, num golpe, a Irlanda, Escócia e França ao caldeirão do Quebeque. ****

 

Gwendal - Glen River

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 JUNHO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

GWENDAL
Glen River
LP, MC e CD, Mélodie, distri. Mundo da Canção

Uma imagem com texto, livro

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     Os Gwendal são atualmente Youenn Le Berre e Robert Le Gall, bretões de espírito aberto, sem vergonha nem pruridos puristas de qualquer espécie. Para eles a música tradicional, neste caso da Bretanha, é o ponto de partida para viagens sem roteiro fixo nem regresso assegurado. Estiveram recentemente no Porto, no II Festival Intercéltico, e desiludiram quem estava à espera de reencontrar a síntese jazz-folk dos tempos áureos de “À vos désirs”. Agora a música é outra, mais dispersa, eletrónica e descomplexada. As flautas, gaita-de-foles, bombarda e violino tradicionais juntam-se ao saxofone, ao baixo e às programações computorizadas, em delírios de síntese que de modo algum seguem à risca os preceitos do “velho” compêndio celta. O “celtic reggae” de “Glas nox”, o africanismo pop de “Uilean mandinga”, o sinfonismo oldfieldiano de “La tarentule” ou a “electronic body folk” de “Celtic bridge” são algumas das direções que os Gwendal apontam, com maior ou menor convicção. Há faixas dispensáveis, de evidente mau gosto rockeiro, outras integradas no mais puro espírito tradicional (“Jigger jig”, “Noces de granit”, “Sterem” ou esses “Champs bothorel” cintilantes de cristal). A capa explica o conteúdo: um edifício futurista perdido entre as brumas de uma floresta. ***

 

09/10/2025

Relativity - Gathering Place

 OUTRAS MÚSICAS

 

RELATIVITY
GATHERING PACE
LP E CD, GREEN LINNET, 47’ 33’’
DISTRIBUIÇÃO: VGM


           








        No final dos anos 70 os Bothy Band, ao lado dos Planxty, lideravam a segunda grande explosão do revivalismo folk britânico. A Irlanda voltava a invadir o mundo. Eram os violinos e gaitas-de-foles a fazer valer os seus direitos. A Europa, de novo, se deixava enlevar e encantar pela música de um dos seus berços mais queridos. Magia druídica escondida no coração da cidade.

            Mais de uma década depois, os Relativity ressuscitam o espírito de cruzada, partindo à conquista do século. Os quatro guerreiros são os dois ex-Bothy Band, Mícheál Ó Dohmnaill (guitarra e voz) e Tríona Ní Dhomhnaill (voz, clavinete e sintetizadores) mais os irmãos Cunningham, Phil (acordeão, “tin whistle”, sintetizadores e voz) e John (violino e voz), membros regulares do Silly Wizard, outro dos expoentes da folk atual. Três fabulosos instrumentistas e uma daz vozes femininas mais originais e marcantes da grande família celta, juntos num disco que sabe aliar a tradição a sonoridades mais contemporâneas – os gnomos, duendes e fadas do século XX divertem-se a brincar com a eletricidade. Em “Rosc Catha na Mumhan”, a guitarra elétrica de Mícheál Ó Dohmnaill solta chispas, mas a voz de Tríona repõe as coisas no seu lugar, num universo diferente, paralelo e mais profundo do que o dos grandes incêndios e agressões da cidade. Quem consegue permanecer quieto, sem desatar a dançar, ao som dos “medleys” dirigidos pelo violino e acordeão dos manos Cunningham? Confundem-se os mundos – tudo é relativo, como afirmava Einstein – a locomotiva da capa vem do Passado, a luz do seu farol ilumina  o Futuro e ilumina-nos com o fogo do Espírito.

            Os títulos evocam um tempo em que a dança unia os corpos, libertos de fantasmas, à terra, e a cabeça ao céu – ritual em que Apolo e Dyonisius davam as mãos e em que a terra, homens e Deus formavam uma só entidade, unida na comunhão dos sons e no prazer do movimento, celebrando as memórias ancestrais: “Highland Laddies”, “Blackwell Court”, “The Monday Morning Reel” – nomes, lugares e tempos concretos, assinalando o ponto onde a Eternidade toca e solta os pés e o coração da humanidade. Canções dedicadas a amigos ausentes na peregrinação das longas estradas (“Miss Tara MacAdam”), canções comemorando casamentos sobre a relva (“Highland Laddies”), canções de viagem (“First Train to Kyle”), escritas de madrugada, a caminho de terras de nomes tão belos como Lochalsh, na “viagem de duas horas, em comboio, mais maravilhosa do mundo”.

