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02/09/2020

Não jazz dos Spring Heel Jack põe a cabeça em água


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 7 DEZ 2004

Crítica Música

Não jazz dos Spring Heel Jack põe a cabeça em água

Spring Heel Jack
COIMBRA, Teatro Gil Vicente
Sábado, 4. 21h30. Sala praticamente cheia (até ao intervalo…)

Na boa tradição dos génios incompreendidos, o concerto que os Spring Heel Jack deram no sábado, a fechar o festival Jazz ao Centro, em Coimbra, provocou reações extremas. Metade da sala aplaudiu entusiasticamente a difícil proposta apresentada por John Coxon, Ashley Wales e companhia. A outra metade saiu a meio. “O tipo [John Coxon] não toca nada” e “isto não é jazz, jazz” foram alguns dos comentários ouvidos na sala. De um ponto de vista tradicional, John Coxon não toca nada. Ao piano, onde alinhavou algumas sequências de notas avulsas, ou na guitarra, da qual se entreteve a arrancar ruídos e acordes do tipo com que Derek Bailey ou Keith Rowie fizeram ciência, Coxon mostrou ser um executante limitado. O outro mentor do projeto, Ashley Wales, também não é propriamente um “virtuoso”, embora no seu caso, dada a natureza dos artefactos utilizados, sampler e parafernália eletrónica variada, se note menos. E sim, ou por outra, não, a música que os Spring Heel Jack fazem não é “jazz, jazz”. E, no entanto, tudo o que envolve a estética Spring Heel Jack passa pelo trabalho deste dupla que um dia se fartou de tocar “drum ‘n’ bass”.
Coxon e Wales têm um papel bem definido na economia do som. Cabe-lhes desenhar os contornos ou o espaço de manobra onde se vão desenrolar as contribuições dos solistas convidados. É a estes que compete romper as barreiras, ir mais além, ou simplesmente colorir os esboços desenhados pelos dois. Em Coimbra só foi pena não ter estado presente Evan Parker para a formação do novo álbum “The Sweetness of the Water” ficar completa. No disco, Parker garante que a lava escorra do vulcão.
Sem ele, coube ao trompetista Wadada Leo Smith alinhar fraseados mais imediatamente conotáveis com o que nos habituámos a considerar “música de jazz”. Smith tentou sempre criar brechas e singulares direções para as improvisações coletivas. Mas o ás da noite foi John Edwards, imaginativo e criativo nos solos de contrabaixo. Edwards tocou no limite do volume, com os dedos ou com o arco, arrancando “staccatos” nevróticos, gemidos, altercações guturais, implosões e explosões, fazendo-se sentir alguma raiva. Foi o único a descobrir espaços virgens. O concerto decorreu entre a livre improvisação e cenários previamente estabelecidos em “The Sweetness of the Water”, respeitando-se, mais ou menos subrepticiamente, o alinhamento do disco.
“Lata” destacou-se com a sua quase citação aos Suicide, sentindo-se, todavia, a falta de Evan Parker, “Track one” teve Coxon a balbuciar na harmónica e o fecho coincidiu com o último tema do álbum, “Autumn”, com Wales a encher a sala de acordes de órgão religioso. Houve mesmo uma espécie de “blues” atormentados o que, juntamente com o curto “encore” (não pedido) constituiu a única cedência aos hábitos auditivos mais enraizados. Bom ou mau concerto, a questão nem sequer se põe. O que os Spring Heel Jack propõem é um espaço aberto à imaginação. Ou se está lá dentro e se sonha, ou nada feito.

