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13/05/2026

V/A - "Tom's Album"

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VÁRIOS
Tom’s Album
LP/CD, A&M, distri. Polygram

 


“Tom’s” é o nome de um restaurante da zona alta de Manhattan, onde Suzanne Vega costuma tomar o pequeno-almoço. Uma série de acontecimentos ocorridos numa manhã chuvosa de 1982 levaram-na a escrever “Tom’s Diner”, canção incluída em “Solitude Standing”. Mais à frente, na mesma história, os DNA samplaram-lhe a voz e acrescentaram-lhe uma batida de discoteca. Da pilhagem resultou uma edição pirata que finalmente acabou por se tornar um disco oficial e um “hit” de razoáveis proporções. Nasceu da própria cantora a ideia de recolher e compilar em disco várias dessas versões de “Tom’s diner”, escutadas através de amigos, emissões radiofónicas, espetáculos em clubes, etc. Versões descritas por Suzanne Vega como “engraçadas”, “brilhantes” ou “estranhas”. Escutadas uma a uma, conclui-se que o primeiro adjetivo é o que melhor se lhes aplica. É engraçado ouvir “Tom’s diner” cantada em alemão por Peter Behrens e, mais engraçado ainda, em sueco, por Mats Höjer. É engraçada a versão reggae de Michigan & Smiley. Engraçadíssimas as vozes ao vivo dos Bingo Hand Job, a imitarem os instrumentos. Apetece dar gargalhadas e bater palmas com tanto rap, scratch e disco. “Tom’s diner” dá para tudo, até para tratar de uma “gravidez acidental” (Daddy’s little girl”, Nikki Sudden) ou da guerra do Golfo (“Waiting at the border”, Beth Watson). Ou para os italianos, especialistas neste tipo de operações, torpedearem os próprios DNA ao assinarem n.d.a…. (6)

 

20/10/2025

Os encantos da casta Suzanne [Suzanne Vega]

 cultura SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990

 

A autora de “Luka” canta hoje em Cascais e amanhã no Porto

 

Os encantos da casta Suzanne

 

Suzanne Vega canta hoje à noite no Pavilhão de Cascais e amanhã no Coliseu do Porto. O PÚBLICO foi ouvi-la a Madrid e antecipa o que pode suceder nos concertos portugueses da cantora nova-iorquina. Os madrilenos gostaram muito.

 



Suzanne Vega entusiasmou os cerca de dois mil que se deslocaram, quarta-feira, a uma discoteca erguida num cenário de Disneylândia durante pouco mais de uma hora. Na voz da cantora, Nova Iorque pareceu uma cidade onde apetece sonhar.

            Para falar verdade, nem sequer foi em Madrid, mas sim no Parque Sur, local de diversão, uma espécie de Disneylândia, situado a sul da capital. O concerto propriamente dito realizou-se numa discoteca algures no interior do Centro Comercial do Parque, a Universal Sur. “Madrid es Universal”, explicavam os dizeres impressos nas “t-shirts” da organização, tentando compensar, com o trocadilho, o desinteresse a que o acontecimento foi votado, na capital. Em Madrid, nenhuma excitação. Nem um cartaz.

            Steve Rooker era o nome agendado para a primeira parte (e não Peter Blegvad como se espera que aconteça, hoje à noite, no Pavilhão de Cascais e, amanhã, no Coliseu do Porto), que afinal não tocou. Ninguém deu pela falta, entretidos que estavam todos a acompanhar, num ecrã gigante instalado no local, a transmissão direta do encontro de futebol Barcelona-Real Madrid. Ganhou o “Real” por um a zero e Suzanne teve de esperar.

            O ambiente da “Universal” ia-se compondo e aquecendo gradualmente. Enquanto o espetáculo não começava, cada um fazia o que podia para dar nas vistas, com a discoteca transformada em “passerelle”. Eles, maioritariamente de jeans e blusão de cabedal ou kispo “Michelin”. Elas, de casaco comprido de pele, (des)cobrindo saias quase inexistentes. Tudo farpelas impecáveis, com ar de terem sido acabadas de comprar no “Corte Inglês” ou nos “Preciados”. Entre a Madrid Universal e o que se espera para Lisboa e Porto, interpõe-se a Europa e a sobranceria da peseta…

            Contrastando com a ousadia das “chicas”, Suzanne Vega surgiu em palco envergando um vestido de grávida, ar casto e a pose “Bon Chic Bon Genre” que a caracteriza. “Atacou” em força com dois temas do recente “Days of Open Hand”, “Dust in the Pipeline” e “Tired of Sleeping”, num registo mais duro do que no disco. Pausa para cumprimentar o público, com o “Olá Espanha” da praxe. Quando mencionou a sua proveniência nova-iorquina todos aplaudiram, mostrando, uma vez mais, até que ponto são exigentes “nuestros hermanos”.

            Não foi preciso muito tempo até a assistência se render sem condições, acompanhando com palmas cada canção, uma delas cantada por Suzanne Vega sem qualquer apoio instrumental, como que querendo demonstrar por que motivo é hoje considerada uma das melhores vozes da música popular americana, pesem embora, na ocasião, as deficiências do som e a pobreza de um show de luzes limitado aos triviais focos coloridos.

