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04/05/2026

Trovas da saudade [Trovante]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

TROVAS DA SAUDADE

 

“Saudades do Futuro”, assim se intitula, saudosista e tradicional, o novo álbum dos Trovante, coletânea de canções que encerra um ciclo de vida, na já longa carreira do grupo. O disco, lançado no mercado nos formatos de duplo-álbum e CD (este incluindo mais 12 canções que o vinil), festeja o 15º aniversário da banda, ao mesmo tempo que antecipa o fecho da “tournée” nacional, em concertos a realizar nos Coliseus de Lisboa, a 24, 25 e 26 deste mês, e do Porto, a 30 e 31. O PÚBLICO juntou-se aos festejos e falou com Manuel Faria e João Gil.

 

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PÚBLICO – Até que ponto esta coletânea assinala o fim de um ciclo e o início de outro, na vida dos Trovante?

MANUEL FARIA – Encerrámos um ciclo, quando entrámos para a EMI-Valentim de Carvalho. Outro, quando gravámos o álbum “84”. Então, como agora, sentimos que era preciso mudar, que tínhamos um pouco esgotado um determinado formulário estilístico.

P. – Isso implica uma mudança radical no estilo da banda?

JOÃO GIL – Em relação ao futuro, está tudo por acontecer. O trabalho de composição, apesar de coletivo, funciona ao mesmo tempo como um trabalho solitário, em termos de direção musical. O caminho que poderá vir a ser trilhado no futuro tem que ver com a capacidade individual de cada músico. Nos Trovante há duas ou três pessoas com essa capacidade.

P. – O disco festeja 15 anos de carreira. Referem-se já aos outros 15 que estão para vir. Qual o segredo dessa longevidade?

JG – Nunca fazemos planos a médio ou a longo prazo. Como diz a canção “Saudades do Futuro”, viramos sempre a nossa cabeça para o futuro, não para o passado. Manter, hoje em dia, um grupo com a estrutura, já de certo modo complicada e pesada, dos Trovante tem que se lhe diga. A nossa coesão passa por uma sensibilidade e por uma educação musical comuns. Crescemos juntos. Há poucos segredos entre nós. Sabemos até onde cada um pode ir.

P. – No início, os Trovante eram um grupo conotado com a esquerda, mesmo partidária. Hoje, assiste-se a uma recuperação, da vossa parte, de um imaginário e de um discurso nitidamente conservadores...

MF – Isso implica uma discussão muito profunda. O pensamento político em Portugal tem um defeito enorme. Permite-se que a bandeira do 25 de abril seja um exclusivo da esquerda e que a bandeira dos Descobrimentos e do mar seja um exclusivo da direita. São ambas coisas que marcaram a vida deste país e de que as pessoas se deviam orgulhar. Pessoalmente não me acho mais próximo da direita. O povo português sempre foi muito marítimo, muito contemplativo...

P. – A afirmação desses valores, ligados à tradição, está hoje na moda...

MF – Mas essa moda, esse tipo de sentimento tem uma razão de ser. De certeza que há nele razões que se prendem com o progressivo bem-estar de uma determinada classe, se calhar aquela a que pertenço. Penso que o nosso afastamento da estrutura partidária de esquerda não tem nada a ver com a nossa dita opção de esquerda, se é que ainda hoje é possível falar-se nesses termos. Há alturas em que se torna difícil distinguir qual é o lado conservador...

P. – Por falar em tradição, a música tradicional teve uma grande importância na fase inicial da vossa carreira. Não tencionam recuperar, de futuro, essa via?

JG – Acho que a aproximação às raízes tradicionais é evidente em toda a música dos Trovante. O lado interior da música tradicional, a sua essência, sempre nos interessou. Há uma nítida influência da postura que o Zeca Afonso, o Adriano, o Sérgio ou o Fausto, em tempos mais antigos, tomaram em relação às raízes tradicionais. Agora, o que nós abandonámos há muito, e convictamente, foi a forma da música tradicional, o folclorismo. Vivemos na cidade. Interessa-nos procurar novos sons.