14/08/2020

O estranho mundo de Spring Heel Jack


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 2 DEZ 2004

O estranho mundo de Spring Heel Jack

O acontecimento e, talvez, o choque, dá pelo nome de Spring Heel Jack, grupo que no sábado se estreia nos palcos portugueses, no Festival Jazz ao Centro, em Coimbra, na apresentação do novo álbum “The Sweetness of the Water”. O programa, de jazz contemporâneo, começa hoje com a apresentação de um quarteto liderado pelo contrabaixista Adam Lane, e inclui ainda atuações do trio do acordeonista Will Holshouser e de Bernardo Sassetti, ambas amanhã.
            A história dos Spring Heel Jack é a história de um monstro que assusta os amantes do jazz mais tradicional e intriga os consumidores de música eletrónica. O monstro é bicéfalo e é alimentado por dois músicos, John Coxon e Ashley Wales, cuja atividade prévia na música compreendia o “dub” e o “drum ‘n’ bass”, embora explorando já as suas zonas mais sombrias.
            Depois de uma fase em que exploravam já citações a Hendrix, Cage, Reich e ao “free jazz”, é no álbum “Masses”, de 2001, que a aproximação – perigosa – ao jazz e à improvisação eletroacústica se processa com maior intensidade. A par disso, Coxon e Wales convidavam para tocar com eles músicos como Matthew Shipp, Evan Parker, Tim Berne, Daniel Carter, William Parker ou Mat Maneri.
            “Amassed” (2002) reforça o escândalo e duplica as perplexidades. Com Han Bennink, Paul Rutherford, Kenny Wheeler e, de novo, Evan Parker, William Parker e Shipp, é um dos grandes discos de jazz alienígena desse ano. O efeito da audição anula e desafia catalogações e categorias estéticas. O álbum “Live” (2003) expande ainda mais as fronteiras, indo do caos à liturgia. Já este ano, “The Sweetness of the Water”, ainda com Evan Parker, a dupla rítmica John Edwards e Mark Sanders e o trompetista Wadada Leo Smith, vem revelar a faceta mais introspetiva do grupo. Smith, um veterano ideólogo de Chicago, e o sempre inovador Evan Parker, colam e descolam as suas descobertas contra um fundo de constantes metamorfoses. Mesmo sem o saxofonista, em Coimbra, o resto da formação garantirá certamente, por sua conta e risco, as mais delirantes viagens.
            Hoje, Adam Lane contará no seu quarteto com os prestigiados John Tchicai (sax tenor) e Barry Altschull (bateria) e ainda Paul Smoker (trompete). Lane assimilou as influências de Ellington, Cecil Taylor e Stockhausen e deste coletivo é de esperar surpresa e criatividade sem entraves.
            Will Holshouser, que se apresenta amanhã, toca acordeão, um instrumento que pode soar irritante se nas mãos erradas. Como Galliano ou Guy Klucevsek, porém, Holshouser usa os foles como matéria de pesquisa para uma música que abarca as vertentes folk e urbana e assimila as culturas do tango ou da klezmer. No mesmo dia, na segunda parte, o pianista português Bernardo Sassetti explorará a solo as profundezas, o céu e as paisagens que impressionisticamente pintou nos álbuns “Nocturno” e “Indigo”.

Festival Jazz ao Centro
COIMBRA Teatro Académico Gil Vicente. Tel. 239855636. Bilhetes: 12 euros. Bilhete para os três dias: 25 euros.
ADAM LANE QUARTET. Hoje, às 21h30
WILL HOLSHOUSER TRIO / BERNARDO SASSETTI SOLO. Dia 3, às 21h30
SPRING HEEL JACK. Dia 4, às 21h30

Sal em jazz de água doce [Jazz]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 27 NOVEMBRO 2004

Os Spring Heel Jack voltam a surpreender, com um álbum mais introspectivo que os seus estrondosos antecessores. Na Suécia reza-se. Os Bad Plus divertem-se. Em Portugal a improvisação dá as mãos a Zeca Afonso.

