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04/08/2020

Romantismo patológico [Tuxedomoon]


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 9 NOV 2004

Crítica Música

Romantismo patológico

Jim Moray
Sábado, dia 6. Teatro Aveirense.
Sala a três quartos.
Tuxedomoon
Domingo, dia 7. Teatro Aveirense
Sala praticamente cheia.

Fez-se história em Aveiro no Festival Sons em Trânsito. No domingo, os norte-americanos Tuxedomoon deixaram estarrecida uma audiência repartida entre os que conheciam a obra do grupo dos anos 80 e os curiosos. Estes últimos devem ter deixado o Teatro Aveirense de cara à banda, de tal forma a atuação se afastou dos cânones normais de um vulgar concerto rock.
Depois dos Pere Ubu e dos The Residents ficou assim fechado o ciclo de apresentações em Portugal das mais estranhas bandas americanas que assolaram o planeta.
Não foi um concerto rock mas também não foi pop, muito menos “world”. Terá estado mais perto da “performance”. Sem bateria e com um alucinado quinto elemento encarregado da “mise-en-scène” visual a apontar uma lanterna aos músicos, os Tuxedomoon atacaram com “Luther blisset”, do novo álbum “Cabin in the Sky”. Logo aí ficou estampado um romantismo patológico pautado pelo trompete de Luc Van Lieshout e o violino, muito Velvet Underground, de Blaine L. Reininger, com Steven Brown a saltar do piano para o saxofone e Peter Principle a arrastar baixas frequências no baixo. Cada nova peça era mais bizarra que a anterior, de esventradas canções construídas sobre programações dementes – como uma brilhante versão de “Desire”, a sua obra-prima discográfica – a sequências instrumentais encaixadas entre o jazz, o cabaré galáctico e texturas ambientais. Os Tuxedomoon vestem várias peles, algumas delas em simultâneo. Num instante são um combo “mariachi” em combustão alucinatória, no outro uma constipação de Miles Davis ou uma dança decadente de Paolo Conte. Reininger cantou sobre l’amore, em italiano e, de de forma arrepiante, sobre a solidão – “Here comes loneliness” – e neste verso passou toda uma Europa exacerbada em néons e nostalgia. Como se não bastasse, o homem das imagens projetava no ecrã ícones de uma civilização ocidental perdida entre o consumismo e o colapso ou manipulava em tempo real filmes e efeitos visuais criados no momento, com bonecas “Barbie”, bonecos-caveira ou plasma líquido. Podemos pensar num novo psicadelismo ou, pela disparidade e alcance da visão, nuns Roxy Music sem o “glam” e com os pés bem fincados na “new wave”.
Chamados a dois “encores” e com a promessa de voltarem para o ano, nem mesmo assim os Tuxedomoon facilitaram, despedindo-se com uma derradeira dose de experimentalismo.
Perante isto, o concerto da véspera, da banda de Jim Moray, pareceu inócuo. Jim é um rapazote acabado de fazer 23 anos a quem a BBC premiou o álbum de estreia, “Sweet England”, e que em Aveiro foi apresentado como alguém que revolucionou a folk inglesa. É preciso não ter memória para dizer uma coisa destas. O que Moray faz é popfolk elétrico mas os verdadeiros revolucionários chamam-se Fairport Convention, Steeleye Span e Albion Band. Dito e feito, o rapaz repesca temas tradicionais como “Raggle taggle gypsy” (que saudades dos Planxty!) e “The cuckoo’s nest”, junta-lhes guitarras elétricas, piano e alegres programações, e o resultado até é agradável. Nalguns momentos fez lembrar Joe Jackson, noutros Richard Thompson (seu padrinho oficial) e no tema final, “Longing for Lucy”, conseguiu ser puerilmente tocante.

