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14/05/2026

Galicia no país das maravilhas [Milladoiro]

 

PÚBLICO SÁBADO, 7 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Milladoiro em Lisboa, na Semana da Galiza

 

Galicia no país das maravilhas

 


 

OS MILLADOIRO, expoentes da música tradicional galega, pelo menos os mais conhecidos e divulgados no estrangeiro, atuam hoje às 21h30 no Teatro Tivoli, em Lisboa, em espetáculo integrado na Semana da Galiza.

Passados sete meses desde que tocaram em Portugal pela última vez, no IV Festival de Música Popular Portuguesa realizado em maio na Amadora, os Milladoiro persistem num trabalho, sério e despreconceituado, de recolha e transformação dos sons e dos segredos da Galiza. De Catoira, na região de Pontevedra, onde se refugiam ao fim de cada ciclo de viagens, sem perder de vista a música dos caminhos da Irlanda, da Escócia e da Bretanha.

Caminhos entre a terra e o mar, sinalizados por pequenos amontoados de pedras – os “milladoiros” – que, juntamente com as estrelas, servem de guia e de farol aos peregrinos do mito e da catedral que dá acesso ao país das maravilhas.

Para os Milladoiro a realidade galega é uma e una, mas também “algo de universal, convertido num sinal de identidade progressivamente aceite e reconhecido no campo da música popular a nível internacional”. Reivindicam o direito à diferença, “no conjunto das culturas e realidades ibéricas”, de maneira a encontrar um papel e uma voz próprios da Galiza no mundo.

Hoje a Galiza afirma cada vez com mais força, através da música, a sua independência cultural. Mas sem o esforço pioneiro dos Milladoiro (ao lado dos modernos trovadores Amancio Prada e Pablo Quintana), talvez não tivesse sido possível a atual profusão de escolas de “gaitas” espalhadas por todo o território ou de grupos como os Muxicas, Luar na Lubre, Xeito Novo, Xorima, Doa, Arco da Vella e Na Lua, entre outros.

Moncho Garcia, gaiteiro dos Milladoiro recorda os primeiros tempos, quando um amigo, analfabeto, de quartel, ao vê-lo pela primeira vez vestido de gaiteiro exclamou “ao que tu chegaste!”. Hoje os Milladoiro são respeitados na Galiza e em toda a parte onde a sua música é conhecida, tendo tocado ao lado dos Chieftains e Alan Stivell, dois dos “monstros sagrados” do género.

Vale a pena escutá-los, ao desafio com os irlandeses, num dos temas de “Celebration”, da banda de Paddy Moloney, ou, melhor ainda, em álbuns da sua própria discografia, como “O Berro Seco”, “Galicia de Maeloc” (recentemente importados pela Mundo da Canção, do Porto), “Galicia no país das maravilhas”, “Milladoiro 3” ou nas ousadias orquestrais de “Castellum Honesti”.

Os Milladoiro deverão apresentar-se em Portugal com a mesma formação com que atuaram em maio: Xosé Mendez (flautas), Michel Canada (violino), Rodrigo Romani (harpa, ocarina, guitarra), Antón Seoana (teclados, acordeão, guitarra), Xosé Ferreiros (“gaita”, “tin whistle”, bandolim, bouzouki), Nando Casal (“gaita”, clarinete, “tin whistle”) e Moncho Garcia (percussões). É tempo de aprender a dançar a “muiñeira”.

O paraíso celta revela-se em Lisboa [Semana de Cultura Irlandesa]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Começa hoje a Semana de Cultura Irlandesa

 

O paraíso celta revela-se em Lisboa

 

Entre hoje e 7 de dezembro realiza-se em Lisboa uma “Semana de Cultura Irlandesa”, organizada pelo Instituto de Cultura Inglesa e a Faculdade de Letras de Lisboa. A iniciativa visa “a articulação entre a cultura irlandesa e a portuguesa” e promete animação. Ou o acesso a Tir Nan Aog, o paraíso celta.

