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29/10/2025

Música portuguesa - Grandes expectativas

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 JANEIRO 1991 >> Pop Rock

 

MÚSICA PORTUGUESA grandes expectativas

 

Se 1990 foi o ano das confirmações dos grandes nomes, mas também o da inexistência de um circuito alternativo que pudesse prometer a continuação do cenário, já há muita gente a tentar reagir contra isso. Pelo menos há uma grande esperança em relação ao aparecimento de projetos novos, que ainda assim pouco se vislumbram. Será 1991 um ano de grande explosão de vias alternativas impostas pela aparente estagnação do meio?

Algumas pistas parecem apontar nessa direção, se não atente-se na quantidade de nomes consagrados dispostos a arriscar em projetos fora do habitual. Uma dessas pistas passa mesmo pela grande vontade de altar as fronteiras e mostrar no estrangeiro o que se vai passando por cá. Serão tudo promessas de ano novo?

 

ANTÓNIO M. RIBEIRO
Nova editora discográfica, discos a solo e com os UHF, tournée intensiva


Como sempre, os UHF têm uma agenda recheada para o ano em curso. Concertos não faltam e parece que discos também não. António Manuel Ribeiro, mentor e porta-voz habitual do grupo, é organizado e prepara com antecedência todas as suas atividades, isto é, não brinca em serviço. É perentório: “Este ano, os UHF vão realizar uma série de concertos, já assinados, que farão parte da pré-temporada em relação ao Verão, que será muito intenso”. Quanto a discos, há projetos muito concretos: edição de um single antes da época estival, “que será como que um aperitivo do álbum de originais a editar depois do Verão”. Mais bombástica é a intenção de a banda de Almada criar a sua própria editora, destinada a editar e promover novos valores e, muito provavelmente, os próprios UHF, o que deixa antever uma rutura definitiva com a Edisom, à qual ainda se encontram ligados.

1991 vai ser o ano do lançamento a solo de António Manuel Ribeiro. Depois de uma primeira apresentação no Teatro Tivoli, integrada na campanha do MASP e que foi “até certo ponto uma brincadeira, embora tivesse sido minimamente preparada” (a apresentação, não a campanha, como é evidente...), tenciona continuar a trabalhar com os mesmos músicos que o acompanharam nessa ocasião e publicar o seu primeiro disco a solo ainda antes das férias grandes.

António Manuel Ribeiro anda no meio musical há muito tempo e conhece-o como poucos. Não tem pejo em criticar uma situação que julga cada vez mais deteriorada: “Em relação ao mercado discográfico, as coisas estão cada vez pior.” A editora que pensa criar pretende lutar contra tal situação: “Acho que nos devemos meter um bocado ao barulho. Ao fim destes anos todos de críticas constantes ao sistema, o que temos de fazer neste momento é apresentar-nos dentro desse próprio sistema e produzir, ao fim e ao cabo, novos grupos, novos artistas e novas ideias.”

O líder dos UHF não poupa as editoras: “A Europa e o confronto com 1992 deixou-as num deserto de ideias.” E diz ainda: “Toda a gente se queixa, desde os artistas aos próprios chefes das editoras, mas o que é um facto é que os disparates continuam semanalmente a ser os mesmos.” Refere-se a disparates como “gastar dinheiro mal gasto, de que são exemplo os milhares de contos perdidos em estúdio, em projetos sem pernas para andar” e adianta soluções: “A música portuguesa precisa sobretudo de descobrir novos valores, mas também de segurança e garantias de viabilidade financeira, sob riscos de [as editoras] se tornarem meros financiadores discográficos.” Acusa novamente: “Mas nada tem sido feito para que isso aconteça e as editoras são talvez as principais culpadas do insucesso prático que se verifica. O público não é parvo. As pessoas não compram os discos só porque são lançados cá para fora com grandes parangonas de promoção, mas que depois resultam em fracasso.” Exceções a estas estratégias mal orientadas, encontra-as António Manuel Ribeiro nos dois extremos do leque editorial: um dos casos é um dos “grandes” selos nacionais, o outro um pequeno, independente, e, segundo o cantor, “cada qual com um projeto viável para a música portuguesa”. De resto, 1991 será mais um ano do “deixa andar”.