MF – É mais importante transportar o sentimento do que fazer uma coisa estilo seleções “Reader’s Digest”, do que utilizar este instrumento ou aquele. Fica-se com ar de estudante da universidade, a imitar um rancho folclórico. Hoje em dia, é fácil ser-se exótico. O que está a dar é o “popular”. Engana-se meio mundo, com esse pretenso “fazer popular”...

P. – Por que razão escolheram “Saudades do Futuro” como título do novo disco?

JG – Para mim, “Saudades do Futuro” significa o relacionamento com a utopia, muito mais do que uma coisa saudosista. Ter saudades de um sonho que se acredita ser possível concretizar. Pode ser uma utopia musical. Ou uma utopia política. “Saudades do Futuro” é a nostalgia do que ainda está para acontecer. Podemos citar a propósito a filosofia chinesa, o Teixeira de Pascoaes, o José Gomes Ferreira. O título refere-se à eternidade, ao ser em vez do ter.

P. – Foram escolhidos para representar Portugal na Europália, a par dos Sétima Legião e dos Madredeus, justamente dois grupos conotados com a tal tradição conservadora...

JG – Acho que a fórmula Trovante, Sétima Legião, Madredeus, resulta excecionalmente bem ao vivo. Mas neste tipo de exposições, seria desejável que houvesse uma melhor divulgação, mais ambição e agressividade. É preciso ter em conta que fazer uma Europália é trabalhar para fora e não para a colónia de imigrantes. Não somos um laxante para revigorar a saudade dos portugueses. Temos que nos voltar também para o resto do mundo.

P. – Afinal, ainda e sempre, a velha incapacidade dos grupos portugueses penetrarem no mercado internacional. Será possível alterar essa situação?

MF – Não acredita no esforço que foi feito, para penetrar, por exemplo, no mercado francês. Foram vendidos 500 discos, por nós próprios no átrio do “Théâtre de La Ville”, durante os cinco dias em que aí atuámos. Decidimos levar os discos à Pathé Marconi. Não ligaram nenhuma.

P. – Regresemos a Portugal. Como vai ser o concerto do Coliseu?

MF – Até agora, costumávamos começar as “tournées” em Lisboa e no Porto, antes de partir para o resto do país. Este ano, decidimos fazer o contrário – concluir a digressão nessas cidades, o que tem uma grande vantagem: o espetáculo está super-ensaiado, permitindo-nos partir para os Coliseus com uma segurança maior. O repertório vai incidir sobretudo no “Um Destes Dias”, mas, mais do que uma panóplia de várias canções, interessa-nos o ritmo do próprio espetáculo como um todo.

P. – Que conselho dariam, na qualidade de “irmãos mais velhos”, às gerações de músicos mais novos?

JG – Acho que o grande recado possível de dar à malta mais jovem que está a começar, passa por encontrar na língua portuguesa, na divisão das palavras, o ritmo certo e a maneira mais correta de as dizer. A música portuguesa está carenciada de gente que compreenda o português na sua essência. A genialidade do Zeca Afonso consistia nisso, a maneira como cantava o português era fabulosa. Como o Alfredo Marceneiro, também. Não nos devemos iludir com o cavaquinho ou a chula. Devemos, isso sim, procurar mais fundo...

MF – ...Encontrar aquilo que nos identifica perante o mundo e nos permite ultrapassar as suas fronteiras.

 

01/05/2026

O lado oculto da lua [Lua Extravagante]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 SETEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

O LADO OCULTO DA LUA

 

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Lua Extravagante é a designação bizarra do grupo formado pelos irmãos Vitorino, Janita e Carlos Salomé que, juntamente com a cantora Filipa Pais – “A mulher canta como os anjos”, diz Vitorino –, se propõe cantar o lado mais romântico e melancólico da alma portuguesa, sem descurar, porém, as fundações da terra por baixo da cidade. Histórias da “Nau Catrineta”, da Margarida do Monte “que foi amante do rei D. João V”, ou de um “Adeus ó serra da Lapa”, em homenagem ao mestre José Afonso. Histórias da noite e de boémia. Do lado oculto da Lua. O disco sai a 22 de outubro. O PÚBLICO falou com Vitorino, à procura de luz.

