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01/12/2025

A eternidade em cinco horas [Wim Wertens]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 5 ABRIL 1991 >> Cultura

 

Minimalista Wim Mertens lança obra em sete CD

 

A eternidade em cinco horas

 

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MINIMALISTA, monárquico, pós-moderno, genial e louco são alguns dos adjetivos aplicáveis ao compositor belga Wim Mertens. Sobretudo os dois últimos, se levarmos em conta o seu mais recente trabalho, “Alle Dinghe”, com mais de cinco horas de duração, só ao alcance dos iniciados.

“Alle Dinghe” cumpre uma promessa antiga. Desde o ano passado, quando o músico, monárquico e tradicionalista convicto (tocou em particular para o rei de Espanha...), atuou a solo no Teatro S. Luiz em Lisboa, que a ideia germinava no seu cérebro fervilhante. Ao ritmo dos passos e das vibrações da serra de Sintra, Wim Mertens discorria, num monólogo interminável, sobre aquela que seria a obra-chave, solução definitiva para os mistérios que a sua música encerra, vitória sobre o tempo, a eternidade, em suma.

Mertens considera-se um enviado dos deuses, portador de uma missão a cumprir – transmitir aos homens a verdade última – dos sons, da melodia e harmonia absolutas, ocultas na estrutura pitagórica do verbo composicional, estrutura já manifestamente evidente, aliás, nos dezassete minutos finais de harpa algébrica, para muitos insuportáveis, de “Educes Me”. Toda a sua obra anterior a “Alle Dinghe” (de que “Vergessen”, “Maximizing the Audience”, “Struggle for Pleasure” ou “After Virtue” constituem fases cruciais) avança por aproximações progressivas a essa essência. Para quem não conhece nem seguiu, passo a passo, nota a nota, esse percurso em direção ao segredo, torna-se incompreensível, senão mesmo penosa, a audição integral deste trabalho, só comparável, em depuração formal e duração, a “The Well-Tuned Piano”, do profeta La Monte Young.

 

O tempo imóvel

 

Dividida em três núcleos fundamentais, distribuídos por sete (!) discos compactos arrumados em três caixas, “Alle Dinghe” (gravado na editora “Les Disques du Crépuscule”, distribuída em Portugal pela Contraverso) dura exatamente cinco horas, cinquenta e cinco minutos, dezassete segundos. “Sources of Sleepness” constitui a matéria dos dois primeiros CDs – “Meinleib ist müde” e “Venerandam” num, “Sub Rosa” e “Le Bref” no outro. “Vita Brevis” estende-se, em sete partes, por mais dois compactos. Finalmente, “Alle Dinghe”, dividido em dez partes, preenche os restantes três.

Para a escuta contínua e integral da obra, torna-se necessário cumprir certos requisitos, a saber: jejum prévio durante os cinco dias (tantos quantas as horas de “Alle Dinghe”) anteriores à audição, depois do qual, no caso de se ter sobrevivido à fominha, se deverá dedicar cinco horas à meditação transcendental, de modo a evitar ao máximo possíveis acessos de impaciência, que, nestas circunstâncias, poderão ser fatais.

“Sources of Sleepness” recupera o formato instrumental dos Soft Veredict. Oito músicos dão corpo a este “perpetuum mobile”, através de uma combinação característica da música de câmara (tuba, clarinete, flauta, violino, violeta, violoncelo e contrabaixo) e de desenvolvimentos melódico-harmónicos que retomam o minimalismo na sua vertente mais radical.

“Vita Brevis” aponta para uma conceção temporal própria do Zen – sucessão cíclica de infinitos instantes, como um filme observado ao fotograma, micro-espirais de fogo desenroladas, ao longo de mais de uma hora, pelo fagote, em solo absoluto, de Luc Verdonck, à semelhança do que acontece nas “Instrumental songs” interpretadas, também em solo-absoluto, pelo saxofone soprano de Dirk Descheemaeker, no álbum do mesmo nome.

