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07/05/2026

Guitarrossauros excelentíssimos ["Guitar Legends"]

 

PÚBLICO DOMINGO, 20 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

“Guitar Legends” terminou ontem, em Sevilha

 

Guitarrossauros excelentíssimos

 

“Rock” sem guitarra elétrica não é “roll”, é conversa mole. Em Sevilha, durante cinco noites, a guitarra consagrou os seus heróis. A “velha guarda” uniu esforços e trocou de posições: Bob Dylan, Keith Richards, Phil Manzanera e Richard Thompson formaram uma das várias superbandas de ocasião que entraram diretamente para a lenda. A CRGE – Companhia Reunida de Guitarras Eletrificadas – deu festival. A todo o gás.

 

Uma imagem com texto, pessoa, pousar

Descrição gerada automaticamente

 

Sevilha está em festa. Não é caso para menos. A Expo 92 está à porta. O “Nuevo Sur” prepara-se para ser o centro do mundo. A música antecipou-se. Logo a seguir a estas “Guitar Legends” anunciam-se já os terceiros Encontros de “Nueva Musica” com nomes como Luis Paniagua, Cassandra Wilson, Markus Stockhausen, Klaus Schulze e Bill Frisell em cartaz. Mas por agora a rainha é a guitarra. No anfiteatro ultramoderno construído na ilha de La Cartuja, em pleno recinto da Expo 92.

Quinta-feira: tempo de chegar ao hotel e de ligar a TVE 2, para assistir em diferido ao concerto da noite. Vicente Amigo, o novo menino-prodígio do flamenco, mal aquece as cordas da guitarra. Toca só dois temas mas dá para perceber que Paco e Manitas têm continuador à altura.

Joe Cocker, o vocalista convidado, continua a gesticular e a berrar como só ele sabe. Insiste em recusar os rebuçados “Dr. Bayard” só para manter a rouquidão da voz. Jack Bruce, por seu lado, faz reviver o fantasma dos “Cream”, com “White Room”, de parceria com Phil Manzanera (ex-“Roxy Music” e principal dinamizador deste festival).

Bob Dylan junta-se aos dois. Depois é a vez de Richard Thompson (dos lendários “Fairport Convention”) integrar esta “troupe” de génios, para a prestação conjunta de “All along the watchtower”.

Dylan cada vez mais canta com o nariz. Felizmente não está constipado. Mas quem se importa com a voz? Basta o velho trovador levar a harmónica aos lábios para que todas as interrogações sejam levadas pelo vento... Em todo o caso talvez não fosse má ideia mudar outra vez o nome para Zimmerman. É salvo à justa pela chegada de Keith Richards. Não tocavam juntos há anos. Keith Richards está com bom aspeto, aparentando uns 80 anos ao contrário dos habituais 120. Interpretam “Shake, Rock & Roll”, de Bill Haley. Depois o Rolling Stone é deixado a sós com os “Rhythm and Blues” que tanto aprecia.

Em cada noite tem sempre sido assim: um carrossel de estrelas em “roulement”. Sai uma, entra outra, tocam juntas um par de temas. No final reúnem-se todas, fazem a festa e apanham os foguetes. Na ocasião são Dylan, Richards, Thompson e Manzanera irmanados no ritmo de Eddie Cochran, antes de se desligarem as guitarras.

 

O regresso dos heróis

 

Sexta-feira arranca com Roger McGuinn e o “hit” do seu novo álbum “King of the Hill”. “Turn Turn Turn” e “8 Miles High” não fazem esquecer os Byrds mas aquecem razoavelmente o ambiente. Em cima, na “Braza Gallery”, destinada aos jornalistas, as brasas femininas não param de passear, assegurando deste modo a manutenção de temperaturas elevadas no recinto.

Roger McGuinn e Richard Thompson ligam bem. Provam-no o dueto emocionante de “Keep your distance”. Richard Thompson, com o seu inseparável Bone, é um dos heróis do concerto. As cordas vocais e da guitarra vibram em consonância com a magia da noite. “This guitar is howling” – exclama, como se homem e guitarra se confundissem num corpo único.

Quando Les Paul, o homem que teve a ideia de ligar a guitarra à tomada, entra em palco, o público salta das cadeiras e aplaude de pé, como se apanhasse um choque elétrico. De facto, os efeitos da guitarra são ruídos provocados por problemas nos cabos elétricos. Resolvida esta questão Les dá “show” com a sua “Gibbs Les Paul”, a tal guitarra cujo som corta suavemente, sem ferir, tal qual uma lâmina de barbear de qualidade. Mais tarde a célebre “Gibson Les Paul” viria substituir o modelo “Gibbs”, de sonoridade um tanto ou quanto cremosa para a agressividade do rock atual.

Renascido das cinzas dos “The Band”, Robbie Robertson traz de volta ao auditório a energia dos decibéis, apoiado por uma secção de metais e um par de vocalistas disfarçados de índios. Profusão de penas e cores a sugerir talvez a ave ridícula escolhida como símbolo para a Expo 92: um misto de palmípede e galináceo, pata-choca “punk” de crista e bico multicolores. Refira-se, em abono da verdade, que os sevilhanos adoram as cores. Sobretudo se estiverem todas juntas.

