Mostrar mensagens com a etiqueta Telectu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Telectu. Mostrar todas as mensagens

01/05/2026

A música em comício [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 9 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festa do “Avante!” 91

 

A música em comício

 

Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, atuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

 

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!”. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objetivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.

Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar kilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o(a) parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

 

O inferno são os outros

 

Para complicar, o programa das atividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjinho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max”…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espetáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.

Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, imitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.

Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destruiu, brincou, ordenou e explodiu em compassos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

 

Uma fada entre a poeira

 

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.

No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey” ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.

À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão... Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.

Do reino de poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde atuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver...


03/10/2025

Sementes de violência [Telectu e Elliott Sharp]

 QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 cultura

 

Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian

 

Sementes de violência

 

FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.

            As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.

 

Mestre da guitarra

 

            A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável alguns segundos logo após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.

            Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.

 

Subversão a três

 

            Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.

02/10/2025

A matemática do caos [Telectu e Elliott Sharp]

 CULTURA SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990

 

Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30

 

A matemática do caos

 

O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.

 


Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.

            Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.

 

Guitarra telúrica

 

            Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.

            Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado  “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.

            Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição...) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.

            Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.

 

Eletrónicos

 

            Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.

            A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.

14/10/2021

Telectu - Live At The Knitting Factory

 Pop
 
TELECTU
Live at the Knitting Factory, New York City
LP, Mundo da Canção
 
            Não se deve misturar música com musicologia. Jorge Lima Barreto é um bom musicólogo, até agora à procura de afirmação como músico. Os seus muitos discos não têm sido, na generalidade, poupados pela crítica, em grande parte devido à tendência para os sobrevalorizar, recorrendo à teoria, por parte do autor. Depois do minimalismo, o mimetismo. A tática não será a mais aconselhável; a música, como qualquer outra arte, vale pelo que intrinsecamente é, e não por qualquer caução cultural que lhe seja adjacente.
            No caso de “Live at the Knitting Factory”, o caso muda felizmente de figura. Gravado ao vivo na nova catedral da vanguarda nova-iorquina, é o melhor disco dos Telectu até à data. Minimal ou mimético, é o que menos importa. Trata-se de música produzida ou manipulada por meios exclusivamente eletrónicos, povoada de referências – umas óbvias (Fripp & Eno, Terry Riley, música étnica), outras nem tanto: Elliott Sharp, David Fulton – mas bem assimilada e integrada num discurso original. Por uma vez, a música dos Telectu dispensa as palavras para se impor. Bom disco. Sem etiquetas.
 
QUARTA-FEIRA, 14 MARÇO 1990 VIDEODISCOS

16/01/2019

Com a felicidade estampada nos 'blues' [Jazz]


22 MARÇO 2003
JAZZ
DISCOS

O jazz tanto pode ser um bunker de metal como um canteiro de flores. Sei Miguel e Jacinta exemplificam, em Portugal, estes dois extremos do jazz. A sabedoria louca de um contrasta com a felicidade aos caracóis da outra.

Com a felicidade estampada nos ‘blues’


