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01/12/2025

"La dulce vita" [Paolo Conte]

 

PÚBLICO SÁBADO, 20 ABRIL 1991 >> Local >> Televisão

 

“La dulce vita”

 

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ADIVINHA-SE Paolo Conte no cruzamento de Nova Orleães, Hollywood e um pátio italiano, sentado ao piano, semblante sorridente de “matador”, a ponta do bigode grisalho ligeiramente húmida de vinho.

Quando canta “La vera musica” numa voz rouca de tenor, as luzes baixam e o fumo de cigarros matiza de sonhos desfocados o veludo vermelho por trás do palco vazio. Noites de álcool. Bailes de anos passados na varanda do casino frente à praia. Amigos e amantes de quem já não se recorda o nome. Uma taça de champanhe erguida, de madrugada, à saúde de todos e ninguém, numa esplanada de Inverno à beira-mar. A doce vida.

Conforme a disposição, Paolo Conte canta os “blues”, cançonetas populares de faca e alguidar ou “pastiches” de Frank Sinatra, ao sabor ritmado dos copos, tangos e “passe dobles” vibrantes de “swing” – só, defronte de um piano que “andou a beber”, tal qual o de Tom Waits, ou em equilíbrio precário sobre orquestrações nascidas do casamento de Nino Rota com Carla Bley.

“Hemingway”, “Dancing”, “Blue Haways”, “Boogie”, “Un Gelato al Limon”, “La Vera Musica”, “Chi Siamo Noi” ou “Diavolo Rosso” são algumas das maravilhas incluídas no duplo álbum coletânea “I Primi Tempi” e a melhor maneira de aceder ao universo surreal do cantor. Para seguir viagem, sugere-se a audição de “Paolo Conte”, “Paris Milonga” ou “Appunti di Viaggio”, recentemente editados em CD. Sobram razões para assistir esta noite ao espetáculo de Paolo Conte, ao vivo na cidade suíça de Locarno.

 

Canal 2, às 00h30

 

Eles os dois são ela [Eurythmics]

 

PÚBLICO SÁBADO, 13 ABRIL 1991 >> Local >> Televisão

 

Eles os dois são ela

 

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ELA É ANNIE LENNOX. Ele Dave Stewart. Ele toca, compõe e arranja. Canções, claro. Ela é a voz, o rosto e o corpo dado ao manifesto. Ele é a música, o profissional na sombra que faz mexer os cordelinhos. Ela é teatro, instinto, sedução. Ele – óculos escuros – tocava com Elton John e abusava das drogas. Ela – cabelo louro muito curto – cantava nos Tourists. De tão diferentes, ligam bem um com o outro. São os Eurythmics – fábrica de sonhos prontos a consumir. Ou de espelhos. “Sweet dreams are made of this”, afinal de contas.

No início, o frio de um jardim de Colónia: “In the Garden”, gravado nesta cidade, com Holger Czukay e Jaki Liebezeit, dos Can, e os dois D.A.F., Robert Görl e Gabi Delgado. Disco eletrónico, distante, fatal. Em 1981, dançava-se ao som das máquinas. Depois, o golpe de magia de “Sweet Dreams (are made of this)”, um milhão de discos vendidos e “top one” nos Estados Unidos. Os tijolos do caminho tornam-se dourados: “Touch” – e a versão mini, para discoteca, “Touch Dance” –, “1984 (for the love of big brother)” – banda sonora do filme inspirado na obra de Orwell –, “Be yourself tonight”, “Revenge”, “Savage” e “We two are one too” desmentem o provérbio – com os Eurythmics, tudo o que luz é ouro.

Canções de êxito, nem se fala: “Love is a Stranger”, “Right by your side”, “Here Comes the Rain”, “Sex Crime”, “Sisters are Doing it for Themselves” (em dueto com Aretha Franklin), “Beethoven (I love to listen to)”. “There Must be na Angel”, com certeza. Há. Chama-se Annie Lennox. Vamos vê-la e ouvi-la, a propósito de “We two are one too”, ao vivo, no mundo real, e em “clips”, no mundo da ilusão. Os dois são um.

 

Canal 2, às 00h25

25/11/2025

James Brown - & Friends

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 FEVEREIRO 1991 >> Pop Rock >> Vídeos

 

JAMES BROWN & FRIENDS
James Brown & Friends
Music Club, distri. Anónima, 57 min.

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

Para os amantes da música “soul” este registo ao vivo das atuações de James Brown e alguns convidados muito especiais, no “Taboo Club” de Detroit, Michigan, em 1987, é uma peça de arquivo fundamental. Para todos os que não se incluem na categoria restrita atrás enunciada, funciona como um entretenimento agradável e apenas isso. Não há quaisquer efeitos especiais, para além daqueles eventualmente provocados pela audição da música. Um apresentador apresenta, como lhe compete. Os instrumentistas tocam, como se lhes pede. Os cantores cantam, como seria de esperar. Boa oportunidade para se recordar clássicos da “soul music” na voz de um dos seus expoentes – “Papa’s Got a Brand New Bag”, “In the Midnight Hour”, “When a Man Loves a Woman”, entre outros.

