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09/06/2025

Poucos mas bons [discos importados]

 

Notícias

 

POUCOS MAS BONS

 

            Os melhores discos quase ninguém os conhece. Como assim? Vamos explicar. Um exemplo: os “O Yuki Conjugate” são uma obscura e excelente banda, praticante de uma música misteriosa e fascinante, não facilmente catalogável. Devia ser conhecida no planeta inteiro, mas de facto apenas 268 dos seus habitantes ouviram falar dela, entre os quais cinco são portugueses. Uma ou outra discoteca nacional, daquelas que arriscam e importam, manda vir cinco exemplares. Quatro desses portugueses adquirem o disco, dez segundos após este ter sido colocado no expositor da loja ou mesmo antes. O disco restante é levado por engano por alguém que pensava tratar-se de Yoko Ono. O quinto português conhecedor fica a chuchar no dedo porque vive em Viseu, não soube que o disco estava disponível, ou não foi suficientemente rápido. De entre os contemplados, um escreve para algum lado e faz uma crítica elogiosa. Trinta pessoas leem o artigo e pretendem adquirir o disco. A discoteca em questão vai importando quantidades progressivamente maiores de exemplares à medida que a procura aumenta. Satisfeitos todos os pedidos, passa-se à aposta seguinte. Seis meses depois, uma editora ligada a uma multinacional ouviu dizer que o disco era um sucesso de vendas no mercado independente e resolve importar 10.000 exemplares do dito. Não se vende nenhum. A editora, abraços com um produto que desconhece e que não sabe como promover, diz que o disco é mau e não vende. Segue-se o habitual estendal de lamentações de mais uma história triste do nosso pobre panorama editorial.

            Vamos lá ver se conseguimos alterar o estado de coisas. Para já, escrevendo e informando regularmente, neste canto aconchegado, sobre bons e desconhecidos nomes e discos que regularmente por cá aterram, nas tais discotecas especializadas.

            Por exemplo, “Title In Limbo” – um estranho objeto vinílico gravado a meias pelos anónimos e bizarros Residents e os Renaldo And The Loaf, ainda mais bizarros e divertidos. “Title” é uma ópera épico-cómica eletrónica em que o cantor principal é Bugs Bunny. Foetus, depois do duplo “Sink”, tem já um novo maxi com três temas: “Butterfly Potion” é o principal. “Smiles, Vibration & Harmony” é uma homenagem de variadas bandas (entre as quais os Sonic Youth) ao ex-Beach Boy Brian Wilson, 30 anos depois, de novo na berra. Finalmente, para os fanáticos do folk, o álbum estreia dos Ad Vielle Que Pourra, dois canadianos, dois belgas e um bretão apostados em tornar a música tradicional de expressão francesa num formidável espetáculo de virtuosismo e inspiração. As discotecas  Contraverso e VGM fazem as despesas.

 

QUARTA-FEIRA, 27 JUNHO 1990 VIDEODISCOS

01/05/2025

OS ANJOS DO BIZARRO (The Residents)


Pop

DISCOTECA

 

OS ANJOS DO BIZARRO

 

Ninguém sabe quem são. Já passaram mais de quinze anos sobre a sua formação e continuamos privados das verdadeiras identidades destes senhores que, em princípio, se julga serem humanos. Vão em vinte e cinco álbuns gravados, uns simplesmente geniais, outros impenetráveis, todos diferentes e situados na galáxia ao lado da pop. O seu percurso é um constante ziguezaguear por entre todas as convenções da música das duas últimas décadas, desembocando em lugar nenhum. Pelo menos, que seja conhecido.

 

The King & Eye - Wikipedia

 

Diz-se que são americanos e, por conveniência e comodidade, é melhor acreditar. Começam por colecionar gravações esquisitas, com incidência em obscuros “hits” dos anos cinquenta e sessenta e em excertos de jazz e “blues” de Nova Orleães. Algures numa floresta da Baviera, conhecem um tal N. Senada, personagem misteriosa que lhes ensina um complicado sistema fonético, aplicado em inúmeros discos da banda.