 

 

JOÃO PESTE

Jorge Dias

 

PEDRO AYRES MAGALHÃES

Luís Maio

 

MIGUEL ÂNGELO

Luís Maio

 
RUI REININHO
GNR em estúdio, Gala anti-sida em Lisboa, cumplicidade Alexandre Soares

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Este ano, os GNR entrarão em estúdio “quando lhes apetecer”, de preferência a partir de março, que é, para Rui Reininho, “um bom mês, primaveril”, ideal para se gravar, sobretudo se for em Carcavelos. São capazes de apostar no estrangeiro: “Deve ser fácil, cá é tão difícil, há tanta má vontade, que lá fora não pode ser pior.” São capazes de ter razão.

Grandes concertos parece que não vai haver. A não ser em fevereiro, numa grande gala em Lisboa, uma intervenção “pequenina”, mas decerto que empenhada. Tem de ser, pois trata-se de “uma daquelas coisas de solidariedade, com uma recolha de fundos e apoios para a investigação da sida, com a participação de pessoas muito caridosas”. Para os GNR é importante “essa história do vírus”.

Já Rui Reininho, em particular, parece voltado para outro lado: vai trabalhar de novo com o seu antigo companheiro nos GNR, Alexandre Soares, na feitura musical de uma peça de Sam Shepard.

Para 1991, o vocalista da banda portuense acredita nas virtudes das organizações camarárias, que podem desempenhar um papel importante na divulgação da música portuguesa, caso do espetáculo que deram o ano passado na Alameda, mas “com um bocadinho menos de romaria”. Falta organização, mas é capaz de “não haver estruturas para isso”. Como na Alameda, que foi o que se sabe. “Fazer coisas dessas sem segurança pode ser perigoso, só nós, que somos malucos. Se tivesse sido, por exemplo, em Milão, tinha havido gente ferida, esfaqueada, confrontos”. Mesmo assim “sentem” os apoios das câmaras, embora sejam “um bocado eleitoralistas”. 1991 vai ser ainda um ano de proibições, com as bandas proibidas de tocar em bares, “por causa de horários, barulho, essas histórias todas. Apenas vai continuar aquela pressão das pessoas beberem copos”. Também não parecem acreditar muito nas editoras e ouviram falar de “recessão”. Enfim “é a guerra” – diz Reininho. “Acho que vai haver guerra!”

 

RUI VELOSO

Jorge Dias

 
RODRIGO LEÃO
Composição nos Sétima Legião, digressão nos Madredeus, projeto a solo


Rodrigo toca baixo e é um dos membros fundadores dos Sétima Legião. Depois iniciou, de parceria com Pedro Ayres Magalhães, o projeto Madredeus, onde se ocupa das teclas. É um dos personagens mais determinantes e influentes da nova música portuguesa, embora não seja muito vistoso nem vocacionado para afirmações sensacionalistas. Em 1991, dividirá a sua atividade entre as duas formações que integra. Quanto aos Sétima Legião têm poucas atuações agendadas, sendo duas delas no estrangeiro (Bélgica e Canadá). O objetivo desta formação não é, de resto, atuar ao vivo, antes estão mais preocupados em começar a compor e tocar material para um novo trabalho de estúdio, sucessor do triunfante “De Um Tempo Ausente”, lançado no Natal de 1989. É um trabalho mais a médio prazo e não é provável que seja editado antes dos finais deste ano/princípio do próximo. Diametralmente oposta é a ideia dos Madredeus, cuja digressão é para já a sua grande prioridade.

Para além das duas coisas, Rodrigo planeia também desenvolver este ano o seu projeto a solo que define como um trabalho de sintetizadores com computadores e surge na sequência da encomenda para a banda sonora do filme de estreia de Manuel Mozos. O artista encontra-se em negociações para a publicação do disco resultante com uma editora local. Com tanta coisa que fazer, Rodrigo está naturalmente um pouco à margem do trabalho alheio. “Tenho estado um bocado afastado do panorama local. As coisas que tenho ouvido... Acho é que há uma série de grupos que têm conseguido sobreviver.”