James Brown apresenta-se com o bom-gosto habitual: “smoking” prateado e reluzente, decotado até ao umbigo, cabelos cimentados de laca, penteados ao estilo Freddy-Mercury-de-peruca. À medida que os convidados vão chegando, a coisa aquece: primeiro Wilson Pickett, outro senhor da “soul”, seguido de Billy Vera e Joe Cocker, este para interpretar “When a Man Loves a Woman”. Robert Palmer (impecável, de barba bem aparada, gravata e fato completo, de corte irrepreensível) interpreta “Sugar & Spice” em dueto com Brown e, a solo, um dos temas que lhe deu fama e proveito, “Addicted to Love”.

Aretha Franklin, decotada e dificilmente contendo dentro do vestido os excessos de adiposidade, dança um “slow”, agarradinha ao chefe Brown, e canta como só ela sabe. Por fim, juntam-se todos no palco para, felizes, cantarem em coro “Living in America”. E acabou. Muito para uns, pouco para outros. É como tudo na vida. **

 

29/10/2025

Cabaret Voltaire - Cabaret Voltaire

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 JANEIRO 1991 >> Pop Rock >> Vídeos

 

CABARET VOLTAIRE
Cabaret Voltaire
Mute, distri. Edisom

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

“Cabaret Voltaire” é um dos primeiros “long forms” independentes de sempre, reedição do original de 83, editado na Doublevision. Visão do inferno. Porta aberta para o inferno.

A música: da primeira fase. A melhor (?), experimental e perigosa – compare-se, por exemplo, “Photophobia”, “Badge of Evil” ou o excerto do filme “Johnny Yesno” com as recentes banalidades dançáveis de “Groovy, Laidback & Nasty” e veja-se a diferença. Na altura, os Cabaret Voltaire eram “industriais”, insuportáveis, brutais. Técnicas de “cut up” e colagem. Vozes subliminais, curto-circuitadas por ruído branco. Ruído negro. Disformidades acústicas. Stephen Mallinder, Richard H. Kirk e, no início, Chris Watson (mais tarde nos Hafler Trio). Guitarras em esquizo-“feedback”. Sintetizadores tribais. Fitas magnéticas em delírio. O suficiente para orientar a “cold wave” no sentido do mal absoluto.

As imagens: horror. Horror. Horror. Ritual, “slogans” ameaçadores, totalitarismo, tortura, guerra, autoflagelação, pornografia, ruínas, monstruosidades físicas e psíquicas. “Fast/slow motion”. Ruído visual. Formas saturadas. Fanatismo religioso. Manipulação (das imagens, mental, emocional). Sofrimento. “This is Entertainment, this is Fun”.

A visão: focada nas capas dos discos (paradigmática, a de “The Crackdown”, com a mira da câmara fotográfica apontada ao recetor, ou os retratos “kirlian” de auras etéreas, em “Mix-up”), nos constantes grandes planos de olhos humanos ou na designação da produtora Doublevision. O olho do poder. Controlo da e pela imagem eletrónica. Interiorização do horror por sobrexposição a esse mesmo horror. Luz filtrada, distorcida e invertida. Duplos. Dupla visão. Os Cabaret Voltaire agradecem à televisão psíquica, de Genesis P. Orridge. Permanece a interrogação: pode a televisão ser perigosa? Outra questão: é lícito separar a ética da estética? Dito de outro modo: está a arte acima de todas as morais? Por detrás da música e imagens dos Cabaret Voltaire existe uma atitude e uma ideologia (partilhadas atualmente por dezenas de outros “músicos”) com objetivos muito precisos. Alguns mais conscientemente do que outros, todos trabalham para fazer subir à Terra um novo poder.

São diversas a tácticas e estratégias utilizadas. Atuam por fases: em curso, a inversão de todos os valores e sentidos. Destruídas as anteriores referências (imputem-se responsabilidades aos pioneiros dadaístas do princípio do século, que por sinal faziam do Cabaret Voltaire lugar privilegiado para as suas conspirações), cabe agora aos técnicos proceder à sua substituição por novos valores de sinal contrário. A propaganda nazi sabia como proceder. Também o sexo desempenha um papel de relevo nestas operações: desligado do amor, levado ao extremo da pornografia, serve, por meio de mecanismos tântricos, como meio de libertação de energia que poderá ser desviada para outros fins. Sade. Masoch. Wilhelm Reich.

“Cabaret Voltaire”, o vídeo, constitui importante documento de uma das fases iniciais do processo. Como no início se escreveu, poderá ser visto como uma descida aos infernos. Imagens que ensinam a sofrer e a fazer sofrer. Imagens que se aceitam ou renegam. Imagens a que é impossível ficar indiferente. Sem classificação.

20/10/2025

The Fall - VHS8489

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990

 

CEM À HORA

 

THE FALL
The Fall
Beggars Banquet, distri. Anónima

Finalmente! Já não era sem tempo! Um vídeo todo a cores, sem movimentos em câmara lenta nem multidões em delírio. Com efeitos especiais à antiga, quase sempre sem qualquer relação com as canções, mas agradáveis de ver. Mais difícil ainda: sem erotismo (não necessariamente uma virtude) e mesmo, parece impossível, sem raios de luz azul passando através de persianas ou figuras animadas desenhadas a lápis de cera.