EM RESUMO
Os Tuxedoomon num concerto histórico. Por Aveiro passou uma das bandas mais estranhas do planeta

Banda norte-americana Tuxedomoon dá concerto de “world rock” no Festival Sons em Trânsito em Aveiro


CULTURA
DOMINGO, 7 NOV 2004

Banda norte-americana Tuxedomoon dá concerto de “world rock” no Festival Sons em Trânsito em Aveiro

Mítica banda dos anos 80 ao vivo pela primeira vez em Portugal. Concerto de hoje apresenta novo álbum “Cabin in the Sky”

E agora perguntam vocês: o que fazem os Tuxedomoon num festival de “World music”, como o Sons em Trânsito. A resposta pode ser dada já hoje à noite, na sua primeira apresentação ao vivo em Portugal, depois da vinda em duo, nos anos 80, de Steven Brown e Blaine L. Reininger. Já a explicação pressupõe, não só conhecer os Tuxedomoon, como proceder a um deslocamento, a uma deformação de perspetiva ou a uma ampliação de pormenor do que se agita no seu interior.
            Os Tuxedomoon foram na década de 80, e voltam a sê-lo neste novo século, no ano da sua ressurreição, uma banda rock. Quer dizer, é pouco razoável esperar que alguma vez venham a batucar num djembé ou a soprar numa flauta com o nariz, como fazem os pigmeus. E, no entanto, o rock desta banda formada em 1977 em São Francisco, nos EUA, não é um rock como outro qualquer, abarcando toda a espécie de influências ao ponto de, se quisermos mesmo rotulá-lo, lhe podermos chamar “World rock”. O novo álbum, editado este ano, “Cabin in the Sky”, recupera em novos moldes o arsenal de referências e sons exóticos que é possível encontrar na sua discografia dos “eighties”. Ontem como hoje, a música dos Tuxedomoon nunca foi simples nem fácil de digerir e o que um ouvido menos familiarizado com ela será tentado a dizer é que é estranha.
            Tal estranheza nasce do cruzamento de muitas músicas, como consequência da visão particular de cada um dos seus três principais elementos. Steven Brown, teclista e saxofonista, contribui com a conceptualização, o lado erudito, a parcela mais jazzística do som Tuxedomoon. Blaine L. Reininger, violinista, cria a ponte entre a canção pop, o minimalismo e as influências clássicas. Peter Principle é o excêntrico das sonoridades obscuras e irracionais. Tudo isto mais valsas, tangos, música de feira, eletrónica industrial ou ambiental e, sim, parcelas de folclore planetário, de música árabe, oriental ou sul-americana. Também houve quem os apelidasse de “banda americana mais europeizada”, o que faz sentido atendendo a que o grupo estabeleceu a sua sede em Roterdão, na Holanda e que, em termos musicais, seja percetível uma peculiar nostalgia da “belle époque” e, no novo álbum, uma componente poliglota, com canções cantadas em francês e italiano. Espantoso é que os Tuxedomoon consigam resistir à força centrífuga e manter uma unidade de estilo que permanece inquebrantável.
            Os Tuxedomoon começaram por gravar no cerne da própria estranheza, editando o seu álbum de estreia, “Half-Mute” (1980), na editora Ralph, a mesma dos reis do bizarro, The Residents. Um aglomerado de ruído, improvisação “free”, canção informal e eletrónica de cortar à faca. O álbum seguinte, “Desire” (1981), é a sua obra mais conseguida, dança do fim dos tempos num continente sem fronteiras onde a música de fantoches afina pela “avant-garde”. Lançado no mesmo ano, “Divine” acompanhou uma coreografia de Maurice Béjart e, a partir deste álbum, a banda torna-se mais pop, uma pop cubista, bem entendido, em “Holy Wars” (1985), “Ship of Fools” (1986) e “You” (1987), entrecortados pela experiência subterrânea nos domínios do experimentalismo com interferências da Rádio Marrocos, “Suite en Sous-Sol”. O último álbum, antes da extinção, “The Ghost Sonata” (1991), é isso mesmo, fantasmagoria com acentos clássicos. “Cabin in the Sky”, que os Tuxedomoon irão apresentar em Portugal, mantém a elegância e um espírito de aventura inigualáveis. A lua não despiu o fraque.