 

Macacos a ver televisão

 

Robbie Robertson faz de anfitrião do músico mais ansiado da noite: Roger Waters, que chega acompanhado pela sua banda particular. Esperava-se espetáculo e é isso que acontece, embora numa escala, mais reduzaida que a habitual. Um mini “The Wall”, sem muro, mas mesmo assim com os adereços possíveis na ocasião: explosões de fumo, holofotes marciais, piras ardentes (propaganda velada aos próximos Jogos Olímpicos de Barcelona?), luzes às bolinhas, muito “exploding plastic inevitable”.

“Another Brick in the Wall, pt. 823” provoca o delírio, antes de “What God wants, God gets”, uma canção nova sobre “Macacos que vêem televisão”. Como neste caso não há adereços, o músico sugere que a assistência faça o papel de símios que ele, Waters, fará de televisão.

Entre as duas ofensas, é difícil distinguir a pior. De qualquer modo, dado que a assistência aceita a sugestão, é de crer que Roger Waters seja o “God” de que fala a canção. No final, uma fífia de uma das meninas do coro vem provar que afinal “God wants” mas nem sempre “gets”, já os “Stones” o diziam: “You can’t always get what you want”.

A seguir à macacada, um tema dos “Pink Floyd” mais antigos, “The dark side of the moon”, por entre efeitos luminosos psicadélicos. Um dia destes o clube “UFO” reabre as portas... Já com Bruce Hornsby em palco e Waters envergando uma bata branca a fingir de médico, a despedida com “Comfortably numb”. Despedida irónica que a assistência, uma vez mais, não compreende. Finalmente a “Jam session” da praxe: Roger McGuinn, Richard Thompson, Les Paul e Phil Manzanera juntos numa guitarrada sempre “a abrir”, fechando em beleza mais uma noite de lenda.

Agora o mais grave: com o sucesso destas “Guitar Legends”, uma das ações de preparação da Expo 92, e os Jogos Olímpicos de Barcelona e a Expo 92 já para o ano, Portugal vai ser irradiado do mapa. O melhor é metermos a viola no saco e, visto que há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós, fugirmos todos para a Galiza. Valha-nos Rui Veloso e o fado.

 

24/09/2025

Outra vez o muro, podre de maduro [Roger Waters]

 

Na capa

 

OUTRA VEZ O MURO, PODRE DE MADURO

 

O muro nunca mais acaba de cair. Agora é a vez da feire de Berlim, com Roger Waters vendendo os seus bonecos em saldo de fim-de-estação. Vai um tijolo e um porquinho?

 


Woodstock, Wight, Reading, Knebworth, Glastonbury, Veneza, Cannes, Figueira da Foz, Fantasporto, Bienais de Berlim, Nova-Iorque, Odivelas, Agro-Pecuário de Santarém, RTP da Canção – diferentes acontecimentos sustentando a designação comum de “festival”. De música, cinema, pintura, vacas e couves ou, simplesmente, lixo. Uns são culturais, outras nem tanto. Não querendo entrar aqui em polémicas se “vacas e couves” são ou não cultura, que tal a “cultura da batata”? A questão não é pacífica. Muito menos as suas implicações, artísticas ou alimentares. As opiniões dividem-se, a confusão impera. A noção de “lixo” é ainda mais ambígua. Bem coberto com camadas de verniz, judiciosamente aplicadas em delicadas operações cosméticas, e bem condimentado com sábia dose de “popstars” [?], passa com [...] por ser cultura artística.

 

Produtos de Festival

 

            O “festival” apresenta algumas características que o distinguem de qualquer outro tipo de atividade. Trata-se sempre de uma “mostra” de qualquer coisa, uma coleção de “produtos”. (Um filme, uma canção, um quadro, um pepino, para além do valor simbólico como “obras de arte” – e, se dúvidas há quanto ao pepino, recorde-se o quadro de Arcimboldo –, são também produtos, que se mostram, compram e vendem, objetos de comércio.) Neles, apresenta-se “trabalho feito”, em certames de maior ou menor projeção e importância, consoante a qualidade das mercadorias, a aplicação do verniz, ou as estratégias de “marketing”.

            Vem esta prosa a propósito da recente edição do duplo álbum com a gravação ao vivo do espetáculo “The Wall”, que os Pink Floyd deram, no outro dia, em Berlim. Foi um festival ou não foi? E, em caso afirmativo, que importância teve? Admitindo que os Floyd são cultura, o que é que se mostrou e se viu nessa noite de muitas luzes, tijolos e porcos insufláveis?  Consinta-se na importância sociológica e mediática do acontecimento, na data e local específicos em que se realizou: milhares de pessoas reunidas em frente do muro (ou do recetor de televisão), celebrando não se sabe ainda bem o quê, para além do ato simbólico da “queda”.