Estranho: as imagens não distraem da música, antes funcionam como legendas visuais, construídas a partir de grafismos variados (fundos que são mapas, cartazes, símbolos cabalísticos, texturas fotográficas), em que a profusão da cor se alia aos corpos dos músicos (de Mark E. e Brix Smith, sempre na função de personagens, mascaradas, pintadas, travestidas), para criar uma sequência non-stop de clips encadeados que correm a cem à hora e explodem com a mesma energia da músicas e palavras de Mark E. Smith.

Pós-“new wave”, empenhada e militante, a música dos Fall permanece fiel a uma linha de rock duro, mas elástico, fortemente rítmico, mas atento à sedução da melodia, sintetizado em canções de duração mínima, como uma granada pronta a rebentar.

São dez temas (incluindo uma versão de “Victoria”, dos Kinks) que souberam superar o niilismo sarcástico dos Sex Pistols (num dos temas, a anarquia é substituída pela “monarchy in the UK”…), acrescentando um toque de humor à negritude pessimista do “punk” e devolvendo à pop a dignidade que lhe concede a persecução de um ideal. Segue-se no comboio de cores berrantes até se chegar ao fim com o pé a bater o ritmo e a sensação reconfortante de que o rock ainda consegue ser hoje mais do que simples negócio e novo-riquismo.

Os realizadores são Cerith Wyn Evans, Emma Burge, Tim Riley, Schneider Barnes, Scarlett Davis e Jon Riley. Pelo ecrã passam centrais nucleares em miniatura, uma mulher vestida de bolinhas até aos cabelos, pentagramas satanistas, rostos em decomposição por onde se passeiam vermes em busca de almoço, fantasmas com forma de mulher e abstrações simbólicas, daquelas que os realizadores gostam imenso de espalhar pelas suas obras, sem qualquer intenção especial, mas graças às quais se divertem à grande com os significados profundos que se lhes quer atribuir. No fundo, a mensagem é simples: divertir, dançar, pensar. Nos dias que correm, já não é nada mau! ***

10/10/2025

Bryan Ferry - New Town - Live In Europe

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 14 NOVEMBRO 1990

 

CASANOVA NA CIDADE NOVA

 

BRYAN FERRY
New Town – Live in Europe
Edição: Edivídeo

Começa como hoje em dia começam todos os vídeos de atuações ao vivo: com imagens a preto e branco, em câmara lenta, de aspetos das cidades em que se realizam os espetáculos, acompanhadas de pormenores do público expectante e de sons indefinidos, vindos de longe. Depois é a irrupção gloriosa, em cena, do(s) artista(s) e o aparecimento da cor.

Neste caso, são imagens noturnas de Berlim (obviamente a “new town”, hoje referência chique para tudo o que se pretende “europeu”…), de Paris e de uma prostituta, dando por fim lugar a um letreiro anunciando o nome do cantor.

No palco, os símbolos que se esperam: plumas, “glamour”, sedas, lantejoulas, raparigas de mini-saia e sapatos de salto (muito) alto. À frente, o sedutor, camisa e meia brancas, colete florido, casaco clássico, sapatinho de pala italiano.

Farripas de cabelo tombam-lhe meticulosamente sobre a testa, compondo o ar de eterno romântico ressacado. Ao fundo, a figura de um demónio oriental, dá o conveniente tom de exótica luxúria, enquanto Ferry canta já “Nimrod”, a “lush life” e os prazeres da decadência. A voz afoga-se no meio de filtros e efeitos. Procura seduzir, em trejeitos de Casanova, sem conseguir fazer esquecer a versão original de “Country Life”, ao mesmo tempo que uma das raparigas do coro faz “charme”, sentada a um canto do palco. A câmara vai lá e mostra.

“Slave to Love” cola-se ao cantor como uma segunda pele. A rapariga prossegue nos requebros sugestivos. A câmara vai lá, não deixa escapar nada. A voz de Ferry, ouve-se, já não é o que era. Só não se vê porque estão lá as raparigas, para desviar a atenção. Bom momento instrumental com “Bogus Man”, dos temas mais experimentais de “For Your Pleasure”, dos Roxy Music. “Ladytron” (do primeiro álbum “Roxy Music”) vale pela subtileza das percussões de Steve Scales, a excelente (aqui sim) interpretação de Ferry, que também toca piano, e, de novo, pela rapariga da saia mais curta, que parece rezar, mas deve ser a fingir, porque o realizador investe, em termos videográficos, como é evidente, sobre a sua (dela) perna. Em “While my Heart is still Beating” o realizador vai lá (vai sempre, seja ao que for das raparigas), enquanto Bryan ferry se entretém a cantar fora de tom.