 

PÚBLICO – Há quanto tempo existe o projeto Lua Extravagante?

VITORINO – Há quase um ano. A Valentim de Carvalho viu o nosso projeto e propôs-nos gravar um disco. Nem sequer estava nos nossos horizontes gravar. O grupo tem um sentido associativo. O disco dá-lhe consistência, mas suponho que será o único que vamos gravar.

P. – Porquê, logo à partida, essa recusa em dar sequência discográfica ao projecto?

R. – Temos todos os nossos projetos pessoais, muito fortes. Gravar um disco e manter ao mesmo tempo o projeto do grupo torna-se muito obsessivo.

P. – Quais são então os seus futuros projetos a solo?

R. – Estou a preparar um álbum duplo, com textos (isto é uma informação inédita) do António Lobo Antunes e música minha. O disco vai ser lançado no final do próximo ano, na mesma altura que o seu novo romance. É uma espécie de “joint-venture” literatura-música, baseada numa coletânea de 19 textos escritos pelo António, alguns muito jocosos, sobre a realidade portuguesa.

P. – Que público pretende atingir a Lua Extravagante?

R. – Vamos procurar alargar o nosso público. Há neste disco uma linguagem que considero moderna, na interpretação e evocação do romantismo português. Temos uma tradição harmónica e melódica muito forte em Portugal, que nos anos 80 foi desprezada em benefício daquilo a que se chama o “rock português”, em que a prioridade foi dada ao ritmo. Geralmente, os cantores dos grupos rock não são grandes cantores, são mais “performers”, com um tipo de intervenção mais espetacular, encostado às formas anglo-americanas de fazer espetáculo. Quanto a nós, vamos tentar chamar a atenção para uma tradição mais recuada, expressa no “cante”. Quando falo de romantismo, refiro-me ao romantismo literário e à música romântica, não ao sentido “kitsch” do termo. Esse elogio do canto e da voz faz parte do romantismo português. Cantava-se muito bem em Portugal.

P. – Canto esse cujas raízes se encontram decerto no canto alentejano...

R. – A nossa aprendizagem fez-se a partir dele. No disco há quase sempre uma voz solista, apoiada pelas outras. A relação com o canto alentejano é sobretudo em termos técnicos e de imaginário. De resto já estamos arredados da música rural. Metade da nossa vida já foi passada nas cidades, afastando-nos culturalmente das nossas origens.

P. – Como explica o interesse crescente do auditor pelas músicas ditas tradicionais.

R. – A “world music”, não é? Acho que estivemos muito afastados do nosso imaginário durante 10 anos. Talvez o interesse que refere não passe de um fenómeno cíclico. Ou talvez haja um cansaço com a música anglo-americana que se ouve em Portugal, que é muito monótona. No meu caso, gosto muito da música negra das Américas, do Norte e do Sul. A grande matriz da música americana está nas músicas de origem negra. Não sei se não sofreremos por cá um massacre da chamada música de supermercado ou de elevador... Esse massacre, perpetrado pelos “media”, é uma maneira de fazer opinião pública.

P. – Que influência teve o rock ou a pop na sua música?

R. – Gosto muito de rock ‘n’ roll. Passei a minha adolescência com o Elvis Presley, Bill Haley and the Comets... Formei-me com o sentido social que tinha o rock ‘n’ roll e que agora está completamente distorcido e aviltado. O rock ‘n’ roll era contestatário, os americanos chamavam-lhe “música de pretos”. Era um contrapoder. Aquilo a que se chama hoje rock não tem nada que ver com essa atitude. Hoje, em termos gerais, o rock é betinho, do lado do poder. Suponho que a vertente pop, sobretudo inglesa – sou um grande admirador dos Beatles, do seu lado melódico –, aparece, por exemplo, num tema que dediquei especialmente aos Beatles, “Flor de Jacarandá”. No nosso disco há uma canção que lembra um bocado os Mamas and Papas.

