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27/04/2026

As sombras da ribalta [Sérgio Godinho]

 

PÚBLICO DOMINGO, 21 JULHO 1991 >> Cultura

 

“Luz na Sombra”, de Sérgio Godinho, começa hoje na RTP2

 

As sombras da ribalta

 

Luz e sombra são parte integrante do mundo do espetáculo. Em “Luz na Sombra”, Sérgio Godinho dá a conhecer os bastidores, os rostos na sombra, o real por baixo da maquilhagem. “The show must go on”, é verdade, mas pode parar por instantes, e mostrar o outro lado do espelho. De que matéria são feitos os sonhos?

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

Hoje, a partir das 20h15, no canal 2 da RTP, a luz incidirá nos recantos mais escuros dos bastidores do mundo da música, iluminando aquilo que por norma apenas se adivinha. Sérgio Godinho, viajante de todos os imaginários, contador de histórias e de vidas que já não vamos tendo tempo de viver, vai levantar o pano e mostrar como se constrói a imagem em que acreditamos.

São seis programas, genericamente intitulados “Luz na Sombra”, “cada um sobre uma pessoa que trabalha dentro da música”, numa reflexão pessoal sobre outros tantos aspetos ligados à produção musical, personificados por quem sabe e quer partilhar esse saber.

José Salgueiro, músico, é o protagonista do primeiro programa. Depois será a vez de Carlos Tê, letrista, Paulo Pulido Valente, produtor de espetáculos, Ricardo Camacho, produtor e músico, Rui Fingers, “roadie” e músico e, por último, Tó Pinheiro da Silva, técnico de som. Todos os domingos, até finais de agosto.

Sérgio Godinho, além de autor de “Luz na Sombra”, acumula ainda as funções de apresentador e entrevistador. A realização e montagem estão a cargo, respetivamente, de Teresa Olga e Henrique Monteiro.

 

O outro lado existe

 

Luz e sombra são polos complementares de uma mesma realidade. Sem um o outro não existe nem tem razão de ser. Luz e sombra que constituem a própria essência do espetáculo. De um lado o brilho dos projetores, a fama, a claridade das vozes e da música, a encenação e simulação dos gestos. Do outro, aquilo que não se vê mas está lá, atrás da cortina ou da câmara, omnipresente, indispensável para o bom funcionamento da parte visível. Os alicerces, as infra-estruturas técnicas e humanas, a imaginação e o suor dos que trabalham para que a máquina funcione, tornando possível o sonho e a ilusão credível.

Para Sérgio Godinho trata-se de deixar por algum tempo o papel de “escritor de canções” para contar outro tipo de histórias, feitas de imagens e jogos sobre a música e as pessoas a ela ligadas. Jogos de sombra. Jogos de luz. Ficções, ainda e sempre, urdidas por quem há anos vem tecendo o pano cru onde sonho e realidade se confundem. Eis o argumento resumido desses pequenos filmes subjetivos, parte integrante da grande-metragem que é a música popular portuguesa.


Seis argumentos possíveis

 

José Salgueiro, baterista (hoje) – o suor dos ensaios, o trabalho de professor, as “tournées” com os Trovante que ciclicamente se repetem. É difícil manter o ritmo, mesmo para um baterista. A vida e música de um músico, no compasso certo.

Carlos Tê, letrista (28 de julho) – o verbo também se escreve com caneta. A letra “T” sempre presente nas palavras que Rui Veloso canta. Palavras nascidas de uma cidade antiga e mágica, o Porto, cenário de muitas histórias por contar. Canções inéditas da dupla, recolhidas num ensaio da banda. Novos projetos. Um livro aberto.

Paulo Pulido Valente, produtor de espetáculos (4 de agosto) – como se organiza um espetáculo? Ninguém se preocupa, desde que o pano suba. Um exemplo: as Festas de Lisboa de 1990, onde o citado produtor se encarregou de animar o cinzento das ruas com fantasia, trabalho e a música dos Repórter Estrábico, Capitão Fantasma e a Lua Extravagante de Vitorino e Janita Salomé.

Ricardo Camacho, produtor – e músico dos Sétima Legião, acrescentamos nós. Explica como se produz um disco, se arranjam as canções e se idealiza o som global. Sem um produtor capaz não há disco que resista. Música da Sétima Legião, António Variações, GNR e Manuela Moura Guedes.

Rui Fingers, “roadie” – o “roadie” é quem carrega com o piano às costas. Quem liga e desliga os amplificadores. Quem monta e desmonta o palco. É o operário da música, o homem dos músculos, um “mouro” de trabalho. O “roadie” em questão, para além de trabalhar com os Rádio Macau, que veremos atuar, ainda arranjou tempo pra tocar na banda de “heavy metal” V 12. Uma canseira.

Tó Pinheiro da Silva, técnico de som – ele escuta as opiniões e as bocas, tantas vezes despropositadas, dos músicos, mas faz como acha melhor. No estúdio é ele que sabe, pode e manda. Dele depende em grande parte o sucesso ou fracasso de um disco. Vamos ver essa alquimia, durante a gravação e misturas de um tema do último álbum de Jorge Palma.

Depois de “Luz na Sombra” tudo ficará, de certo modo, mais claro. Luz e sombra, o difícil está em separá-las. Ou, como diria Neil Young, “there’s more in the picture, than meets the eye”.


29/10/2025

Música portuguesa - Grandes expectativas

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 JANEIRO 1991 >> Pop Rock

 

MÚSICA PORTUGUESA grandes expectativas

 

Se 1990 foi o ano das confirmações dos grandes nomes, mas também o da inexistência de um circuito alternativo que pudesse prometer a continuação do cenário, já há muita gente a tentar reagir contra isso. Pelo menos há uma grande esperança em relação ao aparecimento de projetos novos, que ainda assim pouco se vislumbram. Será 1991 um ano de grande explosão de vias alternativas impostas pela aparente estagnação do meio?