Cultivam, nos primórdios, a Teoria da Obscuridade, que, em poucas palavras, se pode explicar do seguinte modo: publicar cada trabalho apenas depois dos seus autores o terem esquecido. Assim, por exemplo, o álbum “Not Available”, gravado originalmente em 1974, só é editado quatro anos depois, ficando a figurar como quinto da discografia. Confusos? Não é caso para menos.

 

Teoria da Obscuridade

 

            Os Residents cultivaram cuidadosamente, ao longo dos anos, uma imagem de bizarria e subversão, evidenciadas de forma exemplar logo no primeiro álbum, “Meet The Residents”, cujos títulos e fotografia da capa parodiam o célebre quarteto de Liverpool. De resto, uma das preocupações do, também, quarteto incógnito parece ser a demolição sistemática dos alicerces em que assenta a música popular ocidental. Os Residents introduzem-se no sistema utilizando os seus códigos e canais de divulgação, para melhor o sabotar do interior. A razão de tal atitude, sistemática, permanece um mistério. Como tudo o mais, aliás.

            “Meet The Residents” atira-nos à cara uma massa distorcida de sons e referências desencontradas, desde a ópera e a canção pop imbecil, ao “free jazz” e à música concreta. O rock encontrou um inimigo à altura.

            “The Third Reich ‘n’ Roll” vai ainda mais longe. No primeiro lado, o tema “Swatikas on parade”, uma colagem vertiginosa de vozes distorcidas, a par do soletrar fonético típico da banda, sons eletrónicos e a trituração dos géneros musicais mais díspares tornam a audição a um tempo aterradora e fascinante. Antes dos Residents, só os Faust se atreveram a tanto. Depois dos Residents outros se aventuram por tão incertos caminhos. Os Biota e os Negativland são os que mais inteligentemente o fazem. Do outro lado do disco, “Hitler was a vegetarian”, outra colagem insana, desta vez de êxitos da pop, de bandas como os Beatles ou os Stones. “Interpretações semifonéticas de ‘hits’ do Top dos anos sessenta”, segundo os próprios beligerantes. As toupeiras prosseguem o seu trabalho de sapa.

 

Esquimós e Toupeiras

 

            “Fingerprince”, de 1979, inclui a longa “suite” para bailado “Six things to a cycle”, numa faceta mais clássica, mas não menos original. Um dos convidados é o guitarrista inglês Snakefinger, amigo de sempre da banda, infelizmente já falecido. A cantora Zeibak é outra das presenças assíduas na fase inicial da banda.

            “Duckstab/Buster and Glen” é “vintage” Residents, a estranheza tornada habitual. E chegamos a “Not Available”, o tal que deveria ser segundo e é, afinal, quinto. Sombras, naufrágios iminentes, um tom geral de tragédia e abandono. O disco mais triste de todos. Incontornável.

            “Eskimo” é um tratado sociológico sobre a vida dos esquimós, outra das muitas – algumas inconfessadas – paixões deste bando de lunáticos. Os rituais do nascimento e da morte, acompanhados do princípio ao fim do disco pelo ruído de vento, numa perspetiva muito especial, como não poderia deixar de ser. “Diskomo” é a versão “disco” de “Eskimo”. A partir daqui, os Residents enveredam definitivamente por uma via quase só eletrónica, perdendo-se o humor e o caos sonoro dos álbuns anteriores.

            “Commercial Album” parte de uma ideia original: quarenta temas, com um minuto certo cada, para servir de “jingles” comerciais. Participam no disco Chris Cutler e Fred Frith, e este ainda tem tempo para um solo de guitarra. A versão original apresenta o bónus de um single com mais dois temas-minuto (!). As companhias publicitárias não parecem ter compreendido bem o gesto e as intenções.