P. – Pela amostra musical, o projeto Lua Extravagante funciona como um negativo, ou contraponto, de grupos como os Sétima Legião ou Madredeus. Há um lado negro, de luto...

R. – Mas o interior português é um interior de luto. Tudo o que tem um balanço do coração é triste. Claro que há um ritmo que evoca um pouco esse balanço. É uma forma de cantar do Sul, mediterrânica e peninsular.

P. – No seu caso, prevalece a faceta revivalista, de romântico “fin de siècle”...

R. – Sim, há uma evocação desse ambiente. Foi um tempo muito importante para a humanidade, com o nascer de ideias novas, e depois eu tenho uma grande admiração pelos anarquistas, pela carbonária portuguesa, que deixou muitas ideias. As bandas formadas no fim do século passado, princípio deste, ou as recreativas culturais são um trabalho cultural dos anarco-sindicalistas. Era um tempo de grande felicidade.

P. – Fala em anarquismo, mas grava para uma multinacional. Parece que os ideais se tornaram apenas uma evocação nostálgica...

R. – Os ideais culturais permanecem. Estou a lembrar-me de uma recreativa cultural aqui na Madragoa, o Clube dos Vendedores de Jornais, fundado em 1921. Ainda existe como recreativa, na Rua das Trinas. São coisas que permanecem sempre.

P. – Resta então, ao artista, o papel de observador que está de fora?

R. – Vivo de fora porque a minha realidade passou a ser outra, uma realidade sinistra, a da guerra do Golfo. Realidade essa transmitida nalguma boa música moderna. O pós-modernismo gerou grandes confusões e equívocos. Em Tom Waits, por exemplo, há ainda a elegia de uma certa boémia... Mesmo que, a partir dos 40 anos, seja preciso um pouco de “desporto líquido”...

P. – Que pensa da viabilidade ou não de projetos como a UPAV?

R. – Conheço muito bem o José Mário Branco, já trabalhei com ele, mas tenho uma opinião contrária à dele em relação à divulgação da música. Temos de ter os pés bem assentes no chão. O capitalismo em Portugal é uma realidade, entrámos no Mercado Comum e as leis do mercado são implacáveis. Eu vendo discos e continuarei a gravá-los só enquanto eles venderem. Só assim é possível ter força em termos de opinião pública. É dentro deste mercado selvagem que temos de lutar, resguardando embora sempre a nossa “petite fierté”.

P. – Não o procupa que a integridade do artista seja prejudicada por essa necessidade de vender?

R. – Não é preciso abdicar dos nossos princípios para fazer produtos de boa qualidade. Mas chegar em condições às pessoas só se consegue através do “marketing” e este é implacável. No que nos diz respeito, a nossa imagem nem sequer é muito vendável.

P. – O negro faz parte da sua imagem, até na maneira como se veste...

R. – Vestido de negro, confundo-me mais com a sombra, com o escuro. Isto tem que ver com o Sul, com o interior português. Curiosamente, nas zonas onde há muito sol, há o culto do negro. No Sul da Itália, na Grécia...

P. – Negro somente iluminado pela luz da Lua. A Lua Extravagante cantará esse lado lunar, oceânico, da alma lusitana?

R. – A alma lusa, sim. A Lua, no imaginário popular, é mais importante que o Sol. Repare nos símbolos que punham nos bébés, para dar sorte: uma estrela, um corno, uma Lua e uma mão fechada. Há sempre a presença da Lua.

P. – Que extravagância da Lua é essa que referem?

R. – Há uma moda alentejana, “Chamaste-me extravagante”: “Chamaste-me extravagante/ por eu ter uma noitada/ eu sou um rapaz brilhante/ recolho de madrugada.” O termo “extravagante”, no Alentejo, refere-se a uma pessoa estranha ao quotidiano, com um convívio diferente do normal, ao homem que canta a noite.