 
SÉRGIO GODINHO
Curtas metragens, programas de televisão, concertos em Goa e Macau

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“Escritor de Canções”, Sérgio Godinho parece este ano apostado em explorar outros tipos de linguagem: vídeo e cinema. Já tem gravados dois dos seis programas que tenciona apresentar na televisão sob o genérico de “Luz na Sombra”, série que explora algumas das principais funções inerentes à produção musical – como recentemente explicou, em entrevista concedida ao PÚBLICO. Além disso, tenciona realizar e produzir quatro filmes, quatro curtas metragens, no fundo “extensões de trabalhos de ficção que habitualmente faz em canção”. “Anda tudo ligado”, como ele próprio diz. Discos, este ano, só se estes projetos falharem. Quanto ao espetáculo “Escritor de Canções”, que alcançou grande sucesso enquanto esteve em cena no Instituto Franco-Portugais, tenciona levá-lo a Goa e Macau já em fevereiro.

Para o ano em curso, espera da música portuguesa que surjam coisas novas, mas que não sejam “indigestas”. É de opinião, no entanto, que adiantar mais qualquer coisa, seria como “fazer previsões sobre a guerra no Golfo”. Assim, acha que “todas as hipóteses estão em aberto”. Segundo ele, “criatividade é o que não falta e em Portugal é uma coisa estimulante”. Infelizmente parece que o que falta mesmo é “um mercado, mesmo para os consagrados. O consumo não é tão extenso como isso e o que há são casos esporádicos, como o Rui Veloso, de facto um fenómeno, mas que não faz a Primavera”. De resto, o costume: “A nível de estruturas organizadas para ‘tournées’ e espetáculos ao vivo, a coisa não tem evoluído muito positivamente.”

Em relação ao tal apoio ou não das câmaras municipais, lamenta que o panorama esteja “um bocado em recessão”. O rock é ainda assim quem menos razões tem para se queixar: “As câmaras acham que a juventude quer sobretudo rock e é como se lhe desse um brinde. Depois, há aquela fação adepta das canções tipo Marco Paulo e tudo é encaminhado para aí”. Na questão de concertos, “devia dar-se prioridade a ‘tournées’ comerciais, inclusive com patrocínios, mas que sejam viáveis”, aponta. É que da maneira como as coisas estão, criaram-se, segundo ele, certos “vícios”, quer no público quer nos organizadores, com espetáculos gratuitos, mas sem qualquer espécie de condições. “É importante que as câmaras promovam a cultura, mas com o entendimento das estruturas necessárias para o fazer.”

 

XANA

Jorge Dias

 

ZÉ PEDRO

Jorge Dias

 

 

20/10/2025

Reininho no recreio [GNR]

 local SÁBADO, 15 DEZEMBRO 1990

TELEVISÃO

 


Reininho no recreio

 

RUI REININHO e os GNR pertencem à casta forjada a ferro e fogo dos sobreviventes. Sobreviveram à onda normalizadora do primeiro “boom” do então denominado “rock português”, à recessão que se lhe seguiu, sobreviveram sobretudo a si próprios, às tentações que o demónio do sucesso decerto não deixou de lhes segredar aos ouvidos: estagnação de ideias, acomodação a programas estéticos preguiçosos, elaborados à pressão, para fácil digestão das massas, segundo a conhecida fórmula do “Reader’s (neste caso “listener”) Digest”.

            Reininho e companhia sobrevivem graças ao humor subtil e à distanciação. A palavra séria é dita a brincar, o absurdo veste-se com a casaca da solenidade. Assumem a contradição, engolida vorazmente pelos vampiros, como se de nova bíblia pós-moderna se tratasse.