            Se Suzanne Vega consegue cativar, não é decerto pelo lado do espetáculo, mas somente pela comunicação que a sua voz consegue estabelecer e pela excelência das canções. Confinando o jogo cénico a um tímido bailado sobre o palco, as atenções concentram-se no rosto pálido e no corpo franzino, presas às entoações encantatórias da voz. A autora de “Luka” sabe como criar uma atmosfera intimista, não fazendo jus ao apelido de estrela, apelando ao invés à participação da assistência.

 

Sem sombra de pecado

 

            Ao referir-se a Nova Iorque como cidade emblemática do medo e da violência, Suzanne fez um sorrido suave e afirma que é isso que a excita. Cultiva, por outro lado, a aparência frágil e a pose cândida que a tornam como que a emanação angelical do caos urbano. Nela, temas ou palavras mais duras ganham uma carga poética e uma consistência quase irreal; como se toda a violência do mundo pudesse ser vencida, por força do cantar.

            Conquistando o público, só faltava o golpe final traduzido na sequência final, com “Luka”, “Solitude Standing”, “Book of Dreams” e “Men in a War”. Voltou ao palco para dois “encores”, num deles cantando de novo sem o resto da banda, em contraponto com uma frase rítmica, marcada (no tempo certo) por todos os presentes, em coro.

            A Madrid Universal despediu-se da cantora, em apoteose. Se bem conhecemos o calor e o comportamento habitual das audiências portuguesas, é caso para acreditar que por cá vai ser ainda melhor. “Seguramente”…

13/10/2025

Vega, a estrela de Natal [Suzanne Vega]

 CONCERTO

 

VEGA, A ESTRELA DE NATAL

 

É de Suzanne a voz da estrela Vega. Quente e suave, ardendo calmamente no íntimo de quem por ela se deixa guiar. Gravou até à data três álbuns, mas tem já reservado um espaço só para si na Estrada de Santiago que une o coração aos sons.

 


Nasceu, em termos artísticos, no seio da cena folk da Costa Leste americana. Cedo se fez notar, pelo inusitado do timbre vocal, bem como por uma escolha criteriosa e personalizada do reportório – canções intimistas, mágicas, esboços surrealizantes, em certos momentos contrariados pelo registo brutal da realidade concreta, como em “Luka”, do álbum “Solitude Standing”, na qual narra, em tom dorido, os maus tratos paternais infligidos a uma criança.

 

A idade adulta

 

            Do disco estreia, “Suzanne Vega”, as multidões fizeram seus os temas “Marlene on the Wall” e “Small Blue Thing”, presas às juvenis e jubilosas entoações da então estreante de olhar inocente e assustado, receosa das armadilhas que o mundo arma, atónita perante o retumbante sucesso que logrou alcançar.

            “Solitude Standing” assinala a entrada na “idade adulta”, através de uma maior contenção acompanhada de um mergulho nas imensidões interiores. O seu universo passou a reger-se por outras coordenadas, segundo lógicas menos lineares a que se acede somente por estradas labirínticas. Excetuando “Luka”, as canções de “Solitude Standing” organizam-se, de forma coerente, em volta de núcleos temáticos menos óbvios, aos quais a complexidade dos arranjos acrescenta uma maior riqueza instrumental.

            Se “Solitude Standing” é o álbum da maturidade, o seguinte “Days of Open Hand” aprofunda ainda mais a faceta intimista, povoada de sombras e cintilações misteriosas do universo musical da cantora, liberta por fim, na exploração metódica das suas próprias fantasias. Temas ainda ligados à miséria do mundo, cantados por palavras que, sem fazer muita força, põem o dedo em algumas das suas feridas (casos de “Men in a War” e “Fifty-fifty chance”), são exceção, num leque caleidoscópico de emoções permeáveis aos exotismos trazidos para a sua música pela mão de Glen Velez, Richard Horowitz, Michael Blair e Philip Glass.

 

Excentricidade britânica

 

            Convém chegar ao Dramático a tempo e horas de assistir à primeira parte do concerto, preenchida pela atuação de Peter Blegvad, excêntrico genial, que decerto irá fazer das suas. Não é por enquanto, pelo menos entre nós, um nome muito conhecido. Injustamente, diga-se, tendo em conta a excelência do álbum mais recente, “King Strut and Other Stories”, o primeiro distribuído em quantidades aceitáveis, no nosso país. Aqueles, no entanto, que vêm acompanhando de perto o seu percurso, desde os anos já longínquos dos Slapp Happy (ao lado de Dagmar Krause e Anthony Moore, precursores na atitude e na abordagem melódica da dupla Devine & Statton), e das aventuras experimentalistas no seio dos germânicos Faust, até ao rock escorreito dos Golden Palominos, sabem que assinou entretanto obras bem mais importantes, merecedoras de todos os encómios.

            “The Naked Shakespeare”, produzido por esse outro louco que dá pelo nome de Andy Partridge e, sobretudo, “Downtime”, gravado para a Recommended Records, na companhia de músicos dos Pere Ubu, são exemplos lapidares da arte de compor ótimas canções, à margem dos esquemas habituais e habitadas por um humor cáustico e surrealista, capaz de as transformar em exercícios brilhantes de sabotagem aos lugares-comuns da pop. Se em “King Strut” se acalma diante do horizonte à vista que é Bob Dylan, nos citados discos torna-se referência principal a típica excentricidade britânica, na Inglaterra genialmente personificada pelos grupos de Canterbury, nos finais dos anos 60.