Os três últimos CDs correspondem ao desfecho em forma de odisseia extática, “Alle Dinghe”, síntese operatória e manifesto teórico das premissas subjacentes à música e conceções existenciais do seu autor – ultrapassagem da linguagem e do pensamento conceptuais, considerados prisões que obstam à pura contemplação da vida e do perpétuo e imprevisível movimento que, por essência, ela é. O “tal-qualismo” de que falavam os mestres Zen, visão das coisas “tal qual são” e não como as pensamos. Cada parte de “Alle Dinghe” recorre a fonemas destituídos de sentido (“zo”, “al”, “ook”, “et”, “tt”, “en”...), para descobrir o vazio que corrói a carne das palavras e ao mesmo tempo apontar o silêncio incomensurável do Todo, do Nada que é o tudo da realidade manifestada.

A música, enfim, liberta das grilhetas do significado. Reduzida a um trio instrumental violino/violoncelo/contrabaixo, a sequência final (e anti-apoteótica) de “Alle Dinghe” derruba todas as conceções, teoria e modos de perceção sonora que a construção fictícia do Ego geralmente implicam. Wim Mertens dá voz e espaço à liberdade anteriormente enunciada por La Monte Young, na vertigem silenciosa do “teatro da música eterna”. Não são diferentes, a Eternidade e o Instante.

 

07/02/2020

Wim Mertens - Skopos


Y 6|FEVEREIRO|2004
roteiro|discos

WIM MERTENS
Skopos
Usura, distri. Megamúsica
6|10

Wim Mertens tem um dilema. Empenhado na criação de uma obra monumental, nalguns casos impenetrável, dispersa por trilogias, tetralogias e infinitologias, sente-se, por outro lado, impelido a mostrar um lado mais acessível e “fácil” da sua música. “Skopos” pertence à categoria do Mertens “ligeiro” e “mainstream”. Armado do seu “ensemble”, o compositor flamengo cria um híbrido de estilos e sonoridades exóticas capazes de seduzir o ouvido pelo imediatismo. Flamenco e música árabe fazem a sua aparição em “And growth can be heard”, “Further hunting” é pretexto para percussões em compasso de “house” subliminar e “Swirling backwards” reinventa o lado erudito dos Tuxedomoon, enquanto “From out of which” retoma as velhas pianadas num registo pop próximo dos Penguin Cafe Orchestra e “Bold forgetting” e “Working the ploughs” apostam no minimalismo romântico que depois de “O Piano” de Nyman não cessou de se repetir. Sem dúvida bonito, mas longe da estranha música de câmara de “Vergessen”, “Struggle for Pleasure” e “Maximizing the Audience”, aqui apenas igualada pelo belíssimo (e Nymaníssimo…) epílogo, “Bewildering din”.

03/04/2017

Leão pop [Festival Outono em Lisboa]

cultura QUINTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 2000

Festival Outono em Lisboa inicia-se hoje no CCB, em Lisboa

Leão pop

Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens atuam por esta ordem no festival Outono em Lisboa que durante três dias decorrerá no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Notas melancólicas a anunciar o inverno.