            Há sete meses e picos, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi a apoteose do rei da “kitsch pop” e da decadência elegante. Os GNR, como de costume, confundiram e encantaram, baralhando as pistas e presenteando uma multidão delirante com os seus típicos “trompe l’oeil” melódico-gramaticais. “Impressões Digitais”, “Dafundo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore Primeiro Escalão”, “Pós (País) Modernos” e mais uns tantos trocadilhos conceptuais chegaram para provar que são diferentes. É possível juntar no mesmo espetáculo a gaita-de-foles dos Sétima Legião e o Vata do Benfica, sem parecer ridículo? Claro que não. A diferença está em que os GNR conseguem fazê-lo de forma sublime.

 

            RTP 2, às 23h30

02/05/2011

"PORTUGUESE is better!"

Sons

7 de Janeiro 2000

Debate sobre a utilização do português ou do inglês na música portuguesa

“PORTUGUESE is better!”

Cantar em inglês ou português é, ou não, uma questão retórica, quando se trata de produzir, promover e vender música feita em Portugal neste início do ano 2000? A verdade é que a máxima “A minha pátria é a língua portuguesa” de Fernando Pessoa já não faz muito sentido. Tirar dividendos da globalização, ou, pelo contrário, resistir-lhe o mais possível são as duas vias divergentes defendidas pelos convidados deste debate: Amélia Muge, Vitorino, Rui Reininho, Jorge Dias e Miguel Cardona.


Longe vão os tempos em que o português era considerado uma língua difícil de se cantar. E se os intérpretes da chamada “canção de autor”, como Vitorino ou Amélia Muge, desde sempre cultivaram o gosto pela língua portuguesa e a necessidade de fazer passar uma mensagem – fruto de uma atitude fortemente ideológica –, já as gerações mais novas adoptaram, paradoxalmente, o inglês, como forma de resistência. Afinal de contas o próprio Vitorino, apologista do fortalecimento de um circuito das músicas do Sul, já cantou em inglês, o mesmo acontecendo com Rui Reininho, nos GNR. Quanto aos mais novos, Miguel Cardona, dos Coldfinger, e Jorge Dias, baixista dos More República Masónica que recentemente organizou o festival Interferências, encaram de forma natural o facto de cantarem em inglês, não sendo menos portuguesa a sua música. Amélia Muge, que recentemente cantou em galego nos Camerata Meiga contrapõe a necessidade de confrontar modelos e fórmulas de produção. Todos estão de acordo numa coisa: a música portuguesa não é defendida como deveria e a culpa é das multinacionais, que apenas se preocupam em promover os artistas internacionais, e dos “media”, que não divulgam em quantidade suficiente o produto nacional. “Oh, yes!”

O passado. Era de facto difícil cantar em português até “Chico Fininho” vir, na década de 80, provar o contrário? Mais atrás ainda, era proibido cantar em inglês, caso se quisesse “intervir” artisticamente contra o regime do Estado Novo?

VITORINO – “Encontram-se ‘cantautores’ nos Sheiks, que, em determinada altura, afirmaram em entrevistas que o português não era ‘cantabile’. Foi quando os Beatles chegaram à ribalta para transformar a relação da canção entre os povos. Em Portugal, era sobretudo a música de expressão latina que se ouvia. O inglês acabou por se impor de uma maneira brutal, com uma gigantesca máquina de promoção por detrás. Aqui, os resistentes eram o Zeca e o Adriano. Hoje, já existe um rock lusitano cantado em português.”
“Tive um grupo, na Escola de Belas-Artes, com o Manuel João, dos Ena Pá 2000, onde cantava uma canção dos Beatles, “Here comes the sun”. Como estava todo vestido de preto, levei logo com uma trincha de branco.”
MIGUEL CARDONA – “O Vitorino fala de um ponto de vista político. Eu falo de um ponto de vista cultural. Quando quero expressar-me, reporto-me a fenómenos que me marcaram. E isso foi-me tudo dado em inglês, em francês… Ao extrapolar a imaginação é fácil recorrer a vivências, imagens cinematográficas, estereótipos, aos quais tenho acesso através do inglês.”
RUI REININHO – “Cantar em português foi para mim uma espécie de repto, de reacção a uma geração que só cantava em inglês, o que eu achava completamente bacoco. Por que raio é que um fulano havia de se esconder a cantar numa língua que não era a dele? E os textos em inglês, normalmente, são do secundário para baixo.”