            Suzanne Vega e Peter Blegvad formam uma combinação que promete. Veremos se o gigantismo e a frieza da sala serão suficientes para apagar o fogo que ambos são capazes de atear, na qualidade de astros de primeira grandeza, que, embora pertencentes a constelações diferentes, se equivalem na intensidade do brilho.

 
CASCAIS Pavilhão do Dramático de Cascais, 6ª, 7, às 21h30
PORTO Coliseu do Porto, sáb., 8, às 21h30.

 

FIM DE SEMANA SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990

 

25/01/2022

Suzanne Vega - Days Of Open Hand

Pop
 
FEITIÇO
 
SUZANNE VEGA
Days Of Open Hand
LP e CD A&M, Warner Bros, edição Polygram


 











            Vega é nome de estrela. “Fria” e cintilante como a voz de Suzanne, possuidora da estranha capacidade de nos prender nos confins do seu firmamento. Voz que lentamente se insinua e vai escorrendo pela alma adentro, aos poucos revelando recessos desconhecidos, inundando de luz o que antes era escuridão, como uma brisa fluindo por entre neblina e céus azuis. As canções de “Days of Open Hand” são leves como pólen, suaves e difusas como nuvens, transparentes, límpidas e com a cor de bolhas de sabão. Canções que não compreendemos mas sentimos, “Between the pen and the paperwork, I know there’s a passion in the language, between the muscle and the brain work, there must be feeling in the pipeline” (“Big Space”). Afastando-se de alguns terrenos mais concretos, como os da denúncia social, exemplificados no célebre “Luka” do anterior álbum, “Solitude Standing”, Suzanne Vega opta, neste seu novo trabalho, por uma abordagem mais difusa, entrecruzando sentimentos e pensamentos num “puzzle” de sons e palavras, apontando para múltiplas direções e tecendo uma complexa rede de formas e sentidos, como as de um caleidoscópio girando nas mãos de uma criança. O disco permanece, de ponta a ponta, fiel a um ambiente de mistério e serenidade, que nem as palavras mais fortes, de temas como “Men in a War” ou “Fifty-Fifty Chance”, conseguem quebrar. Suzanne esconde, ao mesmo tempo que revela, as suas preocupações e sonhos, em canções que se esvaem em vapores inebriantes, agarrando-nos por onde é mais difícil fazê-lo: por dentro, sem reservas e, por vezes, sem sequer nos darmos conta do feitiço. Para a construção de tal clima contribuíram, em grande parte, a produção da própria Vega, em conjunto com Anton Sanko, o homem das teclas e dos computadores, e a escolha criteriosa de um naipe de músicos, do qual sobressaem os nomes de Michael Blair, percussionista habitualmente ligado às experiências de fusão nova-iorquinas, Glen Velez e Richard Horowitz, respetivamente nos tambores e na flauta egípcia (no tema “Room Of The Street”) e John Linell, dos They Might Be Giants, que toca acordeão no tema de abertura “Tired Of Sleeping”. Philip Glass, que, a par de Michael Nyman, parece apostado em investir em força no negócio da música pop, mil vezes mais rentável que o das óperas, assina os arranjo das cordas em “Fifty-Fifty Chance”, ajudado de perto pelo inevitável Kurt Munkasci. Estes e mais uma mão-cheia de músicos, presentes na sessão, influíram decisivamente, de forma discreta mas incisiva, no resultado final de “Days Of Open Hand”, terceiro e, até agora, melhor disco da cantora. Uma palavra final para a capa, um belíssimo arranjo gráfico de uma fotografia de Suzanne, que talvez nunca tenha tocado no famoso clube CBGB, mas que, desde agora, se integra em definitivo como membro de pleno direito no não menos disputado BCBG, “Bom Chic Bom Genre”.
 
VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990

23/12/2016

Canções para os amigos [Suzanne Vega]

