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20/05/2026

Enquanto o fim do Mundo não chega [Wim Wenders Until the End of the World"]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 13 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Banda sonora antecipa novo filme de Wim Wenders

 

Enquanto o fim do Mundo não chega

 

Em “Until the End of the World”, o realizador alemão rodeou-se de nomes sonantes da música atual, entre eles os Talking Heads, R.E.M., Nick Cave, Lou Reed, U2, Elvis Costello e Depeche Mode. Sob a aparência sombria, as canções – como o cinema de Wenders – perseguem a luz.

 


 

Conhece-se, viajando. Mas conhece-se apenas enquanto esse movimento de deslocação corresponder a uma dupla transformação: do sujeito que evolui e, como consequência, do território percorrido, já que a visão da realidade está condicionada pelo “lugar de onde se olha”. Uma questão de perspetiva. O cinema de Wenders dá a ver as várias fases de um percurso, o que está “antes da curva da estrada”. Viagem iniciática, de procura e descoberta, em espiral.

Cineasta da viagem, Wim Wenders analisa-a nos seus múltiplos registos. “Alice nas Cidades”, “Ao Correr do Tempo” (obra-prima sobre os infinitos da comunicação, da permuta de sentidos, do silêncio para-gramatical que nos habita e, no limiar do território, nos transcende), “Paris, Texas” (demanda do amor e da linguagem, de certa forma inversa à de “Ao Correr do Tempo”), “Luz sobre a Água” (viagem terminal até ao derradeiro limite – ritual de transformação/decomposição do corpo e do cinema, e da redenção pela voz dos personagens que à deriva sobre as águas, dissertam sobre o que é, ou foi, a vida e o cinema, tema recorrente em “O Estado das Coisas”) e o novo “Until the End of the World” perseguem a transfiguração, a luz (da luz e dos jogos de iluminação nos fala ainda Wenders em “As Asas do Desejo”), o real nas suas duas vertentes: a das imagens cinematográficas e aquela que julgamos mais consistente, do “mundo material”. Em qualquer dos casos, projeções.

 

A lei do movimento

 

Para compreender o que o termo “road movie” significa na economia do autor, é preciso compreender primeiro o preceito Zen (caro ao cineasta), segundo o qual o sujeito que observa e a realidade “observável” constituem uma realidade única, decorrendo a pseudo separação da subjetividade da razão analítica.

Pode definir-se o cinema de Wim Wenders em termos de geografia: humana, planetária e metafísica. Mesmo quando o movimento, circular, anti-iniciático e luciferino (como o entende Abellio), não leva a lado nenhum – “Movimento em Falso”, presente apenas no alinhamento temporal das palavras, da fala destituída de sentido (isto é de direção) por forma a permitir a ilusão. O “realismo” confunde-se aqui com o não-movimento existencial de “Para Além do Paraíso”, de Jim Jarmusch). David Byrne define na perfeição esse lugar de morte: “O paraíso é um lugar onde nunca acontece nada.”

“Until the End of the World” almeja a totalidade, a visão global do planeta. Viagem culminante, de síntese apocalíptica que, a partir da Europa e do seu lastro cultural, acaba por fixar-se e centrar-se nessa terra de ninguém que é o continente australiano, lugar paralelo, alternativo, de início, que se presume ser o único capaz de sobreviver à catástrofe nuclear.

 

Canções de luz e desespero

 

A banda sonora chegou até nós primeiro do que as imagens. É-nos concedido algum tempo de prazer antes do “juízo final”. Muito do sortilégio que anima o cinema de Wim Wenders vive do contraponto sonoro. “Until the end of the world” não foge à regra. O realizador escolheu a dedo os músicos e estes corresponderam de forma exemplar, dando às respetivas composições a toada sombria, derradeira, que o ambiente das imagens sugere. Não por acaso, o papel de “pivot” do projeto foi entregue a Graeme Revell, compositor e teórico australiano, fundador dos SPK, dado a obscuras manipulações sonoras, entre o classicismo gótico, a música industrial e as experimentações eletrónicas com computadores.