 

A semana irlandesa inclui, entre outras atividades, um concerto de música tradicional de raiz celta, na Aula Magna, com os irlandeses Comhaltas Ceoltóiri Éireann e os portugueses Jig, outro de música de câmara, conferências, debates, exposições, teatro, sessões de vídeo, cinema e até um jantar típico irlandês. E a presença do poeta e romancista John Montague que, logo a seguir à abertura oficial, lerá poemas da sua autoria. No Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras, às 18h30.

“Fools of Fortune”, o novo filme de Pat O’ Connor, será apresentado em ante-estreia absoluta, na Cinemateca, dia 2 às 21h30. Ainda no capítulo do cinema, e no mesmo local, serão exibidos no dia 3, “Gente de Dublin”, de John Huston, às 18h30, e “My Left Foot” (“O Meu Pé Esquerdo”), de Jim Sheridan, às 21h30. E no dia seguinte os clássicos de John Ford, “The Quiet Man” (“O Homem Tranquilo”), 18h30, e “The Informer” (“O Denunciante”), 21h30, que decerto vão atrair à Cinemateca os apreciadores de bom cinema.

O teatro também estará presente. No Teatro da Comuna, dia 7, às 16h00. Com “The Dracula Meditations”, uma “série de reflexões sobre o mito de Drácula que agora é vítima da violência de uma sociedade recalcada” numa peça que “explora um submundo erótico e estético ameaçado pelo ‘status quo’ puritano e agressivo”, adaptada do original de Bram Stoker, escrita, dirigida e interpretada por Paul O’Hanrahn e pelos Balloonatics, companhia de teatro independente sediada em Dublin. Todos os dias, das 10 às 18h00, estará patente na Sala das Exposições uma retrospetiva do “Teatro português sobre textos de irlandeses”.

Prevista está também a realização de debates: O “Teatro Irlandês em Portugal” (dia 3), “A Irlanda no cinema” (dia 4), “Música popular irlandesa” (dia 5). Todos às 14h, na Sala das Exposições. Com a presença de convidados ligados aos diversos temas abordados. O dia 6 está reservado para uma conferência sobre a cultura e literatura irlandesas.

Canções irlandesas e ciganas, e obras de Hoffmeister e Mozart, interpretadas por Stephanie Duarte, viola de arco, e William Raposo, violino (Duarte & Raposo Co.?) farão as delícias dos apreciadores de música de câmara. Dia 5, às 19h30.

 

A voz e o estômago

 

“And last, but not least”, a música tradicional da Irlanda, das jigas e dos “reels”, dos violinos, “tin whistles” e “uilleann pipes”. Pelos Jig (muita atenção à voz de Isabel Leal), do Porto, que foram revelação no Festival Inter-céltico de abril deste ano, e os Comhaltas Ceoltóiri Éireann (com boa vontade até se pronuncia), associação fundada em 1951 com o objetivo de “preservar e divulgar a música, a dança e a língua irlandesas e, de uma maneira geral, promover a identidade cultural das comunidades irlandesas espalhadas pelo mundo”. Da atual formação dos Comhaltas, etc, fazem parte Jim Egan (concertina, flauta e “tin whistle”), Noel Carberry (“uilleann pipes”, “tin whistle”, bodhran, ossos e dança), Karena Dowling (violino, flauta, “tin whistle” e bodhran), Paula Dowling (flauta e “tin whistle”) e Doreen Norris (dança).

Depois de sonhar com os mitos e lendas da velha Irlanda, resta a consolação do estômago. Possível dia 7, às 19h30, no Bar Novo da Faculdade, com as iguarias típicas da ilha.

Os bilhetes, a preços mais do que acessíveis, encontram-se à venda na livraria da Faculdade de Letras (música), Teatro da Comuna (teatro) e Cinemateca (cinema). A inscrição, por 5 mil escudos, na livraria, garante o acesso a todas as iniciativas desta semana de cultura da Irlanda. Terra mágica onde os homens se habituaram a conviver com os deuses.