QUINTA-FEIRA, 17 JUNHO 1999 cultura

Concerto ameno no CCB

Canções para os amigos de Suzanne Vega

MAL SUBIU para o palco, com uma guitarra acústica e um sorriso tímido no rosto, Suzanne Vega foi recebida pelo público de Lisboa como uma filha mimada. Ao fim de poucos segundos – na primeira das suas duas apresentações em Portugal, a segunda aconteceu ontem, no Cinema do Terço, no Porto – a cantora nova-iorquina tinha toda a gente na mão. O seu sorriso de quem está em paz consigo mesmo, a sua simplicidade e o seu sentido de humor, amplamente exercitado nos apartes e nas histórias que foi contando, são desarmantes. Este foi, de resto, o aspeto mais interessante do concerto, o modo como a cantora estabelece comunicação com o público, através de um tom coloquial que emprega em simultâneo o didatismo, a improvisação e a desmistificação.
            Suzanne recordou episódios da sua vida passada, as suas viagens (as raparigas más, embora não seja bem o seu caso, ao contrário das boas, que vão para o céu, vão a todo o lado e não para o inferno...), pediu desculpa pelo longo afastamento dos palcos portugueses (já cá tinha estado há cerca de nove anos) e explicou por que razão o assunto de uma das suas canções não é, definitivamente, o pénis. Satisfeita com a resposta do público, convidou-o a seguir viagem com ela até aos próximos espetáculos. Houve quem gritasse logo que sim. Suzanne sentiu-se em casa, apaparicada, e relaxou. Acendeu a luz para as canções brilharem e elas mostraram a vida que as anima. A magia da sua presença fez o resto.
            Suzanne expôs-se, no modo como se apresentou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), armada apenas com uma guitarra acústica e as acentuações, no baixo elétrico, de Michael Visceglia. Arriscou a ganhou. Servida por um som que permitiu acompanhar em detalhe a letra de cada canção, a “cantora que tombou do céu”, como já lhe chamaram, passeou o seu “charme” por canções como “Marlene on the wall”, a abrir o concerto, “Small blue thing”, “World before Columbus”, “Rock in the pocket (song of David)”, “In Liverpool”, “Rosemary” e “Blood sings”, fechando com dois dos temas mais conhecidos, “Luka” e “Tom’s diner”, este último “a capella” e com o público a acompanhá-la com estalos dos dedos e a entoar com muito cuidado o refrão “hm hm hm hm hmhmhm”.
            Voltou para os encores, com mais uma série de exercícios de intimismo, entra as quais “The queen and the soldier”, uma canção que, ela própria não sabe bem porquê, agrada a toda a gente. Recompensada, afirmou que, por vontade dela, ficaria toda a noite a cantar canções de enfiada, se não tivesse ainda que apanhar o avião para o Porto. Canções que não perderam pitada da sua força no formato reduzido com que foram apresentadas, dando razão à sua autora quando, na entrevista ao PÚBLICO, declarava ser em primeiro lugar uma compositora e só depois uma cantora. Mais do que um concerto, a atuação de Suzanne Vega foi o reencontro de velhos amigos que, ao fim de uma longa e dolorosa separação, puseram a conversa em dia.

Inquérito a Suzanne [Suzanne Vega]

cultura QUARTA-FEIRA, 16 JUNHO 1999

Cantora nova-iorquina atua hoje no Porto

Inquérito a Suzanne

Depois de Lisboa, o Porto recebe hoje Suzanne Vega, a cantora a quem chamam “a garota de Nova Iorque” e “a mulher que tombou do paraíso”. Ela não se considera nem boa nem má rapariga, mas uma sonhadora. No seu livro de sonhos cabem o amor pela filha, Ruby, um livro de Emily Brontë, um filme com Marilyn e uma canção de Lou Reed.