            Tríona canta em gaélico, língua antiga que sela o pacto entre as gerações, como em “Rosc Catha”, escrita no séc. XVII pelo poeta Piaras MacGearailt. Se, por um lado, se perde o significado das palavras (apesar das traduções inglesas incluídas no folheto interior), por outro, o seu som encantatório é suficiente para nos fazer compreender que o Tempo, como quase tudo neste mundo, é ilusório e que só a música (sem corpo para morrer) permanece, depois da matéria às cinzas regressar. São baladas imemoriais povoadas por todas as memórias que importam, histórias simples contadas pelos velhos aos mais novos, levadas pelo vento e pelo carrocel das estações, repetindo aquilo que não muda mas que persistimos em esquecer.

            “Siún Ní Dhuibir” casa as vozes, masculina e feminina, dos dois Dhomnaill, bailando etéreas entre as aves e as nuvens criadas pelo “tin whistle” de Phil Cunningham. Transporta-nos a brisa até à Irlanda imaginada – verde, sempre húmida, construída em lendas e castelos. Depois e sempre de novo a dança: “Reels” à desfilada, súbitas mudanças de ritmo, constantes permutas instrumentais, a pura alegria de tocar como se fosse a única coisa verdadeiramente importante que ao homem cabe cumprir. E no fim, como no princípio, a cadência e as sofridas palavras do amor: “os meus olhos não se fecharam, não consegui dormir/enquanto esperava que o meu amor chegasse, desde a noite anterior/Seria capaz de arrastar-me de joelhos pelo mundo fora até te encontrar/já não faltará muito, se me abandonares, e até que o meu corpo seja enterrado na terra”. Neste caso, deveria ser sempre assim. Nem tudo é relativo.

 

SEXTA-FEIRA, 26 OUTUBRO 1990 FIM DE SEMANA

 

25/08/2025

Música da terra [Folk]

 Folk

A DISCOTECA

 

MÚSICA DA TERRA

 

Rock, pop, o estardalhaço, a rádio sempre aos guinchos, as banalidades semanais, acabam por cansar. Saturam-se os ouvidos, esgota-se a paciência e procura-se avidamente o refrigério. Vasculham-se os arquivos e de repente, coberto de poeira, encontramos o rótulo já esquecido: “Folk”.

 

Sorrimos e recordamos, nostálgicos, os anos passados. Era na passagem de uma década para a seguinte. Há vinte anos, mais ou menos. Vivia-se a época da música progressiva. Considerava-se progressiva toda a música que incluísse flautas, cítaras, Mellotron e o obrigatório “Moog synthesizer”. O rock atravessava um momento de descrédito. Na Inglaterra, um grupo de jovens a quem os ritmos urbanos não diziam grande coisa, resolveu olhar para o passado e reviver a tradição da sua terra. De fora, chamaram ao movimento “folk revival”. Fairport Convention, Steeleye Span, Trees, Tudor Lodge hesitavam entre o folclore e o rock, logo, praticavam “folk rock”. Foram aceites como mais um bando de malucos, que outro nome se podia dar a quem se preocupava com os costumes dos “velhotes”, coisas antigas, névoas e lendas ancestrais? O movimento foi moda e, como todas as modas, passou. Esgotado o tempo a que tinha direito, a corrente fluiu, subterrânea. Na nova década em que entrámos, de novo a cíclica explosão. Por cá chegam constantemente novos discos e aumenta a legião dos “maluquinhos da folk”. A Nébula foi pioneira, no capítulo das importações. Seguiram-se-lhe a VGM, a Mundo da Canção, do Porto, a cooperativa Etnia, de Caminha, e agora também a Contraverso entra na corrida, dispondo já em stock de preciosidades do catálogo “Topic”, dos mais antigos e prestigiados das Ilhas Britânicas.

 

Sons rurais

 

            Martin Carthy, conhecem-no os mais sabedores destas antiguidades musicais, dos Steeleye Span, onde cantava e tocava guitarra. Mas talvez se desconheça que gravou inúmeros álbuns a solo ou acompanhado pelo violinista, ex-líbris dos Fairport Convention, Dave Swarbrick. “Second Album”, “But Two Came by” e “Prince Heathen”, estes com a participação do homem do arco que consegue tocar em quinta velocidade com o cigarro aceso ao canto da boca, sem se atrapalhar, e “Byker Hill”, “Crown of Horn”, “Out of the Cut” e “Right of Passage”, de Carthy a solo, os dois últimos anteriormente já importados pela Nébula. A voz de entoações ligeiramente nasaladas como convém neste tipo de música e a mestria guitarrística do ex-Steeleye Span encontram na versatilidade e virtuosismo de Swarbrick o contraponto ideal na interpretação de um reportório constituído principalmente por baladas do cancioneiro rural inglês ou (em menor escala) da tradição medieval palaciana. Recente e abordando a matéria de forma original, o quinteto Brass Monkey, de que faz parte e que integra também John Kirkpatrick, utiliza instrumentos de sopro no desenvolvimento das jigas e “reels” tradicionais. Se soubessem, os colegas do jazz corariam, pela heresia do gesto, pela profanação do saxofone sagrado, nascido com o destino traçado – espelhar e cantar a alma negra através de uma música que, por direito e origem, lhe pertence.