“Opening Titles”, “Claire’s Theme”, “Love Theme” e “Finale” são peças instrumentais de recorte clássico, parasitadas por sons samplados e acrescidas do violoncelo solo de David Darling, escolhidas para enquadrar as canções propriamente ditas, à exceção da dos U2, compostas de propósito para a banda sonora. O CD não integra os temas de Peter Gabriel e Robbie Robertson que constam do duplo álbum.

“Sax and Violins”, dos Talking Heads, introduz o registo “down” que prevalece ao longo do disco, dando a ouvir um David Byrne menos frenético mas mais desolado do que é costume. Julee Cruise traz consigo resíduos das trevas fluorescentes de David Lynch e Angelo Badalamenti, no pesadelo cor-de-rosa “Summer Kisses, Winter Tears”, de Elvis Presley. De base rítmica hipnótica, os temas dos Can (que já haviam colaborado em “Alice nas Cidades”) e, em versão “dub”, de Neneh Cherry, adensam o mistério. Não soam menos fantasmagóricos o minimalismo poético de Patti e Fred Smith, a “country” etérea de Jane Siberry com K.D. Laing e de Daniel Lanois, e os “blues” espectrais de T-Bone Burnett. Os Crime & The City Solution e Nick Cave, amigos de Berlim, transitam das “Asas do Desejo” com a mesma força e negritude. Cave cada vez mais empenhado em tornar-se uma espécie de Leonard Cohen cavernoso. Lou Reed sinuoso como sempre sobre uma guitarra saturada de eletricidade, Elvis Costello com uma versão de “Days”, dos Kinks, os Depeche Mode e os R.E.M. apresentam canções tristes de acordo com o tom de desespero do enredo.

É preciso esperar até ao título-tema dos U2, extraído de “Achtung Baby” e editado em versão especial para a banda sonora, para que o fogo se reacenda. Enquanto o fim não chega.

13/05/2026

V/A - "Tom's Album"

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VÁRIOS
Tom’s Album
LP/CD, A&M, distri. Polygram

 


“Tom’s” é o nome de um restaurante da zona alta de Manhattan, onde Suzanne Vega costuma tomar o pequeno-almoço. Uma série de acontecimentos ocorridos numa manhã chuvosa de 1982 levaram-na a escrever “Tom’s Diner”, canção incluída em “Solitude Standing”. Mais à frente, na mesma história, os DNA samplaram-lhe a voz e acrescentaram-lhe uma batida de discoteca. Da pilhagem resultou uma edição pirata que finalmente acabou por se tornar um disco oficial e um “hit” de razoáveis proporções. Nasceu da própria cantora a ideia de recolher e compilar em disco várias dessas versões de “Tom’s diner”, escutadas através de amigos, emissões radiofónicas, espetáculos em clubes, etc. Versões descritas por Suzanne Vega como “engraçadas”, “brilhantes” ou “estranhas”. Escutadas uma a uma, conclui-se que o primeiro adjetivo é o que melhor se lhes aplica. É engraçado ouvir “Tom’s diner” cantada em alemão por Peter Behrens e, mais engraçado ainda, em sueco, por Mats Höjer. É engraçada a versão reggae de Michigan & Smiley. Engraçadíssimas as vozes ao vivo dos Bingo Hand Job, a imitarem os instrumentos. Apetece dar gargalhadas e bater palmas com tanto rap, scratch e disco. “Tom’s diner” dá para tudo, até para tratar de uma “gravidez acidental” (Daddy’s little girl”, Nikki Sudden) ou da guerra do Golfo (“Waiting at the border”, Beth Watson). Ou para os italianos, especialistas neste tipo de operações, torpedearem os próprios DNA ao assinarem n.d.a…. (6)

 

10/05/2026

Vários - Realidade Virtual

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VÁRIOS
Realidade Virtual
LP, Fast Forward, distri. Ananana & Messerschmitt

 Uma imagem com natureza, chuva

Descrição gerada automaticamente

     A música portuguesa alternativa continua à procura de novos rumos. A presente coletânea inclui temas originais dos portugueses Popper W2, Hesskhé Yadalanah, Rafael Toral, God Speed My Aeroplane, Nuno Rebelo, Adolfo Luxúria Canibal & Humpty Dumpty e Matrix Run, dos ingleses Somewhere In Europe, Zone e Pornosect, dos franceses Margaret Freeman, dos alemães Strafe Für Rebellion e do espanhol Miguel A. Ruiz.