O presente, parte 1. O mundo é um lugar pequeno. A “minha pátria é a língua portuguesa” ou pode ser também a inglesa?

VITORINO – Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habanera 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”
AMÉLIA MUGE – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora.”
MIGUEL CARDONA – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Mas quando saio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”
JORGE DIAS – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”
RUI REININHO – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“Noutro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar eles, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”
MIGUEL CARDONA – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som “de Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.

MIGUEL CARDONA – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”
VITORINO – “A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
JORGE DIAS – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está no centro da decisão pertence à geração do Rui, os que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”
RUI REININHO – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer? Talvez socializar.

AMÉLIA MUGE – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico’ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”
VITORINO – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

21/10/2008

Guerra ao vírus - Uma Gala de artistas contra a Sida

Pop Rock

30 JANEIRO 1991

GUERRA AO VÍRUS Uma Gala de artistas portugueses contra a Sida

MARIA JOÃO

Cantora de jazz. Evoluiu do jazz tradicional para a improvisação e liberdade aprendidas com Bobby McFerrin. Trabalho mais no estrangeiro do que cá, onde quem devia apoiá-la, não apoia. Gravou com a pianista japonesa Aki Takasi um álbum que a crítica especializada internacional elegeu como dos melhores do ano. Em Outubro do ano passado reincidiu, em registo ao vivo, agora também acompanhada por Niels-Henning-Ørsted Pederson. Em Abril volta aos estúdios para gravar com uma banda portuguesa. Tenciona continuar a gravar por esse mundo fora. Um dia destes com Naná Vasconcelos ou um coro infantil. Quando canta, a expressão do rosto lembra a de Billie Holiday.
Maria João, como Billie, também canta com a alma. Aceitou o convite para participar na Gala por solidariedade e porque aproveita todas as ocasiões em que lhe pedem para cantar. No Coliseu, acompanham-na Carlos Bica e Bernardo Sassetti.
“Participo, primeiro por uma questão de solidariedade com as vítimas de uma doença que mata milhares de seres humanos, em todo o mundo. Depois, porque penso que este espectáculo vai ser importante para chamar a atenção das pessoas para esse facto, porque nós por cá somos muito distraídos em relação a essa doença. Pensamos que não nos atinge, que não é nada connosco. Precauções, nem pensar! Depois, porque gosto imenso de cantar, de maneiro que aproveito todas as oportunidades que surgem para o fazer, desde que haja uma sala boa, boas condições e boas pessoas a assistir.”


PAULO DE CARVALHO

Tem uma boa voz e uma certa propensão para o jazz, quando se concede certas liberdades vocais. Mas parece não querer arriscar, preferindo investir em terrenos mais seguros, capazes de lhe proporcionar êxitos populares como os “Meninos do Huambo”. Entrou em Festivais da Canção, mas já deve estar arrependido. Revelou-se surpreendentemente à vontade num disco inteiro a cantar fado.
“Tenho muito a ver com isto, embora não com esta organização, especificamente. Tinha planos para participar com outros amigos num outro espectáculo de solidariedade deste tipo que acabou por não se realizar. Em relação a este acabei por ser um bocado ultrapassado pelos acontecimentos. Não cheguei propriamente a ser convidado, mas sim a estar presente. Penso que desta vez não irei tocar ou cantar, mas apenas fazer apresentações. Se houver alguma participação, em termos de cantigas, certamente que será ao lado dos Trovante.”