            Kirkpatrick, especialista da anglo-concertina e do acordeão de botões, fez parte dos Albion Band e colabora desde longa data com a cantora Sue Harris, que também toca oboé e saltério. Imprescindíveis são os álbuns “Facing the Music” (só de instrumentais), “Shreds & Patches” e “Stolen Ground”, outras tantas corridas por montes e vales no tempo que medeia entre a magia do meio-dia e o piar do mocho no campanário da igreja, prenunciando a meia-noite.

 

Nos lagos

 

            Robin Dransfield, outrora metade do duo formado com o seu irmão Barry, é outro vocalista de inegáveis talentos, acrescidos aos de arranjador e intérprete. Provam-no as canções de “Tidewave”, antigas, sentidas, vibrantes nas cordas da guitarra esquecida do presente, no poder evocativo de uma sanfona trazida do reino da França. Peça indispensável na coleção de um apreciador que se preze.

            Mais ocidental, a Irlanda assombra pelo mistério de castelos perdidos no meio de escuras florestas, das rochas com histórias para contar, do mar infinito de cujo fundo emergem lendas de sereias e pescadores unidos por inconfessáveis laços. E de muitos lagos, sem “Nessies”, mas encantados por elfos, duendes e fadas, seres que a imaginação tece e por isso são reais. Os Boys of the Lough, ao lado dos Chieftains, afirmam-se como um dos mais antigos e conceituados mestres do “irish folk” e o violinista Aly Bain, um dos seus nomes lendários. “In the Tradition” e “Open Road” são a um tempo conservadores e inovadores no modo como interpretam o folclore irlandês, recorrendo exclusivamente à instrumentação tradicional e à clássica combinação violino/”tin whistle”/flauta, para criar sequências respeitadoras dos cânones, na alternância entre as danças e as baladas vocalizadas. Mais tarde entraria em cena a gaita-de-foles de Christy O’Leary, enriquecendo ainda mais o som dos Boys.

 

Tradição presente

 

            Os House Band não serão tão ortodoxos, mas talvez até por isso a sua música revela-se ainda mais excitante. Os álbuns “Pacific” e “Word of Mouth” divergem na apreciação das temáticas originais, no primeiro caso vogando na serenidade dos “airs” interpretados pelo tin whistle e pela flauta, no segundo soltando-se em extroversões instrumentais e vocais em que a gaita-de-foles e a bombarda fazem a festa. Refira-se por último “Fire in the Glen”, do trio composto por Andy Stewart, Phil Cunningham (dos Silly Wizard) e Manus Lunny, semelhante aos Planxty nas vocalizações do primeiro, despreconceituado na utilização do sintetizador e dos teclados eletrónicos apostados em construir uma música que, embora mais sofisticada, não perde de vista as origens que lhe estão na base.

            A audição de qualquer destes discos constitui uma oportunidade única para todos aqueles interessados em conhecer as diferentes vias e ramificações de um género que constantemente se renova e enriquece, apostado, pelo espírito, o sal e a pedra, na edificação do templo dos celtas, de paredes sólidas, totalmente transparentes. Como um prisma de cristal refractando a luz branca nas sete cores do arco-íris.

 

