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11/03/2020

Tom Zé deu espetáculo total em Sines


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 2 AGO 2004

Tom Zé deu espetáculo total em Sines

Muito boa música passou pelo sempre esgotado Festival Músicas do Mundo de Sines, que terminou sábado à noite. Mas nenhuma inquietou tanto como a “performance” de Tom Zé. Veio de outro planeta e trouxe consigo uma visão

Tom Zé aterrou no Festival Músicas do Mundo de Sines, sexta-feira à noite, numa “Nave-Maria” de outro planeta, cósmico e baiano, com a sua leitura astral do tropicalismo. “Astronauta libertado/Minha vida me ultrapassa/Em qualquer rota que eu faça”. O brasileiro pesa cada palavra, improvisa frases antes e no meio das canções. E a música brota espontânea, como que por magia, dessas palavras que parecem soltar-se como as folhas de uma árvore. Foi o melhor concerto do festival, que terminou anteontem.
            Um naco do hino americano anunciou “Companheiro Bush”, viagem ao Iraque montado numa bomba de gramática. A faceta interventiva prosseguiu com “Urgente, pela paz”. É “rap”, é conversa, é canção, e Tom Zé foi o cantor-professor-pregador. As músicas misturavam-se, o baiano parecia perder-se, mas percebeu-se que a cada segundo sabe bem onde está e que terrenos pisa. O público entregou-se. Todo o concerto foi construído como uma história contada a primor. Paz e amor. Houve rock pesado, canções leves (e os dois juntos em “Ogodô, ano 2000”) e as letras sempre a dançarem, ora setas, ora lanças, ora lágrimas, ora corações. Pura e simplesmente, Tom Zé cantou o mundo. É isto a música do mundo, a tal “world music”? “Vamos nós ensaiar sozinhos, sem a banda, joga fora a banda!” Querem maior proximidade com o mundo do que esta? Mesmo quando, num golpe de mestre, se autopromove como produto de consumo, mostrando ao público vários discos, num “jingle” de venda do “Tom Zé que vai fazer todos felizes”. É assim o “one-man-show”: Tom Zé a simular um falo com o cinto, a autoflagelar-se como “artista de rock”, a rasgar o casaco, a vestir-se de operário e a fazer, literalmente, luz com uma lixa de amolador, a criar ritmos com marteladas no capacete, a comer um jornal... O grande paradoxo é que se estão presentes na música de Tom Zé todas as músicas, a música, só, não chega para Tom Zé. E, no entanto, tudo foi música.