 

11/12/2025

"Gosto da liberdade de improvisação" [Nuno Rebelo]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 19 JUNHO 1991 >> Cultura

 

Nuno Rebelo, depois da vitória no Concurso de Música Moderna

 

“Gosto da liberdade de improvisação”

 

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Dos computadores, Nuno Rebelo passou para os delírios da improvisação em palco. Duas faces de uma mesma moeda: a paixão pela música. Há anos, o concurso do Rock Rendez-Vous lançou-o e aos Mler Ife Dada. Agora a história repete-se, com os Plopoplot Pot.

 

Os Plopoplot Pot, projeto há muito acalentado por Nuno Rebelo, venceram o Concurso de Música Moderna, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa. Como sempre acontece nestas ocasiões, houve polémica. Vitória da competência sobre a imaginação, disse-se a propósito. Colagem aos Naked City, “exercício masturbatório”, “mutíssimo competente execução” foram algumas das “acusações”. Nuno Rebelo não tinha o direito de ser o melhor.

PÚBLICO – Que motivos o levaram a participar num concurso aparentemente vocacionado para a divulgação de novos nomes, o que não é o seu caso nem dos outros Plopoplot Pot?

NUNO REBELO – Os Plopoplot Pot são um projeto surgido há cerca de três anos. O nome era outro mas a ideia era a mesma. Houve alguns ensaios e desistimos. Mas fiquei com essa “fisgada”. Em relação aos concursos, vejo-os como uma oportunidade de concretizar ideias. São uma motivação. Quando era pequeno, fazia histórias de banda desenhada. Pensava em escrever histórias de 50 páginas mas nunca passava da segunda, porque sabia que não as ia publicar. Preciso imenso desses objetivos concretos. Em relação à banda, como não houve nenhuma editora que viesse ter comigo a dizer “forma uma banda que eu gravo-te o disco…”

P. – Mas a vossa participação no concurso pode ser encarada como uma forma de promoção que, na prática, está a tirar a oportunidade a músicos mais novos…

R. – Antes de eu apresentar as maquetes, telefonei para a organização a pôr essa questão. Foi-me dito que havia vários grupos a concorrer com músicos profissionais, um com o Rui Júnior e a Paula dos Ban, falava-se de um grupo com o Jimba e alguns dos Censurados. Disseram-me mesmo que o prémio do concurso era muito bom, precisamente para cativar os profissionais, de modo a aumentar a qualidade, para não se chegar ao fim e o júri dizer “bem, ora vamos lá dar o prémio ao mal menor”.

P. – E se os Plopoplot Pot não tivessem ganho?

R. – Teria sido uma vergonha tremenda, para mim. Foi um risco que tive de assumir. A partir do momento em que entreguei a maquete, passei a funcionar só em termos de “vou ganhar este concurso”.

 

Projeto para continuar

 

P. – Os Plopoplot Pot são projeto para continuar?

R. – Isto foi a concretização da ideia do grupo. A segunda etapa é tentar arranjar, o mais rápido possível, maneira de gravar um LP. A terceira, tentar ir lá para fora, uma vez que nos movemos numa área em que competimos em pé de igualdade, o que não acontece com grupos como os Delfins ou os Xutos, que têm de competir com mega-estruturas, ao nível das dos Simple Minds ou Rolling Stones.

P. – Há quem compare a música dos Plopoplot Pot à dos Naked City. Em relação a si, que no grupo toca baixo e violino, vem à baila o nome de Fred Frith. Aceita este tipo de comparações?