Algumas pistas parecem apontar nessa direção, se não atente-se na quantidade de nomes consagrados dispostos a arriscar em projetos fora do habitual. Uma dessas pistas passa mesmo pela grande vontade de altar as fronteiras e mostrar no estrangeiro o que se vai passando por cá. Serão tudo promessas de ano novo?

 

ANTÓNIO M. RIBEIRO
Nova editora discográfica, discos a solo e com os UHF, tournée intensiva


Como sempre, os UHF têm uma agenda recheada para o ano em curso. Concertos não faltam e parece que discos também não. António Manuel Ribeiro, mentor e porta-voz habitual do grupo, é organizado e prepara com antecedência todas as suas atividades, isto é, não brinca em serviço. É perentório: “Este ano, os UHF vão realizar uma série de concertos, já assinados, que farão parte da pré-temporada em relação ao Verão, que será muito intenso”. Quanto a discos, há projetos muito concretos: edição de um single antes da época estival, “que será como que um aperitivo do álbum de originais a editar depois do Verão”. Mais bombástica é a intenção de a banda de Almada criar a sua própria editora, destinada a editar e promover novos valores e, muito provavelmente, os próprios UHF, o que deixa antever uma rutura definitiva com a Edisom, à qual ainda se encontram ligados.

1991 vai ser o ano do lançamento a solo de António Manuel Ribeiro. Depois de uma primeira apresentação no Teatro Tivoli, integrada na campanha do MASP e que foi “até certo ponto uma brincadeira, embora tivesse sido minimamente preparada” (a apresentação, não a campanha, como é evidente...), tenciona continuar a trabalhar com os mesmos músicos que o acompanharam nessa ocasião e publicar o seu primeiro disco a solo ainda antes das férias grandes.

António Manuel Ribeiro anda no meio musical há muito tempo e conhece-o como poucos. Não tem pejo em criticar uma situação que julga cada vez mais deteriorada: “Em relação ao mercado discográfico, as coisas estão cada vez pior.” A editora que pensa criar pretende lutar contra tal situação: “Acho que nos devemos meter um bocado ao barulho. Ao fim destes anos todos de críticas constantes ao sistema, o que temos de fazer neste momento é apresentar-nos dentro desse próprio sistema e produzir, ao fim e ao cabo, novos grupos, novos artistas e novas ideias.”

O líder dos UHF não poupa as editoras: “A Europa e o confronto com 1992 deixou-as num deserto de ideias.” E diz ainda: “Toda a gente se queixa, desde os artistas aos próprios chefes das editoras, mas o que é um facto é que os disparates continuam semanalmente a ser os mesmos.” Refere-se a disparates como “gastar dinheiro mal gasto, de que são exemplo os milhares de contos perdidos em estúdio, em projetos sem pernas para andar” e adianta soluções: “A música portuguesa precisa sobretudo de descobrir novos valores, mas também de segurança e garantias de viabilidade financeira, sob riscos de [as editoras] se tornarem meros financiadores discográficos.” Acusa novamente: “Mas nada tem sido feito para que isso aconteça e as editoras são talvez as principais culpadas do insucesso prático que se verifica. O público não é parvo. As pessoas não compram os discos só porque são lançados cá para fora com grandes parangonas de promoção, mas que depois resultam em fracasso.” Exceções a estas estratégias mal orientadas, encontra-as António Manuel Ribeiro nos dois extremos do leque editorial: um dos casos é um dos “grandes” selos nacionais, o outro um pequeno, independente, e, segundo o cantor, “cada qual com um projeto viável para a música portuguesa”. De resto, 1991 será mais um ano do “deixa andar”.

 

 

JOÃO PESTE

Jorge Dias

 

PEDRO AYRES MAGALHÃES

Luís Maio

 

MIGUEL ÂNGELO

Luís Maio

 
RUI REININHO
GNR em estúdio, Gala anti-sida em Lisboa, cumplicidade Alexandre Soares

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Este ano, os GNR entrarão em estúdio “quando lhes apetecer”, de preferência a partir de março, que é, para Rui Reininho, “um bom mês, primaveril”, ideal para se gravar, sobretudo se for em Carcavelos. São capazes de apostar no estrangeiro: “Deve ser fácil, cá é tão difícil, há tanta má vontade, que lá fora não pode ser pior.” São capazes de ter razão.

Grandes concertos parece que não vai haver. A não ser em fevereiro, numa grande gala em Lisboa, uma intervenção “pequenina”, mas decerto que empenhada. Tem de ser, pois trata-se de “uma daquelas coisas de solidariedade, com uma recolha de fundos e apoios para a investigação da sida, com a participação de pessoas muito caridosas”. Para os GNR é importante “essa história do vírus”.

Já Rui Reininho, em particular, parece voltado para outro lado: vai trabalhar de novo com o seu antigo companheiro nos GNR, Alexandre Soares, na feitura musical de uma peça de Sam Shepard.

Para 1991, o vocalista da banda portuense acredita nas virtudes das organizações camarárias, que podem desempenhar um papel importante na divulgação da música portuguesa, caso do espetáculo que deram o ano passado na Alameda, mas “com um bocadinho menos de romaria”. Falta organização, mas é capaz de “não haver estruturas para isso”. Como na Alameda, que foi o que se sabe. “Fazer coisas dessas sem segurança pode ser perigoso, só nós, que somos malucos. Se tivesse sido, por exemplo, em Milão, tinha havido gente ferida, esfaqueada, confrontos”. Mesmo assim “sentem” os apoios das câmaras, embora sejam “um bocado eleitoralistas”. 1991 vai ser ainda um ano de proibições, com as bandas proibidas de tocar em bares, “por causa de horários, barulho, essas histórias todas. Apenas vai continuar aquela pressão das pessoas beberem copos”. Também não parecem acreditar muito nas editoras e ouviram falar de “recessão”. Enfim “é a guerra” – diz Reininho. “Acho que vai haver guerra!”