Entre o frio e o “free”
A abertura da noite coubera a uma Savina Yannatou paradoxal. A grega pertence a uma estirpe de cantoras, como Fátima Miranda, que consegue criar em todos os registos da voz – do grito ao murmúrio –, mas em Sines faltou a centelha da paixão, sobrando a inteligência e uma vertente quase clínica. O périplo pelas músicas do Mediterrâneo, da Andaluzia à Turquia, passando por Itália, Macedónia, Bulgária e, claro, Grécia, que constituiu o seu reportório assumiu, por outro lado, uma componente de risco inusitada, com Savina a fazer valer a sua experiência nos campos da música erudita e do jazz. O problema desta atuação talvez demasiado fria esteve também no maior protagonismo do grupo que a acompanhou, Primavera en Salonica, também ele estendendo a margem de risco, com um desempenho que chegou a raiar a música contemporânea, plena de dissonâncias e intervenções instrumentais pouco usuais em festivais deste tipo. Mas para isto exigia-se um som pristino e tal não aconteceu, antes estava demasiado alto e metálico para o grupo e demasiado baixo para a cantora, cuja voz, por mais de uma vez, se diluiu no “ensemble”. O “encore” arrancado a ferros não chegou para aquecer os ânimos, mas nem tudo pode ser altas temperaturas, em festivais com as características do Músicas do Mundo.
            Ninguém se queixou de frio com o que veio a seguir. Jazz funk crioulo pelo mais recente projeto de David Murray, um “apaixonado por Sines”, como lhe chamou o apresentador. O Creole Project vive da rítmica dos tambores “ka” de Guadalupe e do intercâmbio de tenores entre Murray e o convidado histórico Pharoah Sanders. Murray com o seu jogo de dinâmicas e contrastes extremos, Sanders mais depurado e menos anguloso. Presos ao funk da secção rítmica, por vezes a lembrar o afro beat de Fela Kuti, libertaram-se nos solos e nos diálogos sem acompanhamento instrumental, resvalando com facilidade para o “free”. Folclórica, no sentido mais colorido do termo, a música casou com harmonia jazz e “world”, ritmos abrasivos e as cascatas tórridas dos dois saxofones. Calor sem esplendor. Mas choveram brasas quando Murray se pôs a improvisar sobre uma espécie de “doo wop” vocal obsessivo dos dois tocadores de tambores “ka” guadalupenhos, culminando, a fechar, numa desbunda coletiva alucinante.
            A abrir a noite de sábado, o Septeto de Roberto Rodriguez proporcionou um festim de cores e “swing”. Fusão excelente de ritmos de “guahira” cubana e sonoridades “klezmer”. Se os Penguin Café Orchestra fossem mais sérios e tocassem melhor fariam algo assim. O septeto levou grande música, sem concessões, desembrulhando temas dos álbuns “El Danzon de Moisés” e “Baila Gitano Baila”. O “encore”, com Rodriguez a solar na bateria numa orgia de ritmo, foi bombástico.
            Rokia Traoré veio do Mali para semear a hipnose. Apoiada nos sons do n’goni e do balafone, a cantora estendeu um delicado véu de melodias ondulantes e ritmos que ocasionalmente fizeram lembrar esse outro mestre da hipnose do Mali que é Ali Farka Touré. Com maior ou menor grau de pureza, não importa, é a tradição dos “griots” que nos assombra, nesta música que recria os infinitos cambiantes e padrões de uma tapeçaria de sonhos. Rokia passou por Sines como uma fada de voz dançarina.
            E tudo terminou com o afro-beat de Femi Kuti. Artilharia pesada a despedaçar as últimas resistências ao ritmo. Sob o fogo-de-artifício e o brilho da lua cheia, o castelo veio abaixo. Já se sabia e Femi confirmou-o: o seu grupo é uma formidável máquina de ritmo. O astro mais brilhante, esse já partira na véspera para a sua galáxia. Chama-se Tom Zé e foi a maior estrela a luzir no Músicas do Mundo de Sines.

Programa de luxo nos três dias do festival de Sines


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 29 JUL 2004

Programa de luxo nos três dias do festival de Sines

Música de todas as cores e para todos os gostos no programa deste ano do Festival Músicas no Mundo

O Festival Músicas do Mundo de Sines deste ano privilegia a diversidade sem cair no populismo. O mesmo é dizer que o programa é de luxo. Ronda dos Quatro Caminhos, Warsaw Village Band, Savina Yannatou, David Murray com Pharoah Sanders, Tom Zé, Septeto Roberto Rodriguez, Rokia Traoré, Femi Kuti. Nomes acima de qualquer suspeita dão garantias de qualidade e pluralidade de estilos. Hoje, amanhã e sábado, como sempre com um cenário condigno, no interior das ameias do castelo, com entrada gratuita e início às 21h30.
            Tudo começará esta noite com a grandiosidade que a junção do “cante” alentejano com uma orquestra proporciona. “Terra de Abrigo” é a proposta ambiciosa que a Ronda dos Quatro Caminhos leva a Sines, um trabalho de fusão que fará subir ao palco do festival os grupos corais alentejanos de Moura, Campo Maior, Évora, Serpa, Baleizão e Aldeia Nova de São Bento e a Sinfonietta de Lisboa, orquestra de 30 elementos com direção de Vasco Pearce de Azevedo.
            Na senda dos suecos Hedningarna, os polacos Warsaw Village Band cultivam a dissidência e a mestiçagem entre as linguagens tradicionais e elementos da pop e da tecno. São três rapazes e três raparigas que um dia se meteram à aventura de descobrir as raízes seguindo por um caminho proibido. Na Mazóvia, coração do país, encontraram o que buscavam, canções de casamento, canções de protesto, baladas de amor. A tradução para os tempos modernos é que se faz de modo alternativo, mesmo que em palco vão estar instrumentos tradicionais como a “Suka” ou que o grupo utilize uma forma peculiar de canto chamada “canto branco”. A finalidade, porém, não é a exibição das peças de um museu mas conseguir provocar no ouvinte, com o recurso a instrumentação acústica, o mesmo tipo de hipnose provocada pela música eletrónica de dança. Já chamaram “biotecno” a este estilo, que pode ser apreciado no álbum “People’s Spring”.