 

Sanfona de baunilha [Nigel Eaton]

 

PÚBLICO SÁBADO, 30 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

Nigel Eaton em digressão portuguesa

 

Sanfona de baunilha

 

NIGEL Eaton, tocador de sanfona e destacado representante da “terceira via” da “folk” britânica, atua hoje em Coimbra. Na Guarda e em Algés, terça e quarta-feira. Acompanhado pelo gaiteiro Paul James. Ambos fazem parte dos Blowzabella, cujo novo álbum, “Vanilla” (“baunilha”), acaba de chegar aos escaparates nacionais.

Locais agendados são o Café Santa Cruz, em Coimbra, o antigo café Mondego, na Guarda e o Palácio Anjos, em Algés. Todos os espetáculos às 21h30. Em paralelo com os concertos haverá “workshops” de sanfona e gaita-de-foles, nas localidades e datas assinaladas. A organização é da “Etnia”, com o apoio das Câmaras Municipais da Guarda e de Oeiras e do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.

De Nigel Eaton pode dizer-se que é um mago da sanfona, de tal modo a sua mestria do instrumento lhe permite casar as sonoridades da música medieval e da Renascença, com peças da tradição inglesa e bretã ou com manipulações mais próximas da pop contemporânea.

A sua aprendizagem do instrumento fez-se no seio da escola francesa, tendo vencido, em 1986, o concurso de “maîtres-sonneurs de vielles et cornemuses” de Saint-Chartier, em França. Gravou a solo, em compacto, “The Music of the Hurdy-Gurdy” (disponível entre nós), “tour de force” de sanfona em obras tradicionais, de Vivaldi (“Il Pastor Fido”) e da sua própria autoria.

Paul James, companheiro de Nigel Eaton nos Blowzabella, além de exímio executante de gaita-de-foles, toca saxofone, flauta, teclados e percussões. Vale a pena escutar as prestações de ambos nos Blowzabella, grupo estranho, encantatório, diferente da maioria dos seus congéneres. Depois de um álbum gravado ao vivo no Brasil (“Pingha Frenzy”) assinaram a obra-prima “A Richer Dust” na qual pontifica a inesquecível suite que ocupa todo o segundo lado do disco, “The Wars of the Roses”, inclusão fascinante no universo da música antiga sustentada por uma energia que se diria próxima do “rock”, apelativa mesmo para os ouvidos mais habituados ao frenesim da modernidade.

Em “Vanilla”, gravado no ano passado, os Blowzabella de novo dão a provar o doce sabor a terra, desenvolvendo essa como que “terceira via” da música tradicional, de síntese entre o antigo e o “atual”, do rigor com a alegria da transgressão, da veneração às origens com novas e não menos atuantes formulações. À música dos Blowzabella chamou Nigel Eaton “antiga caixa de ritmos”. Definição sugestiva para um percurso de contínua aproximação ao que está prestes a irromper no final do milénio: a eternidade incarnada no mundo e no tempo.

08/05/2026

"Ver a vida através da guitarra" [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía traz o flamenco a Lisboa e ao Porto

 

“Ver a vida através da guitarra”

 

Nómada de alma cigana e andaluza, Paco de Lucía transporta na guitarra flamenca o fogo e a inquietude. Mas também a alegria do ritmo e a proximidade de todas as músicas do mundo. Hoje à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, vai perceber-se por que cantou um dia: “Solo quiero caminar”.

 

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Fala devagar, pausadamente, quase para dentro. Como que temendo desconcentrar-se, por um segundo, da guitarra omnipresente. Para Paco de Lucía tudo se resume ao instrumento que desde os oito anos de idade aprendeu a tocar: a guitarra de flamenco. “Instrumento muito ingrato” – diz, com um sorriso cúmplice –, “basta uma semana sem pegar nela para se desaprender a tocar”.