AMÁLIA RODRIGUES

Com as quatro primeiras letras do seu nome se escreve a palavra alma. Alma portuguesa, perdida na eternidade do fado, da fatalidade tornada quase confortável. Amália é a voz da saudade que canta. Da nobreza e da tradição resistentes aos ventos gelados da modernidade. Voz correndo como um rio que nasce muito longe, cá dentro, desde antigamente.
Mulher vestida de negro com uma rosa rubra no coração. Lua que ilumina a noite lusitana. Viúva de Portugal. Ela diz ser apenas uma mulher normal. Quem somos nós para a contradizer.
“Fui convidada, mas não para cantar. Quero esclarecer isto, porque senão depois as pessoas pedem-me para o fazer… A primeira razão que me levou a participar nesta iniciativa é porque sou uma pessoa normal e por isso preocupo-me com as coisas horríveis que há no mundo. Acho que essa doença é uma doença horrível, feia, em muitos sentidos. Já fui cantar a Paris, convidada pela Line Renaud, numa gala que aí se realizou, também contra a sida, e agora volto a participar, não com prazer, pois não é por prazer que se participa numa causa destas, mas com muito boa vontade. Acho que as pessoas deviam realmente pensar nisto e comparecerem em massa também.”


HERMAN JOSÉ

O seu nome dispensa grandes apresentações. É o homem que em Portugal melhor sabe fazer rir. Alia a inteligência irónica e a sátira feroz a um apurado sentido do absurdo. Destrói e constrói os mecanismos e vícios dos nossos cérebros mal habituados.
Só o facto de gostar e, mais do que isso, compreender o sentido profundo do humor delirante dos Monty Python bastaria para fazermos dele um herói.
Na rádio é sempre brilhante. A televisão não sabe se há-de amá-lo ou odiá-lo. Tony Silva, Serafim Saudade, Estebes ou Maximiana é que são os portugueses reais. Os outros, os sérios, são caricaturas.
Sobre a Gala dos Artistas afirma que vai ter uma participação séria e discreta. Ou seja, não é para rir. O bom actor deve saber interpretar todos os papéis. Mesmo quando, como é o caso, não se trate de teatro.
“Os motivos que me levam a participar são por demais óbvios: porque é importantíssimo não adormecermos em relação a essa nova peste negra do nosso século. Dá-me a sensação que em Portugal vivemos todos num excessivo optimismo. Sinto isso pelas pessoas que me rodeiam. Sinto isso por uma certa contenção, pudor e medo com que muitas vezes os próprios órgãos de comunicação social se debruçam sobre o tema. É uma coisa que nos toca a todos de tão perto que é importante os artistas assumirem em Portugal o mesmo papel que têm assumido nos outros países – o de chamarem a tenção para um problema que está longe de ser resolvido e que nos pode afectar a todos. A minha participação no espectáculo, apenas como apresentador, vai ser discreta e portanto não vou (e se calhar porque também não me apetece) contar muitas anedotas nem ter muita piada, porque o tema não é propriamente aliciante, apesar de o espectáculo não pretender ser uma coisa triste, pesada e lamuriosa. Pelo contrário, é suposto ter optimismo, a começar pelo próprio cartaz, um desenho do Pomar que não é nem fatal nem fatídico, mas antes uma alusão ao próprio acto amoroso em si.”