Músicas rituais mais ou menos negras e eletrónica ambiental/industrial constituem o prato forte, ilustrativo das sombras que procuram descer sobre o mundo e da influência exercida por certos magos (ou pretensos magos) negros sobre uma determinada camada dos nossos jovens músicos, de que são exemplo os temas dos Popper W2, um decalque razoavelmente credível dos Throbbing Gristle da primeira fase e dos Hesskhé Yadalanah, à procura do estatuto de Hafler Trio nacional. Menos preocupados com os ardis do demónio, Adolfo Luxúria e os Humpty Dumpty optam pelo rock industrial operário e os God Speed pela acidez das guitarras. Ao contrário dos Matrix Run, que preferem dançar ao som da “house” ambiental. Destaque para as vagas de energia sexual sintetizadas pela guitarra de Rafael Toral, aprendidas à luz da “estrela da tarde” de Fripp & Eno, e para os deliciosos 16 segundos de Nuno Rebelo aos comandos do computador. Quanto aos estrangeiros, excetuando as colisões de metal (ressoando a Asmus Tietchens) de Miguel Ruiz, é a descida ao inferno, no fundo essa “realidade virtual” a que o título alude. Disponível por via postal, apartado 5204, 1706 Lisboa códex. (7)

 

27/12/2019

Vários - On Paper


Y 23|JANEIRO|2004
roteiro|discos

VÁRIOS
On Paper
2xCD Crónica, distri. Matéria Prima
8|10

O suicídio esclarecido de Sócrates, encarado como prova da imortalidade da alma, faz sentido em termos ontológicos. Acontece que, quando calha a nós, como diria Woody Allen, faz sentido, sim, mas “no papel”. Esta discrepância entre a Fé e a desconfiança da razão encontra eco no trabalho de “colagem/descolagem” empreendida por artistas sónicos portugueses como Vítor Joaquim, @C, Paulo Raposo, Longina e Pedro Tudela, a partir de um tema deste último, “Rasgão.aif”, e do papel, simultaneamente superfície rasa e suporte de informação. “Aceitar que se trata de uma matéria que acumula informação por camadas e conjugações” como ponto de partida, determina as múltiplas manipulações/funções de “On Paper” em que o som do papel (rasgado, dobrado, batido à máquina…) é processado eletronicamente. Ao contrário da máxima de Allen, porém, resulta desta operação não a dúvida ou o medo, mas uma paleta diversificada de músicas inseridas no “industrial”, na música concreta, no ambientalismo digital sujo ou em abstrações órfãs de paternidade estética. Soa incómodo, no papel. Aos ouvidos, felizmente, ainda mais.