Sal em jazz de água doce

Há discos que estão nas margens do jazz. Discos que empurram o jazz para fora das margens. A música dos Spring Heel Jack, desde que a dupla John Coxon e Ashley Wales decidiu desviar-se dos caminhos do drum ‘n’ bass e enveredar por uma abordagem jazzística radical, tem suscitado uma série de perplexidades, a menor das quais não será a dificuldade em traçar a sua genealogia e fazer a sua catalogação. Depois de “Amassed” e do álbum ao vivo, “The Sweetness of the Water” prossegue a saga de conciliar a eletrónica e o “sampling” com alguns dos melhores improvisadores da cena jazzística atual. Do “Live” para o novo álbum apenas ficou Evan Parker, juntando-se-lhe o trompetista, membro do AACM e da Creative Construction Company, com Anthony Braxton e Leroy Jenkins, Wadada Leo Smith, e uma secção rítmica formada por John Edwards (contrabaixo) e Mark Sanders (bateria) cuja colaboração já havia dado frutos em “Nisus Duets”.
            “The Sweetness of the Water” começa com aquecimento improvisacional, em dois quadros abstratos, “Track four” e “Quintet”. No primeiro desenrolam-se ângulos cortantes de guitarra elétrica por Coxon, taquicardias rítmicas e o desempenho atmosférico de Leo Smith no trompete, num tema onde a “gaiola de elevador” faz figura de instrumento musical. Parker deambula por ali, em “Quintet”, mostrando-se tão à vontade no contexto do circo eletrónico como no seu próprio Electro-acoustic Ensemble.
            Mas o primeiro grande momento acontece em “Lata”. Sobre um fundo eletrónico que sugere o balanço romântico-psicótico de “Chree”, dos Suicide, Evan Parker procede à dilaceração do tempo, com cada frase, por mais livre que seja, a encaixar-se de modo mágico na pulsação maquinal. “Duo” é um subtil trabalho de fi ligrana de Sanders, na bateria, com Coxon adicionando-lhe efeitos e “noise” a la Sonny Sharrock.
            “Track one” é outros dos temas belíssimos de “The Sweetness of Water”, ilustrando o lado mais meditativo do grupo, com simulacros de gongo, Wadada a pairar no topo do mundo e um Parker ternamente melódico no tenor. Eno encontra os Art Ensemble of Chicago num templo tibetano. As improvisações coletivas de “Inlet” e “Track two” reforçam o facto de este ser o álbum mais introspetivo dos Spring Heel Jack, o último tema a explorar as goelas do piano e um Smith perfeitamente extasiado.
            “Autumn” termina “The Sweetness of the Water” na mesma nota épica de “Live”, com eletrónica espacial/cósmica a servir de campo de manobras à oratória de trompete de Leo Smith, numa fusão de jazz astral com a selva digital de Jon Hassel. Os Spring Heel Jack voltaram a arriscar, já não com o ímpeto iconoclasta dos dois trabalhos anteriores, mas com a devoção de verdadeiros musonautas agora infiltrados nos meandros do silêncio.
            Outro álbum devocional que se afasta dos cânones do jazz tradicional é “In Winds, in Light” do contrabaixista sueco Anders Jormin, fundador, nos anos 70, dos progressivos Rena Rama e autor de uma discografia onde contou com “sidemen” como Arve Henriksen, Mats Gustafsson e Marc Ducret.
            O álbum é um ciclo de música sacra e tem como parceiros de Jormin a cantora folk Lena Willemark, Marilyn Crispell (piano), Karin Nelson (órgão de igreja) e Raymond Strid (percussão). Tudo se subordina à elevação e à espiritualidade, o que não quer dizer que tudo se reduza à oração. Em “Choral”, o órgão de igreja vai da beatitude de um Messiaen a explosões na cúpula de catedral, numa demencial fuga de Bach com Lena Willemark a abandonar o registo recitativo para se entregar a cânticos de extrema visceralidade. O curto intervalo de contrabaixo solo em “In Winds” prepara o terreno para novas litanias de demanda do desconhecido (o título original desta obra era “Além”) e um dos traços mais interessantes é o contraponto entre a faceta folk (por mais que ela a tente disfarçar) da cantora e o piano espartano de Marilyn Crispell, magnífico em “Flying”, luxuriante queda de água de notas contrapostas à solenidade do órgão de igreja.
            “In Winds, in Light” ficaria talvez melhor nas “new series” da editora. Enquanto “Jazz” é, tal como “Lux Aeterna”, de Terje Rypdal, um objeto adjacente, estranho a quaisquer noções tradicionais deste tipo de música. Todavia belo.