 

Prendinhas

 

            Mas, se o espetáculo de Berlim se justificava, o disco, editado “a posteriori”, parece funcionar apenas como uma espécie de “souvenir” (para aqueles que estiveram presentes na futura capital da Alemanha unificada) ou substituto (para os outros) do evento real, do mesmo modo que as “T-shirts” ou as embalagens com um tijolo, pretensamente arrancados do “muro”, vendidas aos turistas. Vestuário, discos e tijolos, transformados em ícones de um acontecimento que, para além do significado intrínseco, se deslocou para o domínio, sempre passível de rentabilização, das imagens e da pluralidade e dispersão dos sentidos.

            Pode, por exemplo, à laia de passatempo, comparar-se faixa a faixa, o original de Roger Waters e os Pink Floyd, de 1979, com as novas interpretações dos mesmos temas, levadas a cabo pelos numerosos convidados chamados a participar na encenação pública da paranóia do autor. E, nesta comparação, não restam dúvidas de que Bryan Adams, The Band, Tim Curry, Thomas Dolby, Marianne Faithfull, Albert Finney, Cyndi Lauper, Ute Lemper, Joni Mitchell, Van Morrison, Sinead O’Connor, Scorpions, a orquestra, as bandas e os coros envolvidos (já não falando do próprio Waters, com menos voz e quase nenhuma energia, e restantes Floyd), por muito que se empenhassem, não se revelaram à altura de fazer esquecer a unidade e força do primeiro disco.

 

Boas Intenções

 

            Claro que se pode ver a coisa de outra maneira: atendendo à sobreposição das temáticas abrangidas pelo conceito “queda do muro”, a obra de Roger Waters acabou por ganhar, onze anos depois, uma carga significante e uma premência que, na altura, refletia “apenas” as vivências pessoais do compositor. Assim, “The Wall – Live in Berlin” seria uma espécie de confirmação, reatualização do individual, projetado num imaginário coletivo, contemporâneo e politizado.

            Sabe-se, porém, que as ideias e intenções não valem (e sobretudo não vendem...) por si sós. A pureza e sinceridade que pudessem existir na recuperação de uma obra que sintomaticamente foi a derradeira dos Pink Floyd, como nome relevante da pop atual, perderam-se no espetáculo de circo e no aparato cénico de que se revestiu e em que se perdeu o espetáculo de Berlim. Mas foram os bonecos, os nomes dos convidados, as dimensões do muro a fingir, os helicópteros e o fogo-de-artifício que levaram todos aqueles milhares até às portas de Bradenburgo. Juntava-se o útil ao agradável: uma boa causa (recolha de fundos para o “Memorial Fund for Disaster Relief”) e a relevância cultural do acontecimento aliavam-se a uma gigantesca operação promocional de que agora se começam a recolher os dividendos.

 

O Muro em Série

 

            Não nos admiremos se a seguir aparecer novo disco, “The Wall – The Final Rendition” ou “The Complete Wall”, por exemplo, incluindo as prestações dos grupos que foram entretendo a multidão ao longo da tarde de 21 de Julho passado. Ou então outro, contendo toda a informação técnica relativa às dimensões do palco, feitura dos tijolos e potência das luzes. E porque não gravar Leonard Cheshire em dueto com Waters, sobre um fundo de ruídos de guerra? Ou a versão instrumental de “The Wall”, ou “The Wall in rap”, talvez “Acid House Wall”… Tanto ainda por fazer, senhores editores!...

            “The Wall – Live in Berlin” resume-se deste modo a uma feira de bonecos de borracha ou de carne e osso, personificados nas figuras disformes encarnadas por Ute Lemper ou Thomas Dolby, em que a música se reduz a uma réplica quase fiel do disco de estúdio, aumentada pelo ruído da multidão. Como se o tom épico pretendido residisse na acumulação de adereços e no aumento desmesurado das escalas. Seja como for, o “objeto” chegou, para se acomodar ao lado do restante entulho que enche as prateleiras das lojas. Por exemplo, entre uma Torre Eiffel cinzeiro e um galo de Barcelos.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 12 SETEMBRO 1990

08/08/2025

O muro espetáculo [Roger Waters]

 CULTURA SEGUNDA-FEIRA, 23 JULHO 1990

 

200 mil ao vivo e milhões pela TV assistiram ao megaconcerto de Berlim

 

O muro espetáculo

 

Inacreditável era a expressão mais ouvida na Praça de Potsdamer, em Berlim, para qualificar a monumental encenação de “The Wall”, levada a cabo por Roger Waters, Leonard Cheshire e uma companhia de estrelas empenhada em fazer do dia 21 de Julho uma data inolvidável.