R. – O que se passa é haver uma relação de identidade. Há dias, a seguir a um concerto, a propósito da tal influência dos Naked City, respondi que “lá por duas pessoas falarem francês, não quer dizer que se andem a imitar uma à outra”. Dito isto, em termos de referências, é preciso recuar aos anos 70 e aos Gentle Giant, ou aos 80, quando ouvia Fred Frith, com quem me identifico, em termos de sensibilidade musical. Já John Zorn e os Naked City são referências mais remotas. A cena de contrastes dos Naked City é uma coisa que eu já desenvolvia com os Mler Ife Dada.

P. – As pessoas tendem a associá-lo aos computadores e à música eletrónica. Como explica a passagem repentina para um contexto tão diferente?

R. – Nesta banda reencontrei a energia que tinha perdido quando deixei os Street Kids, que vinham da “new wave”. Havia uma carga energética em palco que se foi perdendo nos Mler Ife Dada e de que comecei a sentir falta. Posso dizer que nunca na minha vida dei um concerto em que tivesse descarregado tanta energia, como na final do concurso. Saí com os músculos da barriga completamente doridos, as pernas pareciam de gelatina. Não me aguentava de pé.

P. – Houve mesmo quem chamasse à vossa prestação um “exercício masturbatório”…

R. – Nós o que fizemos foi reencontrar o velho prazer de tocar ao vivo. Em palco, há toda uma comunicação entre os músicos, à base de sinais, de olhares, de gritos. Quase um ritual. Subimos para o palco, fechámo-nos sobre nós próprios e carregámo-nos de energia. A pensar: “vou explodir a seguir, vou dar o máximo”.

 

O prazer de fazer música

 

P. – Como encara o futuro da música portuguesa alternativa?

R. – Há uma situação interessantíssima na cena atual. Acho tão importante a atividade individual de maturação dos músicos, como depois partilhar isso com os que passaram pelo mesmo processo. No meu caso, há um mês estava no Johnny Guitar com um computador, em improvisações eletrónicas, e o Sei Miguel na trompete. Um mês depois estou num palco a partir as cordas do baixo. Isto é ser músico, em 1990. Gosto da eletrónica, mas também da energia rock e da liberdade de improvisação. Movimento-me pelo prazer de fazer música.

P. – Em que ponto se encontra a hipótese de edição no estrangeiro, nomeadamente na belga Made to Measure (MTM), subsidiária da Crammed?

R. – A “Sagração do Mês de Maio” funcionou como uma espécie de cartão de visita para o Marc Hollander. Mandei-lhe depois material como o “Auto da Índia”, da peça de Gil Vicente, composta sobre música do séc. XVI, vista por um prisma atual, e música étnica dos lugares por onde os portugueses passaram. Disse-me que nunca tinha ouvido nada igual, mas lamentou não poder editar. Ele edita discos de John Lurie ou Arto Lindsay que vendem 40, 50 mil exemplares. Quantos venderia o Nuno Rebelo? O objectivo de Marc Hollander é chegar o dia em que as pessoas comprem um disco da MTM só porque é MTM, seja do José da Silva ou do Mike Stangerman. Só nesse dia o Nuno Rebelo terá lugar na Crammed.

 

 

10/10/2025

"Detesto o ênfase" [Sérgio Godinho]

 CULTURA TERÇA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1990

 

É hoje posto à venda o novo duplo-álbum de Sérgio Godinho, “Escritor de Canções”.

 

“Detesto o ênfase”

 

“Escritor de Canções” é o título do mais recente disco de Sérgio Godinho, gravado ao vivo no Instituto Franco-Português e hoje lançado no mercado. Excelente oportunidade para rever, em novo contexto, parte das histórias vividas por toda uma geração.

 


Público – Qual a necessidade que o levou a gravar em disco o espetáculo ao vivo, realizado no Instituto?

            Sérgio Godinho – O disco é uma consequência desse espetáculo. Como compositor e intérprete interesso-me por este tipo de registo, ao contrário do que acontece, se colocado na perspetiva de simples ouvinte. Interessa-me sobretudo ver como as canções são retomadas num contexto diferente do estúdio.