Vários - Songs In The Key Of Z, Vol.2


Y 9|JANEIRO|2004
roteiro|discos

génios da twilight zone

VÁRIOS
Songs in the Key of Z, Vol.2
Gammon, distri. Ananana
10|10

“Songs in the key of Z, Vol.2”, compilado e produzido pelo mesmo Irwin Chusid que revelou ao mundo “Innocence and Despair”, do Langley Schools Music Project, é o equivalente musical de uma coleção de filmes de série Z. Falamos, é claro, de loucos, lunáticos e habitantes de outros planetas (“Plan 9 from Outer Space”?) que num ou outro momento iluminado das suas vidas (neste disco, regra geral nos anos 80 e 90) resolveram graver música.
            “The Curious Universe of Outsider Music”, pois é este o subtítulo, reúne delírios inclassificáveis (tanto quanto as respetivas biografias e fotos dos artistas) que apenas uma mente igualmente desfasada da normalidade conseguirá arrumar e descrever com algum método. Arrumemo-los então.
            Shooby Taylor começa por fazer um “scat” inenarrável, estilo “Hans Eisler em looney tune”, sobre fundo de órgão Farfisa. Já Bingo Gazingo & My Robot Friend opta em “You’re out of the computer” por oferecer uma extraordinária mistela de uma melodia pop arrancada ao cérebro de R. Stevie Moore com demência Pere Ubu e sinais de ZX Spectrum. Segue-se B.J. Snowdown numa não menos inolvidável recriação de “America”, digna de figurar num “sketch” da “Mad TV” como o de Will Sasso e Alex Bornstein no dueto de “Love of my life”… “You’re driving me mad”, de Alvin Dahn (já não faz música, mas tocava 50 instrumentos e estava “determinado a deixar uma marca indelével na indústria da música”, o que, a julgar pela amostra, manifestamente conseguiu). Guitarras elétricas, “heavy metal” e, de novo, mestre R. Stevie Moore, num tema poprock que faz o termo “alternativo” soar a “mainstream”. A congressista liberiana Malinda Jackson Parker mima Nina Simone por cima de um piano que ameaça rebentar, num manifesto contra a peste, escolhendo para título “Cousin mosquito # 2” (sim, existe uma primeira picadela incluída num “Songs in the Key of Z”, Vol.1” editado pela Cherry Red em 2000). A pop espacial – os Air (ou antes deles os Hot Butter) encontram os White Noise na Era de Aquário – chega ao planeta Terra via The Space Lady, numa versão cósmica de “I had too much to dream (last night)”, dos Electric Prunes. Luie Luie, “master musician”, apresenta (com introdução filosófica prévia) um instrumental executado em 14 trompetes, chamado “Touch of light”, extraído do álbum “Creator of Touchy” – imersão numa galáxia de vibrato estelar em ressaca de LSD. Há ainda o “dance hall jazz” de Eddie Murray, a “canção-poema”, com letra de Pablo Feliciano, “Five feet nine and a half inches tall”, de Dick Kent, ideal para animação de casamentos, e a “Hawaii country” com falta de voz de Gary Mullin, em “Recitation about Ray Acuff”.
            Wayne Pereira canta, de forma tocante, uma melodia de bêbedo vagabundo semelhante à que Gavin Bryars usou em “Jesus blood never failed me yet” e Bob Vido, “the one-man band”, gravou em 1975, “High-speed” – proeza circense em que não sabemos o que mais admirar, se a falta de proficiência com que Vido manuseia as cornetas, concertina e tambores, se a vocalização (?), onde não são percetíveis os mínimos resquícios de sensibilidade ou aptidão musicais. Thoth, pelo contrário, apesar de se vestir como um troglodita, é um “virtuose” do violino que em “The herma, scene 5: Recitation/Na” canta como... um theremin… ou uma variante histérica de Meredith Monk… num “puirt-a-beul” de esquizofrénico. “Avant-garde”, pois claro.
            E Tangela Tricoli, bebé a tentar cantar afinada? E Buddy Max (13 álbuns gravados por este entusiasta da polca)? E Mark Kennis, numa gravação caseira, onde canta e berra “a capella” a história da sua vida, repetindo incessantemente “I grew up in Iowa, in the heart of the heartland”?
            Todos os intervenientes nestas “canções de série Z” são estrelas que o mundo não conhece e, muito menos, compreende. Super homens e mulheres afetados pela Kryptonite. Artistas para quem a música é um conceito radicalmente pessoal e relativo. Ou, como disse Charles Ives: “Don’t pay attention to the sounds. If you do, you may miss the music. You won’t get a heroic ride to Heaven on pretty little sounds.” E na contracapa: “Se tudo o que conseguir ouvir são imperfeições é porque você está a ouvir mal”. Nota máxima, como divertimento... diferente.