 

RUI VELOSO

Jorge Dias

 
RODRIGO LEÃO
Composição nos Sétima Legião, digressão nos Madredeus, projeto a solo


Rodrigo toca baixo e é um dos membros fundadores dos Sétima Legião. Depois iniciou, de parceria com Pedro Ayres Magalhães, o projeto Madredeus, onde se ocupa das teclas. É um dos personagens mais determinantes e influentes da nova música portuguesa, embora não seja muito vistoso nem vocacionado para afirmações sensacionalistas. Em 1991, dividirá a sua atividade entre as duas formações que integra. Quanto aos Sétima Legião têm poucas atuações agendadas, sendo duas delas no estrangeiro (Bélgica e Canadá). O objetivo desta formação não é, de resto, atuar ao vivo, antes estão mais preocupados em começar a compor e tocar material para um novo trabalho de estúdio, sucessor do triunfante “De Um Tempo Ausente”, lançado no Natal de 1989. É um trabalho mais a médio prazo e não é provável que seja editado antes dos finais deste ano/princípio do próximo. Diametralmente oposta é a ideia dos Madredeus, cuja digressão é para já a sua grande prioridade.

Para além das duas coisas, Rodrigo planeia também desenvolver este ano o seu projeto a solo que define como um trabalho de sintetizadores com computadores e surge na sequência da encomenda para a banda sonora do filme de estreia de Manuel Mozos. O artista encontra-se em negociações para a publicação do disco resultante com uma editora local. Com tanta coisa que fazer, Rodrigo está naturalmente um pouco à margem do trabalho alheio. “Tenho estado um bocado afastado do panorama local. As coisas que tenho ouvido... Acho é que há uma série de grupos que têm conseguido sobreviver.”

 
SÉRGIO GODINHO
Curtas metragens, programas de televisão, concertos em Goa e Macau

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“Escritor de Canções”, Sérgio Godinho parece este ano apostado em explorar outros tipos de linguagem: vídeo e cinema. Já tem gravados dois dos seis programas que tenciona apresentar na televisão sob o genérico de “Luz na Sombra”, série que explora algumas das principais funções inerentes à produção musical – como recentemente explicou, em entrevista concedida ao PÚBLICO. Além disso, tenciona realizar e produzir quatro filmes, quatro curtas metragens, no fundo “extensões de trabalhos de ficção que habitualmente faz em canção”. “Anda tudo ligado”, como ele próprio diz. Discos, este ano, só se estes projetos falharem. Quanto ao espetáculo “Escritor de Canções”, que alcançou grande sucesso enquanto esteve em cena no Instituto Franco-Portugais, tenciona levá-lo a Goa e Macau já em fevereiro.

Para o ano em curso, espera da música portuguesa que surjam coisas novas, mas que não sejam “indigestas”. É de opinião, no entanto, que adiantar mais qualquer coisa, seria como “fazer previsões sobre a guerra no Golfo”. Assim, acha que “todas as hipóteses estão em aberto”. Segundo ele, “criatividade é o que não falta e em Portugal é uma coisa estimulante”. Infelizmente parece que o que falta mesmo é “um mercado, mesmo para os consagrados. O consumo não é tão extenso como isso e o que há são casos esporádicos, como o Rui Veloso, de facto um fenómeno, mas que não faz a Primavera”. De resto, o costume: “A nível de estruturas organizadas para ‘tournées’ e espetáculos ao vivo, a coisa não tem evoluído muito positivamente.”

Em relação ao tal apoio ou não das câmaras municipais, lamenta que o panorama esteja “um bocado em recessão”. O rock é ainda assim quem menos razões tem para se queixar: “As câmaras acham que a juventude quer sobretudo rock e é como se lhe desse um brinde. Depois, há aquela fação adepta das canções tipo Marco Paulo e tudo é encaminhado para aí”. Na questão de concertos, “devia dar-se prioridade a ‘tournées’ comerciais, inclusive com patrocínios, mas que sejam viáveis”, aponta. É que da maneira como as coisas estão, criaram-se, segundo ele, certos “vícios”, quer no público quer nos organizadores, com espetáculos gratuitos, mas sem qualquer espécie de condições. “É importante que as câmaras promovam a cultura, mas com o entendimento das estruturas necessárias para o fazer.”

 

XANA

Jorge Dias

 

ZÉ PEDRO

Jorge Dias

 

 

10/10/2025

"Detesto o ênfase" [Sérgio Godinho]

 CULTURA TERÇA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1990

 

É hoje posto à venda o novo duplo-álbum de Sérgio Godinho, “Escritor de Canções”.

 

“Detesto o ênfase”

 

“Escritor de Canções” é o título do mais recente disco de Sérgio Godinho, gravado ao vivo no Instituto Franco-Português e hoje lançado no mercado. Excelente oportunidade para rever, em novo contexto, parte das histórias vividas por toda uma geração.

 


Público – Qual a necessidade que o levou a gravar em disco o espetáculo ao vivo, realizado no Instituto?

            Sérgio Godinho – O disco é uma consequência desse espetáculo. Como compositor e intérprete interesso-me por este tipo de registo, ao contrário do que acontece, se colocado na perspetiva de simples ouvinte. Interessa-me sobretudo ver como as canções são retomadas num contexto diferente do estúdio.

            P. – Em “Escritor de Canções”, contudo, as palmas soam artificiais, como que deslocadas do ambiente geral do disco…

            R. – Talvez por haver um silêncio tão grande e um grau de atenção muito maior, as palmas possam surgir como um elemento estranho. O alinhamento diferente das canções implicou um trabalho de montagem que não se pretende de reportagem. Não é um disco em que o público intervenha de forma ativa, mas sim pelo silêncio. Houve como que uma intimidação, no bom sentido, em que se procurou criar uma nova relação com as pessoas, num contraponto intimista de momentos mais festivos, próprios de espetáculos maiores. Diferentes tipos de encenação.