Em vez da entrevista convencional, o PÚBLICO propôs a Suzanne Vega uma espécie de inquérito, que teve o condão de lhe provocar umas vezes surpresa, outras embaraço. Mas ela divertiu-se e nós também. Hoje à noite, no Cinema do Terço, às 21h30, é a vez de o Porto saborear a voz, as estórias e as canções de Suzanne Vega.
         PÚBLICO – Escolha três das suas canções para dedicar à sua filha Ruby.
            SUZANNE VEGA – “Birthday”, de “99.9 Fº”, “World before Columbus” e “Caramel”, ambas de “Night Objects of Desire”.
         P. – Mais uma para oferecer ao seu pior inimigo.
            R. – Oh, essa é das difíceis. Nunca escrevi para os meus inimigos. Embora “Rock in his pocket (song for David)” pudesse ser utilizada com esse fim…
         P. – Gostaria de ser lembrada como a Joan Baez dos anos 90?
            R. – Gosto imenso de Joan Baez, pelo seu envolvimento político e pelo humor. Mas não gostaria de ser comparada com ela porque é uma grande cantora e uma compositora razoável, enquanto eu prefiro ser recordada como uma excelente compositora com uma voz razoável.
         P. – Imagine que nunca tinha ouvido música rock antes. Sentiria hoje o mesmo impacto que sentiu na sua adolescência quando assistiu a um concerto de Lou Reed?
            R. – Provavelmente, sim. O que eu sempre achei interessante nele são as estórias por detrás das canções que, por regra, são tocantes. Não foi o som que me impressionou quando o ouvi pela primeira vez, podia estar a tocar uma guitarra ou um ukelele que não faria a mínima diferença. Não teve nada a ver com ser ou não música rock. Estou-me nas tintas para o rock.
         P. – Conte-nos uma boa história passada num restaurante famoso, o Tom’s Diner, que costumava frequentar e sobre o qual compôs, aliás, uma canção.
            R. – Famoso, agora, porque na época em que escrevi sobre ele era um local pequeno e sujo onde as pessoas iam beber café à noite. Depois tornou-se limpo e famoso. Há uns anos filmaram cenas da série de TV “Seinfeld” frente à fachada…
         P. – Qual dos rótulos se aplica melhor a si: “Bon chic bon genre” ou “As boas raparigas vão para o céu, as más vão para o inferno”?
            R. – [risos] Não me considero nem boa nem má rapariga. É uma pergunta delicada… Sou independente. Quando se está a crescer, as pessoas acham que somos bons ou maus, a mim disseram-me sempre que era uma pessoa enfiada no meu mundo, um mundo de sonhos.
         P. – Por falar em sonhos, qual é o seu sonho mais brilhante?
            R. – Deixe-me pensar… Ter mais dois filhos com quem a Ruby possa brincar. Levar a vida de que gosto, o que estou prestes a conseguir, com dinheiro suficiente para poder cantar e tocar apenas quando me apetece. O meu ritmo é lento, como tal gostaria de nunca ter que me apressar para chegar a algum lado. E atirar o relógio para o lixo.
         P. – O seu pesadelo mais sombrio?
            R. – Ser pressionada para passar de uma coisa para outra. Ter que me confrontar com as “deadlines” dos outros, fazer o que me dizem sem ter oportunidade de dialogar.
         P. – O seu desejo mais obscuro?
            R. – Não respondo. As perguntas estão a entrar num território demasiado pessoal! Talvez lhe conte alguma coisa daqui a uns dois ou três anos, se passar por aqui [risos].
         P. – No seu livro “Urgent Whispers” (“Murmúrios Urgentes”, ed. Assírio & Alvim), ao ouvir fado, escreve que a alma dos portugueses está nas canções que canta. A sua alma onde está?
            R. – Nas palavras, nas letras que escrevo. Um pouco, também, nas melodias que, regra geral, são tristes.
         P. – Paixão e amor são duas coisas diferentes? Uma pode existir sem a outra?
            R. – Uma pode existir sem a outra, embora de forma não satisfatória. É uma pergunta interessante porque estou, precisamente, a passar por um processo de separação. O meu casamento acabou e tenho pensado sobre esse tipo de questões.
         P. – Sexo virtual?
            R. – Existe, mas não é nada que eu recomende. É sexo apenas com a mente. Como um jogo de vídeo. Ou pornografia.
         P. – Monica Lewinsky e Bill Clinton. Quem é a vítima e quem é o culpado?
            R. – Oh, não! Para ser sincera, penso que foram os dois uns idiotas. Talvez tenha sido ele a vítima… Se considerarmos que ela lhe apareceu, logo ao primeiro encontro, vestida apenas com roupa interior… Do que é que ela estava à espera? Por outro lado, ele mostrou ser um homem que não se consegue controlar nesse género de questões… O tratamento jornalístico dado ao caso é que foi completamente desapropriado, fora de controlo. A vítima real acabou por ser Hillary Clinton.
         P. – Mário Soares, ex-presidente de Portugal, conhece e gosta da sua música. E Bill Clinton?
            R. – Não deve ligar nenhuma, tem outras coisas em que pensar, acredite! Mas sei, através de uma carta que recebi de Tipper Gore, mulher do vice-presidente, que ela gosta imenso de “Luka” e ainda ouve o meu segundo álbum, “Solitude Standing”.
         P. – Um crítico referiu-se a si uma vez como “a rapariga que tombou do paraíso”. Agora que já conhece bem o planeta Terra, sente-se melhor aqui ou tenciona voltar para o céu?
            R. – A Terra é ok, já me habituei.
         P. – “O paraíso é um lugar onde nunca acontece nada”, escreveu David Byrne numa das suas canções. Concorda?
            R. – Não penso assim. Seria demasiado chato. A minha filha, de quatro anos, disse-me esta manhã que chegou de Vénus (risos)…
         P. – “The girl from Ipanema” é uma das suas canções favoritas. Considera-se “The girl from New York”, como alguém já lhe chamou?
            R. – Claro! Adoro ouvir isso! Há milhões de raparigas em Nova Iorque, quem é que não gostaria de ser encarado como símbolo da cidade?
         P. – Com qual destas artistas gostaria de trabalhar: Laurie Anderson, Joni Mitchell ou Rickie Lee Jones?
            R. – Provavelmente, Laurie Anderson. Gosto muito de Rickie Lee Jones, com quem já me encontrei em diversos concertos. Mas com Laurie, sinto que somos compatíveis. Já foi minha vizinha e tomei o pequeno-almoço várias vezes com ela. Tem uma personalidade avassaladora. Mesmo quando está a falar de coisas simples, é uma pessoa interessante de observar e de ouvir.
         P. – E dos homens: Stan Ridgway, Tom Waits ou Tim Buckley, se ainda fosse vivo?
            R. – Stan Ridgway! É fantástico, além de ser um excelente contador de histórias, os seus espetáculos têm uma força impressionante. Assisti uma vez a um deles e fiquei completamente de rastos. Tom Waits tem uma personalidade demasiado egocêntrica e carismática para partilhar o palco com mais alguém.
         P. – Mitchell Froom (marido e produtor dos dois últimos álbuns da cantora, “99.9 Fº” e “Nine Objects of Desire”) mudou mais a sua música ou a sua vida?
            R. – Mudou ambas. E hoje mais do que nunca por causa da nossa filha. Na música, ajudou-me a trazer à superfície algo que já existia antes mas estava escondido, uma qualidade abrasiva e facetas de alienação, de violência. Encontrou o som certo para as minhas palavras.
         P. – Philip Glass, no seu estatuto atual, capaz de escrever uma ópera todos os dias, é um génio ou um chato? Não precisa de responder…
            R. – Outra pergunta interessante, sou fã dele, por isso claro que é um génio. Uma vez cometi o erro de levar o flautista do grupo a um concerto dele. Não conseguiu suportar mais do que 15 minutos. Claro que às vezes poderia compor coisas com menos de duas horas de duração… Um dos meus discos favoritos é “Mishima”. No ano passado assisti a um concerto em que apresentou a sua versão de “Low”, de David Bowie. Achei fantástico. Está cada vez melhor com a idade.
         P. – Gostou do modo como ele trabalhou as suas canções em “Songs from Liquid Days”?
            R. – Na altura soaram-me um bocado estranhas. Lembro-me de ter torcido o nariz e pensado que eu teria feito de outra maneira. Mas não me competia a mim decidir.
         P. – Se conseguisse escapar ao fim do mundo que livro levaria consigo? Disco? Filme? Canção? E uma das suas canções?
            R. – Livro: “O Monte dos Vendavais”, de Emily Brontë. Disco: “The Songs of Leonard Cohen”, de Leonard Cohen. Filme: teria que ser alegre o que é difícil já que tenho tendência para gostar de filmes sombrios como “Repulsa”, de Roman Polanski. “Rebeca”, de Hitchcock, também é bastante bom mas deprimente. Talvez “There’s no Business like Showbusiness”, com Marilyn Monroe. Sim, levaria esse. Canção: “Walk on the wild side”, de Lou Reed. Das minhas: “The queen and the soldier”, por qualquer razão, as pessoas das mais diversas culturas parecem compreender e gostar dela. Tornou-se ainda mais popular do que “Luka”.
         P. – Ainda vai ter tempo para gravar um novo álbum?
            R. – Espero que sim. Mas vou ter que andar depressa. É a maior “deadline” de sempre (risos). Espero ter todas as canções prontas até Outono e fazer sair o disco na Primavera.
         P. – 99,9º graus Fahrenheit de febre. Que acontece quando se chega aos 100?
            R. – Começa-se a alucinar. É quando percebemos que estamos realmente doentes.
         P. – Uma das suas canções chama-se “Tired of Sleeping”, “cansada de dormir”. Alguma vez se sentiu cansada de estar acordada?
            R. – Constantemente! Apesar da canção, nunca fico cansada de dormir. Quem me dera dormir mais! É algo que não tenho feito nos últimos tempos. Desde que a minha filha nasceu, há quase cinco anos, não consegui dormir duas noites seguidas.
         P. – Alguém lhe oferece uma fortuna para fazer um concerto só com versões instrumentais. Aceitaria o desafio?
            R. – Não. Porque não teria muito sucesso. Tudo o que existe de importante nas minhas canções está nas letras. Seria um concerto chato e as pessoas pediriam de volta o dinheiro dos bilhetes. Os organizadores iriam à falência e eu nunca mais poderia voltar a trabalhar.