            Depois, é a fase da trilogia inacabada, constituída por “Mark of the Mole” e “The Tunes of Two Cities”, que narram a história dos conflitos entre duas sociedades, a das toupeiras e a de outros seres mais esquisitos e de intenções suspeitas. O segundo alterna faixas representantes das conceções musicais de cada uma das sociedades.

            Seguem-se “Intermission”, “Residue” (este com material antigo inédito) e “The Mole Show”, primeiro “ao vivo” da banda.

 

Compositores Americanos

 

            “George and James” inaugura uma série dedicada aos modernos compositores americanos, programada para continuar até ao ano 2000. Os primeiros contemplados foram George Gershwin e James Brown.

            Em 1984, gravam música para o vídeo “Whatever Happened do Vileness Fats?”. Logo de seguida, a banda sonora de “The Census Taker” e o espetáculo para a televisão “Pal TV LP”. “The Big Bubble” (1985) é uma quarta parte para a já citada “trilogia”, sem que tenha havido uma terceira. Big Bubble é também o nome da banda cujos membros descendem do cruzamento entre as duas raças rivais, com êxitos como “Cry for the fire” e o hino “Kula Bocca says so”. O álbum, sem dúvida divertido, permite algumas leituras perversas acerca de entusiasmos nacionalistas e formas de propaganda totalitárias. Mais dois registos “ao vivo”, “The Eyeball Show – Live in Japan” (uma referência ao facto de os Residents terem uma especial predileção por se disfarçarem de globos oculares humanos, depois de já se terem mascarado de camarões...) e “The Residents 13th Anniversary Show”.

            “Stars and Hank Forever” é o segunda da série “Novos compositores americanos”. John Philip Sousa e Hank Williams são, desta vez, os escolhidos. Discos recentes, como “Dark Star” e “God in Three Persons”, não adiantam grande coisa à lenda. O mais recente é uma homenagem (ou sacrilégio) a Elvis Presley, intitulada “The King and Eye” (jogando com o trocadilho entre “eye” e “I”), com clássicos como “Blue suede shoes”, “Heartbreak Hotel” ou “Love me tender” metodicamente trucidados, e a figura do “rei” representada com o inevitável olho no lugar da cabeça.

            Não se sabe ao certo se existe um disco com o título, que muito nos diz respeito, “The Third Secret of Fatima”, mas com os Residents tudo é possível.

 

QUARTA-FEIRA, 21 MARÇO 1990 VIDEODISCOS


29/10/2019

Queirda, encolhi a música! [Stealing Orchestra]


Y 26|SETEMBRO|2003
música|stealing orchestra

Querida, encolhi a música!

Para os Stealing Orchestra um disco é um mundo de possibilidades. Com velhos discos e filmes montaram “The Incredible Shrinking Band”, que alargou o espectro sonoro da orquestra.

“The Incredible Shrinking Band”, segundo longa-duração dos Stealing Orchestra, depois de “Stereogamy” (e do EP “É Português? Não Gosto!”), rouba o que pode e onde pode. A começar pelo título, adaptado de um filme de série B, “The Incredible Shrinking Man” (Jack Arnold, 1957), hoje fita de culto.
            A operação de encolhimento traduz-se graficamente numa capa a fazer lembrar os Negativland e materializa-se literalmente na faixa de encerramento, “Happy ending theme”, segmento sónico que em segundos condensa as restantes 14 faixas. O disco termina com uma mensagem subliminar na voz de um Wally ambíguo que cada um tentará identificar.
            Pelo meio, os Stealing Orchestra, sob a alçada ideológica de João Mascarenhas, propõem as sonoridades mais estranhas, designadas por títulos não menos bizarros como “Que Deus te dê o dobro de tudo o que nos desejares”, “Tetris (beware boy, videogames are evil)”, “The darkside of a travesti”,”The living dead whistlig quartet”, “How to make a killer rat” e o inultrapassável “Sorry captain.but…shouldn’t we be thinking about cosmic hazards instead of destroying our spaceship and kitting the crew?”.
            São ilustrações, pinturas de som equivalentes às colagens surrealistas que Armando Brás criou para o folheto, ilustrativos de uma insanidade controlada que remete os Stealing para uma linhagem de grupos que inclui os Residents, Biota, Renaldo and the Loaf, Yello, Startled Insects, Olívia Tremor Control ou os já citados Negativland, bem como Pascal Comelade ou artistas como Duchamp, Breton, Ernst, e Salvador Dali.