            Para recarregar as baterias de músculo e suor, há bom remédio. Basta tomar uma dose de “Give” dos The Bad Plus, o “power trio” de piano/baixo/bateria que em “These are the Vistas” já havia dado nas vistas.
            Os Bad Plus tentam tocar jazz mas a métrica e a rítmica, com a bateria a espancar os tempos fortes, tombam mais para o lado do rock. Há influências de “gospel”, música latina, “honky tonk”, Ethan Iverson, no piano, faz de Monk e soletra a primeira letra do seu abecedário e, para desassossegar ainda mais, não faltam versões de “Street woman”, de Ornette Coleman, “Velouria”, dos Pixies, e “Iron man” dos… Black Sabbath. Para um aficionado de jazz-jazz, será talvez forçar a nota em demasia. O que para os The Bad Plus é indiferente. Acima de tudo, eles divertem-se.
            Em Portugal, o jazz também vai longe. Por vezes onde menos se espera. O contrabaixista José Eduardo, por exemplo, “foi-se” à música de José Afonso e o que poderia ser trabalho redundante acaba por ser mais uma dedicatória que honra a obra do cantautor, abordando-a sob a dupla perspetiva de “consciência” e “património”.
            Por outras palavras, o que o trio José Eduardo, Jesus Santadreu (sax tenor) e Bruno Pedroso (bateria) procuram traduzir é a música (ou a música das músicas) que está para além delas (as palavras), acabando “A Jazzar” por ser, neste aspeto, um disco revolucionário. Nunca “Grândola, vila morena” imaginou poder ser dita através de um lancinante solo de saxofone, em versão pautada por alguma ironia, nem que o que fazia falta a “O que faz falta” fosse um longo solilóquio de contrabaixo. Santadreu está igualmente bem e forte em “Coro da Primavera”, qual Sonny Rollins voltado mais para a frente. “A Jazzar no Zeca” é mais um filme do que um retrato, inscrevendo-se nessa “música imaginária” tão cara ao contrabaixista. Zeca nunca imaginaria…
            Editado mais recentemente pela Clean Feed, o novo trabalho dos Lisbon Improvisation Players (LIP) chama-se “Motion” e tem como intervenientes Rodrigo Amado (saxes barítono e tenor), Steve Adams (saxes sopranino e tenor), Ken Filiano (contrabaixo) e Acácio Salero (bateria). Na música improvisada tem-se em conta a ligação, os elos, o saber ouvir e o saber interrogar o desconhecido. Não basta tocar por tocar, é necessário guiar (ou ser guiado) com um propósito em mente.
            Os LIP têm um corpo sólido e um discurso eloquente. O modo como os saxofones de Amado e Adams se dão as mãos para seguir juntos nas descobertas (“Motion”, “All the things we are”, “Wrist action” nunca são caminhada solitária) é um dos pontos a favor deste “Movimento”, que parte do “free” à descoberta de uma outra ordem, ainda que esta já tenha sido encontrada (uma ordem, ou a sua subversão…) por gente como Peter Brötzmann, influência detetável. A combinação saxofonística de “Wrist action” é para ser devorada, tal a suculência do som e a sucessão de soluções de pergunta/resposta encontradas.
            “Shipping news” completa em arco o ambiente inquisitivo do tema inicial “Perpetual explorers”, com Salero a fazer detonar o tempo e Filiano a arrumá-lo. A exploração continua. Faltam, porventura, portas de saída a este jazz que não receia ser solidário.
            No limite mais afastado do “mainstream”, “Quartets”, de Manuel Mota, procura apanhar os estilhaços de uma música que se pulveriza em gestos onde o silêncio se inscreve numa quadrícula. Mota, como Derek Bailey ou o Fred Frith mais sarcástico (de “Guitar Solos”), arranca da sua guitarra elétrica ruídos e eletricidade pura. Tem a seu lado Fala Mariam, no trombone, companheira habitual de Sei Miguel, Margarida Garcia, no baixo, e, num interessante complemento tímbrico que no entanto se esgota quando cessa o efeito surpresa, César Burago, no carrilhão.
            Os temas não se diferenciam o sufi ciente uns dos outros para manter acesa a atenção e a insistência na contenção levada ao extremo acaba por se tornar cansativa. “Downstairs” parece ter sido cortado aos bocados e “Good eve” condescende com o ambiental. “Menos é mais” ou há algo mais escondido nesta música que o ouvido não apanha?