20/09/2016

Os desejos da casta Susana [Suzanne Vega]

SUZANNE VEGA ATUA NO PORTO E EM LISBOA

OS DESEJOS DA CASTA SUSANA

Vega é nome de estrela. Ela evita sê-lo. "Pálida", "etérea" e "transparente", como já lhe chamaram, Suzanne Vega continua a observar o mundo através de um prisma aguçado por lucidez em demasia e alguma insegurança. "Há uma parte de mim que sente que talvez tenha feito alguma coisa errada para me ter tornado tão popular", garante, com uma ponta de ironia. Volta a Portugal na próxima semana. Para nos oferecer os seus objetos de desejo.

PARA ESTA cantora norte-americana de 40 anos que professa a doutrina budista e admira Simone de Beauvoir mas que afirma adorar Nova Iorque, porque o medo e a violência que varrem a cidade lhe provocam excitação, o sucesso chegou devagar mas com firmeza. Cinco álbuns foram mais que suficientes para a colocar num dos pedestais da música popular deste século. Provavelmente ao lado de Leonard Cohen, a sua alma gémea.
            Hoje, Suzanne Vega, quer queira quer não, é uma estrela. Os seus fãs assediam-na diariamente com centenas de cartas. De dois géneros diferentes, representativas do tipo de emoções que a sua personalidade desencadeia: as que começam por "I want to fuck you" e as que começam por "I want to kill you".
            O brilho de Suzanne Vega é anunciado em 1987, com o sucesso, à escala planetária, de "Luka", uma canção do seu segundo álbum, "Solitude Standing", sobre um rapaz submetido a maus tratos pelos pais. Ao mesmo tempo a jovem Suzanne, filha de pais incógnitos, procura o seu pai biológico que encontra, finalmente, na pequena cidade de Newport Beach, na Califórnia. Imagina-o como todas as crianças imaginam os seus pais: perfeito.
            A realidade, porém, mostra-se diferente. O pai é um homem gordo, de bochechas salientes. "Impossível chamar-lhe papá", desabafa. Prefere imaginar como pai um tio, que vê numa fotografia. "Um indivíduo alto, pálido e magro" que morrera anos antes, alcoolizado. Suzanne Vega fixa-se nessa imagem e dedica-lhe uma canção, "Blood sings". "Tinha os mesmos lábios que eu", recorda. É o princípio de uma visão em que a realidade se confunde com o sonho, o voltar da primeira página do seu "Book of dreams" particular. Anos depois uma mulher envia-lhe um pacote com aparas de unhas, cabelos e uma amostra de sangue, garantindo ser a sua mãe biológica. Suzanne entra em paranoia. "Agora já não me sinto segura de mim. A prova é que há cada vez mais médicos nas minhas canções. Antes eram soldados". A febre sobe aos "99,9º F", temperatura do corpo humano ligeiramente acima da normal que dá título ao seu álbum de 1992.