Jazz além. Mas além de que lugar? Segundo as coordenadas de Sei Miguel, ir pelo jazz é arriscar-se numa aventura interior sem retorno, de transmutação, transcendência e transferência da personalidade para uma máscara de enigmas. “Ra Clock” é, na forma, uma homenagem a Sun Ra, que o trompetista português considera como avatar da música contemporânea, nomeadamente através da suite com o mesmo título, espécie de livro de horas que ilustra o percurso musical e espiritual do autor de “It’s after the End of the World”. Disco diluviano, no sentido de precipitação e revelação, transporta consigo os mesmos estigmas e a imagética mitológicos que ilustravam a obra do teclista americano, na reapropriação de uma ancestralidade por onde passa, afinal, a decifração do labirinto tecido em “Astérion” ou do microclima de 33 segundos intitulado “Isobel”.
            Não há madeiras, apenas metal: trompete de bolso, trombone, guitarra, gongos, piano, percussões e água elementar. E, em “Astérion”, uma “drone” de órgão Hammond a calcar a pedra e o cristal. Pressente-se aqui algo carregado com a mesma energia mágica das florestas virtuais do quarto mundo de Jon Hassell, os mesmos rituais de utilização dos sonhos como via de acesso ao interdito. E o espectro de Miles a espreitar nesta transmigração.
            “Ra clock”, da “viagem da alma até ao planeta Terra” até ao “caminho de regresso para as estrelas”, instala-se no âmago desse tal “além” situado entre as cinzas do jazz e a música concreta, com citações, pelo meio, às sonoridades siderais de Sun Ra. Um disco difícil, como são todos os de Sei Miguel, exercício de sublimação da loucura em discurso do método.
            Nos antípodas de “Ra Clock” está o novo e triplo álbum dos Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua. A dupla, que, curiosamente, nos últimos anos cultivou processos vários de clonagem e mimetismo de géneros musicais que iam da eletrónica lúdica à eletroacústica, retoma em “Quartetos” a estética do “free jazz” e da livre improvisação que marcaram os primeiros anos do coletivo.
            Com Lima Barreto ao piano (incluindo o preparado), Vítor Rua na guitarra de 18 cordas e eletrónica, e Tom Chant no saxofone soprano, cada um dos três CD conta com um convidado de peso, na bateria: Sunny Murray, protótipo da bateria “free”, no primeiro, Eddie Prévost, elemento da mítica formação AMM, no segundo, Gerry Hemingway, “avant-gardista” e “sideman” de Anthony Braxton e Marilyn Crispell, entre outros, no terceiro.
            Nada de novo nem de particularmente excitante acontece nesta ressurreição do espírito libertário dos anos 60, um “tour de force” que, para além de mostrar Lima Barreto em arroubos de lirismo pianístico (no intervalo dos omnipresentes “clusters”), tem como principais focos de interesse as conversas travadas entre o saxofone de Chant e as percussões livres de Murray, Prévost e Hemingway. Chant que, no disco 3, chora encostado ao piano, com Hemingway a desmultiplicar-se nos efeitos percussivos, naquele que será um dos momentos mais conseguidos de “Quartetos”.
            Mas o “free” era uma guerra. A luta pela liberdade em nome de uma causa. É difícil descortinar nestes “Quartetos” mais do que cicloturismo ao redor do parque dos clichés em que certa música improvisada é fértil. No jazz grande, o gesto vale enquanto manifestação ou manifesto de uma necessidade ou motivação profunda. “Quartetos” é grande na luta contra o tempo, esperando que o milagre aconteça.
            Comparada com as de Sei Miguel e dos Telectu, a música de Jacinta é um refresco. A nova “coqueluche” do canto jazzístico português, senhora de uma voz grave e com razoável controlo de modulações, presta no seu álbum de estreia — impressa na subsidiária nacional do prestigiado selo Blue Note — homenagem à
rainha dos “blues”, Bessie Smith.
            “A Tribute to Bessie Smith”, com produção de Laurent Filipe, mostra uma voz empenhada em revitalizar e recriar com sucesso (“Outro segredo de Jacinta: ser intérprete, logo autora”, escreve José Duarte nas notas de apresentação) o “jazz” na sua costela mais emotiva — com um ou outro sopro “lounge”, uma corrida pelo rhythm’n’blues e a assunção dos “blues”, mesmo, numa balada tão tocante como “Baby won’t you please come home”. Conta com notáveis participações instrumentais, nomeadamente de Mário Santos, nos saxofones e clarinete baixo, Greg Moore, no trombone, e de um Rodrigo Gonçalves capaz de percorrer ao piano uma gama larga de subtilezas e contrastes.
            A “A Tribute to Bessie Smith” só faltará o drama que apenas a vida concede ou retira a cada um. Mas como desejar um fado e um fardo assim a quem, como Jacinta, coloriu desta maneira o jazz feito em Portugal, com a felicidade do seu sorriso e uma alma aos caracóis?
            De volta ao jazz mais urbano depara-se-nos “Fast Living”, com assinatura do guitarrista Pedro Madaleno (também nos sintetizadores), em quarteto com Ruben Alves (piano e teclados), Yuri Daniel (baixo acústico e elétrico) e Dejan Terzic (bateria).  Não será por aqui que se encontrarão motivos que permitam descortinar novos sons e novas terras para o jazz, mas o que o guitarrista e os seus companheiros fazem fazem-no bem. Trata-se de “jazz rock”, inspirado nos mestres americanos como Weather Report ou Return to Forever, mas também na abordagem mais “snob” e progressiva da corrente inglesa de Canterbury personificada por grupos como os Soft Machine, Hatfield and the North ou National Health (temas como “Alien visitor” ou “What intelligent thing?” são bem ilustrativos desta tendência).
            Já em “Spirit of the world” e “Late night in Hamburg” o estilo guitarrístico de Madaleno lembra o do holandês Jan Akkerman, dos Focus, enquanto “Different places to go” denota a influência de John Scofield. Mesmo não estando isento da “comercialite” fácil, que é pecado em que amiúde incorre o “jazz rock”, “Fast Living” pertence àquela categoria de discos que não magoa nem maltrata o jazz, mais preocupado em distrair e provocar boas vibrações do que em deitar as garras de fora.