TUXEDOMOON – Festival Sons em Trânsito
AVEIRO Teatro Aveirense, às 21h30.
Tel. 234400922.
Bilhetes a 25 e 30 euros.

22/06/2020

Tuxedomoon no Sons em Trânsito de Aveiro


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 22 OUT 2004

Tuxedomoon no Sons em Trânsito de Aveiro

Tiveram a fama e o proveito, mas não ficaram ricos. Nenhum deles comprou casa nova, A primeira vinda a Portugal do grupo americano Tuxedomoon é o acontecimento mais importante do festival Sons em Trânsito (SET) que, de 5 a 13 de Novembro, decorrerá em Aveiro. Embora possa causar estranheza a sua inclusão num programa preenchido por artistas de “world music”, a presença, dia 7, desta banda de São Francisco que marcou os anos 80 e que, já este ano, regressou ao ativo com um novo álbum, poderá constituir um dos concertos mais excitantes do ano.
            Depois do arranque com o EP “No Tears” e de fazerem a primeira parte de um concerto dos Devo, os Tuxedomoon gravaram o álbum de estreia, “Half-Mute” (1980), ao qual se seguiu a obra-prima “Desire” (1981), dois dos trabalhos mais experimentais da banda e obras emblemáticas do início dos anos 80.
            Mais conhecidos na Europa, os Tuxedomoon mudaram-se para Roterdão, tendo a sua música refletido a partir daí essa europeização, como se pode apreciar nos álbuns “Holy Wars” e “You”. O mini-álbum “Ship of Fools”, “Divine”, para uma coreografia de Maurice Béjart, e o obscuro “Suite en Sous-Sol” são outras das obras de referência deste grupo, que já este ano gravou o álbum “Cabin in the Sky”, ao nível dos seus melhores.
            No capítulo da “world”, o Sons em Trânsito não deixa igualmente os seus créditos por mãos alheias. Janita Salomé e os Segue-me à Capela constituem a representação portuguesa que, no dia 5, abre o festival. No dia seguinte o inglês Jim Moray, a quem já chamaram o “Radiohead da folk”, procurará provar a justeza do seu disco de estreia ter sido considerado “álbum do ano” pela BBC.
            Diretamente do cadinho da música cubana, Omara Portuondo atuará no SET no dia 11. Omara é uma das presenças no catálogo de luxo “Buena Vista Social Club”. Dia 12, os espanhóis Elbicho irão mostrar que não são só os Ojos de Brujo que são capazes de dar a volta ao texto ao flamenco. A fechar estará Afel Bocoum, do Mali, intérprete do chamado “blues do deserto” e discípulo do mestre Ali Farka Touré.

24/02/2020

TUXEDOMOON - Cabin In The Sky


Y 2|JULHO|2004
roteiro|discos

tuxedomoon
cabine de provas

TUXEDOMOON
Cabin in the Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8|10

Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in he Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario di un egoista”, “Luther blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, eletrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Undergound e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Aksak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miro e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHell, o mesmo que que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A Home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e grandes canções, como “Baron brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.

16/10/2019

Le crème de da Crammed


Y 25|JULHO|2003
música|crammed

Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a música popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se não, a pôr um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada também se podia dar ao luxo da luxúria.