asilos. Vale tudo e vale a pena averiguar. Os Stealing Orchestra sacam aos discos e filmes de vários estilos e épocas aquilo que neles é passível de ser manipulado até adquirir a forma de música. Os resultados variam de faixa para faixa como as simetrias de um caleidoscópio: valsas à maneira dos Stranglers, surf music, easy listening, jogos de consola, eletrónica-champagne, uma citação intrusa dos Pink Floyd psicadélicos (não, eles nunca ouviram, juram, e nós fingimos acreditar…), excertos de emissões e estática de rádio, vozes camufladas e melodias umas vezes diabolicamente retalhadas outras de uma simplicidade desarmante. Para confundir ainda mais, não faltam “Os Caretos de Podence”, com emulações de gaita-de-foles sintética de folk mirandesa formatada em disquete.
            Não há uma tradição, cá dentro como lá fora, para este “tipo” de música, pela razão de que a loucura, mesmo quando elevada a método (estético ou sociológico), é ferozmente individualista. Cada caso é um caso e entrar em cada um deles pode ser uma aventura imprevisível.
            Claro, encontram-se na pop asilos bem demarcados. Se os Negativland abusam da colagem como dispositivo de sabotagem, não só estética como política, e os Olivia Tremor Control recorrem ao “corte e costura” como ferramenta de um novo Psicadelismo, já Pascal Comelade se perfila como genuíno “naif” para quem a música é, como nos Stealing Orchestra, uma miniaturização de géneros e mitologias enrolados no cilindro de um realejo. O autor de “El Cabaret Galactico” é, de resto, das poucas influências assumidas pelo grupo português.
            Outros mestres-redutores, como os Residents (o seu álbum de 50 “jingles” de um minuto cada permanece como símbolo da publicidade filtrada pela esquizofrenia e pela perversão), inserem-se num projeto mais global de subversão que procura atingir o âmago da pop. Os Biota fazem o mesmo mas propagam a doença, infetando cada som com uma agonia. Idem em relação aos Startled Insects, com a diferença de que estes ousam interferir com os cânones da música de dança. Já os Renaldo and the Loaf são malucos a quem ofereceram instrumentos de música e um contrato de gravação e os Yello uma variação “light” dos Residents. Ponto assente: sem o trabalho pioneiro de Raymond Scott, o cientista e visionário louco de “Manhattan Reserach Inc.”, nenhum dos outros se atreveria a fazer o que fez e a expor as respetivas
taras em público.
            De entre esta lista de ilustres anjos do bizarro (parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe) é no mundo mais afastado do horizonte de referências dos Stealing Orchestra que se detetam enigmáticas coincidências. E que outro grupo pode estar mais afastado da normalidade do que os Biota, autores de “Almost Never”, “Tinct” e “Object Holder”, compêndios e rituais de passagem para o pesadelo? Como os Biota, os Stealing Orchestra constroem parte da sua estranheza através da justaposição de instrumentos acústicos, como o piano ou o acordeão, e programações eletrónicas, segundo a lógica de “cadavre-exquis” surrealista, que encadeia as imagens mais incongruentes. Desta conjunção de contrários resulta uma fenda entreaberta que faz desequilibrar, ou apagar, as mnemónicas a que se recorre para fazer a descodificação de uma particular organização mental/musical. Se os Biota filtram no estúdio sanfonas e saxofones até estes soarem como emanações tuberculosas de hinos sobrenaturais, os Stealing Orchestra sequenciam valsas e fragmentos de uma folk imaginária, ou nem por isso (como nuns “Caretos de Podence” cujo mistério se desvanece ao conhecermos as origens transmontanas de João Mascarenhas), cuja força advém, precisamente, da ausência ou deformação de contexto. Nos Stealing Orchestra nada encaixa numa explicação lógica e tudo se passa como as imagens de um sonho. E, no entanto, o filme que fazemos com elas fala uma linguagem que reconhecemos. Ou julgamos reconhecer.
            E daí, talvez não, se pensarmos que “The Incredible Shrinking Band” demorou três anos e meio a gravar e que a organização destes O.V.N.I.s sonoros terá custado a João Mascarenhas mais do que uma noite sem dormir. Foi difícil encontrá-lo, porque encolheu até à escala de 1:260. Encontrámo-lo a praticar natação no interior de um dos sifões de água que matam a sede à Redação do PÚBLICO. Como é que lá foi parar, não quis dizer nem nós conseguimos imaginar. Mas não podíamos desperdiçar a oportunidade. Depois de se enxugar num pedaço de toalhete de papel e de escapar por um triz a ser espezinhado por um jornalista, prontificou-se a dar explicações. Já instalado no aconchego de uma caixa de fósforos, foi mesmo assim com alguma dificuldade que conseguimos ouvir com nitidez este “incredible shrinking man”. Segue-se a relação de algumas das verdades liliputianas que nos transmitiu.