Spring Heel Jack
The Sweetness of the Water
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
8 | 10

Anders Jormin
In Winds, in Light
ECM, distri. Dargil
7 | 10

The Bad Plus Give
Columbia, distri. Sony Music
6 | 10

Zé Eduardo Unit
A Jazzar no Zeca
Clean Feed, distri. Trem Azul
7 | 10

Lisbon Improvisation Players
Motion
Clean Feed, distri. Trem Azul
7 | 10

Manuel Mota
Quartets
Ed. e distri. Headlights
5 | 10

23/12/2019

Balanço [Jazz]


JAZZ
BALANÇO
PÚBLICO 3 JANEIRO 2004

Das recriações em grande estilo, de Bourassa e Hemingway, ao novo corte radical dos Spring Heel Jack se fez o melhor jazz chegado a Portugal este ano. Pontes para o futuro que os portugueses atravessaram sem receio. Nas reedições, saúdem-se as velhas glórias Armstrong, Holiday, Webster e Gordon mas 2003 foi também o ano de Sun Ra. Além dos dois capítulos do “mito solar” chegaram de Saturno outros dois momentos fulcrais da saga intergaláctica: “It’s After the End of the World” e o volume duplo das “Nuits de la Fondation Maeght”.

1 FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi, distri. Multidisc
Bourassa é um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives, além de fabuloso arquiteto e desenhador de “riffs”, de uma fluência e imaginação inesgotáveis. Cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas O modo como “30 Octobre 85” cresce de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de André Leroux, no tenor, constitui um daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação. Tudo a transbordar de “swing”, mais a oferta de um espetacular momento de bop e um “medley” de Monk que entra diretamente para a galeria dos clássicos.

2 SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
A dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” de “Amassed” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações que projetam a música numa selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. Como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer.

3 GERRY HEMINGWAY QUARTET
Devils Paradise
Clean Feed, distri. Trem Azul
Como pode o diabo habitar no paraíso? Encare-se a questão do seguinte modo: O que Hemingway e os seus companheiros fazem é simultaneamente uma revolta e uma libertação das linguagens tradicionais do jazz, através de uma reconversão que devolve o prazer sob novas formas. Improvisador nato, o baterista mantém latente um estado de tensão que Eskelin estica até aos limites e Ray Anderson, pelo contrário, contraria, distendendo e embalando a música com um gozo infantil, de marchas, “gospel” e “Dixieland”.

4 DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
2xCD ECM, distri. Dargil
Obra monumental gravada há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. Holland justifica esta aventura em larga escala com a necessidade de explorar novas fórmulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra um baixo como este, não há argumentos.

5 GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
“Fugace” é um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround.

6 JEAN DEROME/LOUIS SCLAVIS QUARTET
Un Moment de Bonheur
Victo, distri. Trem Azul
Sclavis, herdeiro de Portal, e Derome, canadiano com larga e por vezes burlesca obra na editora Ambiances Magnétiques encontram-se neste entusiasmante diálogo de música improvisada, em uníssonos, contrapontos e fugas que atingem o âmago do “free jazz” nos longos “L’errance” e “Suite pour un bal”, esta última cortada a meio por uma descarga de ruído e de…rock, na melhor tradição da escola RIO (“Rock in Opposition).

7 VANDERMARK 5
Airports for Lights
2xCD Atavistic, distri. Ananana
Saber e cheiro a Chicago. “Airports for Lights” junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker e o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico, o saxofonista faz o que quer, com o desplante dos génios.

8 AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
“Vetek” cultiva o gosto pelas músicas do mundo, em sintonia com uma visão planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações. Rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak para finalmente rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase.

9 JOHN SURMAN
Free and Equal
ECM, distri. Dargil
Inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, este registo ao vivo no Queen Elizabeth Hall, Londres, junta o saxofonista inglês com Jack DeJohnette e a orquestra de metais London Brass numa obra em larga escala notável que combina sequências instrumentais majestosas, secções improvisadas, diálogos luminosos entre os dois solistas, o espírito do Barroco e o romantismo característicos de Surman.

10 MARTY EHRLICH
Line on Love
Palmetto, distri. Trem Azul
Adepto de aventuras conceptuais, Marty Ehrlich entrega-se a uma inflexão na tradição e num jazz de grande lirismo de que andava arredado em trabalhos como o igualmente estimulante “The Long View”. Os desempenhos no sax alto são de altíssimo calibre, como no surpreendente e hardbopante solo, em tempo lento, de “St. Louis Summer”, concluindo a tocar clarinete baixo na magnífica arquitetura rítmica de “The git go”.