Uma voz cativante
Savina Yannatou vem da Grécia para nos levar para o Olimpo. Quem já a ouviu e viu cantar ao vivo em Portugal há-de sentir de novo um arrepio na espinha, de tal forma o seu canto é arrebatador. A pose hierática de onde se eleva uma voz absolutamente cativante, juntamente com a sua fotogenia, criam a imagem de uma deusa. Savina, autora de álbuns como “Mediterrânea”, “Virgin Maries of the World” e “Terra Nostra”, virá acompanhada do grupo Primavera em Salónica. O canto de Savina é o canto da sereia. Em Sines serão estreados temas do próximo disco.
            David Murray vem ao festival de Sines pela terceira vez. Desta feita na companhia de Pharoah Sanders, um dos mais ilustres herdeiros de Coltrane, para apresentar o “ka” de Guadalupe. Os tambores “ka” suportarão o canto em crioulo e o som quente dos dois saxofones. Tanto Murray como Sanders nunca se afastaram muito das raízes africanas e de uma postura equidistante do jazz e da “world music”. Murray dedicara-se já à música de Guadalupe nos álbuns “Creole”, “Yonn-Dé” e “Gwotet”, este último o seu mais recente trabalho.
            Tom Zé é o mais radical dos tropicalistas brasileiros. Reza a lenda que no final dos anos 80, quando o Brasil parecia tê-lo esquecido, quis voltar para trabalhar na bomba de gasolina do sobrinho. Mas mesmo que tal tivesse acontecido, Tom Zé continuaria a reinventar a sua música, construindo os seus próprios instrumentos. Nasceu na Baía e interessou-se pelo folclore local mas desde cedo aprendeu a misturá-lo com a pop e a música contemporânea. Participou, com os papas do tropicalismo, no álbum-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis”. Posteriormente o mercado ignora-o, acusando-o de demasiado politizado e experimental mas Tom Zé não desiste. Finalmente, em 1989, David Byrne descobre a sua música e convida-o para gravar para a sua editora, a Luaka Bop. O “Best of” que aí grava é considerado pela revista “Rolling Stone” um dos dez melhores discos da década. As suas mais recentes produções são o álbum “Jornalismo Falado” e o DVD “Jogos de Armar”.

O tigre do “afrobeat”
Quando era pequeno, o avô costumava levar Roberto Rodriguez a ver os velhos judeus a dançar ritmos cubanos na praia de Miami. Tanto bastou para que este cubano inventasse um estilo híbrido, mistura do “klezmer” judaico com as “habaneras” cubanas, a salsa-klezmer. Rodriguez, cubano de nascimento, integrou o projeto “Cubanos Postizos”, do guitarrista hebreu americano Marc Ribot, aproximando-se da chamada Radical Jewish Cultura de Nova Iorque, onde o klezmer se entrega a ligações licenciosas com o jazz e o rock. Tocou com John Zorn, outro paladino da cultura ídiche, e gravou os álbuns “Danzón de Moises”, onde combina a “guajira” espanhola com o “danzón” francês para criar uma aproximação bizarra ao tango, e o novo, intitulado “Baila Gitano Baila”, a apresentar no festival.
            Criada musicalmente num caldeirão para onde atiraram o “jazz”, a música clássica e a pop, a cantora Rokia Traoré, do Mali (país natal de Oumou Sangaré e Ali Farka Touré), é sinónimo de delicadeza, mesmo quando na sua música, por vezes minimalista, as palavras falam de temas tabu como infâncias difíceis ou os direitos da mulher africana. Editou os discos “Mouneissa”, “Wanita” e “Bowboi”, premiado pela crítica da BBC.
            “Filho de tigre tigre é”, diz um velho provérbio ioruba. Femi Kuti é filho de um tigre, Fela Kuti, criador do “afrobeat”, mescla de ritmos tradicionais africanos, “funk” e jazz de vanguarda. Femi tocou saxofone alto na banda do pai, os Egypt 80, e é nela que desenvolve o mesmo tipo de postura politicamente interventiva de Fela. Dirigiu o grupo enquanto o pai esteve preso, mas após a sua libertação e regresso à banda Femi abandona-os para formar os The Positive Force. Após a morte de Fela Kuti, em 1997, Femi Kuti prosseguiu, embora de forma mais discreta, a mesma luta, abordando temas como a sida e a corrupção. A sonoridade que caracteriza os seus discos, “Shoki Shoki” e “Fight to Win”, é igualmente herdada do pai, pelo que Sines irá vibrar, sob as luzes e o clamor do fogo-de-artifício, ao som do apelo festivo do “afrobeat”.