            P. – Como se processou essa encenação, de modo a resultar simultaneamente ao vivo e em disco?

            R. – O termo “Escritor de Canções” reflete uma certa ironia. Escrever canções é um ofício ou uma arte diferente de fazer só poemas ou música. Parto de fórmulas que vêm do passado e são depois revestidas de novas roupagens musicais. No palco há a transposição para o nível físico.

            P. – “Escritor de Canções” é designação suficientemente lata para albergar uma grande diversidade estilística. Como definiria, em termos gerais, a sua música?

            R. – Sou eclético pelo facto de escrever canções que podem incluir-se em diversos universos musicais. Há uma interpenetração de géneros e estilos que acontece de modo natural. Não se trata bem de uma qualquer espécie de “fusão”, mas antes de uma colagem criativa, feita a partir da audição de muita música. “L’Âme des Poètes” [incluída no novo disco] é uma canção muito antiga de Charles Trenet que eu ouvia muitas vezes, em miúdo. Ouvia também música brasileira, francesa, americana, clássica. Depois, a todas estas influências juntaram-se, na minha adolescência, a música dos “tops” e, mais tarde, a de Zeca [Afonso], Dylan, Beatles, Brel, Caetano [Veloso], Chico Buarque…

            P. – Até que ponto as suas canções são autobiográficas? As “Ritas” e “Carolinas” dos seus discos são reais?

            R. – A minha música reflete sobretudo um certo olhar sobre a vida, as pessoas e o modo como estas se relacionam. As personagens surgem de pequenas experiências que transporto para o ficcional. Não consigo ter uma narrativa realista. Tenho a tendência para simbolizar. Nunca daria um bom repórter.

            P. – E no entanto, o novo disco abre com “Notícias Locais” …

            R. – Trata-se de uma brincadeira a partir de acentuações com as cinco vogais: adro, ébrio, híbrido, óbito, súbito. Brincadeiras formais que influenciam a própria narrativa. Muitas vezes uma rima ou uma palavra que dava jeito é que determina a verdade. A verdade dos factos não existe, mas sim a das palavras.

            Por outro lado utilizei uma multiplicidade de referências, muitas vezes apenas percebidas ao nível do Inconsciente. Nem todos percebem imediatamente que “arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza” diz respeito, no nosso imaginário a “uma casa portuguesa, com certeza”.

            P. – Não receia perder o contacto com as gerações mais novas?

            R. – Não quero partir atrás de uma suposta adesão de todas as camadas etárias. Houve uma altura em que me ressenti um pouco por isso. Sentia pressões para embarcar num comboio “mais na onda” e, ao mesmo tempo, uma certa exaustão na maneira de tratar as canções. O estatuto de clássico pode ser perigoso. Não me interessa refugiar-me na imagem do artista consagrado se isso não corresponder a nada. O trabalho com António Emiliano em “Na Vida Real” funcionou como um relançamento, de forma, nem angustiada, nem neurótica. Não me preocupo em estar sempre na crista da onda. Isso é desgastante e desertificante.

            P. – O novo álbum poderá representar a reformulação da sua imagem?

            R. – É o fechar de um tempo, balanço incompleto do passado. A editora achou por bem não insistir nas canções de “Aos Amores”. Não é, de qualquer modo, um “greatest hits”. O “Brilhozinho nos Olhos” ou o “Primeiro Dia”, por exemplo, estão ausentes.

            P. – Mas há um relançamento noutras áreas…

            R. – Sim, estou a fazer uma série de seis programas para a televisão, de genérico “Luz na Sombra”, que trata de seis funções do mundo da música, normalmente na sombra, como as de intérprete, produtor, técnico de som, letrista, “roadie” e arranjador musical. É uma crónica assumidamente subjetiva onde eu funciono como “pivot”.

            P. – No espetáculo ao vivo, o público chegou a comover-se. Como explica o elevado grau de identificação das pessoas com as suas canções?

            R. – foi comovente também para mim. Existem pontos comuns ao nível de afetividade. Sobretudo há uma sensibilidade especial relativa ao tema da “perda”. Penso que é neste aspeto que toco nas pessoas. Acho que há algo extremamente forte no acabar de algo que foi extremamente belo. Não quero ser patético, detesto o ênfase. Gosto de usar a ironia, como em “Emboscadas”, em que uso uma terminologia do romance de cordel, justamente para me distanciar do real. Jogo com sentimentos dolorosos e com o facto de todos nós sermos valerosos, pungentes, desgraçados e de, ao mesmo tempo – o que é uma coisa muito portuguesa – sorrirmos muito das nossas desgraças.

            P. – Isso explica o tom melancólico de grande parte das suas canções?

            R. – De facto não sou muito pela criação de ambientes preto no branco. Tenho uma certa tendência para a dúvida sistemática em relação a tudo. Acho que não há verdades nem estéticas eternas. Do ponto de vista formal procuro introduzir elementos desestabilizadores. Funciono em termos de dinâmicas, de modo intuitivo, dinâmicas inseparáveis do elemento vivencial. Há um elemento de melancolia que nem sempre consigo controlar. Numa das canções, “Lisboa que Amanhece”, das minhas preferidas, o mistério vem da rapidez com que foi escrita. É como uma criança que não sabe falar e, de repente, diz uma frase inteira.

24/01/2022

Sérgio Godinho canta aos amores e desamores

 

TERÇA-FEIRA, 1 MAIO 1990 cultura

 

Sérgio Godinho canta aos amores e desamores

 

Sérgio Godinho, “escritor de canções”, iniciou na sexta-feira à noite, no Instituto Franco-Português, uma série de espetáculos que continuará até 19 de Maio. Excelente oportunidade para escutar, num ambiente diferente do habitual, as canções do trovador dos nossos desamores.