RUI REININHO

Os rapazes dos GNR brincam com as palavras e com os sons. São homens temporariamente sós à procura da infância perdida. Tocam uma música colorida de palavras cruzadas, que fazem sentido doutra maneira. Parecem estar sempre a brincar, mas há quem os leve muito a sério e lhes condene as brincadeiras. A televisão, por exemplo, não deixou passar o vídeo da Maria, embora eles jurem a pés juntos tratar-se apenas de uma amiga. Alguns julgaram ver em “Dunas” alusões a práticas menos inocentes. Enfim, mesmo sem querer, os GNR esbarram constantemente nos temas proibidos. Ultimamente estão mais calmos (embora um antigo companheiro de armas esteja sempre a arranjar-lhes problemas) e Rui Reininho parece mesmo querer rivalizar com Bryan Ferry no papel de “crooner” cínico e bem falante. São dos melhores grupos de novo rock portugueses. Declaram que não se sentem responsabilizados pela existência do vírus.
“Porque é que a gente entra numa coisa dessas? Porque sei que nos dão mais atenção do que àquelas caras do costume, os políticos, etc… Não é que nos sintamos responsabilizados pela existência do vírus, mas se conseguirmos impedir que ele se propague… Há muita hipocrisia e mais uma vez, no caso das medidas ‘portugas’, acho que houve muitos erros, culpados pela propagação dessas histórias. Não há informação. O português acha que essas coisas acontecem sempre aos outros… por exemplo, nas farmácias, aqui há uns anos recusavam vender seringas e, ainda na semana passada, falávamos de um amigo meu que fazia quilómetros por noite, nomeadamente aqui no Porto, para as arranjar. As pessoas tinham atitudes morais desse género. Inibiam-se as pessoas na compra de preservativos, essa história toda… Acho que, nesse aspecto, podemos ‘dar um toque’, podemos falar nisso mais à vontade do que a dra. Maria Barroso, por exemplo, sem moralizar, como dizia o outro. Torna-se doloroso ver pessoas morrer por estupidez… É um pouco como aquela história de as vitaminas não serem comparticipadas… Toda a gente fala em prevenção, mas prevenção é coisa que não há, a única que há é a rodoviária e mesmo assim as pessoas morrem como tordos… A partir de aí é fácil ver o que acontece nas outras áreas… Vamos tocar talvez três canções, numa participação de dez ou quinze minutos. Uma delas será forçosamente ‘Morte ao Sol’.”


SÉRGIO GODINHO

Escritor de canções. Sobrevivente das histórias do nosso (des)contentamento. Vem de muitas lutas e algumas amizades construídas no caminho. Zeca Afonso, Brel, tropicalismo ou o rock anglo-saxónico são algumas das referências presentes na sua obra, mas que não chegam para a catalogar. Ainda bem. Não gostamos que chamem nomes a uma música que nos habituámos a fazer nossa.
Sérgio Godinho é dos que em Portugal melhor sabem contar e cantar uma vida e os seus sonhos, nos três minutos que dura uma canção. Minutos que são a própria vida. Quanto tempo dura a vida? O resto da nossa vida?
Recentemente esteve durante muitos dias, todos os dias, num auditório pequeno, para melhor nos contar as suas histórias, despojadas de tudo o que nos pudesse distrair. Depois gravou o disco. Escreve canções. Na Gala dos Artistas vai estar sozinho em palco, com a sua voz e uma guitarra acústica.
“Participo porque é um assunto importante que mexe mesmo connosco. Pediram-me que inventasse uma frase alusiva ao tema. Escolhi esta: ‘viver é a grande vingança do corpo’. O corpo vinga-se contra tudo o que lhe querem fazer sofrer. No espectáculo vou cantar duas canções, ainda não decidi quais, acompanhada só pela guitarra. Possivelmente tocarei ainda mais uma, integrado nos Trovante.”


LENA D’ÁGUA

Tem uma maneira engraçada de cantar e de se movimentar em palco. As pernas são bonitas, a cara também, as canções não ofendem. O pai foi um futebolista famoso. O irmão é um futebolista famoso. Ela é só famosa. Começou por ser “hippie”, nos tempos psicadélicos dos Beatnicks. Inesquecível um concerto, há muitos anos, em Sintra. Nos Salada de Frutas pediu para se olhar o “robot”. Muita gente olhou. Foi ficando cada vez mais doce e hoje, “sempre que o amor a quiser”, está pronta a acariciar com a voz. Voz que, em algumas canções (nunca ninguém reparou?) lembra a de uma rapariga inglesa chamada Sonja Kristina, vocalista de uns tais Curved Air.
As canções de Lena d’Água são tal qual o líquido vital: não ardem como bebidas fortes, mas refrescam e matam a sede.
“Aceitei o convite para participar como teria aceitado se se tratasse de uma gala para angariar fundos para as crianças deficientes mentais, para os estropiados da guerra, ou para quem quer que precisasse de ajuda e a pedisse. Da minha parte, sou sempre solidária.
Na minha actuação vou cantar, acompanhada pelo Pedro Osório, ao piano, ‘Não é Fácil o Amor’, do Janita Salomé. Quanto à outra canção ainda não ficou decidido qual será, talvez ‘Chanson Triste’, de um compositor do princípio do século.”