 

Se nem tudo foi perfeito, também não desmereceu da proverbial capacidade organizativa germânica. A Imprensa não se pode queixar. Foi estragada com mimos. No hotel três bonitas alemãs informavam sobre tudo, davam papéis e ainda por cima sorriam. Já no local do espetáculo, uma tenda gigantesca montada atrás do palco, fazia estendal de iguarias e bebidas à disposição dos esfaimados e sedentos jornalistas. Não se pense naquelas barracas “à portuguesa”, do estilo “coratos, febras e tintol”. Os alemães são um pouco diferentes e, quando querem, primam pelo requinte. Que, no caso, chegou ao ponto de arranjos florais dispostos sobre as mesas e o serviço de valquírias solícitas e peito “prateleira-tapa-a-visão”.

            Frente ao palco a multidão. Cerca de 200 000 pessoas estendiam-se pelo imenso recinto até perder de vista, algumas afastadas centenas de metros do palco. A festa começou logo de tarde. Primeiro só com o público, feliz apenas por estar ali, perplexo diante de um muro de 170 x 25m, quilómetros e toneladas de cabos, torres, andaimes, ecrãs e holofotes. Cenário grandioso pronto para um dos maiores espetáculos alguma vez realizados no planeta.

 

À espera da noite

espanto

 

            O ambiente geral era o de um novo Woodstock. Pacifismo, cor, bolas de sabão, corpos despidos e muita ideologia à mistura. Não se sabe se houve algum parto. Celebrava-se (obviamente) a queda do muro mas também algo mais, difusamente sentido como liberdade ainda mal saboreada. Berlim, após décadas de isolamento exorcizava-se e sublimava velhos medos e ânsias dissimuladas. Como a personagem criada por Roger Waters, condenada, após o julgamento, a enfrentar o outro lado. Crime e castigo. Como em Nuremberga. No futuro, como será?

            Os Frumpy, The Hooters, The Band e The Chieftains encheram a tarde e a paciência dos poucos que se dignaram dar-lhes atenção. Os “The Band”, pelo passado ilustre, mereciam mais respeito. Ninguém lhes ligou nenhuma. Quanto aos The Chieftains, a sua música tradicional da Irlanda provou que é diferente tocar num pub para 50 pessoas de copo de whisky na mão e para 200 000 à torreira do sol. A harpa e a gaita-de-foles celebraram como puderam o sol que se escondia. Mas do que toda a gente estava à espera era que a noite do espanto chegasse. Por fim, desceu a escuridão e fez-se luz. Com meia-hora de atraso em relação ao previsto, fogo-de-artifício, explosões e a queda de minúsculos para-quedistas. A partir deste momento o mundo inteiro viu pela televisão.

            A mobilidade da câmara televisiva permitiu a milhões de espetadores ver muito mais que os milhares reunidos na Potsdamer Platz. Pormenores como “close-ups” sobre os músicos ou do que se passava por detrás do muro, escaparam ao olho nu dos presentes no local. O concerto começou mal, com falta de som de retorno, levando mesmo a que Ute Lemper se recusasse a cantar o tema que lhe era destinado. Mas tudo bem: afinal o que todos queriam era ver a desmesura do espetáculo, os fumos, as luzes e os helicópteros – a construção da ilusão.

 

Sentir a História

 

            Por outro lado, era importante participar, “sentir” a História, através da encenação da história de Pink (alter-ego de Waters em “The Wall”), inserida num novo contexto. O muro tornou-se plural, símbolo fácil da coerção da liberdade. A réplica reduzida a escombros certifica a queda do original. O ritual da encenação confirma o facto histórico. Paradoxo: a ilusão certifica o real.

            Na primeira parte, foram momentos altos o aparecimento do boneco insuflável representando “o professor”, durante a prestação de Cindy Lauper em “Another Brick in the Wall” e a sentida interpretação de Joni Mitchell em “Goodbye Blue Sky”. Bryan Adams cumpriu a sua parte e Jerry Hall fez de “groupie” enquanto Waters/Pink deitava o televisor pela janela em “One of my Turns”, uma das melhores canções do disco.

           

“Fomos nós que o derrubámos”

 

            No intervalo publicitaram-se a justa causa do “Memorial Fund for Disaster Relief” e a British Airways. Imagens projetadas sobre o paredão, de dor e sofrimento de pessoas concretas, e de figurantes anónimos formando a imagem de uma marca. O muro normalizou, nivelando o horror e a banalidade. Impensável e dispensável.

            A ambulância e a seringa descomunal de “Comfortably Numb” foram os adereços que conduziram ao clímax de “Bring the Boys Back Home”, com orquestra, coro e uma banda militar soviética tocando em crescendo enquanto no muro se projetavam imagens e nomes alusivos às vítimas da guerra. Em “Run like Hell” e “Waiting for the Worms” reinou o porco insuflável de olhos vermelhos e a ameaça do totalitarismo tresloucado.

            No julgamento destacaram-se Marianne Faithfull, no papel de mãe e a figura de Thomas Dolby em contorções de pesadelo. No apoteótico derrubar final de “The Wall”, a multidão rejubila. “Fomos nós que o derrubámos” – parecem gritar milhares de gargantas alemãs, exultantes na recuperação da identidade perdida.