Claro que não é assim. Paco de Lucía vibra em consonância com as cordas da guitarra. Segundo a lei dos mestres, funde-se na unidade de um corpo único, feito de carne e de madeira, animado pelo fogo: “Para tocar bem guitarra, é necessário dedicar-lhe toda a vida e abdicar de coisas talvez mais agradáveis. Mais é preciso ver a vida através da guitarra, o que se pode tornar muito pesado.”

Queda-se impotente a gravidade, mal os dedos afloram o metal. Chispas de lume interior, enfeitiçante. À semelhança de outros grandes guitarristas para quem a guitarra constitui uma religião (John McLaughlin, Carlos Santana, com os quais de resto já tocou), a prática musical reveste-se para si de um significado místico, ponte e porta para a transcendência, libertação: “Quando chega o duende da inspiração [chama-lhe, num disco, “Duende Flamenco”], tenho a sensação que me vou, que saio fora de mim, que flutuo no ar.” Inspiração. Respiração. “Depende do dia. Depende do que se tem na cabeça. A minha música é um abstração que provoca sensações animais. Não tem uma coerência literária. Não exprime ideias concretas. A única mensagem é emocional. Ou se sente ou não se sente.”

Por isso, nos Coliseus de Lisboa e do Porto onde tocará acompanhado por um sexteto constituído por Ramon Gomez, José Gomez, Ruben Dantas, Carlos Benavente, Jorge Pardo e Manuel Soler, tudo dependerá da inspiração do momento: “Vai haver muita improvisação.”

Dizer então apenas o som. E a luz. Luz mediterrânica do Sol andaluz. Demasiado branca, que cega a razão, obrigando-a a desejar, inconsciente, a água da fonte e a sombra dos pátios interiores da alma. Ou essa indefinição que tudo abarca (e tão presente também no fado português) gerada na conveniência cigana, essa raça “chegada à Europa há 500 anos, ainda sem uma música própria”, mas que, numa paragem do tempo “em cada lugar onde se estabelece, agarra na música local, adaptando-a à sua própria maneira de sentir”.

Paco de Lucía faz o mesmo com o flamenco – “nasci no flamenco, vivo no flamenco” – e com as outras músicas do mundo: “Sou alguém que não para de evoluir, à procura de conhecimento e de contacto com outros tipos de música, para as poder adaptar à minha própria criação.”

Busca incessante de infinito, no cruzamento com diferentes universos musicais, que o leva ao diálogo constante com intérpretes oriundos dos mais diversos quadrantes musicais: John McLaughlin, Carlos Santana, Larry Coryell, Al Di Meola. Há muito que pensa gravar um disco com Carlos Paredes. Só não o fez ainda por “falta de tempo para confrontar ideias e ensaiar”.

Também os discos refletem essa apetência pela variedade e pela síntese de linguagens: “Siroco” é trespassado pelos ventos africanos. “Zyryab” reinventa de forma exuberante o “flamenco-jazz”. O próximo álbum será uma interpretação do “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, com a guitarra clássica do original substituída pela maior dinâmica rítmica da sua congénere flamenca. Trata-se talvez dessa necessidade de “alimentar o espírito, bem mais complicada do que alimentar a barriga”, referida pelo músico. Afinal, uma questão de sobrevivência.


01/05/2026

Músicas autónomas proclama independência [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 6 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

XV Festa do “Avante!” começa hoje na Amora

 

Músicas autónomas proclamam independência

 

Todos os anos, por esta altura, os comunistas portugueses dão espetáculo. Sobre um fundo vermelho cada vez mais esbatido, na Amora, Seixal, voltam a erguer-se os palcos onde se fará a festa. Os camaradas estão resignados: a república da música há muito que se tornou independente.

 

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Ideologia à parte, não faltam motivos de interesse em mais uma edição, a XV, da feta do “Avante!”, que durante três dias vai animar o cinzento poluído da margem Sul do Tejo. Em termos exclusivamente musicais, se ainda não é desta que vêm os Pink Floyd, resta a consolação de poder apreciar ao vivo o rock de Gianna Nannini, uma “latin lover” italiana que já trabalhou com Bertolucci, Antonioni e cantou o hino do último campeonato do Mundo de Futebol, capaz de incendiar corações de todas as cores com o som agressivo do seu mais recente álbum “Scandalo” – no domingo, às 22h, no palco 25 de Abril.