ideias em lata.
MÉTODO DE COMPOSIÇÃO: “Faço as bases, com samples, depois gravo para CD, passo aos outros músicos [Pedro Vidal, Fernando Sousa, Gustavo Costa] e discutimos o que se pode aumentar aqui ou colar ali. Finalmente trabalho outra vez os temas e dou-lhes as programações para trabalharem sozinhos”.
LOCAL DE TRABALHO: Em casa. “Às vezes não consigo dormir. Estou com um som na cabeça e não descanso enquanto não conseguir fazê-lo. Vou para o computador ver se sai alguma coisa. Se sai, continuo, se não…”
FONTES SAMPLADAS: Discos e filmes. “A mais descarada: os Bonzo Dog Doo Dah Band, em ‘Time travelling waltz’, cinco segundos de Brigitte Bardot, de “Tous les garçons”, num ‘pitch’ lento.”
AUDIÇÕES RECENTES: Robert Mitchum. Ouve pouca eletrónica. “Não gosto do som eletrónico”. Nos anos 80: Front 242, Skinny Puppy. Mais tarde: Portishead. Massive Attack, Aphex Twin…
SOFTWARE UTILIZADO: “Básico e primitivo. Já o uso há 11, 12 anos, um programa que cabe três vezes numa disquete, quando hoje é tudo ‘software’ em dois CD. Habituei-me. É como um gajo que toca guitarra e não quer mudar de instrumento”.
UM HERÓI: Raymond Scott. A fase do jazz. “Gosto de todos os discos que saem pela Basta, como os dos Beau Hunks”. “Adoro os anos 20”.
O LIXO E O LUXO: “Um sample não tem que ser lixo só porque é de um artista mais foleiro. Às vezes ouço bandas a dizer, orgulhosas, que samplam os Kraftwerk. É uma treta. O que é que interessa de onde vêm os sons? O que interessa é o que se faz com eles. Tanto pode ser Piazzolla como Quim Barreiros”. Critério: “Tem a ver com a preguiça. Uso os sons disponíveis, não tenho pachorra para arranjar mais. Na escola, quando me mandavam fazer uma redação, se não me dessem um tema, não era capaz. Com um tema, desenvolvia facilmente. Um ‘sample’ é como se fosse um tema”
MÚSICO OU NÃO-MÚSICO: “Não-músico. Não leio pautas. Músico é um gajo que tanto toca num projeto experimental como numa cena mais foleira, para ganhar dinheiro. É uma profissão”.
ECLETISMO: “Tanto podemos fazer misturas de uma banda de ‘dead metal’ como os Holocausto Canibal como de Kubik. Uma vez tentei fazer uma música pimba, para ver se era fácil. Não saía. Afinal não é assim tão fácil. Como não é fácil fazer electroclash ou hip-hop”
CONCERTOS: “Nunca vi ninguém fazer nada de jeito em palco com um computador, os tipos estão ali a fazer de conta que estão a tocar. Antigamente levava um até que me fartei. Gravo as programações todas em CD, fazemos ‘play’ e tocamos por cima, como uma orquestra que estivesse lá atrás”.
UM FINAL FELIZ: “‘Happy ending theme’ é o disco todo comprimido a andar para trás, como um grande loop. Não vou revelar o que a voz diz no final. Dá mais gozo pôr o disco a rodar ao contrário e tentar perceber. Esperemos que ninguém leve a mensagem a sério…”