            P. – Em “Escritor de Canções”, contudo, as palmas soam artificiais, como que deslocadas do ambiente geral do disco…

            R. – Talvez por haver um silêncio tão grande e um grau de atenção muito maior, as palmas possam surgir como um elemento estranho. O alinhamento diferente das canções implicou um trabalho de montagem que não se pretende de reportagem. Não é um disco em que o público intervenha de forma ativa, mas sim pelo silêncio. Houve como que uma intimidação, no bom sentido, em que se procurou criar uma nova relação com as pessoas, num contraponto intimista de momentos mais festivos, próprios de espetáculos maiores. Diferentes tipos de encenação.

            P. – Como se processou essa encenação, de modo a resultar simultaneamente ao vivo e em disco?

            R. – O termo “Escritor de Canções” reflete uma certa ironia. Escrever canções é um ofício ou uma arte diferente de fazer só poemas ou música. Parto de fórmulas que vêm do passado e são depois revestidas de novas roupagens musicais. No palco há a transposição para o nível físico.

            P. – “Escritor de Canções” é designação suficientemente lata para albergar uma grande diversidade estilística. Como definiria, em termos gerais, a sua música?

            R. – Sou eclético pelo facto de escrever canções que podem incluir-se em diversos universos musicais. Há uma interpenetração de géneros e estilos que acontece de modo natural. Não se trata bem de uma qualquer espécie de “fusão”, mas antes de uma colagem criativa, feita a partir da audição de muita música. “L’Âme des Poètes” [incluída no novo disco] é uma canção muito antiga de Charles Trenet que eu ouvia muitas vezes, em miúdo. Ouvia também música brasileira, francesa, americana, clássica. Depois, a todas estas influências juntaram-se, na minha adolescência, a música dos “tops” e, mais tarde, a de Zeca [Afonso], Dylan, Beatles, Brel, Caetano [Veloso], Chico Buarque…

            P. – Até que ponto as suas canções são autobiográficas? As “Ritas” e “Carolinas” dos seus discos são reais?

            R. – A minha música reflete sobretudo um certo olhar sobre a vida, as pessoas e o modo como estas se relacionam. As personagens surgem de pequenas experiências que transporto para o ficcional. Não consigo ter uma narrativa realista. Tenho a tendência para simbolizar. Nunca daria um bom repórter.

            P. – E no entanto, o novo disco abre com “Notícias Locais” …

            R. – Trata-se de uma brincadeira a partir de acentuações com as cinco vogais: adro, ébrio, híbrido, óbito, súbito. Brincadeiras formais que influenciam a própria narrativa. Muitas vezes uma rima ou uma palavra que dava jeito é que determina a verdade. A verdade dos factos não existe, mas sim a das palavras.

            Por outro lado utilizei uma multiplicidade de referências, muitas vezes apenas percebidas ao nível do Inconsciente. Nem todos percebem imediatamente que “arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza” diz respeito, no nosso imaginário a “uma casa portuguesa, com certeza”.

            P. – Não receia perder o contacto com as gerações mais novas?

            R. – Não quero partir atrás de uma suposta adesão de todas as camadas etárias. Houve uma altura em que me ressenti um pouco por isso. Sentia pressões para embarcar num comboio “mais na onda” e, ao mesmo tempo, uma certa exaustão na maneira de tratar as canções. O estatuto de clássico pode ser perigoso. Não me interessa refugiar-me na imagem do artista consagrado se isso não corresponder a nada. O trabalho com António Emiliano em “Na Vida Real” funcionou como um relançamento, de forma, nem angustiada, nem neurótica. Não me preocupo em estar sempre na crista da onda. Isso é desgastante e desertificante.

            P. – O novo álbum poderá representar a reformulação da sua imagem?

            R. – É o fechar de um tempo, balanço incompleto do passado. A editora achou por bem não insistir nas canções de “Aos Amores”. Não é, de qualquer modo, um “greatest hits”. O “Brilhozinho nos Olhos” ou o “Primeiro Dia”, por exemplo, estão ausentes.