Le crème de la Crammed



Os “eighties” foram mais do que o reservatório de óleos pesados, faíscas elétricas e quinquilharia “glamour” que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de “electroclash”, “tecnocoisa” e outras designações estapafúrdias que mais não servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destituídos da menor mais-valia musical.
            Havia, é certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a ligação entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afetações dos chamados neo-românticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveaux, etc). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia “punk” aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.
            No continente, porém, uma terceira via emergiu, o lado “arty” dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma estéticas, da pop à música contemporânea, da étnica à eletrónica, da clássica ao minimalismo, do jazz às sínteses mais inverosímeis – repondo a questão, deixada em aberto com a irrupção explosiva do “punk”, de como continuar as experiências direcionadas para uma música, dita “pretensiosa”, encetadas na década anterior pelo rock progressivo.
            Em Inglaterra já havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lançadas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (“Rock In Opposition”), criara o chamado “rock de câmara”, personificado por bandas como os Art Bears, News from Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.
            Na Bélgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a criação, em 1981, por Marc Hollander, e Véronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidiária, a Made to Measure, vocacionada para a divulgação de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da “normalidade”. A Cramworld, especialista em “world music” surgiria alguns anos mais tarde. Tinha assim início uma aventura “com base em encontros, paixões, ruturas e flirts musicais”, mas também resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, responsável pela direção artística e gráfica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dança com a designação DJ Morpheus.
            Marc Hollander e Véronique Vincent eram, são, ambos músicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o polo Recommended e o europeísmo “dandy” da sua própria editora, os Akasak Maboul. Véronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram até à data com dois dos seus trabalhos a não merecerem honras de reconversão para CD. O presente pacote de 12 reedições, genericamente embalado com o rótulo “Crammed Global Soundclash, 1980-1989” (mais duas coletâneas, uma centrada nas fusões “world”, outra na “electrowave”) disponibiliza-os, enfim: “Onze Danses pour Combattre la Migraine”, que tanto pode ser encarado uma proto-encarnação dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e “Les Tueurs de la Lune de Miel”, álbum único dos The Honeymoon Killers.

            feito à medida. À Made to Measure, subsidiária da Crammed, coube a tarefa de abrir os portões de um novo mundo. De súbito, a Europa começou a reparar na existência de uma nova música, luxuosamente embalada e produzida, que escapava às habituais catalogações de estilo. Álbuns “feitos à medida” de uma conceção estética que poderíamos designar por “neoclássica” de acordo com o propósito da criação de uma coleção de objetos únicos – obras de arte na verdadeira aceção da palavra. Foi, além disso, uma das primeiras editoras, senão mesmo a primeira, a lançar o conceito de “série”, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esotérico e apelo gráfico irresistível. Mais importante que tudo: as músicas que ostentavam na capa a tira “Made to Measure” eram garantia de surpresa e de associações musicais sem paralelo.
            O cartão de visita, com número de série MTM1, veio à luz em forma de antologia, com a participação dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em inéditos compostos de propósito para ela. O destino estava traçado e os números da série seguinte dariam a conhecer algumas obras marcantes da música alternativa dos anos 80. Os melhores: “Reivax au Bongo”, de Hector Zazou (faz parte do atual pacote), “Colorado Suite”, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, “western spaghetti” em forma de “opus” minimalista (“Philip Glass meets Bonanza”, como escreveu alguém), “A Walk in the Woods”, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com eletrónica e costela romântica, “Sedimental Journey”, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interferências cósmicas. “Géographies”, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de ópio, “Stranger than Paradise”, de John Lurie, “Desert Equations: Azax Attra”, de Sussan Deyhim e Richard Horowitz (incluído no pacote), “Music for Commercials”, de Yasuaki Shimizu, electroanúncios para televisão. “If Windows They Have”, de Daniel Schell & Karo, neo-tudo e obra-chave dos 80, “Down by Law”, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz “downtown” de câmara, “Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour”, segredos e romances eletrónicos, outro clássico, e a sua sequela, “A Propos d’un Paysage”. “Tone Poems”, de Peter Principle, o título diz tudo e não diz nada, “Géologies”, de Hector Zazou, na linha de “Géographies”, “Pretty Ugly”, de Peter Scherer e Arto Lindsay, “noise” e “no rock” domesticados mas não menos sinistros para um “ballet” de Amanda Miller, “Arrows”, de Steve Shehan, “world music” de uma galáxia distante.
            Mais recentes: “Le Secret de Bwlch”, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova “chamber music” deste grupo suíço, “Domino One”, de Ramuntcho Matta, “kitsch”, vudu, carnaval, sons de água e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou “excêntricos” pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem propósito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (“Nebka” e “Le Parfum du Raki” não estão ao nível dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, “The Top of His Head”), Steven Brown & Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com “Water”), ainda Hector Zazou (o redundante “Sahara Blue” e “Glyph”, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso, a conversa é mais que música...) e John Lurie National Orchestra.
            Tudo somado, dá para uma quantidade de horas de audição, deslumbramento e, eventualmente, desorientação. As medidas da Made to Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitetura das cidades obscuras em BD de Schwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu próprio catálogo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.