“Sem refrão nem melodia”

            Filha adotiva de uma norte-americana e de um porto-riquenho, Suzanne Vega vive a sua juventude no Harlém hispânico. Aos 9 anos descobre que aqueles não são os seus pais verdadeiros. Aceita com dificuldade a ideia de ser branca. Começa a compor canções aos 14 anos. Sobre temas incómodos como o isolamento, a violência e a amputação, mas em que o distanciamento e o simbolismo estão presentes. A revolta e o sonho moldam a sua personalidade musical. Assiste pela primeira vez a um concerto de rock, de Lou Reed, com quem aprende que é possível compor uma canção "sem refrão nem melodia", características que considera "limitativas".
            Quando "Luka" alcança o êxito que se conhece Suzanne opõe-se com tenacidade ao seu aproveitamento em campanhas humanitárias: "Seria oportunismo". Em vez disso a cantora procede como uma pintora: "Tento dar aos sentimentos das pessoas forma, cor e textura".
            Após um período de rodagem nos clubes folk de Greenwich Village, grava em 1985, com Lenny Kaye (ex-guitarrista de Patti Smith) o seu álbum de estreia, "Suzanne Vega", envergando ainda as vestimentas militantes das cantoras folk de protesto dos anos 60, como Joan Baez, Joni Mitchell, Judy Collins, Laura Nyro ou Melanie. Mas na sua voz percebe-se já uma combinação original de pureza, calor e inquietação. Deste álbum sobressai a primeira de grandes canções, "Marlene on the wall".
            "Solitude Standing", o álbum seguinte, gravado dois anos mais tarde, inclui "Luka" e abre-lhe as portas para outros voos. As suas canções estendem-se ao cinema ("Left of center" é incluído na banda sonora de "Pretty in Pink", de Howard Deutch) e imiscuem-se no minimalismo de Philip Glass, no álbum mais comercial deste compositor, "Songs from Liquid Days".
            "Book of dreams" e "Tom's Dinner" (um bar situado na rua 102, na Broadway, que Vega costuma frequentar) fazem parte do grupo das canções arquetípicas deste álbum. A última delas acabaria por se tornar num "hit", após ter sido samplada pela banda "no wave" DNA. Em 1991 seria editado um álbum só de versões deste tema, "Tom's Album", pelos R. E. M., Nikki Sudden e Beth Watson, entre outros.
            "Days of Open Hand" (1990), "99,9º F" (1992, produzido por Mitchell Froom, com quem casou) e "Nine Objects of Desire" (1996) fazem a transição da menina mal comportada dos primórdios para uma observadora atenta e concentrada no envolvimento instrumental das suas canções. Se "Days of Open Hand" ilustra este crescente interesse pela forma, "99,9º F" representa a primeira incursão sem entraves nos territórios da música eletrónica, enquanto "Nine Objects of Desire" se pauta por um retorno a formas de composição mais depuradas e pela assunção da bossa nova como uma das influências recorrentes na sua música.
            Nos últimos dois anos o nascimento de Ruby alterou a sua vida. O corpo – "O meu corpo mudou e afetou a minha voz" – e o espírito. Como canta em "World before Columbus", que dedica à filha: "Se o teu amor me fosse tirado, mesmo a luz mais brilhante se tornaria difusa".
            Suzanne Vega atuou em Portugal, em Cascais, em Dezembro de 1990. Poemas de infância e letras de canções escritas antes da gravação do seu primeiro álbum foram editadas há cinco anos no livro "Murmúrios Urgentes" (coleção Rei Lagarto, ed. Assírio & Alvim), com tradução de Fátima Castro Silva. O álbum mais recente, a coletânea "The Best of Suzanne Vega, Tried and True", concretiza uma ideia antiga. Como ela diz: "Poderia perfeitamente pegar em todas as minhas canções e voltar a editá-las de forma diferente, para que as pessoas as pudessem experimentar também de maneiras diferentes".

sexta-feira, 11 Junho 1999

ARTES & ÓCIOS

18/02/2015

É outono em Nova Iorque [Suzanne Vega]



Y 19|OUTUBRO|2001
música|suzanne vega

é outono em nova iorque

Em Songs in Red and Gray, Suzanne Vega fala dos seus dramas pessoais num tempo em que o drama passou a ser de todos.
Canções de como o amor também dói como uma guerra.

“Songs in Red and Gray” foi editado logo após os trágicos acontecimentos ocorridos em Nova Iorque a 11 de Setembro. Nada será igual ao que era antes na escrita de Suzanne Vega. Mas como canta em “Last year’s troubles”: “Um infortúnio ainda é um infortúnio e o diabo ainda é o diabo”. A cantora e compositora nova-iorquina falou ao PÚBLICO sobre o medo e o desconhecido. E do seu próprio Outono.