 

Sala cheia e uma enorma expetativa rodeavam a apresentação ao vivo de Sérgio Godinho no novo desafio e desempenho que este se propôs encetar, devolvendo aos nossos sentidos, memória e coração as canções que fizeram parte integrante da vida de toda uma geração e que parecem querer seguir connosco pela vida fora. A música de Sérgio Godinho tem essa capacidade única de conseguir transpôr vivências pessoais para um contexto mais lato, em que cada um faz suas as experiências do poeta. É também o espelho com que se confronta uma Lisboa marcada pela nostalgia do tempo perdido, afogada em Fado e nevoeiros, copos e vielas de má fama, sonhos de grandeza eternamente adiados na miséria do quotidiano. Circulando por entre o labirinto de bairros e emoções da cidade, cada um procurando nos encontros com a imagem (ou miragem) do Amor também perdido, a pausa de descanso, a ilusão compartilhada, que por vezes “sabendo a tanto”, quase sempre “sabe a pouco”.


 

Guardar silêncio

 

            Por isso e porque Sérgio, além de saber construir palavras com música, sabe, como ninguém, cantá-las, com a voz, o olhar, os gestos e, o que é mais difícil, o próprio silêncio, aqueles que ainda conservam em si uma criança, sabem também, “com um brilhozinho nos olhos”, comover-se e guardar silêncio.

            A assistência desta noite, composta por gente de todas as idades, reconheceu, compreendeu, vibrou, calou, riu, se calhar chorou, ou simplesmente acompanhou, consoante o estatuto estário e diferente grau de envolvimento, os pedaços de vida que Sérgio, como ator de um passado presente, foi desfiando, ao longo de uma arrebatadora atuação, sabiamente encenada até ao mais ínfimo pormenor.

            Os vários aspetos que constituíram a atuação do cantor foram estudados e postos em prática de molde a cumprir um objetivo previamente definido: despojar as canções de todo e qualquer excesso formal, despindo-as do artificialismo de arranjos e produções envernizadas, e revelá-las na sua força e beleza originais. Como refere o compositor: “Quando há coisas a mais, a linha do horizonte fica menos nítida”. Para o efeito, foram escolhidos, como únicos acompanhantes, Nani Teixeira, no baixo elétrico, e Manuel Faria, nas teclas. Toda a movimentação de palco e encenação dos temas foi organizada e comandada, com mão de mestre, por Ricardo Pais. O cenário, simultaneamente negro e ofuscante, jogando no par de opostos, escuridão/luz, inseparável e indissociável da arte e da vida, foi imaginado por Paulo Graça. A produção é de Paulo Pulido Valente.

           

Um espetáculo diferente

 

            Ao longo de mais de hora e meia de atuação, o autor de discos brilhantes como “Sobreviventes”, “Pré-Histórias” ou “Pano Cru”, marcos da moderna música portuguesa, declamou, conversou e sobretudo cantou (por vezes acompanhando-se simplesmente à guitarra acústica) antigas e recentes canções (estas do último álbum, “Aos Amores”), apresentando pela primeira vez dois temas inéditos, “Circunvalação” e “Notícias Locais”, este já num dos dois “encores” finais exigidos pelo público.

            Sérgio Godinho arriscou um espetáculo diferente e ganhou. Alternou momentos intimistas, desvelando mágoas e alegrias, fugas e avanços na difícil arte de estar vivo, com explosões de extroversão, dando espaço instrumental aos restantes músicos e aliviando tensões e, quem sabe, culpas, entretanto acumuladas. Viagem por paisagens exteriores e interiores que passou e culminou, nos últmos versos e acordes do concerto, no tom de abandono e despojamento, angústia e acordar de todos os sonhos, de “Alice no País dos Matraquilhos”. Depois o silêncio e o exorcismo final expresso numa imensa e reconhecida salva de aplausos.

11/04/2017

Medos para os pequenos [Sérgio Godinho]

LIVROS

Depois de “Lupa”, o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um “Pequeno Livros do Medos”. Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o “bicho desconhecido” que se esconde no sótão.

Medos para os pequenos

Depois de "Lupa", o álbum de canções, Sérgio Godinho escreveu e desenhou para as crianças um "Pequeno Livro dos Medos". Histórias de papões e de iniciação no mistério, até ao confronto final com o "bicho desconhecido" que se esconde no sótão.