QUARTA-FEIRA, 8 AGOSTO 1990 VIDEODISCOS

14/08/2020

Steeleye Span - They Call Her Babylon


Y 19|NOVEMBRO|2004
discos|roteiro

STEELEYE SPAN
They Call her babylon
Park, distri. Megamúsica
7|10

Nunca nada está perdido para os Streeleye Span, a banda de folk rock inglesa que tem sete vidas como um gato. Sobrevivendo às modas, às investidas da “world” e a sucessivas alterações na formação, o grupo regressa com uma vitalidade digna de registo. O equilíbrio entre as vertente “folk” e rock nem sempre é o mais adequado, nalguns casos fazendo-se valer uma veia “hard rock” progressiva que ora recorda os Jethro Tull ora os Gentle Giant. Mas para aqueles a quem a profusão de guitarras elétricas e bateria não constituem obstáculo, “They Called Her Babylon” oferece “riffs” e refrões irresistíveis. Houve já quem, talvez apressadamente, considerasse este álbum um dos clássicos do grupo. Na verdade, se há temas em que os Steeleye Span tocam o esplendor de outros tempos esses devem-se às vocalizações de Maddy Prior. Clássicas são, sem dúvida, as suas interpretações em “Van Diemen’s land”, “Heir of Linne” e “Child Owlet”, esta última de antologia. Num álbum marcado pela temática religiosa, soa débil a execução no violino de Peter Knight em “Si begh si mohr”, de Turlough O’ Carolan, longe de fazer esquecer a inultrapassável versão dos Chieftains.

Kathryn Tickell Band - Air Dancing


Y 19|NOVEMBRO|2004
roteiro|discos

KATHRYN TICKELL BAND
Air Dancing
Park, distri. Megamúsica
8|10

O modo como Kathryn Tickell faz soar as Northumbrian pipes é de natureza quase sexual. O prazer que a música proporciona permanece como algo de palpável. É o som, é o estilo e a natureza táctil das ornamentações, já para não falar na figura da senhora, que induzem ao pecado. “April” recebe-se como um beijo. “Small & wild”, com as “pipes” a roçarem-se-nos na pele, é menos inocente. Os “sets” instrumentais, sejam composições próprias, de Alistair Anderson, Rory Campbell, ou tradicionais, sucedem-se como danças de um salão de delícias proibidas. “The long grass” é conversa a três entre a gaita-de-foles, o violino e a “box” de Julian Sutton, “o Picasso do melodeon”, que volta a brilhar no compasso balcânico de “Winding sideways”. Outros momentos a reter são “Air moving”, uma composição de parceria com o saxofonista Andy Sheppard, “Music for a new crossing”, e a música para casamento, “Steve and Jenny”, outra execução tocante nas “pipes”. Kathryn exibe-se ao mais alto nível numa bizarra execução no violino, em “Peter man”. As percussões e “ruídos” de Donald Hay conferem um toque contemporâneo a um disco que apenas quebra nuns longos seis minutos de valsas destinadas a chamar a atenção para o filho de Kathryn, Peter Tickell.

04/08/2020

MARTIN CARTHY - Waiting For Angels


5|NOVEMBRO|2004 Y
discos|roteiro

martin carthy, o anjo da folk

MARTIN CARTHY
Waiting for Angels
Topic, distri. Megamúsica
9|10

O homem canta e toca de forma imperial. Chama-se Martin Carthy e é o maior mito da folk inglesa contemporânea. Após um interregno de seis anos, “Signs of Life”, de 1998, encontrou um sucessor. O antigo elemento dos Albion Country Band e fundador dos Brass Monkey está melhor do que nunca e aos talentos de cantor e guitarrista junta agora o de arranjador. “Waiting for Angels”, ao contrário de outras obras suas marcadas pelo despojamento, prima pela inclusão de sonoridades variadas que vão do violoncelo, oboé, trompete e trombone à “slide guitar” de Martin Simpson e ao órgão de foles e rabeca da filha e produtora do disco, Eliza Carthy. A voz traz o paraíso. Uma voz cuja amplitude torna cada canção tradicional num salmo de proporções épicas. Esse é um dos sinais do génio de Carthy, a capacidade de fazer de cada história uma narrativa intemporal onde os sentimentos de gente concreta, de cortes antigas ou do mar, mas também entidades etéreas das lendas, são ampliados de modo a ecoarem dentro de nós com uma força que se confunde com a glória.
            A música e o canto de Carthy nunca são ambíguos, o seu mistério é o da revelação. Como se ainda não chegasse, há um “swing” sem igual. Logo nas primeiras notas de “The foggy dew” sente-se o balanço. Martin canta como nenhum outro, juntando a genuinidade e a técnica vocal da música tradicional a uma religiosidade que encontramos na música antiga sacra. O canto eleva-se na melodia principal – sempre judiciosamente escolhida do melhor cancioneiro, de Walter Pardon ou dos Copper Family – mas também nas subtis ornamentações ou nas ligeiras alterações tímbricas que interpõem ao veludo pedaços de um tecido mais áspero. “The foggy dew” é uma interpretação fabulosa, mas é apenas a primeira procissão, com percussão ritual e um violino tão sensual como um acto de amor. Carthy desvenda o segredo: “Existe algo em aprender uma canção de a ouvir cantar por uma pessoa, em vez de a lermos numa página impressa. Há uma diferença enorme. Refi ro-me a ouvir pessoas a quem chamaria os ‘velhos cantores à moda antiga’, que estão habituados a cantar sem mais adornos do que os da sua própria imaginação, comunicando toda a espécie de variações internas, pausas, etc e deixando o ritmo das palavras ser o ditador absoluto”.
            É isso mesmo que Carthy vem fazendo e a que neste disco acrescenta “novos horizontes”. Será então esse contacto íntimo com a alma que nos faz exaltar. Lamentos de reis, navios trazendo novas do mundo, elegias, guerras e jardins, saúde aos amigos e a saudade atravessam-nos como facas de luz, ao ouvirmos esta voz que parece transportar a sabedoria de séculos sem que uma nota soe antiquada.
            Em “Young Morgan” a bateria, tão funda como um poço escavado no granito, torna ainda mais pungente o gemido vocal. De novo a bateria majestosa e uma guitarra eléctrica de deuses antigos tornam “A ship to old England came” numa marcha solene que transcende tudo o que os Brass Monkey e os Albion Band fizeram neste domínio. O título-tema é um instrumental de folk de câmara de prece aos anjos enquanto outro instrumental, “The royal lament”, cria uma suave neblina entre a guitarra acústica (na qual Carthy se confirma como mestre) e a “slide” de Simpson. O terceiro instrumental, “Bloody fields of Flanders/MacGregor of Rora”, será o único obstáculo a que “Waiting for Angels” seja obra-prima.
            Mas o fim compensa-nos, oferecendo-nos, nos dez minutos de “Famous flower of serving men”, outra vocalização de antologia. “Waiting for Angels” é o testemunho de um génio e uma lição de vida. São álbuns como este que nos fazem amar a “folk”.