A anatomia externa das raparigas parece ser a fixação principal do realizador que, chegado a este ponto, já não sabe como evitar a monotonia visual. “A Wasteland” prossegue na mesma via. As raparigas são sempre as mesmas, bem como os vestidos e, consequentemente, sobressai um certo cansaço. O realizador procura ainda novos ângulos, mas debalde – já conhecemos de cor e salteado aquilo que a câmara insiste em nos mostrar.

Primeiro grande momento do espetáculo: “In Every Dream Home a Heartache”, dos melhores e mais perturbantes temas dos Roxy Music (cuja versão definitiva se encontra no álbum “Viva!”), paradigmático do negrume oculto por detrás da “féerie”, ao cantar a relação amorosa com uma boneca insuflável. Desta vez o realizador acerta em cheio, ao optar por filmar, em grande plano, o rosto devastado do cantor, iluminado por um foco de luz branca que lhe acentua as rugas e papadas. Sublime e trágico. Infelizmente, quando Ferry canta o orgástico final – “I blew up you body… but you blew my mind!” – e o tema explode instrumentalmente, o realizador salta imediata e visualmente para onde bem sabemos, acentuando o óbvio e estragando o ambiente entretanto criado.

Até ao fim, destaque ainda para “Boys and Girls”, “Avalon” (em ambos com Ferry de novo ao piano) e o tema final “Do the Strand” (outro clássico Roxy Music), em que dá tudo por tudo, quase fazendo esquecer os bons velhos tempo com Eno, Andy McKay e Phil Manzanera.

Da voz de Bryan Ferry, neste “New Town”, se poderá dizer não estar na sua melhor forma. Quanto à parte visual, quase tudo se reduz às proezas e fixações atrás mencionadas. Muito pouco em relação ao que seria legítimo esperar. Os nomes das raparigas vêm mencionados na ficha técnica. **

09/10/2025

Simple Minds - Verona

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1990

 

OS GRANDES CONQUISTADORES

 

SIMPLE MINDS
Verona
Virgin Vision, distri. Edisom

Concerto ao vivo dos Minds, realizado em Setembro deste ano no anfiteatro romano da cidade. Os cinco primeiros minutos prometem: a preto e branco e em câmara lenta, prenunciando qualquer coisa de grandioso e espetacular. Público ansioso, cartazes alusivos à banda, um “boxer” a correr (aparecem muitas imagens de seres vivos a correr, ao longo do filme), uma rapariga de moto, soldados. Não se percebe a intenção mas esteticamente resulta. Câmara subjetiva como se fôssemos nós a entrar no palco. “Good Night, Verona” – grita Jim Kerr. Surge a cor.

Trovoada tremenda sobre o palco, simulada, claro. Cai o pano, pintado com o símbolo de “Sparkle in the Rain”. “Close-ups” dos músicos (Jim Kerr – voz, Charlie Burchill – guitarra, Mick MacNeil – teclas e acordeão, Mel Gaynor – bateria, Malcolm Foster – baixo, mais Andy Duncan e duas meninas, Lisa Germano – violino e bandolim e Annie McCaig – pandeireta). Dá-se início à função, com Jim Kerr sempre no comando. Pelo meio aparece, a preto e branco, a cantar a mesma canção, mas noutro concerto. Percebe-se, porque está vestido de outra maneira.

A música alterna com entrevistas aos intérpretes (a preto e branco). Não dizem nada de especial. São melhores a tocar e a cantar (a cores). Depois, os símbolos: mãos que acenam, imagens desfocadas não se percebe bem de quê. O guitarrista, com os projetores incidindo por detrás,naquele plano típico que faz parecer deuses os homens da guitarra. “Zoom” sobre o público. Uma garrafa de coca-cola passa de mão em mão no momento imperialista da noite. Um dos espectadores é transportado para fora do recinto, de maca. Bebedeira? Síncope? Simples sonolência?

Verona. Imagens da cidade: estátuas, ruínas romanas (em Itália todas as ruínas são romanas), uma velhota à janela. Uma ponte (romana), sem estar em ruínas porque se não as pessoas cairiam.

O baterista limpa com um pano o suor da testa – pormenor videográfico sempre do agrado dos realizadores. Jim Kerr brande o microfone, qual Roberto Leal, mas quando começa a cantar “Waterfront” vemos logo que não pode ser o luso-brasileiro. Num gesto de grande generosidade artística, estende o micro à assistência que corresponde soltando alguns urros afinados.

Agora é uma mulher de meia idade que se debruça à janela. Muito gostam as veronesas de estar à janela. Uma criança circula de bicicleta entre a multidão, simbolizando a grande solidão existencial do ser humano, ou talvez a sua grande pureza –, imagem do poder que oprime e bate com o “casse-tête” (em português cacete).

“Don’t you Forget about me” – das melhores canções dos Simple Minds. No rosto de Jim Kerr, uma expressão de êxtase. Desta vez o público não urra e canta numa sétima ao lado. Entusiasmado, o cantor dá um pontapé para trás, quase lhe saltando o sapato, na violência do movimento. Caso saltasse, teria acertado em cheio na objetiva do “cameraman”.