Imaginamos que já tenha respondido a esta pergunta dezenas de vezes nas últimas semanas… onde se encontrava na manhã de 11 de Setembro?
        Estava em Nova Iorque e a primeira coisa em que pensei foi no meu irmão, que se encontrava a trabalhar num edifício situado entre as duas Torres. Felizmente escapou ileso. Só depois é que me fui apercebendo de tudo o que estava a acontecer através da televisão. A princípio, não quis acreditar… como para muitas pessoas, parecia estar a ver um filme. Mas depois vi as Torres a desmoronarem-se e compreendi que era real. Um amigo meu, Jack Hardy, que compôs o último tema do álbum (“St. Clare”) e que não tem televisão, saiu para a downtown também à procura de um irmão que trabalhava numa das Torres e presenciou de perto o desmoronamento. Teve de fugir e abrigar-se debaixo de uma porta. As pessoas fugiam na direção do rio. Foi inacreditável!
O que aconteceu mudou a sua forma de encarar o mundo. Vai passar a escrever de forma diferente?
          É difícil responder. Passei as últimas semanas a reavaliar as canções do novo álbum e cheguei à conclusão de que não conseguirei voltar a escrever do mesmo modo. Ao longo de todos os meus discos fiz parte, desde os tempos de estudante, de uma associação de compositores “interventivos”. Presentemente, ainda não sei através de que ângulo passarei a ver as coisas. É duro. As notícias chegam a cada momento. Na “downtown” ainda cheira a queimado…
Poderá acontecer algo de semelhante aos anos 60, durante a guerra do Vietname: um ressurgimento da música social e politicamente empenhada? A opinião pública começa a dividir-se sobre as consequências da intervenção no Afeganistão…
            Penso que sim… Mas a atitude será diferente. Nos anos 60 havia uma rebelião contra o governo. Agora é mais confuso. A ideia de que a retaliação deveria ser imediata é localizada, centrada em Nova Iorque, não sei até que ponto se generalizou na América. O sentimento que impera é o medo. Para se poder falar sobre o que aconteceu é preciso pôr primeiro os sentimentos em ordem. A questão é: como?
“Songs in Red and Gray” é um álbum intimista. Perante a evidência trágica da história, que sentido encontra ainda na exposição de dramas pessoais?
            Sim… eu sei… o álbum saiu uma semana e meia a seguir aos atentados e agora que o ouço sinto que os meus problemas pessoais parecem pequenos em comparação com a crise global que atravessamos. Mas é preciso continuar a escrever canções. Mas como escrever canções sobre a tragédia, quando começo a pensar em Jack e no seu irmão, ou nas pessoas que estavam nas Torres? Mesmo os compositores da tal associação que referi estão a repensar as suas prioridades.
E quais são as suas prioridades?
            A minha filha, sempre. Tem sete anos. Não está a viver de perto o que aconteceu (vivemos na “uptown”), embora, claro, tenha assistido a tudo pela televisão e ficado chocada. Tentei explicar-lhe com palavras simples o significado da guerra, as imagens dos aviões a chocar contra as Torres, mas ao mesmo tempo proporcionar-lhe um sentimento de segurança. Sei que muitas crianças preferem não falar do assunto e refugiar-se no seu mundo de fantasia. É complicado explicar aquelas imagens de fogo, de pessoas a saltarem pela janela… Nenhuma criança poderá compreender o que se passou.
            As pessoas estão assustadas. Nos aeroportos, a empregada pede o B.I. e deseja-nos um bom voo e as pessoas desatam a chorar.
Uma das canções, “If I were a weapon”, aborda a dicotomia amor-ódio, relações sentimentais que se transformam em guerras… Depois de tudo o que está a acontecer, ainda há lugar para a fúria e a violência na música pop? Em Hollywood os realizadores estão a evitar filmar esses tópicos…
            Penso que esse lugar ainda existe. Fiz uma canção para “99,9ºF” chamada “Blood makes noise”, uma canção muito dura, de confrontação e de medo. Na minha última digressão hesitei em tirá-la do alinhamento, mas acabei por não o fazer e funcionou bem. As canções ganham leituras diferentes, com o tempo. Estive a ouvir “Last year’s troubles”, do novo álbum, e tive uma sensação esquisita ao ouvir um verso como “trouble is still trouble ande vil still evil”…
“Priscilla”, pelo contrário, proporciona alegria…
            Oh, é uma canção simples, sobre alguém que, apesar da idade avançada e de não ser muito bonita, é feliz.
É uma das várias canções onde aparece a palavra “dança”…
            Suponho que sim (risos), mas desde que parti um braço e ando com ele engessado nem sequer posso tocar guitarra. Contudo, a imobilidade fez-me ter mais consciência do meu corpo, dos seus mais ínfimos movimentos. É desconfortável, mas se as pessoas percebessem que nem todas as coisas boas são confortáveis, talvez repensassem as suas prioridades.
“Songs in Red and Gray” é apontado como um dos seus álbuns mais conotados com a poética de Leonard Cohen. Concorda?
            É possível. Adoro Leonard Cohen, mas a minha escrita é mais doméstica. Escrevo sobre o que me rodeia, as mais ínfimas coisas. Ele fá-lo como se tudo se tornasse uma referência, como dramas que podem ser visitados e vividos pelos outros. Quando ele usa um imaginário religioso é o mundo inteiro que está envolvido, enquanto eu me sirvo dele para as minhas explorações pessoais. Em “It makes me wonder”, por exemplo, a Virgem Maria simboliza tanto o lado espiritual como o carnal. Ambos co-existem. É uma canção sobre uma demanda de um ideal irrealista. E, ao contrário de Cohen, não cozinho as minhas refeições embora saiba preparar este ou aquele prato (risos).
Essa canção tem um sabor bastante folk…
Sim, tem muito a ver com Woody Guthrie.
O produtor e autor dos arranjos é Rupert Hine, que passou os anos 70 a gravar discos de rock progressivo. Por que razão o escolheu?
            Foi ele que me “escolheu” depois de ouvir uma “demo” acústica que lhe enviei e ter ficado comovido. Perguntou-se se eu estava disposta a uma reorientação da minha música. Respondi-lhe que não. Ficou um bocadinho desiludido pois estava mesmo disposto a fazer uma remodelação completa, mas acabou por conferir ao disco um “groove” que me agrada.
Há folhas mortas. As cores do álbum são os dourados e o vermelho. As mesmas da sua alma, neste momento?
            Sim são ambos outonais.