12/05/2020

Luar Na Lubre - Hai Un Paraiso


10|SETEMBRO|2004 Y
discos|música

LUAR NA LUBRE
Hai un Paraiso
Warner Music Spain, distri. Warner
5|10

Faz pena assistir à decadência dos Luar na Lubre. A queda processou-se pela via do costume, da simplificação rítmica através da utilização exaustiva dos sequenciadores e caixas-de-ritmo, o que transformou a banda galega numa espécie de emulação de Hevia. Não que as gaitas não estejam onde lhes compete e que as melodias não sejam, nalguns casos, de uma beleza estonteante. Mas por que raio é que uma pandeireta ou uma bateria não chegam os ritmos? A utilização da eletrónica na folk céltica sempre foi polémica mas parece ser evidente que nos Luar na Lubre tem a ver com a internacionalização e as cedências que esta transição implica. O resultado é o empobrecimento da música e a desvalorização de temas como “Hai un paraiso” e “Uah lúa”, transformados em exercícios de má música de dança. Pontos positivos são “Rivadavia”, com uma bela intervenção na gaita de Bieito Romero, “Corme”, que prima pela simplicidade, e “Achega-te a mim, maruxa”, boa versão do tema popularizado por José Afonso. Há duas Galizas distintas que se digladiam na música dos Luar na Lubre.

17/02/2020

Dan Ar Braz - A Toi Et Ceux


Y 27|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

DAN AR BRAZ
A Toi et Ceux
Columbia, distri. Sony Music
5|10

Dan Ar Braz fez pela vida. O guitarrista bretão que acompanhou Alan Stivell nos primeiros anos deste harpista, palmilhou a estrada que conduz ao castelo das estrelas. Hoje, como Carlos Nuñez ou os Chieftains, Braz é uma estrela que se pode permitir estourar orçamentos gordos, convidando artistas folk e rock de nomeada. O fundador do megaprojeto “Héritage des Celtes” enveredou a partir desse disco pelo caminho mais fácil, tentando chegar às massas pela via do choradinho “new age” e do postal do misticismo céltico, cozidos no caldeirão das fusões. Em “A Toi et Ceux”, sem grandes trutas no estúdio (só Mairtin O’Connor, no acordeão), Braz vende mais um bocadinho da alma ao diabo. “Mary’s dancing”, cocktail ligeiro de celtismo e música africana, com arranjo pindérico, e “Look around you” não abonam a favor. Do outro lado, “Dan’s fisel” oferece um bom desempenho de Ronan Le Bars nas “Uillean pipes” apesar do tema, bem como “Orgies nocturnes” (com boa bombarda e guitarra elétrica prog), recuarem exatamente ao ponto, nos anos 70, em que Alan Stivell anunciou ao mundo o folk rock bretão, no álbum “Chemins de Terre”. O resto, quase tudo, foi de mais.