Ruas de Verona. Um dos momentos mágicos do vídeo: Mick MacNeil, no acordeão, Lisa Germano, no violino e Charlie Burchill, na guitarra acústica, lembram-se que são escoceses e mergulham nas suas raízes folclóricas, deliciando-se e deliciando os transeuntes. No momento seguinte, os mesmos três músicos surgem sobre o palco a interpretar o mesmo tema, com os mesmos instrumentos. Excelente.

Volta a eletricidade e Jim Kerr a cantar estendido no chão, talvez devido ao cansaço, quem sabe? Mas não, levanta-se com ar de desafio e prossegue com a mesma energia. Mel Gaynor volta a limpar o suor do rosto, desta vez com uma toalha. Quer dizer que a banda dá tudo o que pode e que não brinca em serviço, que são todos uns profissionalões. Ao ponto de Jim Kerr saltar para o meio do público e beijar uma jovem fã.

Retorno às imagens de rua, com o vocalista passeando-se entre a multidão, ar distraído e melancólico, simbolizando deste modo a grande solidão existencial do artista. Lixo levado pelo vento – Woodstock para sempre. Soa um “tin whistle” sintético – Jim olha o céu e canta, como quem seus males espanta. Duas crianças correm em câmara lenta no campo. Outra toca um tambor militar entre poética neblina. As duas primeiras continuam a correr. Pressentimos que se aproxima o clímax final. Sobre o palco, Jim Kerr, todo vestido de branco, canta “Sanctify Yourself”. Imagens de santos em pedra. Um padre caminha (sobre as águas? Não se consegue perceber).

Repetem-se imagens anteriores a um ritmo vertiginoso, querendo significar que o Universo é cíclico e os Simple Minds os senhores do Universo. O Universo explode e o público também, em aplausos. O império romano volta a cair, desta vez às mãos de mentes simples. ***

06/10/2025

Vários - The Other Side of Nashville

POP ROCK QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990

VÍDEOS

 

VÁRIOS
The Other Side of Nashville
PMV-Vídeo distri. Polygram – venda direta

 

Nashville, sinónimo de “country music”, de homens barbudos de voz nasalada, vestidos à “cowboy”, e mulheres de “jeans”, para as quais ser “sexy” não liga com estatuto de “workinh woman”. Nashville, imenso casino onde todos vão parar, em busca de glória e dólares. Uns perdem, outros ganham, mas, como se diz no filme, “o que seria do jogador sem um casino para jogar?”.

“The Other Side of Nashville”, realizado e produzido por Etienne Mirlesse, é um documento fundamental para a compreensão do fenómeno “country music” nos Estados Unidos. Conta-se a história na música e nas palavras dos seus principais protagonistas: Willie Nelson, Hank Williams Jr., Johnny Cash e, os mais novos, Kris Kristofferson, Emmylou Harris, Ricky Scaggs, entre outros. Quase todos afirmam a pés juntos que nada é como era dantes, nos tempos áureos dos anos 40 e da Grand Ole Opry, catedral onde atuaram todos os gigantes da “country music”. Opry Land, tornada anos mais tarde Disneyland, segundo o desabafo de Kris Kristofferson, por força da gigantesca máquina produtora de divisas em que se transformou aquela que, a par dos “blues”, constitui a raiz da música popular americana. Longe vão os tempos em que os banjos, violinos e guitarras refletiam vivências difíceis, passadas a trabalhar nas plantações de tabaco ou, posteriormente, durante os anos da Depressão, nas fábricas da cidade.

Já não há heróis como Patsy Cline, Loretta Lynn, Ray Acuff, Chet Atkins (que abriu caminho ao denominado “Nashville sound” através da utilização exaustiva da câmara de eco) ou o grande Hank Williams Sr., fazedor de música e de mitos, alcoólico expulso da catedral e encontrado morto no assento de trás de uma limusina antes de uma atuação.

O “boom” da “country”, ocorrido na passagem para os anos 60 é assinalado pelo aparecimento de estúdios (como o da RCA) e estações de rádio inteiramente dedicados à sua divulgação. O número destas passa rapidamente de 81, em 1961, para cerca de 2000. O jazz, os “rhythm & blues” e a pop infiltram-se nas raízes originais, provocando uma multiplicidade de variantes que vão desde o “bluegrass” tradicional ao “crossover country” e à atual vaga “pop country”. Emmylou Harris aproveita tudo, incluindo canções de Bruce Springsteen, alargando sem preconceitos o vocabulário do género. Hank Williams, o filho, segue as pisadas do pai na vida vagabunda de música, álcool e mulheres. Cita como influências Fats Domino, Little Richard e Chuck Berry – a “grande música branca” devedora da negritude. Rattlesnake Annie volta tão atrás como pode, buscando na alma dos “blues” a força que a faz cantar. Os pusristas clama que a sua música “está a perder a identidade”. O público não se importa e consome cada vez mais.