Mas o programa da Festa não engana: 1991 é o ano da consagração da música tradicional. Não deixa de ser engraçado verificar como o vocábulo “Tradição” se sobrepôs ao de “Revolução” no léxico das festividades comunistas. O que vem provar que os comunistas, quando querem, sabem ser homens “às direitas”…

June Tabor com os Oyster Band, Boys of the Lough e Savourna Stevenson constituem cartaz aliciante num campo musical que, finalmente, parece ter-se implantado nos gostos (mais que não seja consumistas) do auditor português.

June Tabor é apenas uma das vozes superlativas do canto feminino de raiz celta. Recentemente, no Coliseu, conseguiu fazer esquecer o equívoco chamado “Folk Tejo”. Pela sua voz, se com ela formos capazes de vibrar em consonância, chega-se ao céu. Em termos de materialismo dialético é difícil de compreender. Na Amora será talvez um pouco diferente, já que cantará acompanhada por um grupo de rapazes irlandeses dados à bebida (há algum irlandês que não o seja?) e que por isso mesmo fazem música de cair para o lado – os Oyster Band.

Da Irlanda brumosa de alma acastelada e pátria provisória do “senhor da ira”, os Boys of the Lough transportam consigo as texturas e odores da madeira e do musgo, do vento e da pedra. Trazem a alegria e a tristeza do exílio irlandês. Na flauta e no violino virtuosísticos de Cathal McConnell e Aly Bain. E na gaita-de-foles, como não podia deixar de ser. Sábado às 19h, no “25 de Abril”, para dançar até à exaustão. O comité central do partido em princípio não se deve opor…

Duas horas depois, às 21h, no Auditório 1º de Maio, é a vez da harpa de Savourna Stevenson serenar os ânimos, em dueto com o violinista dos “Boys”, Aly Bain. Savourna é um dos expoentes da nova linhagem de harpistas celtas, que como Máire Ní Chathasaigh, Alison Kinnaird, Billy Jackson ou as Sileas, recupera os códigos estilísticos e a mística do lendário Carolan, o bardo, para os devolver de forma intimista num contexto contemporâneo. Outros estrangeiros merecem uma chamada de atenção: os Bogus Brothers e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni (ambos com atuações agendadas para sábado, respetivamente no “25 de Abril” às 23h30 e “1º de Maio” às 22h). Havia o trio de Cedar Walton, mas foi cancelado.

Imensa, a legião portuguesa, representativa de diversos quadrantes, promete momentos de boa música. Sexta-feira convém não perder as atuações dos Plopoplot Pot de Nuno Rebelo, dos Pop Dell’Arte de João Peste e de Jorge Peixinho.

Sábado, sempre no palco principal, uma sequência interessante: Romanças, Issabary, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, António Pinho Vargas. No 1º de Maio: Trio de Carlos Bica, Idéfix e Zé-di-Zastre – o jazz em português. Finalmente, no domingo: Tina e os Top Ten, Delfins e José Eduardo Unit. Para o fim uma referência muito especial para a atuação (sexta, 22h30, no “1º de Maio”) dos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua que se farão acompanhar pelo percussionista, anarquista e referência mítica da cena vanguardista mundial (Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, David Thomas, Fred Frith, a constelação da “Recommended”…), Chris Cutler.

Depois há os ranchos folclóricos ou os grupos rock da última divisão, espalhados um pouco por todo o lado, a acompanhar a merenda no chão, de frango, poeira e garrafão. Enquanto se espera que o camarada Cunhal venha dizer que tudo está como era dantes…

18/04/2026

O baile vai começar [Encontros da Tradição Europeia]

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros da Tradição Europeia arrancam hoje em Famalicão

 

O baile vai começar

 

Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

 

 

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitetado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.

Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

 

Oito descobertas

 

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).

Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse With no Heart” e o recente “The Red Crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairéad Ní Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.

A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à eletrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.

O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor dos anéis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

 

A vassoura também toca

 

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respetivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.

Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande des Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.

Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bones van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.

Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

  

 

PROGRAMA DAS FESTAS

 

ÉVORA

Praça do Giraldo

 

 

 

6 de julho

Altan

Perlinpinin Folc

(Irlanda)

(Occitânia / França)

10 de julho

Whippersnapper

Perlinpinpin Folc

(Inglaterra)

(Occitânia / França)

10 de julho

Rosa Zaragoza

 

Robin Williamson

(Catalunha / Espanha)

(Escócia)

11 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

11 de julho

Whippersnapper

Vaide Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

16 de julho

Romanças

Robin Williamson

(Portugal)

(Escócia)

 

 

FAMALICÃO

Praça 9 de Abril

 

OEIRAS

Auditório do Complexo Social das Forças Armadas

3 de julho

Vai de Roda

Perlinpinpin Folc

(Portugal)

(Occitânia / França)

6 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

5 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

7 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

9 de julho

Whippersnapper

La Grande Bande des Cornemuses

(Inglaterra)

(França)

12 de julho

Whippersnapper

Vai de Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

12 de julho

Robin Williamson

(Escócia)

13 de julho

Perlinpinpin Folc

 

Robin Williamson

(Occitânia / França)

(Escócia)


GUIMARÃES


Praça do Santiago

 

Todos os espetáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30

Excecionalmente, a atuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés


4 de julho


La Ciapa Rusa

 

Altan


(Piemonte / Itália)

(Irlanda)

 

16/12/2025

Divulgados segredos do hexágono [Editora Hegaxone]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Pop Rock

 

DIVULGADOS SEGREDOS DO HEXAGONO

 

A Hexagone foi a principal editora francesa dos anos 70, na área da música folk. Contando com o grupo Malicorne como cartão de visita, foi alargando o catálogo até albergar no seu seio tendências tão diversas como as experiências de renovação da música tradicional, de expressão francesa, a ortodoxia militante do tango de Juan José Mosalini, ou o genuíno reggae dos Steel Pulse. As capas, do tempo em que não era necessário poupar cartão, são pequenas maravilhas. Mas a mudança dos tempos implicou a reconversão para o formato CD de, para já, dez títulos deste catálogo, em boa hora distribuído entre nós pela MC-Mundo da Canção.

 

Uma imagem com texto, jornal

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     Surgidos na primeira metade dos anos 70, na altura em que, do outro lado da Mancha, o “folk revival” britânico atingia o apogeu, e em França, seguindo o exemplo do bretão Alan Stivell, se davam passos semelhantes, os Malicorne constituem, para muitos, o expoente máximo daquilo que é possível fazer de novo, sem atraiçoar o espírito original, a partir da infinita matriz da música tradicional.

Datado de 1974, “Malicorne” irrompe na cena folk com a imponência e majestade de um monarca que, por direito divino, se prepara para tomar posse do seu reino. Clássico nas premissas, o álbum evidencia já o leque de estímulos estéticos e a fabulosa capacidade geradora de imaginários luxuriantes fundados e forjados nas lendas e rituais celtas, de que a banda se viria a revelar formidável cultora.

Entre as rondas, “bourrées” e “branles” gaulesas, avultam as baladas divinamente interpretadas pelos irmãos Yacoub, Gabriel e Marie, e as sonoridades de ressonâncias medievais, arrancadas aos céus e aos abismos por uma instrumentação rica e diversificada, onde pontificavam o violino, “bouzouki”, saltério, bandolim, órgão de foles, cromorna, espineta e sanfona.

Para a história ficariam este e os álbuns seguintes, anteriores à decadência: “Malicorne” (foram editados três discos diferentes com a mesma designação), “Almanach”, “Malicorne”, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” e “Le Bestiaire”.