            O espetáculo encerrou com um “Do They Know it’s Christmas” de ocasião, as personagens “más” arrependidas, cantando em coro as virtudes da paz reencontrada e jurando que a maré mudou. Resta saber para que lado.

            Tudo acabou como começou – com fogo-de-artifício e focos de holofotes varrendo o céu de Berlim.

23/07/2025

O Muro em espetáculo [Roger Waters]

 

SÁBADO, 21 JULHO 1990 local

 

RTP

 

O Muro em espetáculo

 

JONI MITCHELL, Sinead O’Connor, Cindy Lauper, Marianne Faithfull, Bryan Adams, The Band, Scorpions, Jerry Hall, Ute Lemper, Tim Curry, Thomas Dolby, Albert Finney, a Orquestra Sinfónica de Radiodifusão de Berlim Leste, a Banda das Forças Soviéticas na Alemanha, gigantescos bonecos insufláveis, helicópteros e holofotes sobre a multidão, são alguns dos elementos participantes na edificação de “The Wall”, hoje, em Berlim, frente às portas de Brandenburgo. Roger Waters acedeu a encenar ao vivo a sua fantasia, gravada para a posteridade dez anos antes da queda do muro da vergonha. A causa justifica os meios e o empenhamento. A ideia é do veterano de guerra Leonard Chishire – contribuir com a receita para a criação de uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de acidentes e catástrofes. Pretende-se angariar  uma quantia de 500 milhões de libras esterlinas, 130 milhões de contos em moeda portuguesa, equivalentes a 5 libras por cada vítima dos conflitos bélicos deste século, num total de óbitos estimado em cerca de 100 milhões. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Pink Floyd faleceu na Segunda Grande Guerra e que a história da personagem principal de “The Wall”, interpretada no filme de Alan Parker por Bob Geldof, descreve, em tons de pesadelo, o percurso biográfico do autor dos recentes “The Pros and Cons of Hitch Hiking” e “Radio K.A.O.S.”. O grandioso concerto desta noite, que poderá ser visto via satélite por milhões de telespectadores em todo o mundo, constituirá um dos maiores jamais realizados, contando, para além das prestações musicais, com projeções animadas e a encenação teatral da sequência do julgamento, um dos “clímaxes” mais fortes e angustiantes de “The Wall”. Há 600 pessoas envolvidas na produção do espetáculo cuja assistência se espera que ronde os 200 mil. João Filipe Barbosa comenta, dos estúdios da RTP. Antes, está prevista a exibição de um documentário sobre o muro de Berlim.

            Canal 1, às 21h00

22/07/2025

Entre dois muros [Pink Floyd]

 

Na capa

 

ENTRE DOIS MUROS

 

Passada uma década sobre a edificação de “The Wall”, Roger Waters, dissidente dos Pink Floyd, regressa nos papéis de arquiteto e carpinteiro. O muro volta a ser erguido. Em Berlim, claro, sobre os escombros do outro e com honras de transmissão televisiva em todo o mundo.

 


Os muros separam e protegem. Escondem e dividem. Existem duas espécies distintas: ou de cimento ou qualquer outro material sólido e aqueles mais subtis, invisíveis, construídos metodicamente só do lado de dentro. Os primeiros podem ser destruídos, deitados abaixo com maior ou menor dificuldade. Os segundos utilizam materiais indestrutíveis e flexíveis que resistem às pressões exteriores e às pancadas. Moldam-se a elas. Adaptam-se. Os seus construtores são fabulosos arquitetos, peritos na minúcia com que delineiam mirabolantes fantasias. Fantasmas criados com todo o cuidado, mantidos vivos e atuantes graças a um constante apelo ao medo, memória e imagens de monstros infantis.

 

Ascensão e Queda

 

            Em finais de 1979, Roger Waters, músico e letrista dos Pink Floyd, banda emblemática do psicadelismo, constrói um muro descomunal gravado para a posteridade num disco chamado simplesmente “The Wall”. “O Muro” pertence ao grupo das construções mentais inabaláveis e impenetráveis. Decorridos dez anos a História confirma a regra atrás enunciada. Uma das mais sólidas paredes jamais erguidas por mãos humanas revelar-se-ia, finalmente, apenas um amontoado de tijolos. A 9 de novembro de 1989, cai o muro de Berlim, sinónimo de terror e divisão, vergado às rajadas do vento dos novos tempos.

            No próximo dia 21 de Julho, o muro volta a ser erguido. Desta vez como simulação e símbolo. No próprio local onde se abriu passagem entre as duas metades de um todo nacional, Roger Waters constrói de novo a sua monstruosa fantasia, sublimada em espetáculo gigantesco. O fingimento substitui o horror, o “rock”, orgia mediática, multiplicando as referências e paradoxalmente funcionando como veículo normalizador de uma realidade complexa, unificada numa estratégia de massificação simplificadora. Exorcismo simbólico e coletivo sintetizado num único conceito – o muro.