25/08/2016

Vários - "Lambarena"

Pop Rock

20 Abril 1994
WORLD

VÁRIOS
Lambarena
Celluloїd, import. Contraverso

BACH NEGRO

A cobra mordeu a própria cauda. O ciclo está prestes a fechar. “Lambarena” concilia o que na aparência parecia inconciliável. A fusão do mestre do barroco Johann Sebastian Bach com a música tradicional de África. Promoveu o encontro Albert Schweitzer, na cidade de Lambaréné, no Gabão. A coisa torna-se ainda mais estranha quando lemos na ficha técnica que a realização deste projeto, segundo uma ideia original de Mariella Bertheas, esteve a cargo de Pierre Akendengué e Hughes de Courson, um antigo elemento do grupo francês Malicorne. Bach e África, a matemática e a intuição, o contraponto e a repetição rítmica, polos opostos que deixaram de o ser. Até certo ponto. A receita lê-se na pequena fórmula enunciada na capa (uma embalagem cartonada em forma de cruz, no formato digipack): “Pela exaltação, a regra encontra o ritmo. Pela exaltação o ritmo encontra a regra.” Não diz muito, mas é bonito. Com a audição, faixa a faixa, o espanto instala-se.
“Lasset uns den nicht zerteilen” é um canto da região do Ogoué sobre um excerto da “Paixão segundo S. João”, com arranjo de Hughes de Courson. “Fugue sur Mayingo” desloca o conceito de fuga através de um coro feminino clássico que entoa a música de uma sociedade iniciática feminina chamada Ndjembé. Uma melodia fang do Norte do Gabão põe em diálogo um xilofone africano com um violoncelo, traçando a aproximação entre as simbologias rosacruciana e fang, numa jiga retirada da Suite nº4 em mi bemol maior para violoncelo, de Bach. Em “Bombé/Ruht wohl, ihr heilingen gebeine”, palmas rítmicas de uma cerimónia ritual Bouiti Apindji acompanham os encantamentos proferidos por um feiticeiro/orador, adaptando-se de forma incrivelmente natural a um excerto da “Paixão segundo S. João”, tocado em cravo e violino. A mesma peça do compositor alemão que, em “Herr unser herrsher”, a aliança das percussões dos convidados Naná Vasconcelos e Sami Ateba faz soar a uma “pastiche” de Jean-Michel Jarre. Já a junção do tradicional “Pepa nzac gnon ma” com o Prelúdio da partitura para violino nº3, interpretada pelo grupo Elugu Ayong e Hervé Cavellier no violino, o balafone, os tambores e o canto tradicional africano misturam-se de forma harmoniosa com a melodia clássica. Um piano apoiado num batuque faz a ponte entre um tradicional arranjado por Akendengué e o Prelúdio nº14, BWV 883.
Não param aqui as surpresas nem as ligações julgadas ilícitas. Um “Agnus Dei” em que a Missa em si BWV 232 desagua num ritmo dos pigmeus não anda longe das músicas do Quarto Mundo inventadas por Jon Hassell. De novo uma sociedade iniciática do Gabão, deste feita masculina, a Yassi, no Ogoué Médio, região onde fica situada a cidade de Lambaréné, junta o tradicional Okoukoué à Cantata 147. O barroco entrelaça-se com os ruídos da selva. Bach continua ao ritmo dos tambores, num cerimonial de invocação dos espíritos, com Naná Vasconcelos a percutir jarras e o coro numa interpretação do tema “A caça”, de Bach, a diluir-se nos sopros de um corno de antílope. As núpcias do absurdo ficam consumadas de forma um pouco patética na Cantata 147 – “Jésus, que ma joie demeure”, misturada com extratos de “Mouse biabatou”, num triângulo kitsch de bolhas da selva imaginária de Jon Hassell, murmúrios da sociedade iniciática Lissimbou e um órgão beato fora do lugar.
Para o fim deixámos o tema que por si só vale todo o disco. Uma música realmente nova e sem classificação possível, talvez a única que em “Lamabarena” faz esquecer o termo “fusão”, nasce de “Inongo/Invention à trois voix nº3 en ré majeur, BWV 789”. O arco musical ongongo (instrumento ritual da religião Bouiti) de Yvon Kassa, o órgão de Oswaldo Calo e uma voz humana (ou de um deus pagão?), gutural e ritmada, dão origem a qualquer coisa de sobrenatural, uma entidade musical autónoma que transcende a dicotomia África-Ocidente. Respiração do mundo, um estremecimento de ar, oração da selva numa capela verde de esmeraldas vegetais.
Para que conste, os oficiantes de “Lambarena” são os grupos do Gabão Okoukoué, Awana Africa, Elugu Ayong, Kokayl, Nzi Nimbu, M’Boudi, Nzimba, Mendzang M’Assove, Lissimbu e o grupo coral  Le Chant sur la Lowé, tendo a seu lado uma formação de 34 músicos europeus – coro, orquestra e solistas –, encarregados da interpretação das partituras de Bach. A aldeia global, a anulação das distâncias, aí está, para o melhor e para o pior. Sobre esta obra construída sobre o paradoxo diria o publicitário Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” (8)