 

Ciclos mágicos

 

No ano seguinte, novo disco intitulado “Malicorne”. Histórias de guerras e de amores: a rendição amorosa de Henriette de France ao rei Carlos I de Inglaterra, em “Le mariage anglais”. Os passeios de Marion, “La fille aux chansons”, por um jardim encantado à beira-mar, até ser raptada por piratas. O voyeurismo juvenil do “galant indiscret” que olha a sua “nanette” na penumbra gelada da meia-noite. Motetes gregorianos, “an dros” bretões, canções nascidas das profundezas do cancioneiro occitano. Mil e uma maneiras de cantar o lado mágico do mundo.

“Almanach”, álbum conceptual, é um “pequeno almanaque das tradições, festas mágicas e procedimentos que devem ser seguidos durante os doze meses do ano”. Para Gabriel Yacoub, só o conhecimento das práticas mágicas e dos ciclos cerimoniais, relacionados com as estações do ano, permite “compreender em profundidade o fundo espiritual dos cantos tradicionais”.

“Malicorne”, álbum número quatro, aprofunda a vertente clássica do grupo: “Nous sommes sonneurs de sornettes”, gavota retirada de “Terpsichore”, recolha de danças antigas compiladas por Michael Pretorius, entre 1571 e 1621, “Daniel mon fils”, inspirada no canto litúrgico das “Vésperas”, ou “La fiancée du timbalier”, escrita com base numa “pastiche” de Victor Hugo sobre a poesia medieval, projetam os Malicorne na busca do alicerce definitivo que sustenta o mundo e fundamenta a liberdade. Histórias sem fim, cíclicas, de transformações, típicas da mitologia celta: “La blanche biche” conta as desventuras da deusa Sarv, meio mulher, meio raposa, numa complexa polifonia vocal, em que a voz de Marie Yacoub se eleva sobre um “órgão de vozes” celestial.

O sonho prosseguiria, já na Elektra, com “L’Extraordinaire Tour de France…” (viagem iniciática de um pedreiro-livre pelo país de França) e “Le Bestiaire”. “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de l’Industrie” pouco ou nada têm que ver com a aventura inicial.

 

Quintas-essências

 

De certa forma discípulos dos Malicorne, os La Bamboche constituem outra importante coluna do templo. Com quatro álbuns gravados (dois de título homónimo, “Quitte Paris” e “Née da la Lune”), os La Bamboche, liderados por Jean Blanchard – músico que deverá vir a Portugal, durante os II Encontros da Tradição Europeia, a realizar brevemente –, enveredam, na fase Hexagone, por uma via mais tradicionalista, recorrendo às danças rurais e ao “sabor a terra” da sanfona, do acordeão e da rabeca. A editora optou, para já, pela edição da coletânea “Quintessence” (genérico igualmente utilizado para os Malicorne, num e noutro caso subintitulado “pequeno sumário das suas mais belas canções…”).

“Le Grand Bal Folk” reúne os Malicorne, La Bamboche, La Chiffonie e Le Grand Rouge na celebração feérica das danças rurais (na capa referem-se as “bourrée”, valsa, polka, mazurka, marcha “scottish”, giga, gavota e “branle”…). Quem, nos tempos de hoje, sabe ainda dançar como mandam as regras?

Grupo emblemático da folk magiar, distante dos códigos enunciados pelos Vosjikas, Sebö Ensemble ou os Muzsikas, de Márta Sebestyén, só para citar alguns nomes editados em Portugal, os Kolinda caracterizam-se por uma aproximação sofisticada (e estilizada) ao folclore húngaro, sem renegarem as “vozes” de instrumentos tão característicos como o “gardon” (espécie de violoncelo esculpido num tronco de árvore), a espineta húngara ou o oboé turco (versão da popular bombarda bretã). Destaque para a voz profunda e misteriosa, de Agnes Zsigmondi e para os arranjos, tradutores da vertente mais soturna e dramática da sensibilidade magiar.