É a quarta edição do festival Outono em Lisboa e em todas elas o programa fez questão de apresentar espetáculos inéditos. Aconteceu assim com a primeira apresentação dos Resistência, com o espetáculo 100 Anos de Fado e com o lançamento a solo de Tim, dos Xutos e Pontapés. Este ano a lista é tripla, com concertos de Rodrigo Leão, António Chainho e Wim Mertens, todos eles transportando um álbum novo debaixo do braço. "Alma Mater", do teclista da Sétima Legião, "Lisboa-Rio", pelo autor de "A Guitarra e Outras Mulheres", e "Der Heisse Brei", do pianista flamengo fundador dos Soft Verdict. Em comum têm a nostalgia.
O festival abre esta noite com Rodrigo Leão que apresentará o seu novo álbum "Alma Mater", incursão por estratos musicais mais ligeiros do que os dos anteriores "Ave Mundi Luminare", "Mysterium" e "Theatrum". Para trás ficaram a música de câmara e o peso de um dramatismo tímbrico que no novo álbum são redimidos pela omnipresença de um piano-nuvem, o calor do tango e as vozes de Lula Pena e Adriana Calcanhoto.
Temas retirados de toda a discografia do músico, com ênfase no novo "Alma Mater", serão apresentados sob uma perspetiva instrumental de acordo com a formação que estará hoje à noite em palco: Luís Sampaio, bateria, Tiago Lopes, baixo, Pedro Oliveira, guitarra, Ângela Silva, voz, Denys Stetsenko, violino, Jano Lisboa, viola, Nelson Ferreira, violoncelo, e Celina da Piedade, acordeão, além, é claro, de Rodrigo Leão, nos teclados. "Será um espetáculo diferente de todos os que fiz até hoje", garante, "pelo facto de haver bateria, guitarra e baixo, o que realça a vertente pop de alguns temas, com arranjos novos para estes instrumentos de 'Ave mundi', "Carpe diem" e 'Mysterium'".
O espetáculo contará com a presença, numa das duas versões a apresentar do tema "A casa", dos convidados Sónia Tavares, voz, e Nuno Gonçalves, eletrónica, ambos dos The Gift. "A casa" é a canção de abertura de "Alma Mater", com vocalização de Adriana Calcanhoto. No Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, será apresentada uma "lounge mix" deste tema na qual Sónia Tavares substitui a voz da cantora brasileira e Nuno Gonçalves, responsável pela remistura, lançará samples vocais. "Tardes de Bolonha" constitui outra das novidades. O tema, composto por Leão para o álbum dos Madredeus, "Existir", será apresentado ao vivo pela primeira vez pelo seu autor e terá uma "vertente popular", com o acordeão de Celina da Piedade a "desempenhar o papel mais importante".
Piano e falsete

Wim Mertens, visitante assíduo do nosso país, fechará no sábado o festival. O compositor prossegue há mais de 20 anos e sem desfalecimentos uma saga sem fim – impenetrável, nalgumas das suas etapas... – na busca da síntese definitiva entre o minimalismo, o piano romântico, o conceptualismo e os alicerces clássicos dos séculos XV e XVI. Longe vão os tempos em que brincava com os circuitos eletrónicos de máquinas de flippers, em "For Amusement only", e alargava o léxico do minimalismo, inventando, a par de Michael Nyman, a contrapartida europeia do movimento, em álbuns como "Vergessen", "Struggle for Pleasure" e "Maximizing the Audience". Hoje, a sua cabeça encarcerou-se no esoterismo de obras com dez horas de duração intituladas "Alle Dinghe" ou "Gave Van Niets", que incluem solos de fagote de meia hora.
Nos intervalos da escrita para fagote Mertens desforra-se, lançando no mercado postais pindéricos de pianadas "new age" autentificados com o selo de garantia de "autor". O novo "Der Heisse Brei" sem ser tão soporífero como alguns dos seus trabalhos neste campo de maior "luminosidade", chamemos-lhe assim, não evita, no entanto, a monotonia de frases melódicas estafadas e um romantismo de pacotilha. Mas continua a ser divertido observar o artista a espremer-se na voz de falsete com que costuma abrilhantar as suas atuações.
Quem está na moda é António Chainho, que será o segundo artista a atuar, - amanhã – no Outono em Lisboa. A seguir ao golpe de mestre "A Guitarra e Outras Mulheres", o guitarrista volta a explorar o filão de ouro da fórmula "guitarra portuguesa mais vozes ilustres" no novo "Lisboa-Rio". Depois de Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Marta Dias, Sofia Varela, Elba Ramalho e Nina Miranda, presentes no disco das "outras mulheres", responderam à nova chamada Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Virgínia Rodrigues, Celso Fonseca e Jussara Silveira. Em prole da fusão das músicas portuguesa e brasileira.

OUTONO EM LISBOA
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
Rodrigo Leão, hoje, António Chainho, 6ª, Wim Mertens, sáb., sempre às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4500$ para o espetáculo desta noite; entre 2000$ e 5000$, 6ª e sáb.

11/11/2016

Wim Mertens: missão ou missal?

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 11 MAI 2001

Wim Mertens: missão ou missal?