Sei Miguel
Ra Clock
Ed. e distri. Headlights
8 | 10

Telectu
Quartetos
3xCD Clean Feed, distri. Trem Azul
6 | 10

Jacinta
A Tribute to Bessie Smith
Blue Note, distri. EMI-VC
7 | 10

Pedro Madaleno
Fast Living
Edição de autor
6 | 10

09/12/2008

"Tive uma colisão muito grande com as pessoas do jazz" [Jorge Lima Barreto]

Pop Rock

22 Janeiro 1997

Jorge Lima Barreto lança um álbum novo e reedita dois antigos

“TIVE UMA COLISÃO MUITO
GRANDE COM AS PESSOAS DO JAZZ”

No seu novo disco, mais um, dos Telectu, intitulado “À Lagardère”, a banda de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua conta com a participação do trompetista Jac Berrocal. Em paralelo, acabam de ser reeditados os dois primeiros álbuns da Anar Band, entre os quais “Encounters”, com Saheb Sarbib. Para ler, há também um novo livro, “Musa Lusa”. Um período em cheio para Jorge Lima Barreto que continua imparável na sua marcha em direcção a uma utopia.

“À Lagardère”, “Anar Band” mais “Encounters”. 20 anos separam as duas edições. 20 anos separam o tempo em que Jorge Lima Barreto martelava as teclas de um piano em Cascais, dos dias de hoje, em que o músico musicólogo do Porto atrai para a música dos Telectu a nata dos improvisadores da cena internacional. No fundo, trata-se apenas de pôr em prática a “capilaridade” que existe entre estes sons e estes músicos. Como o próprio explica em entrevista ao PÚBLICO.
PÚBLICO – Depois de Elliott Sharp e Chris Cutler, os Telectu voltaram a gravar com outro nome importante da música improvisada, desta feita o trompetista Jac Berrocal. Como surgiu esta colaboração?
Jorge Lima Barreto – O Berrocal é um músico francês que trabalhou com o Daunik Lazro que, por sua vez, fazia parte do grupo de Saheb Sarbib quando este vivia em França. Daí que eu tenha mantido sempre uma relação estreita com esse círculo musical. Por outro lado, o Berrocal está muito ligado à “performance”, esteve nas Caldas da Rainha, num certame de música alternativa, ao lado do Jorge Peixinho, entre outros músicos. Quando nos foi propiciado convidar um músico para trabalhar connosco num concerto na Casa de Serralves, no Porto, ele veio, sentimos que a coisa era conciliável do ponto de vista do estilo e a partir daí ele já fez uns sete ou oito concertos connosco. Para este disco, preparámos, no Festival de Guimarães, um quarteto com ele e com o Louis Sclavis. O Jac ficou cá mais uns dias, o que nos proporcionou seguirmos para Espinho para gravar na Numérica.
P. – Esta estratégia de intercâmbio com músicos convidados não obriga à modificação constante de estilo dos Telectu?
R. – Neste tipo de música, improvisada, existe uma capilaridade muito grande, uma troca constante entre as figuras musicais. O Zíngaro, por exemplo, toca e grava com diversos músicos. Por outro lado, vão-se criando afinidades, uma troca de situações que é muito importante. Tocar com um baterista como o Cutler é diferente de tocar com outro, como o Paul Lytton. Para nós é um engrandecimento da nossa própria experiência.
P. – Mas não existe o perigo de as pessoas não conseguirem reconhecer aquilo que pertence intrinsecamente aos Telectu?
R. – Respondo com outra colaboração. O Daniel Kientzy estava para vir tocar com o Jorge Peixinho. O Jorge Peixinho morreu e eu fui falar com ele, aliás ele é que se dirigiu a mim, porque queria fazer a divulgação do disco dele com o Peixinho. Veio cá a casa, conversámos e disse-lhe que estávamos para ter um concerto de música improvisada nas Festas da Cidade. Foi ele mesmo que disse que queria improvisar connosco. Tocámos, ele gostou, e criou-se um núcleo Kientzy/Telectu para a realização de vários concertos. E convidou-nos para gravar em Paris com ele. Do nosso lado procurámos criar um tipo de situação sonora a pensar num homem que é multi-instrumentista de sopros. Mas quando é com o Cutler, um baterista, a coisa é completamente diferente. Exige outro tipo de planificação. Mas se reparar, há da nossa parte um trabalho de composição em que estabelecemos um determinado número de premissas para as coisas se realizarem. Nunca é improvisação absoluta. Depois, repare, um compositor contemporâneo pode compor para quarteto de cordas, para percussão, para sopros, para electrónica, situações que levam quase a uma mudança de identidade. Mas, por outro lado, sentimos que há qualquer coisa, talvez indefinível, uma coerência nas várias situações que descrevi.
P. – Os últimos álbuns, e o novo, em particular, denotam uma certa fixação no ambientalismo…
R. – … Um lado mais modal, sim…
P. – Um tema como “Baccarah caril” lembra fortemente a estética de Brian Eno, em “On Land”…
R. – Sim, pode haver uma relação. No novo disco houve uma escolha de escalas, uma espécie de fórmula modal, a partir da qual se desenvolveu uma temática que, por outro lado, depende da instrumentação, umas vezes do sintetizador, outras do piano, daí que tenham resultado estruturas muito mais melódicas. Mas não fazemos isso no sentido de uma imitação.