doze danças para combater a enxaqueca

AKSAK MABOUL
Onze Danses pour Combattre la Migraine (1977)
8|10

Fica finalmente disponível em CD o antecessor de “Un Peu de l’Âme des Bandits”. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composição e instrumentação deste disco em que o rock de câmara ganha as tonalidades de música de feira, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração, minimalismo “kitsch”, divagações de jazz e variedades impressas em cartões de visita desbotados que evocam os “orgues de barberie” de Pascal Comelade. Um álbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do catálogo.

TUXEDOMOON
Desire (1981)
10|10

Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos automáticos, o violino “alien” de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos eletrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibiótico, servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente.

HONEYMOON KILLERS
Les Tueurs de la Lune de Miel (1982)
8|10

Os assassinos da lua-de-mel, bizarra formação franco-belga liderada pelo saxofonista, já falecido, Yvon Vromann, não são assim tão violentos, embora se inspirassem no “punk” e na “new wave”, mas seguindo um figurino francês. O lado “arty” emerge, porém, quando menos se espera, nas aproximações jazz/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como “Histoire à suivre”, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se não houvesse um saxofone a gritar “free jazz”. E há coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Alésia Cosmos (ninguém se deve lembrar…). Eletrónica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objeto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um “live” com os Aksak Maboul.

BENJAMIN LEW
Compiled Electronic Landscapes (1982)
8|10

Antologia de fragmentos e paisagens eletrónicas extraídos dos álbuns a solo “Nebka” e “Le Parfum du Raki”, bem como das anteriores e francamente superiores colaborações com Steven Brown. Os títulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do “Marienbad” de Resnais. Portos do Mediterrâneo, ventos do deserto, as aventuras de Adéle Blanc-Sec e de Arsène Lupin na Paris da Belle Époque em quadros eletrónicos onde a influência de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.

ZAZOU, BIKAYE, CY1
Noir et Blanc (1983)
8|10

Desta colaboração entre Hector Zazou, previamente nos ZNR, o cantor congolês Boni Bikaye e o grupo de eletrónica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programações, imbuídas do calor próprio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, seguram danças dervíshicas enfeitadas pelos cânticos afro de Bikaye. Absolutamente hipnótico ou, como alguém descreveu na altura esta fusão de prototecno e arvoredos “world”: “Fela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.

MINIMAL COMPACT
Deadly Weapons (1984)
6|10

Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior projeção fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde alguém, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk egípcia Oum Kalsoum, não resistiu ao desgaste do tempo, ouvindo-se hoje como um típico objeto dos anos 80 pós-Joy Division, já impregnado pelo espírito electro.

KARL BISCUIT
Secret Love (1984)
5|10

Karl Biscuit era uma figura enigmática que aparece na capa de “Secret Love” a fazer o número do manequim romântico. Apesar das referências aos Depeche Mode e aos Human League e da graça de lhe terem chamado “Julien Clerc em três dimensões”, a pop eletrónica e as “torch songs” de pacotilha servidas em bandeja de mambo e eletrobeats baratos é pouco convincente enquanto testamento musical deste francês hoje responsável pela companhia de dança Castafiore.