Compositor flamengo regressa para dois concertos no nosso país

Wim Mertens gosta de Portugal. Consta que Portugal também gosta dele. O compositor
flamengo que nos anos 80, juntamente com Michael Nyman, trouxe para a Europa os ideais e os ciclos tonais da escola minimalista norte-americana (Young, Reich, Glass, Riley), atua esta noite no Porto — e amanhã na Covilhã — para apresentar o seu novo álbum, “Der Heisse Brei”, cujo título, contrariamente às aparências, não faz publicidade a uma marca de cerveja.
            Esta é apenas mais uma visita ao nosso país — de novo apenas ele, um piano de cauda, e uma voz “sui generis” — no cumprimento de um ritual de concertos ao vivo em Portugal que teve início há mais de uma década, quando o nome do projeto que o tornou famoso no seio do minimalismo chique, os Soft Verdict, ressoava ainda com força nos ouvidos dos melómanos portugueses. Dessa primeira passagem por Portugal retivemos na memória uma afirmação sua, proferida com plena convicção, em que garantia ter sido, ele Mertens, investido por Deus numa missão na Terra. Na altura não o contrariámos. Era preciso esperar pelas provas discográficas, que confirmassem ou não a natureza divina da obra. Até hoje, a dúvida permanece.
            Com os Soft Verdict, com ou sem a intervenção de Deus, a verdade é que o minimalismo ganhou um novo rosto. Sorridente em “For Amusement Only”, manobra de diversão que arrancava música aos circuitos eletrónicos de uma máquina de “flippers”. Romântico, em “Struggle for Pleasure”, na banda sonora para “The Belly of na Architect”, de Peter Greenaway, ou no “tour de force” “Maximizing the Audience”. Tenso e elétrico, em “Vergessen”.
            Mas os Soft Verdict, onde pontificavam alguns ilustres instrumentistas da nova música holandesa, acabaram, e Mertens prosseguiu a solo a missão de que se dizia investido. Em missais de liturgias cada vez mais desmesuradas e de extrema complexidade, expostas em tetralogias sem fim, entre a música de câmara e um esoterismo impenetrável, como “Alle Dinghe” e “Gave Van Nietz”.
            Peças para guitarra, outras para voz e incursões pela “new age” foram igualmente abordadas por este compositor prolífico que gosta de invocar Bach, canta como um fantoche, mas consegue, a espaços, fazer com que a música toque de facto no céu.

WIM MERTENS
Porto, Coliseu. Hoje, às 22h00
Bilhetes a 3500$00 e 4500$00
Covilhã, Teatro Cine, amanhã, às 22h00

27/07/2009

Wim Mertens - Best Of

Sons

30 de Janeiro 1998
REEDIÇÕES

Wim Mertens
Best of (7)
Les Disques du Crépuscule


“O melhor de...” aplicado a Wim Mertens expressa um dos lados de uma dicotomia enraizada no âmago da música deste compositor belga, falso minimalista, comprometido entre um vanguardismo nos limites da perceptibilidade e um “easy listening” neoclássico chique que o coloca, hoje, confortavelmente ao lado de Michael Nyman, no topo das preferências de uma burguesia bem pensante para quem o conceito de novo estagnou numa mesa de café do Bairro Alto. Este “Best of” privilegia, obviamente, não solos de fagote com meia hora de duração, mas o lado mais melodioso de Mertens, o das pianadas idílicas com base na matemática das emoções, como “Humility” e “Iris”, assim como o tom de música de câmara dos Soft Veredict (“Struggle for Pleasure”, Maximizing the Audience”, dois títulos-temas dos respectivos álbuns, aqui incluídos) ou o diálogo pianístico a quatro mãos, o mais próximo de uma lógica verdadeiramente minimalista, de “4 mains”. A inclusão de um tema inédito, “Hors-nature”, acentua o lado melodioso desta colectânea, o qual, como quase toda a produção recente do músico, oscila entre uma beleza de desarmante simplicidade e um decorativismo a roçar o enjoativo. O último tema, “The scene”, um curto apontamento retirado do álbum mais antigo de Mertens (“Sin Embargo”), agora reeditado em CD pela primeira vez, contém em si próprio a essência do paradoxo: sobre um dedilhado de principiante numa guitarra acústica o jovem Mertens assobia uma melodia pueril. Belo e ridículo. Mas sempre preferível a ouvi-lo cantar.