Os sons do Sul alternam com imagens de arquivo, como as de Carl Perkins, ao vivo em 1968, interpretando “Blue Suede Shoes”. Anos antes foram a “Sun records” e o “Rockabilly”, mistura de “country”, “blues” e “rock ‘n’ roll” – Hank Williams Sr., Jerry Lee Lewis, Gene Vincent e o rei Elvis.
Nashville atrai como mel. Bob Dylan não consegue encontrar em Nova Iorque os músicos de que necessita. Encontra-os em Nashville, onde grava a obra-prima “Nashville Skyline”, com Johnny Cash como convidado. Emcionante ver e ouvir os dois, lado a lado no estúdio, durante a gravação de “1000 miles behind”. “Nashville Skyline” e “John Wesley Harding” permitem a Dylan ocupar um lugar na galeria das personalidades ligadas à “country music”. Nashville torna-se conhecida em todo o mundo. A música que nela pulsa faz hoje parte da história e do imaginário dos States. “The Other Side of Nashville” retrata o interior de parte dessa história, de forma séria e sentida. Vivemo-la como se fosse um filme dentro desse filme maior que é a América inteira. ***

25/01/2022

Tom Petty & The Heartbreakers - Live!

 Programas
 
TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS
Live!
Virgin Music Video, Edisom – Venda Direta
 
O estatuto de arte desde há muito que foi concedido, por decreto-lei, à música. Quanto ao vídeo, é bastante mais novinho, mas nem por isso deixou de dar passos importantes no sentido da sua emancipação artística. Música e vídeo nasceram para se entenderem. Por vezes, a combinação não funciona, ou porque os sons não estão à altura das imagens (o que frequentemente acontece no caso dos clips, em que a imaginação do realizador e/ou as técnicas de ponta, no campo visual, excedem de longe a pobreza musical), ou o fenómeno inverso, em que a “videoart” perde as três últimas letras para se reduzir a um amontoado de imagens desconexas, desligados do seu complemento sonoro.
Mais doloroso e dramático é quando ambas as partes constitutivas da videocassete musical se ficam pela completa nulidade. Infelizmente é este o caso do objeto em análise. A música de Tom Petty & The Heartbreakers inclui-se na miseranda categoria do “Rock FM”, sopa artificial e insípida cuja finalidade única é vender. Quanto às imagens, consistem numa sequência, sempre idêntica, de planos, focando os músicos em plena função, sem qualquer espécie de imaginação ou arrojo formal. O visionamento e audição desde subproduto – que ofende por igual as duas linguagens estéticas que, por princípio, deveria servir – tornam-se deste modo uma autêntica tortura. Os apreciadores da “música” de Tom Petty ou os sócios de videoclubes que acham “O Maneta de Ferro e a Guilhotina Voadora” o máximo, não devem ter tantos pruridos.
 
VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990

08/10/2021

Enovisões [Brian Eno]

Notícias
O que faz falta…
 
ENOVISÕES
 
O panorama editorial das vídeo-cassetes musicais é, entre nós, confrangedor. O amante da imagem gravada e da boa música, cujos gostos vão além dos Queen, Pink Floyd, Supertramp ou Phil Collins, pouco ou nada encontrará no mercado que satisfaça as suas apetências estéticas.
Para além de registos de concertos com grupos de “top” ou de coletâneas de “clips” com objetivos exclusivamente promocionais, é a desolação. Da multiplicidade de novas e sofisticadas propostas audiovisuais que vão surgindo por essa Europa fora, nada nos chega e quase ninguém se interessa. Faz imensa falta, por exemplo, conhecer e ter acesso ao trabalho em vídeo de um senhor chamado Brian Eno e muito concretamente às cassetes da sua autoria, “Thursday Afternoon” e “Mistaken Memories”.
As imagens filmadas pelo mestre da “discreet music” chocam com os hábitos e preconceitos das atuais estratégias editoriais. Em vez de montagens ultrafrenéticas, Eno devolve-nos o silêncio e ensina-nos a saber de novo olhar. Nas suas obras, os sons e as imagens fluem com a lentidão da eternidade. À segmentação do tempo, contrapõe a sua distensão até aos limites da quase imobilidade.
A objetiva eleva-se acima dos arranha-céus de Nova Iorque, filmando a passagem das nuvens e da luz que assombram o caos dos níveis inferiores. As imagens e os sons deslizam lentamente. Não contam nenhuma história senão a do nosso filme fantasmático. “Thursday Afternoon” e “Mistaken Memories” provam, de forma radical, que a vídeo-arte permanece aberta a novos códigos.
Registe-se ainda que ambas as cassetes apresentam o formato vertical. A imagem aparece deitada no ecrã, sendo necessário deitar de lado a televisão ou então inclinar lateralmente a cabeça, num ângulo de noventa graus. Tal como Brian Eno, também neste caso a ginástica faz bastante falta.
 
QUARTA-FEIRA, 7 MARÇO 1990 VIDEODISCOS

17/09/2021

Rael na real em cascais [Genesis]

Y 4|MARÇO|2005
música|genesis
 
Rael na real em cascais
 
The Lamb Lies Down on Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolução de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma criança mas o onirismo do rock Progressivo já declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas memórias.
 