11 MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angels
Verve, distri. Universal
Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes. “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz.

12 TIM BERNE
Science Friction
Night Bird, distri. Trem Azul
“Science Friction” revela o lado descontraído e mais mundano do saxofonista. Emparceirado com o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Marc Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo e pistolas de raios laser.

13 JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Multidisc
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, refletida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa.

14 DAVID S. WARE
Freedom Suite
Aum Fidelity, distri. Ananana
Ware, o mais Coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “Rollinsoniana” (ele que já recriara, de resto, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional à obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”.

15 ANGELICA SANCHEZ
Mirror Me
Omnitone, distri. Trem Azul
Um estilo discreto de execução e ausência de preconceitos permitem a Angelica tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou o “boogie pop” dos T. Rex. Mas “Mirror me” é jazz ao mais alto nível, em “environments” dirigidos à criatividade de solistas como o Michael Formanek e Tony Malaby. O diálogo entre a ternura e a ferrugem, do sax, e o metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.


REEDIÇÕES
1 LOUIS ARMSTRONG The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1, 2 & 3 Columbia, distri. Sony Music
2 BILLIE HOLIDAY The Billie Holiday Collection, Vol.1, 2, 3 & 4 Columbia, distri. Sony Music
3 BEN WEBSTER Soulville Verve, distri. Universal
4 DEXTER GORDON Our Man in Paris Blue Note, distri. EMI-VC
5 SUN RA The Solar-Myth Approach, vol. 1&2 Sunspots, distri. Trem Azul

PORTUGUESES
1 CARLOS BARRETTO Locomotive Clean Feed, distri. Trem Azul
2 MÁRIO LAGINHA & BERNARDO SASSETTI Mário Laginha & Bernardo Sassetti Ed. autor, distri. FNAC
3 RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO The Space Between Clean Feed, distri. Trem Azul
4 SEI MIGUEL Ra Clock Ed. e distri. Headlights
5 JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO As Sete Ilhas de Lisboa Clean Feed, distri. Trem Azul

16/10/2019

'What have they done to the blues, ma?' [Jazz]


19 JULHO 2003
JAZZ
DISCOS

Trovesi, Spring Heel Jack, The Tradition Trio e Akosh S. Unit fazem-nos acreditar que a música de fusão pode não ser, afinal de contas, o epitáfio do jazz. Que nos perdoem os puristas, mas o futuro passa por aqui.

‘What have they done to the blues, ma?’