anjos do bizarro

No corpo da hidra monstruosa que é a
música pop não faltam excrescências
que extravasam os limites impostos
pelo “mainstream”, ou seja, pela
“normalidade”. Os álbuns
seguintes, nacionais e
estrangeiros, são clássicos
da marginalidade
cultivada como estética, em
que as únicas regras são as
da loucura, do perigo e da
transgressão. E do humor,
tantas vezes separador entre
a patologia, a obra de arte e o
gratuito.

THE RESIDENTS
The Third Reich ‘n’ Roll
Ed. Euro Ralph

Quem são, de onde vêm, o que pretendem? Ninguém sabe. Agem como toupeiras a escavar os túneis que minam os alicerces da pop. Os “eyeballs” de fraque e cartola são os diletantes do horror em banda-desenhada, “compères” de uma alucinação sem fim que vem dos anos 70 e hoje se estende por videojogos para maiores de 21. “The Third Reich ‘n’ Roll”, de 1976, é uma das etapas mais bizarras deste percurso pelos subterrâneos da pop, dividida num par de aberrações onde são amolgados e cuspidos, numa avalanche de ruído e vozes de diabretes, “hits” pop dos anos 60 e 70: “Swastikas on parade” e “Hitler was a vegetarian”. Ou de como destapar o diabo e escancarar o carácter intrinsecamente totalitário da música de massas.

BIOTA
Object Holder
Ed. Recommended

Ao contrário dos Residentes, é conhecida a identidade dos Biota: uma equipa de músicos e artistas gráficos sediados em Fort Collins, EUA, preocupados com o “bombardeamento das crianças pela tecnologia” e empenhados na manipulação eletrónica, até à aniquilação, de instrumentos acústicos como a sanfona, trompete, teclados e, em “Object Holder”, da voz humana
Se os Residents são a subversão da pop os Biota transferem-na para um mundo de espectros. A música é um aglomerado tóxico de anti-matéria em metamorfose, miasmas desfocados de “world” inexistente, “free jazz” nas rotações e pelos músicos errados. Como num teste Rorschach é a nossa imaginação que faz nascer os monstros.

NEGATIVLAND
Escape from Noise
Ed. Seeland

Os Negativland disparam aqui rajadas de colagem e eletrónica devedoras de Raymond Scott mas que antecipavam as atuais “funny electronics” alemãs, em canções que denunciam o ridículo e os podres do quotidiano da América. Pulveriza-se com veneno mata-ratos a mediocridade do rock “mainstream” (o verdadeiro “noise”), expõem-se os vícios do pai de família que vê às escondidas o canal Playboy ou, simplesmente, sintetiza-se o atual estado de coisas num título como “Methods of torture”. Entre os convidados, encontram-se “freaks” como Steve Fisk, Fred Frith, Mickey Hart e Jerry Garcia (Grafteful Dead), Henry Kaiser, Mother Mothersbaugh (Devo), Tom Herman (Pere Ubu), Alexander Hacke (Einsturzende Neubauten) e os…Residents.