Para os que estiveram presentes no Dramático de Cascais nas noites de 5 e 6 de Março, de 1975, foi o concerto das suas vidas. Tão importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar e promover iniciativas alusivas ao concerto: um almoço-encontro (amanhã, no Centro Cultural da Gandarinha, às 13h30, com entrada a 30 euros), um número da revista Cais dedicado ao concerto e a edição de um DVD-documentário [ver texto nestas páginas].
            1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebulição provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda estonteante. Viviam-se os tempos do PREC Processo Revolucionário em Curso), espantava-se o medo que a reação erguesse de novo o rosto monstruoso. Tão monstruoso como a máscara que Gabriel vestiu nessas noites, durante a apresentação do tema “The colony of the slippermen”, com as suas bolhas-balões…
            O concerto dos Genesis, mítico porque catalisador de uma corrente estética – o rock progressivo – e centrado no espírito da época, foi um sonho tornado realidade para os que lá estiveram. Duas noites de escape feito visão, com o COPCON (Comando Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dramático de Cascais aquilo que é impossível de controlar, a imaginação. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandemónio geral. Ambiente fervilhante. Lá dentro, ainda mais quente, estaria delirante.
            Foram 20 mil os que assistiram à apresentação de “The Lamb Lies Down on Broadway”. Para o grupo era o pico de uma carreira que abraçara o rock progressivo mas que neste álbum prenunciava já a rutura com um imaginário que o punk arrasaria e formataria em canções de dois minutos de ódio e a ainda menor número de acordes. As tensões eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de “Real”), na iconografia de “The Lamb...”, trazia já embrulhada nas suas histórias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do álbum, a contrariar a profusão cromática das anteriores).
            A fantasia dos Genesis deixara de ser a “trip” de “Supper’s Ready” (“Foxtrot”, 1972), a surrealidade de “Nursery Cryme” (1971) ou a Inglaterra paradoxal de “Selling England by the Pound” (1973). Agora era a luta de Rael, um porto-riquenho de casaco de cabedal. De certa forma “The Lamb...” antecipa o fi m do rock progressivo, num ano, 1974, que coincide com a agonia desta corrente musical. As “suites” de 20 minutos desapareceram, dando lugar a canções curtas que revelam o desejo de Gabriel de chegar a outro público, mais próximo da pop e menos elitista. Não por acaso o grupo teria a sua primeira cisão já no ano do concerto, 1975, sendo “The Lamb...” por muitos considerado não um álbum dos Genesis mas uma obra de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir daí carreira a solo que não fez mais do que confirmar o abandono do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de breve período de transição, sinalizado por “Trick of the Tail” (1976) e “Wind and Wuthering” (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo “mainstream”, de estádio, para multidões.
            1975 foi pois o último ano de glória do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da página mas “The Lamb...” ainda é considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inovação que nessas noites em Cascais fizeram revirar os olhos à assistência representaram o expoente da estética do grupo. Fumos, máscaras, “slides”, ilusões de ótica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel/Rael que escrevera sozinho toda a peça (duplo álbum em disco, mais de duas horas de espetáculo ao vivo) estava de saída. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assistência também.
            Não foi o primeiro concerto de rock progressivo em Portugal. Antes já por cá tinham passado os alemães Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e – primeiros a atuarem no Dramático – os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exata, no apogeu. Ao contrário dos outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem não-musical, os Genesis trouxeram a perfeição.
            No caso dos Procol Harum, foi ver parte do público a saltar para o interior do pavilhão a partir do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os ânimos, a organização anunciava pelos altifalantes que já faltava pouco e que os músicos estavam nesse momento a entrar para o avião que os traria de Londres para Lisboa… Com os Beggars Opera a excitação aconteceu quando um dos assistentes, culminando um “strip tease” improvisado, pontapeou um dos sapatos para a plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, não conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do público a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no chão, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, também não… Era o rock em Portugal no anos conturbados do pós-revolução.
            Casos extremos foram o tiroteio da polícia no concerto dos Can no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o público em excesso (houve quem, no interior do pavilhão, não visse peva do espetáculo), o visual desmesurado do grupo, a dimensão inflacionada da própria obra, escrupulosamente recriada em moldes artísticos e técnicos a que Portugal nunca antes assistira.
 
 
metralhadoras e charros
 
As recordações seguintes pertencem a quem esteve lá e se lembra. Com histórias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espetáculos de rock ao vivo em Portugal.
 