O mundo musical de Gianluigi Trovesi nem sempre é o mundo do jazz, como já o haviam demonstrado álbuns anteriores deste poli-instrumentista natural de Bergamo, como “Les Hommes Armés” ou o espetacular menu de luxo para “big band”, “Dedalo”. Ou pelo menos, do jazz enquanto recapitulação, recriação e criação histórica que nasceu e, provavelmente, morrerá com os “blues”. E, no entanto, algo se move ainda, como se o “swing” fizesse afinal parte de toda a música onde bate um coração humano.
            “Fugace” é, por si só, um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround. Tal qual o caudal de uma imaginação rigorosamente conhecedora da história do jazz – de “New Orleans” ao “free” –, da música clássica e contemporânea, mas também das formas etnográficas da música árabe e africana, “Fugace” muda impercetivelmente de registo, fluindo como um fascinante caleidoscópio de sons que recriam o próprio movimento do universo. Depois, há neste disco algo que começa a cortar às fatias o fundamentalismo: Se “Minneapolis”, álbum novo de Michel Portal, inclui uma faixa de hip-hop, “Fugace” não lhe fica atrás e envereda pelo drum ‘n’ bass, em “Clumsy dancing of the fat bird” e pelo... rock, pesado em “Blues and West”, e progressivo, em “Siparietto II” (serão os Gryphon?). Trovesi faz com que tudo pareça apropriado e natural.
            Quem já havia pregado um valente susto aos puristas do jazz foram os Spring Heel Jack, com “Amassed”, sobretudo pela projeção que este disco atingiu nos centros de difusão de música alternativa (o anterior, “Masses”, já lançara as sementes da revolução). Em “Live”, registo ao vivo no Corn Exchange, Brighton, em Janeiro deste ano, a dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações, respetivamente de 35 e 39 minutos, que projetam a música de “Amassed” numa verdadeira selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. É como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer, pegando nas descobertas do passado, arrancando retalhos do Sun Ra galáctico e do Miles das fusões elétricas, para com elas encetar nova viagem, ainda mais rica e arriscada, com término num longo e majestoso “fade out”, marcha fúnebre pelo jazz. O que significa que os Spring Heel Jack voltam a reescrever a história.
            Igualmente incontornável é “Tone”, dos The Tradition Trio, formado por três nomes paradigmáticos da música improvisada: o veterano Alan Silva (sintetizador, tocou com Ayler, Cecil Tayler, Sun Ra, Shepp, Globe Unity Orchestra, etc.), Johannes Bauer (trombone, estará em Portugal no festival Jazz em Agosto, com os Doppelmoppel) e Roger Turner (bateria e percussão). Gravado ao vivo no Free Music Festival de Antuérpia, em 2001, “Tone” desenrola-se ao longo de uma faixa única de 51 minutos (e ainda há quem se queixe do rock progressivo!...) que glosa o conceito “in the tradition” (“Tradition: the handing down of statements, beliefs, legends, customs, etc, from generation to generation, esp. by word of mouth or by pratice”). A construção de Babel dos Spring Heel Jack não anda longe, ainda que a dimensão “cósmica” esteja aqui mais condensada e subjugada aos códigos de alguma música improvisada de cariz eletrónico e tribal, como a dos pioneiros MEV (Musica Elettronica Viva). A aparente e prevalecente sensação de delírio que atravessa uma audição mais superficial não escamoteia o facto de estarmos perante um intenso trabalho de comunicação e criação coletiva que, em certos momentos, consegue ser exaltante, nomeadamente quando Silva enche as crateras vazias com oceanos de sons sintetizados dentro e sobre os quais o trombone de Bauer experimenta os limites do “free” e da música contemporânea, entre músicos referenciais como Albert Mangelsdorff, Paul Rutherford ou Vinko Glonbokar, divertindo-se a tentar escapar dos labirintos montados por Turner.
            Ainda alucinados pelas emanações dos Spring Heel Jack e dos The Tradition Trio é já com naturalidade que aceitamos encarar de frente o réptil que nos olha, vindo das trevas, a cuspir sangue na capa de “Vetek”, terceiro e último capítulo de uma trilogia do saxofonista e multi-instrumentista húngaro Akosh Szelevényl, sucedendo aos anteriores “Kebelen” e “Lenne”.
            Como solista, nos saxofones soprano e tenor e no clarinete de metal, Akosh insere-se sem desconforto na linhagem da escola francesa de Michel Portal e Louis Sclavis. A seu lado encontramos Joe Doherty (violino, saxofone alto e clarinete baixo), Bernard Malandain (baixo) e Philippe Foch (bateria, percussão, tablas), mais os convidados Nicolas Guillemet (saxofones alto e soprano) e Mokhtar Choumane (ney).
            Assumindo como influências Archie Shepp, Albert Ayler, John Coltrane, Pharoah Sanders, Ornette Coleman, Don Cherry, Sun Ra e Charlie Haden (embora o músico húngaro faça também questão em nomear Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Frank Zappa, Prince e Krzystof Pendereczki), a música de “Vetek” descobre na confluência desta lista de nomes o gosto pelas músicas do mundo (não no sentido de exotismo folclórico com que habitualmente é conotado mas de acordo com a visão de uma síntese planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações) em que o jazz – não se sabe ainda se inevitavelmente ou não – desemboca quando atinge e ultrapassa as fronteiras impostas pelos seus próprios cânones.
            “Vetek” rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak (de “Ritual Nova”) para finalmente, num tema de antologia, “Patak”, rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase. O réptil cospe, afinal, uma flor.

GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
9 | 10

SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear.
Distri. Trem Azul
10 | 10

THE TRADITION TRIO
Tone
FMP, distri. Multidisc
8 | 10

AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
9 | 10