O que distingue a criança do adulto é a inocência. Deixamos de ser crianças quando perdemos a inocência. Adão e Eva comeram a maçã e foi o que se viu. Enquanto adultos podemos ser puros. Mas nunca inocentes.
            Os adultos escrevem livros para as crianças lerem da mesma maneira que as crianças escrevem para os adultos lerem, com a diferença de que, neste último caso, as obras costumam vender menos. Nenhum adulto que escreve livros para crianças é inocente ou escreve livros inocentes. Razão por que as crianças, ao lerem os livros que os adultos escrevem para elas, vão perdendo aos poucos a inocência até se tornarem, elas próprias, adultos. Infelizmente as crianças não escrevem para si próprias tanto como deveriam. Talvez os editores achem que cometem demasiados erros de ortografia.
            Sérgio Godinho escreveu e ilustrou para as crianças um livro inteligente a que chamou "O Pequeno Livro dos Medos". Não teve medo de o fazer. E saiu-se bem. Porque escreveu como se estivesse a compor música. "O Pequeno Livro dos Medos" ouve-se tanto como se lê. E as crianças gostam disso. Até porque, como está provado, têm melhor ouvido do que os adultos.
            Aliás, toda a literatura existe, em primeiro lugar, para ser ouvida. As palavras não são outra coisa senão varinhas de condão que mexem em quem as ouve. O texto, falado ou escrito, funciona como instrumento de magia. A ciência fala em processos de correspondência, de simpatia, que se desenrolam no cérebro do leitor, mas a palavra magia tem bastante mais força e as crianças entendem-na melhor. Ali-Babá soletrava "Abre-te Sésamo!" e a porta que dava para a gruta do tesouro, obedecia-lhe, escancarando as goelas do segredo e da riqueza.
            O escritor e, sobretudo, o poeta são músicos das palavras. Nietzsche, que foi provavelmente o mais musical dos filósofos-poetas, escrevia/compunha em diálogo íntimo com o mais íntimo que existe dentro de cada um de nós. Tanto assim que a leitura de uma obra como o Zaratustra causa medo.
            Sérgio Godinho empreende, com outra candura, a exploração desse lado manipulatório (só a palavra mete medo, mas é mesmo assim) da escrita. Porém não se ouvem gritos. Até porque as crianças, dando a entender o contrário, são menos medrosas que os adultos na forma como se entregam de livre vontade aos ventos da noite. E sabem tirar partido e gozo do medo (Sérgio Godinho chama-lhe um "brinquedo", logo no primeiro parágrafo). Não admira que o autor brinque, como numa das suas canções, em jogos combinatórios: "Sou o bicho dos medos desconhecidos. Sou o desconhecido do medo dos bichos. Sou o medo dos bichos desconhecidos. Vira-me do lado que quiseres, que eu sou teu conhecido."
            "O Pequeno Livro dos Medos" começa por bisbilhotar no dicionário, esse outro livro prisão que ensina a arrumar o caos da linguagem. O autor procurou nos sinónimos e encontrou para "medo": "susto, receio, horror, pavor, cagaço, cobardia, desconfiança, temor, terror, pânico, assombramento...". Isto porque, diz ele, convém logo de início "olhar para dentro do medo" e "descobrir como ele funciona", esse "sentimento desagradável que excita em nós aquilo que parece perigoso, ameaçador, sobrenatural".
            Sabendo-se do nome do monstro com quem se está a lidar, o autor atira-se de cabeça para dentro da cabeça dos miúdos. Sem os assustar. Mostrando-lhes desenhos de rostos e seres "assustadores", entre o figurativo e as manchas do teste projetivo de Rorschach. E contando histórias de medos. Do dono de um circo que ameaça soltar um terrível leão ou do dono (já são dois "donos" - é curioso - as personagens que metem medo. Crítica subtil ao capitalismo?) de uma drogaria que mantém encerrado nas traseiras um bicho terrível que "o melhor é ninguém ver".
            Começam por ser "bichos", reais ou imaginários, os desencadeadores dos terrores infantis. Com base neste bestiário, porém, Sérgio Godinho conduz com suavidade os olhos espantados e gulosos dos seus pequenos leitores até ao sótão dos medos metafísicos, onde se "ouvem sempre misteriosos passos que não podem ser de ratazanas (...) passos de alguém que é leve e pesado ao mesmo tempo", levando-os "ao encontro do bicho desconhecido".
            É no sótão, no escuro "onde se desvendam os mistérios", que a criança enfrenta, olhos nos olhos, esse "desconhecido que mete medo e ao mesmo tempo apetece conhecer", e descobre no baú uma carta escrita pelo avô ao pai, onde se oferece a solução. A família - chave de segurança que ajuda a enfrentar os sucessivos embates do eu com o exterior, na sua contínua metamorfose de auto-descoberta.
            Idealizam-se mil formas de esconder, eliminar o papão para, finalmente, a criança o reconhecer como parte integrante de si própria.
            É o momento de "silêncio e respeito", em que ambos "ficam a olhar de frente um para o outro, como se fossem dois velhos conhecidos que nunca se tinham visto". Sem que seja possível descobrir a espada capaz de cortar a cabeça ao medo, a verdade é que o João (é este o nome do pai da criança a quem tudo isto sucedeu quando também ele era miúdo) "olhou à volta e não viu medo nenhum". "Talvez tivesse voado pela janela aberta". Como um pássaro.
            Ou talvez o medo "continuasse no fundo do mar, à espera de um polvo que por ali nunca passará". Nós, adultos com medo de ter medo, ficamos pelo nosso lado à janela, esperando, como no conto de Kafka, "pela mensagem que nunca chegará".

O Pequeno Livro dos Medos
AUTOR Sérgio Godinho (texto e ilustrações)
EDITOR Assírio & Alvim, 48 págs. 2500$00

ARTES
sábado, 16 dezembro 2000

01/10/2016

Sérgio Godinho - Domingo No Mundo

SONS sexta-feira, 20 de Junho 1997

PORTUGUESES

Sérgio Godinho
Domingo no Mundo (8)
Ed. e distri. EMI-VC

“Domingo no Mundo”, sendo um disco com peso de clássico, é, em paralelo, a derivação do seu autor para formas de inovação, ao nível da composição e dos arranjos. A opção estética de entregar os arranjos a outrem, abre, de forma talvez demasiado ostensiva, com a batida “hip hop” de “Ser ou não ser”. Num total de onze temas, da responsabilidade, entre outros, de Kalu, Manuel Faria, José Mário Branco, Tomás Pimentel, Rádio Macau, Jorge Constante Pereira e João Aguardela, nenhum dá parte de fraco. E pelo menos um deles entra diretamente para o grupo dos “melhores de sempre”, o título tema, um fantástico arranjo de um Manuel Faria “industrialista”, cujo refrão, cantado por Sérgio ao megafone, é um dos mais pujantes e “catchy” que a música portuguesa nos ofereceu nos últimos anos. “Não respire”, uma visão simultaneamente poética e crítica, sem ser moralista, do fenómeno da toxicodependência, e “As armas do amor”, mostram o Sérgio Godinho “rapper” e interventivo. O outro, intimista, surge em “Correio azul” e “Os afectos”. “É a vida” (o que é, que se há-de fazer?), “vintage” Godinho, e “Mesa”, surrealista no seu arranjo para metais de Tomás Pimentel, contrastam com a interpretação “Faustiana” e opiácea de “Lamento de Rimbaud”. O lado populista aflora em “Aguenta aí”, onde João Aguardela, dos Sitiados, encontrou o registo certo de festa e mordacidade, com a cidade do Porto, “património mundial”, na mira, e um violino de inclinações “cajun”. “Dias úteis”, em registo de fado, pelo simples pormenor do disco de piano riscado, põe de novo em evidência a capacidade inventiva de Manuel Faria, cada vez mais uma espécie de Brian Eno português. Sérgio Godinho, esse, continua a ser um mágico das palavras.