HECTOR ZAZOU
Reivax au Bongo (1986)
9|10

Registado originalmente na Made to Measure, “Reivax au Bongo” é um daqueles discos que parecem saídos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imaginária (!), o “primeiro lado” experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocalizações étnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Tão delirante como exótico, este primeiro segmento não faz prever o que se segue: naipes grandiosos de música coral cantada por donzelas e querubins que se elevam nas alturas como um madrigal pré-barroco de Gabrielli ou Heinrich Schütz.

COLIN NEWMAN
Commercial Suicide (1986)
6|10

Pop eletrónica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colaboração com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som/produtor e alicerce do chamado “som belga”, Gilles Martin. A par de canções padronizadas na pop eletrónica da época, a presente reedição junta-lhes um inédito com Newman a falar da sua música, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste álbum as mesmas qualidades de “Rock Bottom”, de Robert Waytt, e de “The Madcap Laughs”, de Syd Barrett, mas a verdade é que a este “suicídio comercial” falta tanto a tragédia como a loucura.

SONOKO
La Débutante (1988)
7|10

Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com voz de boneca caída no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-música dá o mote a uma coleção de melodias frágeis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma mutação cândida de “Cheree”, dos Suicide, modificada para “Cheri cheri”, uma letra de Shakespeare, uma dedicatória a Brigitte Bardot, “La poupée qui fait non”, de Michel Polnareff, música de igreja, um requiem de Gabriel Fauré (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ingénua, versão de “In heaven”, da banda sonora de “Eraserhead”, de David Lynch. No filme o tema é cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozoides: “In heaven everything is fine”.

SUSSAN DEYHIM & RICHARD HOROWITZ
Desert Equations: Azax Attara (1987)
8|10

Étnica, técnica, tecno, cânticos da Pérsia, programas de computador, “drones” e dunas. Danças eletro em contraponto com uma voz planetária. O escritor Paul Bowles perguntou, a propósito, se esta música foi composta sob a influência de algum alucinogénico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genuína viagem dos corpos através de uma paisagem hi-tech. “Azax Attra” percorre-se como se pisássemos o solo de uma ilusão e subitamente sentíssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.

BEL CANTO
White-out Conditions (1988)
7|10

Muito antes dos icebergs imóveis dos Sigur Rós, os noruegueses Bel Canto, da cantora Annelli Marian Drecker, lançavam ao mar o conceito de pop ártica que viria a ramificar-se na atualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e Röyksopp. Apesar da rítmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os corações, como “Blank sheets”. Fizeram-se comparações com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas é mais singelo do que isso.

11/09/2009

Tuxedomoon - Joeboy In Mexico

Sons

13 de Março 1998
DISCOS – POP ROCK

Tuxedomoon
Joeboy in Mexico (8)
Opción Sónica, distri. Megamúsica

Fartos da chuva e da humidade de Bruxelas os belgas Tuxedomoon resolveram enfiar o sombrero e partir para as terras quentes no México, assinalando um renascimento que se saúda, retomando uma discografia que carregara na pausa desde “The Ghost Sonata”. É um regresso que não deixa de espantar, não tanto pela “mexican connection” em si, encetada antes por Steven Brown com o seu projecto Ninerain, mas pela impenetrabilidade musical deste novo álbum, inteiramente instrumental e o mais experimental do grupo desde “Suite en Sous-Sol”. Sob a camuflagem de designações como Esteban Café, Paco Rosebud, Ruan Rotterdam e Pancho Peru, adivinham-se as presenças de Steven Brown, Blaine Reininger e Peter Principle, este último talvez o mais marcante, nos temas mais longos do disco, “The door/Viaje en la Sierra Madre” e “Zombie paradise”, cujo ambientalismo desfocado se insere na mesma estética de álbuns como “Sedimental Journey” e “Tone Poems”. A embalagem luxuriante, desdobrável num “poster” de dupla-face graficamente na linha dos trabalhos de Jorge Reyes, encerra uma música escura e mutante, sem linhas de acção perceptível, obrigando a várias e atentas audições até se abrirem eventuais brechas neste tecido onde os sintetizadores, as cordas e os sopros se parecem anular mutuamente num jogo de tensões. Não tendo sido nunca um grupo fácil, não deixa ainda assim de ser curiosa esta inflexão nas malhas do experimentalismo mais radical que os recoloca de novo num quadro idêntico ao dos primórdios quando, na Ralph Records, os Tuxedomoon funcionavam como contrapoder ao terrorismo totalitário dos Residents.