Miguel Ângelo delfins
Tinha 8 anos quase 9, e um dos discos que tinha ouvido no ano anterior era o “Selling England By The Pound”, em casa de umas primas que passavam férias em Inglaterra e traziam alguns vinis que por cá não se encontravam. Assim rumei a Cascais, acompanhado pelas referidas primas, irmão e pais. Lembro-me do ambiente de celebração, era o primeiro dia de concerto e a revolução ainda estava fresca. De qualquer modo, não houve grande confusão lá dentro (ao contrário do segundo dia, onde o COPCON também atuou!). Antes do concerto, as pessoas aplaudiam aqueles que conseguiam entrar à borla através de uma abertura na bancada que dava para o hipódromo! Quando as luzes se apagaram toca a gente se pôs em pé em cima das cadeiras, e fiquei em desvantagem. Nisto, um freak simpático ao meu lado pôs-me às cavalitas, de onde vi a maior parte do concerto! Nunca lhe agradeci o sufi ciente por isso... A memória fotográfica resistiu mais ao tempo que a auditiva, embora a interpretação de Gabriel e os teclados de [Tony] Banks fossem a marca de água das canções, juntamente com a guitarra de [Steve] Hackett, o único músico que tocando sentado contrastava com a exuberância de Gabriel. Mas tenho presentes, mais ou menos desfocadas, as imagens do manto negro a abrir o seu patchwork colorido em “The Light Lies Down...”, do efeito do cone de luz rodando sobre o cantor, da simulação da “cage”, da ilusão, através de um manequim, de Gabriel estar nos dois lados do palco ao mesmo tempo, daquela banda de imagem dividida por três ecrãs – inovadora para a altura! – e daquele balão rebentado no fato de estranhas protuberâncias que tinha sido usado como imagem promocional do concerto. Este concerto terá cimentado a minha ligação eterna à música pop e apontado uma via profissional alternativa, num país ainda muito atrasado nesse aspeto. Mas era aquilo que quereria fazer “quando fosse grande...”
 
David Ferreira diretor da emi - vc
Estava tão cheio que dava a sensação de que não havia lotação limite. Estávamos todos permanentemente ou ao colo de alguém ou com alguém ao nosso colo. Há cerca de três anos, eu estava no estúdio do Peter Gabriel para ouvir o último disco dele. Não o conhecia pessoalmente. Almoçámos no estúdio da Real World e o Peter Gabriel apareceu estávamos nós a começar a almoçar. Ia cumprimentando as pessoas e na altura em que chegou a minha vez disse-lhe: “Olhe, não nos conhecemos, mas a primeira vez que o vi foi há vinte e muitos anos”. Ele ficou assim a olhar para mim. Até que exclamou: “Portugal… Portugal… ah, com as metralhadoras!”. Lembrava-se perfeitamente, nunca tinham atuado ao lado de soldados com metralhadoras. Ficou encantado o resto do tempo a contar histórias desse concerto. Também me lembro que apareciam dois Peter Gabriels. Mais tarde quando vejo o Phil Collins a assumir as rédeas como cantor parti do princípio que o clone do Peter Gabriel seria ele. E lembro-me que estávamos todos vagamente charrados, com o que o tipo do lado fumava. A proximidade das pessoas era tão grande que era impossível deixar de sentir o fumo. Foi uma mistura curiosa de uma sobrelotação terceiromundista, metralhadoras e charros.
 
Zé Pedro xutos e pontapés
Para a minha geração foi o grande concerto rock. Estava fascinadíssimo. Fui para lá com três dias de antecedência, só tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete à mão. Só o ambiente já era excecional, podemos comparar, à nossa dimensão, a um Woodstock.
 
Manuel Cardoso tantra
Fui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgraçado, inacreditável, mas os espetáculos foram memoráveis. Impressionou-me sempre a obra em si, “The Lamb Lies Down on Broadway”, embora não seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros álbuns, a seguir vem esse e o “Trick of the Tail”. Impressionou-me o espetáculo, mas o concerto não marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas não, essa questão [da influência] foi sempre [posta] por causa das máscaras, as pessoas colam pelo óbvio. A nossa música não tinha nada a ver com os Genesis, aliás era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.
 
Lena D’água cantora
Fui no dia em que houve tiros lá fora. Estava tanta, tanta gente que fi cou impossível. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como não sou alta, só assim é que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando chegámos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia filas que davam a volta ao quarteirão. Mas passámos ao pé de um porteiro a perguntar quanto tempo é que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava grávida. “A senhora está à espera de bebé, pode entrar!”. E entrámos. O mais incrível é que eu não estava grávida mas engravidei mesmo nesse mês, também já andava a pedi-las. O concerto foi um espetáculo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, o que ele fazia no palco…desaparecia de um lado, aparecia do outro…Lembro-me de um túnel por onde ele entrava… Era tudo fantástico para nós, na altura o que tínhamos por cá eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente não faltava. Não éramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons músicos a tocar.
 
Manuel Mouzos realizador
Fui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confusão à porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, além do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o frenesim, não só meu, e depois aquela confusão que se gerou... até que um dos militares, sem querer, começou a disparar o que gerou ainda maior confusão. A imagem que tenho é da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa à minha frente, depois outra, caíram não sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembaraçar da situação e conseguirmos entrar, lá dentro lá animámos e realmente foi um concerto magnífico, quase mágico. Quando saímos só queríamos é que aquilo continuasse por mais tempo.
 
 
Encore
30 anos depois
 
Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
            Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
            Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na “Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”). Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
            Politicamente vivia-se o tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.
            Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
            Mas quando o espetáculo começa finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projeção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down on Broadway”.
            Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais. Há ainda um apanhado de reações da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espetáculo “The Lamb Lies Down on Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England by the Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies down on Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
            30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.
 
GENESIS
ENCORE CASCAIS 75
distri. Bazar do Vídeo
7|10