05/08/2016

Sérgio Godinho - Escritor De Canções

Pop Rock
7 de Novembro 1990

MELODIAS DE SEMPRE

SÉRGIO GODINHO
Escritor de Canções
LP e MC duplos e CD, Edição Emi-Valentim de Carvalho

Entre 27 de Abril e 20 de Maio deste ano, Sérgio Godinho atuou no auditório do Instituto Franco-Português. Sala pequena, propensa a intimismos e cumplicidades. Conceito-novidade no esquema habitual dos espetáculos ao vivo, em Portugal: o da temporada, com a permanência do artista numa determinada sala, distribuída por um espaço temporal mais prolongado. Convivência com o local, progressão do movimento e respiração teatrais e da própria “performance” – entre tantos fatores que o formato em sala maior, para multidões, impossibilita. Gravado a 7, 8 e 9 de Maio, “Escritor de Canções”, como se autodenominou Sérgio Godinho na aventura e neste disco, testemunha uma atitude e uma estratégia, em termos puramente estéticos, sempre arriscadas – reduzir cada canção, entre um leque recolhido a partir de álbuns anteriores, ao esqueleto essencial, valorizando a melodia e a interpretação em detrimento do ritmo e do arranjo sofisticado. No palco e no disco, apenas a voz e a guitarra acústica de Sérgio Godinho, acompanhados pelo piano e discretíssimo sintetizador de Manuel Faria (dos Trovante) e o baixo de Nani Teixeira. Encenação e luzes só no Instituto. Palmas calorosas, silêncios comovidos, memória e presente de gerações e épocas cruzadas na magia de uma melodia ou de um texto que não esqueceram, pedaços de vida por muitos sofrida ou alegadamente fruída na companhia de uma frase ou de um refrão – tudo isto aconteceu em noites passadas, à escuta de canções e recordações reacendidas e compartilhadas. No disco, é diferente: há a distância, inerente à audição, em outro tempo e outro palco, do registo gravado, longe da participação ativa com a música e da presença corporal do artista. A reprodução do acontecimento não é o mesmo acontecimento. O “Escritor de Canções” do disco não é o mesmo que as cantou em carne e osso. Evidência que o próprio Sérgio Godinho faz questão de salientar quando afirma que o álbum “quase podia ser um disco de estúdio gravado com muito pouco público ou amigos extremamente atentos”. Coerente com esta afirmação seria a não inclusão das palmas, aqui acrescentadas na mistura final e soando nitidamente deslocadas, frias, quase digitais, contrariando o tom intimista pretendido. Também o alinhamento dos temas não respeita o do espetáculo, sem que se vislumbre o critério que presidiu à nova escolha. Felizmente, e o que mais importa, vivem as canções, tão belas como as escutámos no passado, revistas agora à laia de recapitulação, assinalando o final de um ciclo e o começo de outro, ainda indefinido, no percurso do seu autor. Ninguém como Sérgio Godinho tem sabido contar as grandezas e misérias do quotidiano português – as suas alegrias e desilusões, o amor e as paixões que sempre acabam, bem ou mal, em ressacas magoadas à luz da madrugada, vividas por personagens com nomes vulgares, em histórias imaginárias que tantos fizeram suas, como reais. Canções dos álbuns “Pré-Histórias” (73), “De Pequenino se Torce o Destino” (76), “Pano Cru” (78), “Campolide” (79), “Canto da Boca” (80), “Coincidências” (83), “Salão de Festas” (84), “Na Vida Real” (87) e “Aos Amores” (89), mais um original de Charles Trenet, “L’âme des Poètes” e dois originais: “Notícias Locais” e “Circunvalação”. Correspondentes a 16 anos passados a cantar o interior e o exterior de uma “nação de poetas”, que carrega num burro “para Lisboa os restos mortais de Fernando Pessoa” e em que todos “regateiam amarguras, ilusões, trapos e cacos e contradições”.

Sérgio Godinho brinca com as palavras, cujo sentido se joga no modo como fonética e naturalmente se atraem. Os sentimentos surgem a partir de uma espécie de encantamento em que música e texto se juntam num todo solto ao vento, que cada um entende como quer e a si prende com a força concedida pelo sonho e a cegueira apaixonada que a ilusão provoca. Como o lamento daquela rapariga “que se ergue e gira, rodopia e joga à cabra-cega” – “é de nós todos e a ninguém se entrega”. ****

31/12/2014

Um músico usa tudo, até uma lupa [Sérgio Godinho]



ANTEVISÕES

SÉRGIO GODINHO APRESENTA, EM NOVEMBRO, NOVO ÁLBUM, “LUPA”, EM LISBOA E NO PORTO

UM MÚSICO USA TUDO, ATÉ UMA LUPA

PARA SÉRGIO GODINHO, O ÚLTIMO ÁLBUM E O ÚLTIMO ESPETÁCULO SÃO SEMPRE OS PRIMEIROS. É ESTE O SEU SEGREDO E O SEGREDO DA ETERNIDADE. DAS PEQUENAS E GRANDES HISTÓRIAS QUE O MÚSICO VEM CANTANDO HÁ QUASE 30 ANOS. NO PRINCÍPIO DE NOVEMBRO, LISBOA E PORTO VÃO PODER OBSERVAR À “LUPA”, E EM PORMENOR, OS TEXTOS, OS SONS E AS IMAGENS.