 

Catástrofes

 

            A multidão que se concentrará nessa ocasião na Praça Potsdam, em frente à Porta de Brandenburgo, em plena “terra de ninguém” situada entre as duas antigas fronteiras, participará inconscientemente num acontecimento único, mas não ao nível do que será universalmente alardeado e difundido. Oficialmente, o concerto organizado por Waters e Leonard Cheshire, veterano aviador na Segunda Grande Guerra, tem como objetivo angariar fundos para uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de catástrofes e acidentes, o Memorial Fund for Disaster Relief, funcionando por acréscimo como evocação e homenagem às vítimas dos dois conflitos mundiais e das não menos mortíferas sequelas da Coreia ou do Vietname. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Floyd, também aviador, morreu num acidente da Guerra de 1914-18 e que a sua ausência é precisamente um dos fantasmas que assombram “The Wall”, o disco, abrindo caminho para a emergência do oposto matriarcal, personificado na mão zeladora e castradora.

 

O Eterno Retorno

 

            Depois de amanhã, num superespetáculo que, para além de Waters, contará com Joni Mitchell, The Band, Marianne Faithfull, Cindy Lauper, Sinead O’Connor, a Orquestra e Coro do Exército Vermelho e bandas militares, milhares de pessoas serão de novo emparedadas e embaladas nos braços quentes e protetores dos seus próprios fantasmas, na tal “no man’s land”, estrato indefinido e uterino, terra de novo fértil e semeada onde voltarão a crescer os frutos envenenados de renovados e pujantes nacionalismos. A mãe-pátria recupera a sua vocação telúrica, capaz de gerar filhos solares ou monstros disformes (como aqueles que flutuarão ameaçadores sobre a multidão durante o concerto), consoante for fecundada pelo macho do poder, em amor ou em paixão. A História nunca se repete? Ou vivemos todos adormecidos no seio de novos espectros totalitários? Não é a própria desmesura do espetáculo anunciado, em que cada espectador se quedará subjugado por um excesso de imagens e sons à escala não humana (como as figuras e o estádio monstruoso no interior da capa de “The Wall”), reduzido à condição de simples número manipulado como um fantoche, manifestação evidente de subtil totalitarismo? O indivíduo perdido na multidão e no gigantismo massificador obedece cegamente aos estímulos sonoros e visuais. Moderno ritual de obediência a ídolos que em vez do facho imperial empunham guitarras elétricas. E canções do “top” substituem hinos guerreiros. Há sempre um “Führer” disposto a gritar “slogans”. O “rock está à inteira disposição de candidatos.

            O que se pretende da celebração e festa encobre afinal mais sinistras formas. As boas intenções cumprem-se no prolongamento contemporâneo de mal enterrados horrores. Evocam-se antigos fantasmas para os exorcizar ou para os venerar? Convocam-se os mortos para celebrar a vida, esquecendo que morte e vida formam a dupla face de um mesmo rosto. O super-homem nietzschiano, como a criança, é inocente e despreza ambas com soberana alegria. Quem preside afinal à reunião, Apolo ou Dyonisius? O sol ou o solo? Berlim volta a ser centro do mundo. Destruído o muro que dividia alguns e protegia outros, o espetáculo “The Wall” volta a suscitar eternas dúvidas e recônditos receios. O novo fantasma chama-se Europa.

 

QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990 VIDEODISCOS

Tijolo a tijolo [Pink Floyd]

 

Na capa

 

TIJOLO A TIJOLO

 


            A loucura tem sido boa conselheira dos Pink Floyd. Pela formação britânica, responsável pelo nascimento e bom nome do psicadelismo dos anos 60, passaram pelo menos dois dos seus cultores: Syd Barrett, esquizofrénico com carimbo clínico, e Roger Waters, psicótico controlado que soube fazer render o peixe, isto é, a paranoia, ao preço de ocasião e com a indústria a apoiar.

            Syd é lenda. Perdeu-se na violência dos seus sonhos e alucinações. Escrevia pequenas histórias sob a forma de canções. Quando entrava no estúdio, o seu eterno estado sonambúlico transformava-se em delírio criativo. Compunha pequenas obras-primas. Cantava e tocava guitarra como se estivesse sozinho no Universo. Jogava com ninguém ao dominó, numa casa inglesa, daquelas escuras e antigas, cheias de fantasmas. Sempre em dias de chuva. Jogava enquanto esperava. A chuva nunca parou e a princesa que chegou não era a prometida. Espalhou as peças pelo chão e levou-o para o armário dos papões. Deixou testemunho das suas visões em “The Piper at the Gates of Dawn”. 1967, ano de todos os sonhos, para Syd, o início do pesadelo. Nunca mais veremos Emily tocar.

 

Viagens espaciais

 

            A partir do ano seguinte, o seu amigo Roger Waters inverte o sentido da viagem. Das estrelas na cabeça do gnomo Barrett para os grandes espaços cósmicos exteriores. Toma os comandos e aponta a nave para o coração do Sol (“Set the Controls for the Heart of the Sun”). “Interstellar Overdrive” estendida até às dimensões épicas do absoluto. A sua maior ambição era compor a banda sonora do “2001”, de Kubrick. Ficou-se pelos tons “hippies” de Antonioni em “Zabriskie Point”, perdido nas selvas luxuriantes da “La Vallée”, de Barbet Schroeder.