17/10/2008

Tuxedomoon - The Ghost Sonata

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

TUXEDOMOON
The Ghost Sonata
LP / CD, Les Temps Modernes, distri. Contraverso

“The Ghost Sonata” toma como ponto de partida a encenação de uma produção vídeo originalmente escrita pela dupla Winston Tong/Bruce Geduldig, antigos membros dos Tuxedomoon. Subintitulada “uma ópera sem palavras”, a obra, reescrita pelo actual trio Steven Brown/Blaine L. Reininger/Peter Principle, assume-se como um trabalho conceptual inserido numa vertente classicista. Encomendada pela organização Inteatro, de Polverigi, a actual produção “The Ghost Sonata” passou por várias fases até atingir a forma definitiva, dividida em duas secções. Cinco temas constituem uma “suite” distinta (incluindo “Music 32” composta para o EP de 82 “Time to Lose”, “Ghost sonata” escrita na época de “Desire”, mais três temas resultantes de improvisações efectuadas durante a gravação de “Divine”, coreografia de Maurice Bejart inspirada em Greta Garbo). “An affair at the soirée”, “Les Odalisques” e “Unsigned postcard” são peças electrónicas centradas na utilização de técnicas de música concreta e gravações de sons ambientais, aqueles onde se pode ler a assinatura de Peter Principle, o mais experimentalista dos Tuxedomoon. “The Ghost Sonata” (título retirado de uma peça de Strindberg) gira em torna da morte, de diversas maneiras de morrer provocadas por suicídio. Suicídio que cada um dos músicos encena como seu: por afogamento, excesso de bebida (Blaine Reininger), enforcamento (Steven Brown), envenenamento (Peter Principle), magia negra, hemorragia (Winston Tong). Na sequência de uma obra sem pontos fracos, esta “sonata fantasmagórica” demonstra até que ponto os Tuxedomoon são hoje dos grupos mais importantes da cena alternativa situada na convergência do rock com a música erudita. ****

14/05/2008

Tuxedomoon - Solve Et Coagula

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

Tuxedomoon
Solve et Coagula
Crammed, distri. Megamúsica

O título, decalcado da simbologia alquímica, promete transmutações obscuras e diabólicas fantasias. Mas não, não há nem uma coisa nem outra. Transmutações, népia, já que se trata de uma compilação de temas antigos, vulgo colectânea, ou seja, um “best of…”, com versões iguais às dos álbuns originais de onde foram extraídas – “Half Mute”, “Desire”, “Holy Wars”, “Ship of Fools”, “You”. De diabólico, só se for o tema “Trinotus (Musica diablo)”, sobre o acorde maldito da Idade Média. Ou seja, quem gosta dos Tuxedomoon já tem, com certeza, os álbuns referidos e passará decerto ao lado desta manta de retalhos. Para quem desconhece a banda e as proezas dos seus músicos, de Winston Tong a Steven Bown, de Blaine Reininger a Peter Principle, encontrará aqui material e motivos de sobra para se espantar e desatar a correr à procura das fontes. E talvez seja até uma maneira de os conhecedores, mas preguiçosos, não precisarem de tirar os outros discos da prateleira para poderem ouvir a música dos Tuxedomoon, a mais europeia das bandas norte-americanas. Que começou por alinhar ao lado dos Residents e dos Yello, e acabou a tocar sonatas e música clássica à chuva debaixo das arcadas da CEE. (7)