04/01/2019

ECM uma editora de jazz?


1 MARÇO 2003
JAZZ
DISCOS

Três álbuns que refletem a tendência mais “folky” da editora de Manfred Eicher: poesia por um bardo, tango ambiental e uma voz grega sensual. Abertura a outras músicas que nem sempre é sinal de sucesso.

ECM uma editora de jazz?

Robin Williamson
Skirting the River Road
5 | 10

Dino Saluzzi
Responsorium
6 | 10

Savina Yannatou
Terra Nostra
8 | 10
Todos ECM, distri. Dargil

Claro que o título é uma pequena provocação a uma das editoras que mais tem feito pelo jazz contemporâneo nas últimas décadas. Mas, mesmo sem levar em conta as “new series” dedicadas a obras de carácter erudito que vão do neoclassicismo à música antiga, encontram-se espalhados por este selo discos que só com um esforço de boa vontade se podem considerar dentro da área do jazz, bastando pensar nas discografias de Steve Tibbetts, Stephan Micus, Shankar, Lask ou “Rosensfole”, de Jan Garbarek com a cantora Agnes Buen Garnas. Manfred Eischer tem, pois, um ouvido na folk. Umas vezes acerta. Outras nem por isso....
            É um pouco o que se passa com o segundo álbum para a editora de Robin Williamson, bardo, harpista/multinstrumentista e músico fundador de uma das bandas seminais dos anos 60, os Incredible String Band (ISB). Acontece que a sua inclusão na ECM se tem revelado um tremendo erro de “casting”. Williamson, fosse nos ISB, nos posteriores Merry Band ou nos seus trabalhos a solo, revelou-se sempre como uma personalidade incatalogável e algo errática cuja música e voz, demasiado idiossincráticas, são avessas a produções “integracionistas”, como são, regra geral, as da ECM.
            “Skirting the River Road” reúne uma série de composições de Williamson para poemas de William Blake, Walt Whitman e Henry Vaughan, mas as vocalizações “instáveis” e as declamações, a execução tipo folk de Williamson, na harpa e nos “whistles”, em contraste com o “approach” jazzístico de Mat Maneri (violino e viola) e Paul Dunmall (dos Mujician, em saxofones, clarinete, gaita-de-foles, ocarina, etc.) não combinam, o que resulta numa música sem centro nem orientação. “Here to burn” é uma típica canção dos ISB que ganha com a presença de outro dos músicos presentes, Ale Möller. Este sabe-se que é homem da folk, que à sua conta toca aqui mandola, alaúde, saltério, “shawm”, clarim, flautas várias e vibrafone. Mas como encarar a declamação “hippie” de Williamson sobre as “anomalias” free de Dunmall no saxofone ou integrar outra das típicas vocalizações do cantor (“Abstinence sows sand”), que dir-se-ia arrancada do álbum “Myrrh” (estreia a solo de Williamson), em que os saxofones de Dunmall e os arcos de Maneri parecem ter sido gravados numa sessão diferente? Algo não liga nesta fusão entre mundos por enquanto demasiado afastados entre si, por maior empenho que todos tenham posto no projeto.
            Já Dino Saluzzi é um velho “habitué” da ECM, familiarizada com o seu tango sofisticado para quem o jazz é pretexto para treinar o “bandoneon”, afinado num ambientalismo “cool” que se encaixa bem na filosofia da editora. Em “Responsorium” o argentino tem a companhia de Palle Danielsson, no contrabaixo, e de José Maria Saluzzi, na guitarra acústica, incorrendo em discretas improvisações sobre motivos tanguísticos, como fazia Piazzola com outro fogo e outro fôlego. Tem nostalgia, distância, um pouco de saudade e solos, de fazer parar e prestar redobrada atenção, de Danielsson. Mas é como diz o outro: jazz e “bandoneon” casam tão bem como Satie e harmónica, ou Wagner e ferrinhos. Para Saluzzi, a música sai do seu coração. Infelizmente não há meio de entrar no nosso...
            Sem peneiras nem disfarces, a cantora grega Savina Yannatou, com o seu grupo Primavera en Salonica, estreia-se na ECM com “Terra Nostra”, gravado ao vivo em Atenas. Neste caso não há que enganar: “Terra Nostra” surge na sequência dos anteriores trabalhos do grupo e constitui, desde já, obra imprescindível para os apreciadores de folk. Savina é uma rainha (quem a viu e ouviu ao vivo, no CCB em Lisboa e em Santa Maria da Feira, não a esquecerá tão cedo) a cantar, um anjo de sensualidade arrebatadora como só a música grega mais profunda pode ter, sobretudo quando servida por uma intérprete de exceção que junta uma técnica incomparável (o corpo não se move um milímetro, enquanto a voz se roça e faz amor com quem a ouve) a uma expressividade luminosa. Os Primavera en Salonica ora se remetem ao acompanhamento etéreo da voz, ora explodem na complexidade dos compassos dos Balcãs. “Yiallah tnem rime” é folkpop com Savina a cantar como se fizesse parte dos Bothy Band ou dos Dervish. Polifonias “a capella”, com a voz da segunda cantora, Lamia Bedioui (“Schubho Lhaw Qolo” faz pensar em Sussan Deyhim, em “Desert Equations”), são outros dos atrativos de um álbum que percorre vários imaginários do Sul com a agilidade, a sensibilidade e o amor de quem nele mergulhou o corpo e a alma. Um disco apaixonante para se ouvir como um namoro.