            O tom épico e desmesurado que a música dos Pink Floyd demandava foi encontrado afinal na Mãe Terra. “Atom Heart Mother” (1970), viagem infinita por lado nenhum, acompanhada de orquestra e coros, em longa suíte que depurava até à perfeição as premissas enunciadas no compêndio psicadélico. Para trás ficavam “A Saucerful of Secrets” (1968) e a obra-prima incompreendida “Ummagumma” (1969), duplo álbum magistral, dos poucos verdadeiramente experimentais da época. No segundo disco, cada um dos quatro Floyd mostrou até que ponto a loucura se pode estruturar em obra de arte. Um dos temas chamava-se “Several Species of Small Furry Animals Gathering Together in a Cave and Grooving with a Pict”. Nunca antes no rock a natureza tinha cantado tão estranhamente como aqui.

            “Meddle” (1971) prolongava o segundo lado da “Atom Heart Mother”. Música de sol, mar e lonjura. Os Floys espraiavam-se indolentes pelas vastidões aquáticas de um sonho momentaneamente aquietado. Os pingos de “Echoes” reverberando num adeus pacificado à década finada. Com “The Dark Side of the Moon” (1973), a máquina dos dólares começou a faturar. “Welcome to the Machine” – os filhos pródigos regressavam ao lar, acolhidos de braços abertos pela indústria maternal. “Atom Heart Mother” permanece até hoje nos tops americanos. Waters é emparedado. Tijolo a tijolo, o muro começa a ser erguido. Em “Wish You Were Here” (1975), olha-se para trás, em busca de Barrett. “Shine on you Crazy Diamond”. Mas o diamante não voltará a brilhar. Os Pink Floyd perdem-se no caminho. “Animals” (1977) é um fracasso a todos os níveis. A banda, um mero grupo de suporte de Roger Waters.

 

A grande explosão

 

            A explosão redentora dá-se finalmente no último ano da década. É o grande exorcismo de Waters, que finalmente se assume como alma exclusiva dos Floyd. Libertam-se medos e paranoias durante anos acumulados. A história de “The Wall” é a biografia do músico. Grito revoltado contra o universo inteiro. A construção do muro levada a cabo nesse instante precário que decorre entre o nascimento e a morte. A mãe, os professores, as namoradas, os outros todos e o “outro” que é ele próprio são monstros agressivos que fazem da vida um inferno e uma guerra em que todos são “o inimigo”. Roger Waters vingava Syd Barrett. Onde este soçobrou, vergado ao peso da loucura, aquele vence, ao atirar os seus dejetos à cara do mundo. “The Wall” é finalmente o apontar de dedo a todas as mentiras do universo rock. Alan Parker passou-o para celuloide. Bob Geldof encarnou a figura do mártir. Quase todos dizem mal. Salva-se a fabulosa animação que dá vida às delirantes figuras desenhadas na capa do disco, da autoria de Gerald Scarfe.

            Esqueçam-se os capítulos mais recentes da odisseia Waters, “The Final Cut” (1983) e “The Pros and Cons of Hitch Hiking” (1984), assim como dos Pink Floyd sem ele em “A Momentary Lapse of Reason” (1987). O importante vai ser estar em Berlim no próximo dia 21 ou assistir a tudo pela televisão. Para ficarmos a saber como se constrói um muro. E se o destrói.

 

 

NÚMEROS

 

            O palco é o maior alguma vez construído (onde é que já se ouviu isto?) – 168 m de comprimento, 25 de altura. Vai levar um mês a erguer e duas semanas a destruir. 50 camiões transportam-no até ao local do concerto. Os bonecos insufláveis ultrapassam os dos Stones: são do tamanho de edifícios de seis andares. O “professor” mede 12 m com uma amplitude de braços de 31 m. O “porco” alcança os 15 m. Cada boneco é comandado através de uma grua de 45 m e controlado por 20 pessoas. No muro que será erguido ao longo do espetáculo, serão utilizados 2500 tijolos especiais, cada um medindo 1,5 m x  75 cm e peando 9 Kg. São 50 os obreiros. Ao todo serão 600 pessoas a trabalhar para esta produção. A energia necessária para pôr tudo a funcionar – 5 megawatts, 1,7 dos quais fornecidos pela (ainda) Alemanha do Leste e o resto por geradores próprios. Um gigantesco ecrã circular com 16 m de diâmetro rodeado por 36 “Vari lites” constituirá, na ocasião, a maior estrutura observável nos arredores da Porta de Brademburgo. Estão previstos um total de 46 min. De projeções de “desenhos animados”. Os céus de Berlim vão ser iluminados por 12 holofotes sincronizados. Tudo junto vai poder ser presenciado “in loco” por cerca de 150.000 pessoas.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990

 

11/10/2016

Roger Waters em concerto duplo no Pavilhão Atlântico

CULTURA
SÁBADO, 4 MAI 2002

Roger Waters em concerto duplo no Pavilhão Atlântico

HOJE E AMANHÃ EM LISBOA

O ex-baixista e vocalista dos Pink Floyd. Roger Waters estreia-se, ao vivo em Portugal.