MOLA DUDLE
Mobília
Ed. Anana

Os portugueses também sabem fazer esgares. Os Mola Dudle desarrumam a eletrónica de entretenimento para nos fazer tropeçar no espanto. Desarrumação com a aparência de caos, todavia encenada com uma exatidão matemática por Nanu e Miguel Cabral, os dois que arrastam a mobília e eletrodomésticos de museu pelo chão. “Found objects”, instrumentos convencionais manipulados até ao âmago da sua estrutura atómica, programações histéricas ou “easy listening” arrancadas aos cartazes da escola de circo da editora Storage Secret Sounds e vocalizações sem tino condensam uma música inteligente mas por enquanto capaz de divertir apenas aqueles ouvidos sem receio de gozar consigo mesmos. Vale a pena mobilar a música portuguesa desta maneira. Os Mola Dudle foram ao ponto de porem microfones nas mãos do caruncho.

KUBIK
Oblique Musique
Ed. Zounds

O que nos Mola Dudle soa a polimento dos móveis, em Kubik (Victor Afonso) é metal, cimento e objetos brutos. “Oblique Musique” insere-se numa escola de sons que remonta à música industrial, aproveita os ensinamentos do minimalismo e assimila métodos de colagem, quer da eletro-acústica e acusmática quer dos figurinos “prêt-a-porter” da pop, mas neste campo, como em tudo, vale a imaginação do autor. Kubik usa o sampler como artilharia pesada, avançando nas programações a bordo de um tanque e fazendo denotar granadas a cada intersecção de géneros como a música étnica, melopeias repetitivas e o catálogo geral de deformações causadas pela “industrial”. Admirável é o modo como Kubik sobrepõe citações e humor, tripas e automatismos, linguagem de máquinas e existencialismo humano, criando perspetivas mutáveis como uma gravura de Eischer.

05/12/2016

The Residents, pesadelo em technicolor

CULTURA
TERÇA-FEIRA, 2 OUTUBRO 2001

XV ENCONTROS ACARTE

The Residents, pesadelo em technicolor

“ICKY FLIX” EM ESTREIA AO VIVO

Cumpriu-se a história. Os Residents enfim em Portugal. Mais formais do que eram antes, mas ainda assim capazes de fazer o público arregalar os olhos perante o seu circo de horrores

Uma lenda é uma lenda é uma lenda residente. Devem as lendas permanecer para sempre como tal, meras representações simbólicas estruturantes do Real, motores invisíveis do mundo? Ou, pelo contrário, descerem à terra como anjos decaídos? Os Residents, banda "underground" (agora já não tanto...) americana que há 30 anos vem escavacando, com tanto de loucura como de método, as fundações da música pop ocidental, são uma lenda. E, ao fim de todo este tempo, o tempo que demorou a este coletivo de homens sem rosto nem nome, a desenrolar a sua visão única e distorcida do universo de emoções, sons e imagens alterados em que se movem, os Residents apresentaram-se em carne e osso em Portugal. No passado fim-de-semana, sábado e domingo, em Lisboa, com lotações esgotadas, na vetusta instituição que é a Fundação Calouste Gulbenkian.
            O que aconteceu nessas duas noites, em termos de receção do público, era previsível. Gente a aplaudir de pé, gritos de "obrigado", como se esta tivesse sido (e provavelmente terá sido...) a oportunidade de uma vida. Não é todos os dias que as lendas se mostram em carne e osso ao comum dos mortais, ainda que, no caso dos Residents, a "carne" e o "osso" tenham a consistência da alucinação.
            E, no entanto, sobretudo para quem tem acompanhado ao longo dos anos a carreira e a obra dos Residents – e que não se deixou impressionar pela tal carga simbólica e pelo "faits divers", ultracolorido e fosforescente, com que o grupo pintou esta sua performance, de genérico "Icky Flix" – ficou alguma frustração. O lado "freaky", desde sempre cuidadosamente cultivado pelos Residents, institucionalizou-se (teria a Gulbenkian aberto ao grupo as portas da sua casa, se assim não fosse?...). Foram uns Residents "mainstream", digamos assim, aqueles que passaram por Lisboa.