17/12/2014

Voz de sol num cachimbo de água [Savina Yannatou]

MÚSICAS

SAVINA YANNATOU COM PRIMAVERA EM SALONICO NO CCB

VOZ DE SOL NUM CACHIMBO DE ÁGUA

EM TORNO DO MEDITERRÂNEO, EM VIAGEM COM OS JUDEUS SEFARDITAS, EM TRANSE NUM CAFÉ DE REBETIKA, EM LOUVOR DA VIRGEM MARIA. POR AQUI TEM ANDADO A VOZ SENSUAL DA CANTORA GREGA SAVINA YANNATOU, EXPOENTE DAS MÚSICAS DO SUL. ESTA NOITE, NO GRANDE AUDITÓRIO DO CCB, EM LISBOA, PODERÁ VOAR AINDA MAIS LONGE.

NÃO É PRECISO fumar haxixe por um narguilé para o cérebro ficar enevoado e o espírito se abrir numa dança de cambiantes eróticos. Escutar a voz da cantora grega Savina Yannatou tem o mesmo efeito. O Mediterrâneo transforma-se num mar de luxúria. Arrepios prometidos para hoje, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em concerto do Festival das Músicas e dos Portos.
            Mas não se imagine que vai ser uma pouca-vergonha. É verdade que a voz e a presença física de Savina Yannatou nos recordam que a ascese espiritual não dispensa um ou outro frémito do corpo. E que na origem da música rebetika (na qual, aliás, Savina faz ocasionais incursões) também estão umas boas cachimbadas de haxixe turco as quais, de certa forma, ajudam a que soe ainda melhor. Mas nela o erotismo radica em correntes mais profundas do ser, num veio de sol, aluz e mar que empurra suave, mas firmemente, a alma para o êxtase. Coisa mística, enfim. Mas deleitosa.
            Tudo isto a propósito da segunda vinda desta cantora grega a Portugal (passou despercebida na programação da Expo), desta feita acompanhada pelo grupo Primavera em Salonico, composto por músicos afetos à música tradicional e ao jazz.
            Poderia não passar de uma premonição, ou de um desejo, se antes não tivéssemos travado conhecimento com dois magníficos álbuns nos quais Savina demonstra tudo aquilo que escrevemos até aqui: “Primavera en Salonico”, de 1994, e “Songs of the Mediterranean”, de 1998. Já foi editado um terceiro, inteiramente preenchido com canções em louvor à Virgem Maria. A música que deles se evola faz-nos sentir apaixonados, infiltra-se pela pele até se alojar no coração. Ou mais fundo ainda.
            Savina Yannatou canta o Mediterrâneo. O mar e a terra em volta. Ela é o sal e o cálice que transborda. Em “Primavera en Salonico” a sua voz inflama principalmente as canções dos judeus sefarditas que no século XVI foram expulsos da Península Ibérica, disseminando-se um pouco por todo o Mediterrâneo. Savina canta neste disco em ladino, o dialeto destes judeus que marcaram de forma indelével a cultura de todo o Sul da Europa.
            Em “Songs of the Mediterranean” o canto de Savina Yannatou alarga-se, espreguiça-se, assanha-se, ganhando corpo nas margens e nas águas da sua Grécia natal mas também da Albânia, Itália, Sardenha, Israel, Andaluzia, Líbano, Chipre, Turquia, França, Córsega e Tunísia. Há nestes dois álbuns momentos sublimes que, a repetirem-se hoje no CCB, poderão garantir para o concerto um lugar entre os melhores do ano.