Depois dos Supertramp, Roger Waters. Eis o Parque Jurássico da pop de regresso e a funcionar em pleno. Mas há uma diferença entre os dinossáurios fossilizados, como os Supertramp, e um dinossáurio vivo, como Roger Waters, 59 anos, natural de Cambridgeshire, Inglaterra. Os dinossáurios vivos impressionam pela dimensão e pelo peso. Por isso exigem grandes espaços de modo a poderem mover à vontade as suas caudas e pescoços enormes. Salas como o Pavilhão Atlântico, que hoje e amanhã recebe a banda de Waters, em concerto integrado na digressão "In the Flesh", título de uma canção do álbum "The Wall".
                Roger Waters é um dinossáurio excelentíssimo, como diria José Cardoso Pires. Bastaria o facto de ter feito parte dos Pink Floyd, para o tratarmos por senhor. Mas Roger Waters não se limitou a "fazer parte". Ele foi, depois da saída pela porta da loucura, de Syd Barrett, o cérebro e a voz dos Pink Floyd, ao longo de toda a década de 70, em álbuns como "Ummagumma", “Atom Heart Mother", "Meddle", "Dark Side of the Moon" e "Wish you were Here". Mais, a Roger Waters se deve, quer se queira quer não, o derradeiro testemunho (e testamento...) dessa década que fez do excesso o seu modo de vida: o duplo álbum "The Wall", momento alto (quanto a nós, o último...) na carreira dos Floyd e prova real de que, depois do psicadelismo barrettiano e da consequente fase "space rock", a canção pop teve no grupo um digno representante.
                Todos cantavam em 1979 "Another brick in the wall". Mas a pop de "The Wall" não se esgotava nesse hino contra o autoritarismo. O muro é mais alto e mais resistente. "The Wall" é a banda-sonora da solidão e da alienação, à qual, anos depois, Alan Parker acrescentaria as cores berrantes no filme "Pink Floyd – The Wall", cuja nova versão, em DVD, está já disponível. Waters deu tudo de si nesse disco: o medo e as recordações sofridas da infância, sobretudo a morte prematura do pai, falecido em combate na 2ª Guerra Mundial, que nunca conseguiu resolver. Em carne viva. "In the flesh".
                "The Wall" é ainda o autismo enquanto última fuga. Todos temos um muro à nossa volta. Mais ou menos alto, mais ou menos forte, construído com as nossas próprias mãos e as nossas próprias paranoias. "The Wall" manteve-se dois anos nos tops. "The Final Cut", espécie de epílogo de "The Wall", foi o derradeiro exorcismo. Waters abandonaria em seguida os Pink Floyd.
                "The Wall" seria ainda uma coincidência histórica. A 21 de Julho de 1990, em plena Potzdamer Platz, diante do muro de Berlim recém derrubado, Waters e a sua banda montaram uma ópera-rock que ficou na história. Canção a canção, tijolo a tijolo, o muro foi reconstruído e de novo deitado abaixo, à medida que o concerto ia decorrendo – ascensão e queda, uma nova época que nascia sem que soubéssemos ainda que outro muro, ainda mais alto e resistente, se erguia já do outro lado a tapar o horizonte.
                Depois dessa data, Roger Waters, o introvertido por excelência, voltou apenas esporadicamente aos palcos. Um concerto em Los Angeles, em formato intimista. Outro, de beneficência, em 1993, ao lado de Don Henley, John Fogerty e Neil Young. Foi preciso esperar até 1999 para reatar o convívio com o público, através da extensão americana da digressão "In the Flesh".
                Roger Waters gravou a solo os álbuns "The Pros and Cons of Hitchiking" (1984), "Radio K.A.O.S." (1987) e "Amused to Death" (1992), excertos dos quais podem ser escutados no primeiro volume da coletânea, recém-lançada pela EMI-VC, "Flickering Flame". Prepara atualmente "Ça Ira", uma ópera baseada na Revolução Francesa, para três vozes solistas – soprano, tenor e barítono – com "libreto", em francês, de Etienne Roda-Gil, e ilustrações assinadas pela sua mulher, Nadine, entretanto falecida, vítima de leucemia.
                Acompanham Roger Waters os músicos Andy Fairweather-Low (guitarra, baixo e voz), Snowie White (guitarras), Graham Broad (bateria), Andy Wallace (piano), Harry Waters (piano), Chester Kamen (guitarra e voz), Norbert Stachel (saxofone), Katie Kissoon, Linda Lewis e P. P. Arnold (voz e coros).

ROGER WATERS
LISBOA Pavilhão Atlântico, hoje e amanhã.
Às 21h30. Tel. 218918409.
Bilhetes entre 25 e 33 euros