Completam a lista dos compactos agora editados pela Mundo da Canção os tangos de “Don Bandoneón”, superiormente interpretados a solo, no bandónio, por Juan José Mosalini, e a viagem guitarrística pelos universos de fábula de “Douar nevez” (“terra nova”), empreendida com algumas cedências de mau gosto ao rock por Dan Ar Bras, antigo companheiro de Alan Stivell, nos tempos de “Chemins de Terre”.

Do catálogo Hexagone constam ainda (por enquanto só em vinilo) outras obras dos já citados La Chiffonie, Kolinda, La Bamboche e Le Grand Rouge, bem como dos Vielleux du Bourbonnais (quatro sanfonineiros e dois gaiteiros), dos argentinos Lagrima e Tiempo Argentino e dos mexicanos Tequila. Por estas e por outras é que gostamos tanto dos franceses.

 

11/12/2025

Cao na Mãe d'Água [Emilio Cao]

 

PÚBLICO DOMINGO, 16 JUNHO 1991 >> Cultura

 

Cao na Mãe d’Água

 

NA MÃE D’ÁGUA, em Lisboa, continua a decorrer (até dia 18) um ciclo dedicado aos instrumentos de corda, à semelhança aliás do que, em local diferente, aconteceu no ano passado. Anteontem à noite foi a vez do duo Carmen Cardeal/Pedro Teixeira da Silva, repetivamente em violino e harpa clássica, e do galego Emilio Cao, em harpa céltica. A Mãe d’Água, situada na zona das Amoreiras, é uma imensa cisterna aberta a meio do aqueduto das águas livres ou, se quisermos, uma catedral de água, cuja ressonância de 55 segundos constitui uma característica interessante (se bem aproveitada) para a prática de música acústica. Espaço mágico, em boa hora dado a descobrir aos lisboetas.

Ao centro da superfície aquática, enquadrado por quatro imponenetes colunas, erguem-se esculturas (da autoria de Susanne Themlitz e Paula Valente) imitando instrumentos de corda, que a iluminação (concebida por Pedro Leston) e a reflexão da água transformam em simetrias luminosas, vibrando em sintonia com o elemento líquido.

Carmen Cardeal e Pedro Teixeira da Silva interpretaram, com a sensibilidade que o espaço circundante pedia, peças de Donizetti, Debussy, Bach e Bartok, entre outros. Se a ressonância, por um lado, dimensiona o som de maneira a dilatar o espectro vibratório, por outro, não tem quaisquer contemplações para com o mínimo deslize dos intérpretes, o que, na ocasião aconteceu algumas (raras) vezes – uma ligeiríssima saída de tom nos registos mais agudos do violino ou uma corda grave da harpa a soar desagradavelmente lassa – mas não chegou para comprometer nem a prestação dos músicos nem o prazer da audição.

Emilio Cao, um dos expoentes da harpa céltica e da música tradicional da Galiza, por seu lado, estava positivamente encantado com a acústica e o ambiente do local. A sua harpa poucas vezes terá soado tão pura e ao mesmo tempo tão majestosa, como na ocasião. Jogando, por várias vezes, com “clusters” prolongados, conseguiu criar acordes e harmónicos que mais se assemelhavam às emanações de um órgão celestial. Cascatas de notas (o músico aludiu ao paralelo entre os sons da harpa e a água) que desaguaram no dedilhar preciso (arrancou estrelas das cordas, trazendo o céu da Galiza para o lago oculto no centro de Lisboa) dos instrumentais célticos e na suavidade contida do canto, de “Fonte do Araño” ou “Amiga Alba e Delgada”. Silêncio interior, reverberado nas notas infinitas da harpa e na comoção das centenas de pessoas que, ostentando no rosto expressões de autêntico êxtase, comungaram com a água, a luz e as intimistas liturgias tradicionais do músico galego. No final, muitos foram aqueles que, querendo talvez continuar a ascese, subiram a estreita escada de pedra que conduz ao terraço da construção, agora transformado em esplanada, para ver, como se fosse a primeira vez, a linha quebrada que une o céu aos telhados de Lisboa.