Ladina e rebetika

            Savina Yannatou nasceu em Atenas onde estudou canto no Conservatório, prosseguindo os estudos na Academia de Arte Vocal de Atenas, onde trabalhou com músicos reputados na área da música grega erudita, como G. Georilipoulou e Spiros Sakkas. As altas classificações proporcionaram-lhe uma bolsa em Londres, na Guildhall School of Music and Drama. Sim, drama! Porque além de cantora, Savina Yannatou não descura o teatro, tendo composto e executado as bandas sonoras de “A Caixa de Pandora”, uma pantomina, e da peça clássica “Medeia”, de Eurípides, pelo Teatro Nacional Grego.
            1979 assinala o ano de início de carreira. Quatro anos mais tarde encontra os Primavera en Salonico, grupo com o qual enceta um caminho comum que, para já, os coloca a ambos na vanguarda do panorama da world music atual. Com os Primavera en Salonico, impulsionados pelo rigoroso trabalho de investigação musicológica e pelos arranjos de Kostas Vomvolos (também acordeonista e executante de quanun, o saltério árabe), a música expande-se pelos territórios abertos pela improvisação. Não admira. Todos os músicos do grupo estão ligados ao jazz: Kyryakos Gouventas, violino, Yannis Alexandris, violeta e alaúde árabe, Haris Lambrakis, nay (flauta), Nikos Psofoyrogos, percussão, e Michalis Signadis, contrabaixo, este, por sinal, companheiro habitual de um famoso jazzman grego, o clarinetista Floros Floridis, e elemento da Black Sea Orchestra, formação de virtuosos que ontem se apresentou na Aula Magna, em Lisboa, no âmbito deste mesmo festival.
            Festival onde, além do fado, tem estado em destaque a música rebetika do porto do Pireu e de outras cidades onde teve origem, como Atenas, Larissa, Hermopolis (na ilha de Syrus), Salónica, Esmirna (na costa da Turquia) e Constantinopla. Uma música que começou por ser cantada e tocada ainda no século XIX, nos cafés musicais das zonas portuárias, antes de ser adotada pelos marginais, pelos presos políticos e em geral por todos os que, a seguir à Guerra de Independência grega, se opunham ao governo. Entre danças de volúpia e todo o género de improvisações, musicais e de outro tipo, sugeridas provavelmente pelas tais cachimbadas (no tradicional cachimbo de água, o narguilé) de haxixe que escorria em abundância da Turquia.
            Sem ser uma cantora exclusiva de “rebetika” Savina Yannatou não deixa, contudo, de abordar este forma de canção tão característica, quer através da interpretação de alguns temas “rembetes”, quer devido ao facto de alguns dos músicos do Primavera en Salonico pertencerem também ao grupo, este sim de rebetika pura e dura, Tambourlika Ensemble, acompanhantes da cantora Maryo, ou Maria Konstanttinidou, apelidada de “o mito do porto de Salónica”, que hoje e amanhã atuam no bar Speakeasy, às 24h.

SAVINA YANNATOU + PRIMAVERA EN SALONICO
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, hoje, às 21h30. Bilhetes entre 3000$00 e 1000$00.


ARTES | sexta-feira, 11 fevereiro 2000

30/11/2014

Uma voz tocada pela graça [Savina Yannatou]



cultura DOMINGO, 13 FEVEREIRO 2000

Savina Yannatou e Primavera en Salonico deslumbram no CCB, em Lisboa

Uma voz tocada pela graça

Sublimes. A voz e o canto de Savina Yannatou, cantora grega com alma do tamanho do Mediterrâneo. Num concerto que fez as pessoas sentirem-se, primeiro deslumbradas, depois felizes. Ficou a sensação de estarmos em presença de alguém tocado pela graça.