Catálogo geral
Foi, apesar de tudo, um bom concerto. Diferente q.b. Perigoso até, para quem se dispôs a investir numa leitura aprofundada do grande pesadelo em technicolor que os Residents, mesmo mais domesticados que há 20, 25 anos, trouxeram ao público português.
            "Icky Flix", o espetáculo, é uma espécie de catálogo geral de uma obra impossível de abarcar e catalogar de forma unidimensional. Sobre um ecrã suspenso sobre o palco, o mesmo "icky cube" que permite seleccionar as várias opções no formato DVD de "Icky Flix", serviu de "menu" ao alinhamento, indicando os títulos que iam sendo tocados. Ideia engraçada que acabou por irritar, ao acentuar o tal lado de mostruário que enfermou todo o espetáculo.
            Os músicos, em número de quatro (computadores, teclados e percussões eletrónicas, uma guitarra elétrica MIDI), apresentaram-se camuflados, como se esperava. Não disfarçados de "eyeballs", descontando o "compère" que deu início à função, que lá apareceu impecavelmente fardado de fraque e com a já mítica cabeça-em-feitio-de-olho, mas trazendo luzes de lanterna fixas na testa, a conferir-lhes o adequado ar de ameaça. Mr. Skull, o senhor deformidade, e uma "barbie"-fantoche fosforescente saída de uma "rave" psicadélica, foram os cantores, mimos e dançarinos de serviço e o principal foco de atração de um "show" que impressionou, sobretudo, pela qualidade e originalidade dos vídeos que foram sendo projetados.
            O mundo visual dos Residents é um "cartoon" grotesco e surrealista, feito de metamorfoses físicas e crueldades mais sugeridas do que explícitas. Tortura cósmica cujos efeitos se fazem sentir nos pequenos gestos do dia-a-dia. A mente perde-se neste jogo de monstros e universos paralelos que a cada momento se entrecruzam e contaminam. Como toupeiras, ou vermes, os Residents não fazem mais do que agitar a terra das aparências e trazer à superfície os demónios mais recônditos que habitam dentro de cada um de nós. À semelhança do que Cronenberg e Lynch (sobretudo de "Eraserhead") fazem nos seus filmes.
            Canções pop como o humanitário "We are the world", transformada em "We are the worms" ("nós somos os vermes"), foram amassadas até se tornarem dejetos auditivos. Mr. Skull e a boneca fosforescente mimaram a impossibilidade da relação amorosa numa dança de corpos incapazes de se tocar. Em "Where is she?", um dos raros momentos realmente dramáticos de "Icky Flix", Mr. Skull personificou a agonia da ausência do amor, gritando como uma criatura cega, a implorar a presença da mulher-fantasma.
            Terá sido, nesta inesperada dimensão, apesar de tudo amorosa, que o concerto – musicalmente, uma sinfonia eletrónica peso-pesada embora distante da anarquia Dada que fez dos Residents de antigamente os incontestados soberanos do bizarro – deixou recordações mais fortes. Ao nível do "encore", 20 minutos nos quais, prescindindo enfim de todo o aparato visual, os Residents provaram ser a Besta do rock'n'roll.
            No final, Mr.Skull, enredado na sua solidão, entre a maquinaria sonora por fim silenciada, exalou o último suspiro do náufrago, instantes antes de se afundar no oceano da sua paranóia, em "Freak show", cuja letra encerra todo um manifesto de intenções: “‘Apenas somos iguais no túmulo e na escuridão', disse um homem cuja cabeça foi mordida por um tubarão. Agora, se me perguntam porque é que eu continuo com tudo isto, duvido que saiba a resposta, por isso apenas faço um palpite: ‘Ter só metade da boca pode não ser grande coisa, mas ainda assim chega para metade de um beijo’”. E, da sua boca arrepanhada, o rosto erguido para o alto num esgar de súplica, tal qual o "Homem-Elefante", de David Lynch, desprendeu-se o horrível ruído. Derradeiro testemunho de uma humanidade perdida.