14/03/2016

Vários - Art School Dancing

Y 17|MAIO|2002
discos|roteiro

VÁRIOS
Art School Dancing
Harvest, distri. EMI - VC
7|10 

Surpreendente, ou talvez não, o aparecimento desta coletânea que repesca alguns dos artistas que gravaram para este catálogo especializado no rock progressivo, entre 1969 e 1972. A par dos dois génios loucos que furaram o boqueio ao Progressivo, Syd Barrett e Kevin Ayers, encontramos aqui deliciosos exemplos da excentricidade “arty” que atravessou a pop inglesa neste período: a pop bucólica dos Barclay James Harvest, o anarquismo freak dos Edgar Broughton Band, o raga-rock dos Third Ear Band, o psicadelismo pop dos primeiros Deep Purple e The Move, uma versão de “Sabre dance” dos Spontaneous Combustion, o “King Kong” de Frank Zappa pelos Babe Ruth ou a imitação “ainda mais psicadélica que os originais” dos Forest, discípulos dos Incredible String Band. Os Electric Light Orchestra mostram a sua classe (a do álbum de estreia…) e a costela “Beatles + Kronos Quartet” no delirante e espasmódico “Look at me now” e Roger Waters assina com Ron Geesin o hino de peidos e arrotos que abre o inenarrável “Music from the Body”, de 1970, enquanto, do lado dos anjos, Shirley Collins, deusa da folk, transmite transcendência com “God dog”.

07/11/2015

VÁRIOS - Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0 + @C - +



Y 11|JANEIRO|2002
escolhas|discos

@C
+
8|10
VÁRIOS
Portuguese Electr(o)domestic Tracks 1.0
7|10
Ed. e distri. Variz

Por uma vez, saúde-se o aparecimento de uma variz na perna enfezada da música eletrónica nacional, sinal de que corre nela ainda algum sangue. Em “+” dos @C encontramos o mesmo tipo de imponderabilidade e o conceito de “forma igual a conteúdo” que afetam grande parte da música eletrónica atual, na sua vertente mais programática. Sete temas, sem título, são outras tantas formulações improvisadas de um espaço de decifração articulado, nos meandros da mente digital. Ignorem-se antigos parâmetros de descodificação, padrões emocionais formatados por séculos de música acústica, o que “+” propõe, com extraordinária acutilância, é, precisamente, a mutação, esse algo “mais” capaz de acrescentar ao som eletrónico puro um novo corpo alucinatório. Mais ingrata será a tarefa de hierarquizar a diversidade de propostas contidas na antologia “electro-doméstica” da Variz. Importa, para já, destacar a disponibilidade e a quantidade de novos projetos que responderam ao repto lançado pela editora. Há uma cena nova a borbulhar. Mais difícil será retirá-la do espaço virtual onde, por agora, se abriga.