SÉRGIO GODINHO é o mais importante cantautor português vivo. Que me perdoem José Mário Branco, Fausto, Vitorino e demais nomes da mesma geração cuja relevância no desenvolvimento da música popular portuguesa nas últimas três décadas é inquestionável. Mas nenhum deles apresenta uma obra com a consistência, em termos de quantidade, qualidade e regularidade de produção, da do autor de “Os Sobreviventes”.
            Viajante das palavras, sonoplasta das emoções, contador de histórias, cinéfilo dos sons, artesão dos pequenos gestos íntimos, arquiteto das grandes catedrais do sentimento, júri das estrelas, tão coerente nos princípios que defende com independente na forma como, sobretudo, não se deixa prender a si próprio, Sérgio Godinho caminha desde 1971, ano em que gravou o seu álbum de estreia, “Os Sobreviventes”, ao nosso lado. As suas canções, com as histórias que nelas passam a maior ou menor velocidade, têm sido as nossas, ordenadas segundo a lógica desordenada da vida e arrumadas com todo o cuidado na vitrina através da qual a alma olha para o lado de fora.

Sobrevivente permanente

            Tem sido sempre assim, ao longo dos 15 álbuns que o músico já gravou, nas centenas de espetáculos dados em Portugal e no estrangeiro, em todos os projetos em que se tem envolvido, ligados à música, ao cinema, ao teatro e à televisão. Sérgio Godinho tem sido um dos caminhos mais percorridos pela música portuguesa nos últimos 30 anos. Com múltiplos desvios. E chegadas a lugares de descoberta.
            Nos próximos dias 2, 3 e 4 de Novembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e no dia 10, no Coliseu do Porto, Sérgio Godinho fará a apresentação ao vivo do seu mais recente álbum, intitulado “Lupa”.
            Sérgio Godinho integrava no início dos anos 70 o grupo de jovens compositores que giravam em redor de José Afonso. Mas José Afonso não se considerava o centro de coisa nenhuma e proclamava que eles, os novos, é que estavam a fazer coisas diferentes e interessantes. Nessa época Sérgio chegou a escrever, a pedido do próprio Zeca, uma letra para “Maio, maduro Maio” mas o autor de “Grândola” esqueceu-se e a letra acabou por ir parar às mãos de José Mário Branco que lhe deu um arranjo original.
            Zeca, entretanto, foi-se, deixando um lugar (ou vários lugares?) vagos na música popular portuguesa. Ninguém poderia nem pôde preenchê-lo mas o mestre tinha razão. Os novos souberam estar à altura, partindo cada um para a sua aventura pessoal.
            A aventura de Sérgio foi, continua a ser, imprevisível. Forçado pela ditadura, partiu para Paris, onde compôs as suas primeiras canções, influenciado pela “chanson française” mas também pelo rock e pela pop que chegavam a França com rapidez vindos do outro lado da Mancha. Com a edição de “Os Sobreviventes”, em 1971, logo seguido, no ano seguinte, por “Pré-Histórias”, ambos gravados em França, a MPP tomava novo rumo.
            A partir daí Sérgio Godinho cresceu. Mais do que o país, que parecia minguar. A costela política à qual era impossível fugir nesses tempos de luta, de quem decidira lutar, estava evidentemente presente nos discos, mas o panfleto era ofuscado pelo outro lado. O lado de dentro de canções que falavam do lado de dentro das pessoas.
            Sérgio inventou personagens e situações que se tornaram reais na nossa imaginação, encontrando eco e refractando-se nas vivências pessoais de cada um. Falou do país com ironia, algumas vezes com sarcasmo, desenfiando-lhe o barrete, mas falou sobretudo dos pequenos e grandes dramas dos seus habitantes, tantos deles errantes, tantos deles abandonados, tantos deles perdidos nas contradições de uma sociedade também ela contraditória. Com humor e ternura. As palavras foram atrás. Bem como os álbuns: “À Queima-Rupa” (1974), “De Pequenino se Torce o Destino” (1976), “Pano Cru” (obra prima absoluta da música portuguesa, 1978), “Campolide” (1979), “Canto da Boca” (1980), “Coincidências” (1983), “Salão de Festas” (1984), “Na Vida Real” (1986), “Aos Amores” (1989), “Escritor de Canções” (um dos grandes discos ao vivo de sempre da MPP, 1990), “Tinta Permanente” (1993), “Domingo no Mundo” (1997). Todos indispensáveis. Mosaico e caleidoscópio. Espelho e punhal. Luz e sombra. Confessionário e palco de teatro. Holofote e bastidores. Quarto e sala de estar.
            Conhece-se o talento de Sérgio para fazer as palavras cantarem. É essa uma das marcas do seu génio. A maneira como consegue tornar o português numa língua tão “cantabile” como o italiano. Se José Mário Branco é o arranjador por excelência, o manipulador de músicas e ideias que carrega sobre o si o peso do drama de ser português e o peso das palavras que podem matar, Sérgio é o observador-jogador que não se deixa tocar. Talvez por isso a sua música e as suas palavras permaneçam hoje tão vivas e atuantes como sempre. Porque Sérgio as solta, insuflando-lhes vida própria. José Mário Branco usa as palavras para falar. Sérgio Godinho deixa que elas falem por si.
            “Sou um músico. E na música, englobo as palavras – nesse aspeto sou um poeta; englobo o estar num palco – e nesse aspeto sou um cantor; e sou também um compositor, porque também faço melodias e ritmos a partir de coisas que vou escolhendo. Um músico usa tudo, as palavras, o palco, não consigo separar… diz de si próprio Sérgio Godinho. As palavras falam por si.
            Os próximos dias 2, 3, 4 e 10 serão, portanto, uma vez mais, os “primeiros dias do resto das nossas vidas”. É por isso que a última etapa da carreira de Sérgio Godinho é sempre a primeira.




ARTES | sexta-feira, 13 outubro 2000