P. – Em paralelo com a edição do novo disco com Jac Berrocal, foram reeditados, num compacto simples, os dois primeiros trabalhos da Anar Band, o segundo deles, “Encounters”, em colaboração com Saheb Sarbib. Há aqui o desejo de uma reapreciação estética destes discos ou, simplesmente, a perspectiva do arquivista histórico?
R. – Nos anos 70 estes dois discos foram os únicos que existiram neste tipo de música, improvisada. O disco com o Sarbib, por exemplo, era para ser gravado com o quarteto do Pinho Vargas. Foi na época em que Rão Kyao costumava vir a minha casa e em que gravou o “Goa”. Nessa altura eu tinha tocado em Cascais, em 1974, em piano e banda magnética, um tipo de propostas absolutamente iconoclastas. Quando sugeri ao Sarbib fazermos um “replay” dos temas, tocar por cima do que já estava tocado, foi a primeira vez que aqui se fazia esse tipo de experiência, embora Bill Evans já o tivesse feito lá fora. Era um tabu para as pessoas do “jazz”. Nesse tempo estavam a “rebentar” as músicas improvisadas, as quais estavam a divergir do “jazz”.
P. – Passados 20 anos, como é que ouve estes dois discos?
R. – É complicado. Não vou falar em sentimentalismo… No caso do disco só da Anar Band, ouço, embora haja coisas que até passo à frente, mas, de resto, foi muito gratificante, em particular o trabalho no piano, nas cordas do piano, que julgo ter sido bastante original. No caso do “Encounters”, é completamente diferente, uma vez que se tratava de um grande músico, como é o Sarbib, que na altura estava na pujança do seu estilo, em particular com aquele som do contrabaixo, semi-amplificado, que, além deste, só se encontra em mais dois ou três discos dele. Ainda em relação ao “Anar Band”, está dividido em dois lados. O primeiro acho-o marcante, em termos de intervenção de um estilo de piano que ainda hoje pratico nos concertos. No outro lado, só com o sintetizador, aí é que ponho certas reticências, já que algumas abordagens parecem pretender insinuar coisas que depois se desenvolveram muito. Por exemplo, o minimalismo, ou certo tipo de automatismos que teriam, então, paralelo com o rock alemão. A estratégia de divisão em temas separados é que não terá sido a mais correcta, já que ao vivo eu costumava tocar apenas uma longa composição electrónica. Mas existia o prazer da manipulação do sintetizador analógico, o A.R.P. Odyssey. Agora há aí o “hip hop” em que se está de novo a utilizar o analógico e as mesmas marcas… Com os Anar Band utilizava uns painéis que recortava e sobrepunha, em cada composição, numa espécie de palimpsesto.
P. – A provocação era parte integrante da proposta estética dos Anar Band?
R. – Lembra-se daquele festival em Sintra, em que fizemos a primeira parte do concerto do Michel Portal? [N. R. : Lembramo-nos, e de que maneira! A actuação do grupo de Portal permanece na nossa memória como a mais extraordinária assunção de “música total” a que alguma vez assistimos.] A nossa proposta foi, nessa ocasião, extremamente provocadora. Quanto ao disco, é difícil compará-lo com qualquer outro tipo de realidade. Não são visíveis influências.
P. – Por último, mais um livro, “Musa Lusa”, no qual, mais do que dissertar sobre música, analisa os seus meios de produção e divulgação…
R. – É um livro mais de consulta. Também vou editar proximamente um outro, “O Siamês Telefax Stradivarius”, na Campo de Letras, do Porto, que é um desenvolvimento deste, sobre aquilo que eu considero ser a cultura dos “media”. Hoje temos uma cultura que nos é fornecida pelos “media”. A música está inclusa nesse tipo de cultura.
P. – Os seus trabalhos no domínio da escrita têm, por norma, causado uma certa polémica. Isso deve-se à manutenção de um estatuto de “marginalidade” no interior do sistema ou a um menor rigor no tratamento dos assuntos abordados?
R. – No caso da minha escrita, ou da minha atitude perante a música e da sua situação social, tem existido uma relação bastante desgastante com alguma crítica, mas isso acontece em todos os lugares. No meu caso, tive uma colisão muito grande com as pessoas do “jazz”, porque, na altura, tentava impor o “free jazz”. Depois veio a música minimal, da qual também fiz uma grande divulgação, e essas posições originam sempre uma reacção. Entra-se em confronto com essa reacção.
P. – Mas não reconhece haver um certo fundamentalismo no modo como expõe as matérias?
R. – Se não fosse assim, ninguém fazia nada. Por exemplo, um actor de teatro que queira desenvolver uma nova linguagem ou alguém, do cinema, que queira mostrar cinema experimental. Alguém, ainda, das artes plásticas, que pretenda mostrar o novo subjectivismo na pintura, tudo situações de hoje. Ou a divulgação da pós-modernidade, que agora acontece na música, a explicação dos seus fenómenos, cada vez mais complexos, labirínticos. Está-se a explicar aquilo que nos rodeia. E o que nos rodeia é uma cultura mediática, que nos é inculcada pelos “media” e leva as pessoas a estarem atrasadas. No sentido em que não têm sequer contacto ao que se faz de novo. As massas, o grande público, estão acantonadas, isoladas, das coisas novas que aparecem. Devido a esse isolamento, quando elas aparecem, não as compreendem.