05/01/2015

Ester Brinkmann + Groenland Orchester + V/A "Staedtizism 2"



Y 27|JULHO|2001
discos|escolhas

ESTER BRINKMANN
Der Übersetzer – Il Traduttore
Supposé, distri. Ananana
7|10

GROENLAND ORCHESTER
Nurobic
Stora/Freibank, distri. Ananana
7|10

VÁRIOS
Staedtizism 2
Scape, distri. Ananana
8|10

Toalhas mentais

Com o calor a apertar, e sem que a música eletrónica dê sinais de abrandamento, há que achar um compromisso entre o refresco e o eletrochoque, a lazeira e a apoplexia. Com os Groenland Orchester não chega a haver dilema. À semelhança dos Schlammpeitziger, a música desta formação eletrónica alemã, oriunda de Hamburgo inserida na chamada estética do “smile” computorizado (leia-se: com raízes no krautrockliveinderfabrik amassado com bonecos dos Cluster), institucionalizou-se. O que era novidade e diversão passou a ser apenas diversão. Não que as fantasias eletrónicas montadas por Günter Reznicek (também Nova Huta, também estratega experimentalista em nome próprio) e Jyrgen Hall, perdessem o traço e a cor. Ter-se-ão até tornado mais berrantes e ganho nitidez. E paisagens familiares não implicam um passeio menos recreativo. Continuam doces como algodão de açúcar as melodias, balouçantes e suaves, como flocos de neve, as batidas, vivazes, como a imaginação de uma criança, as combinações tímbricas, dos Groenland Orchester. Títulos como “Riso up”, “Rabbi playstation”, “Fanfaren der herzen” (vivam os “vocoders” do circo Nova Huta, com dedicatória a todos os Kubins do mundo!), “Saluti da pavia” (e se os Mouse on Mars se cruzassem com os Severed Heads numa auto-estrada de mel?), “Farfalle mekon” e “Tonika oase” (olh’ó pós-rock, olh’ós Stereolab, olh’á mãozinha da Stora…) sugerem néons a piscar, armários de disfarce, férias em lugares de plástico, jogos de consola de compota… A música dos Groenland Orchester é como aqueles comboios pequenos para turistas, nas estâncias balneares: fazem viagens curtas mas cheia de atrações para olhar.
            Pelo contrário, a proposta de Ester Brinkmann (Thomas Brinkmann armado em travesti…) exige óculos e estudo. Terceira parte de um trilogia dedicada à palavra, encetada em “Totes Rennen” e continuada em “Weisse Nächte”, “Der Übersetzer” (“o tradutor”) serve-se da tecno minimal cara a Brinkmann para colar excertos ou longas dissertações faladas, nas vozes de Jannis Koullenis e do seu tradutor Edward Winklhofer. O efeito fonético é hipnótico, lembrando, por vezes, as sinfonias sónico-literárias de Robert Ashley ou os ritmos semânticos de Scott Johnson para “John Somebody”, intercalados por pedaços de dança eletrónica irresistíveis à boa maneira do autor de “Rosa” e mentor dos Soul Center. Apesar do obstáculo linguístico o córtex faz na mesma a tradução. Muito livre. Recordando que toda a palavra era na origem energia mágica.
            Com “Staedtizism 2” entramos no domínio do conceptualismo puro e da fuga absoluta às catalogações. A distinção entre forma e conteúdo dilui-se em organismos eletrónicos ou eletro-acústicos em permanente metamorfose. No geral, esta antologia soa como um pacote mais sumarento e palpável que a sua irmã “Clicks & Cuts”. O mesmo é dizer que, se as linguagens são semelhantes (click house, tecno minimal, digital ambient…), a forma como são tratadas distingue-se pela maior complexidade e diversificação de tonalidades. A destoar do circuito frio está a derivação da escola de Chicago de John Tejada numa coleção cujos melhores momentos pertencem a Burnt Friedman, com a sua sonda de dub psicadélico, e aos Beige, com algo parecido aos “Insect Musicians” de Graeme Revell. Excelente para secar o cérebro, depois do banho.