Nada fazia prever uma coisa assim. Os álbuns de Savina Yannatou são, sem dúvida, magníficos – “Primavera en Salonica”, “Songs of the Mediterranean” e o novo “Virgin Maries of the World” –, mostrando uma voz que facilmente se percebe ser de exceção. Mas todos aqueles que tiveram a felicidade de estar presentes, na noite de sexta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, para a escutar, na companhia do grupo Primavera en Salonico, no âmbito do Festival das Músicas e dos Portos, receberam algo mais, irrepetível: uma voz abençoada e uma música que extravasa do Mediterrâneo para a eternidade.
            Savina é uma mulher bela. Mesmo sem cantar, a sua presença irradia força, brilho, majestade. Envolta num longo vestido verde-musgo a cantora grega começou por cantar “a capella” um tema tradicional da sua Grécia natal. A partir daí, ao longo de duas horas de êxtase, teve início uma viagem pelas músicas do Mediterrâneo e dos Balcãs com passagem pelo reportório sefardita, Albânia, Itália, Israel, Bulgária, Roménia, Turquia, Andaluzia, pela música antiga, em dois temas das “Cantigas de Santa Maria”, de Afonso X, o Sábio, rei de Espanha e por um “Agnus Dei” cm origem no Congo.
            Percebeu-se, ao longo desta viagem – que para muitos terá sido iniciática… – que a voz de Savina Yannatou não se esgota num único registo. Canção a canção, foram-se abrindo portas que davam para salas com outras portas abertas para outras salas com outras portas. Acenderam-se luzes. Revelaram-se segredos.
            Uma vezes abraçando-nos numa ternura impossível, noutras mergulhando ameaçadora na escuridão de graves guturais, Savina Yannatou modulou a voz a seu bel-prazer, pondo-a em sintonia ora com o canto multifónico (houve quem procurasse desesperadamente no palco um inexistente tocador de didjeridu, não acreditando que o som pudesse vir da voz…), ora, sobretudo nas canções italianas, com o júbilo de um vibrato de uma riqueza tímbrica rara de encontrar.
            Além de ser uma extraordinária cantora de música tradicional, Savina mostrou no CCB que o seu universo não se esgota no património do passado, por mais rico que este se possa apresentar.
            Foram frequentes as vezes em que se entregou a improvisações onde o arrojo só encontrou paralelo na forma quase inacreditável como colocou a voz.
            Desceu ao inferno e subiu ao céu, fez scat de jazz, brincou com as técnicas árabes, foi criança e monstro, entrando sem cerimónias nos territórios sob a vigilância de feiticeiras como Shelley Hirsch, Joan LaBarbara, Meira Asher, Diamanda Galas e, sobretudo, Fátima Miranda. E a sua compatriota Irene Papas. E, coisa espantosa, quando se poderia pensar na dificuldade da tarefa, num esforço olímpico, aconteceu outro prodígio. Savina Yannatou mal se mexe ao cantar, o corpo repousado num qualquer yoga secreto onde apenas o rosto se ilumina ou escurece, como se o ato de cantar em uníssono com os deuses fosse a coisa mais natural do mundo.
            Diante de todas estas maravilhas torna-se quase ingrata a tarefa de escrever sobre o grupo que nos últimos anos tem acompanhado a cantora, os Primavera en Salonico – a base, o edifício sólido que permitiu a Savina voar. Michalis Signadis foi um contrabaixista transbordante de swing, Haris Lambrakis um flautista na tradição dos antigos tocadores de “aulos” gregos, Kostas Vomvolos, no saltério (na ocasição o “qanun” árabe), um oásis, e Kyryakos Gouventas, no violino, uma chama irrequieta, em comparação com os mais discretos Yannis Alexandris, na guitarra e no alaúde árabe, e Nikos Psofoyrogos, nas percussões.
            Dois “encores” e um ramo de flores premiaram a atuação de Savina Yannatou, uma das maiores vozes femininas que passou nos últimos anos por Portugal.
            No penúltimo, a cantora fechou o círculo mágico, juntando, uma a uma, as ondas do Mediterrâneo na lagoa de uma canção de embalar. Alguém sussurra que parece um sonho. É difícil não sentir assim, ao ouvir esta voz tão próxima de nós e ao ver este corpo de musgo iluminado por um único holofote. Não era preciso o holofote. Savina Yannatou tem luz própria.