15/10/2008

Vários - Vidya

Pop Rock

13 MARÇO 1991

VÁRIOS
Vidya
LP, Potlatch

Projecto de Vítor Rua, dos Telectu, gravado entre os meses de Janeiro de 1990 e 1991, no estúdio caseiro de Nuno Rebelo, e que inclui praticamente todos os músicos de algum modo conotados com aquilo a que poderíamos chamar “cena ‘underground’ lusitana”. 19 temas, sem título, organizam-se numa montagem em que sucessivamente vão intervindo os diversos participantes: Vítor Rua, Jorge Lima Barreto, Elliott Sharp (num excerto gravado ao vivo na sua recente actuação ao lado dos Telectu), Carlos Zíngaro, Saheb Sarbib, Miguel Azguime, D.W.Art, Sei Miguel, João Peste, Nuno Rebelo, Luís Desirat, Rodrigo Amado, Rafael Toral, dois Osso Exótico, Tó Zé Ferreira, Rui Azul, Miguel Megre, Fala Miriam, Bruno Rascão, João Paulo Feliciano, Paulo Eno e o duo Duplex Longa. Música experimental, ambiental, industrial, numa colagem de géneros e estilos que tem pelo menos a virtude de lutar, em termos estéticos, contra a normalização vigente. Há momentos excelentes, outros nem tanto. Dos primeiros, realce para: a “raga” electrónico-industrial dos Telectu, no tema nº5; os ambientes muito jon-hasselianos do tema seguinte, como suporte para as divagações violinísticas de Carlos Zíngaro; o solo percussivo de Miguel Azguime, no tema nº8; os zumbidos eléctricos de Paulo Eno, controlados por Rua num encosto aos Nurse With Wound no tema nº9; a dança das vocalizações fantasmagóricas de João Peste com o computador de Rua, no nº11; os ambientalismos obscuros e estruturais de Rua, Tó Zé Ferreira e Nuno Rebelo, nos temas nº14 e 15; o breve caos controlado que alia os King Crimson de “Red” à vertigem Naked City do tema nº17, pelos Duplex Longa; a apropriação das Frippertronics por Vítor Rua, que encerra o disco. Para o fim, o momento mais brilhante, aquele que abre o segundo lado – cruzamento dos Residents com fragmentos melódicos de “Strangers in the Night”, tocados por um Rua que soube aprender os ensinamentos do malogrado Snakefinger, valorizado pelas notáveis prestações de Rui Azul, na electrónica e no solo de sax tenor. A vanguarda começa a organizar-se em Portugal. ****

13/09/2008

Telectu - Evil Metal

POP ROCK

27 DEZEMBRO 1992
DISCOS PORTUGUESES DE 1992
ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal
Edição Área Total

Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J. A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas electrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott Sharp aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.
“Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.

26/07/2008

Telectu - Telectu, Cutler, Berrocal

POP ROCK
15 de Novembro de 1995

Álbuns portugueses

Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal
ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY

Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto/Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo consiste em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido das limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, entre o litúrgico, o magmático e a música concreta, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Paolo. (7)