            P. – Mas há um relançamento noutras áreas…

            R. – Sim, estou a fazer uma série de seis programas para a televisão, de genérico “Luz na Sombra”, que trata de seis funções do mundo da música, normalmente na sombra, como as de intérprete, produtor, técnico de som, letrista, “roadie” e arranjador musical. É uma crónica assumidamente subjetiva onde eu funciono como “pivot”.

            P. – No espetáculo ao vivo, o público chegou a comover-se. Como explica o elevado grau de identificação das pessoas com as suas canções?

            R. – foi comovente também para mim. Existem pontos comuns ao nível de afetividade. Sobretudo há uma sensibilidade especial relativa ao tema da “perda”. Penso que é neste aspeto que toco nas pessoas. Acho que há algo extremamente forte no acabar de algo que foi extremamente belo. Não quero ser patético, detesto o ênfase. Gosto de usar a ironia, como em “Emboscadas”, em que uso uma terminologia do romance de cordel, justamente para me distanciar do real. Jogo com sentimentos dolorosos e com o facto de todos nós sermos valerosos, pungentes, desgraçados e de, ao mesmo tempo – o que é uma coisa muito portuguesa – sorrirmos muito das nossas desgraças.

            P. – Isso explica o tom melancólico de grande parte das suas canções?

            R. – De facto não sou muito pela criação de ambientes preto no branco. Tenho uma certa tendência para a dúvida sistemática em relação a tudo. Acho que não há verdades nem estéticas eternas. Do ponto de vista formal procuro introduzir elementos desestabilizadores. Funciono em termos de dinâmicas, de modo intuitivo, dinâmicas inseparáveis do elemento vivencial. Há um elemento de melancolia que nem sempre consigo controlar. Numa das canções, “Lisboa que Amanhece”, das minhas preferidas, o mistério vem da rapidez com que foi escrita. É como uma criança que não sabe falar e, de repente, diz uma frase inteira.

06/06/2025

António Manuel Ribeiro e os gigantes do nada

 

Na capa

 

ANTÓNIO MANUEL RIBEIRO E OS GIGANTES DO NADA

 

António Manuel Ribeiro recusa a imagem do herói e mártir incompreendido, sobrevivente de uma história atribulada e sem garantias de final feliz – a do rock português. Não se considera corrompido pelo sistema e promete gravar canções dos UHF acompanhados de orquestra sinfónica.

 


            PÚBLICO – A sua imagem, como músico de rock, é a do mártir incompreendido, uma espécie de Jim Morrison português...
            António Manuel Ribeiro – Tenho muito pouca vontade de ser mártir. Sou de facto sobrevivente, mas não me identifico com qualquer tipo de movimento. A minha posição é extremamente individualista. Muitas vezes meti-me em lutas e, quando olhei para trás, via que era um general sem tropas. Já percebi as teias manhosas em que se enreda grande parte da música portuguesa. Não estou metido em nada. Não tenho nada a ver com isto.
            P. – Ultimamente tem dado a imagem de homem bem instalado na vida. Casou, dá entrevistas à “Nova Gente”... É possível conciliar esta imagem com aquela de rebeldia geralmente associada aos UHF?
            R. – Os UHF foram, são e serão uma banda de rock duro, enquanto acharmos que é assim que deve ser. Não é incompatível com entrevistas na “Nova Gente”. Considero isso apenas o cumprir das marcações normais que a editora faz. Aceito-as como parte do meu trabalho, mais nada e muitas vezes nem tenho controlo sobre as coisas que se passam, mas também não me preocupo. Já houve uma fase em que fui ingénuo. Tinha a vontade de me explicar, mas cada vez que isso acontecia gozavam comigo. Essa fase passou.
            P. – Os UHF consideram-se uma banda da oposição. Por outro lado são das que mais vende. Luta contra o sistema mas aceita as vantagens e o lucro que este lhe proporciona... Os Xutos e Pontapés andam a publicitar a Sumol...
            R. – Nunca faríamos anúncios a um refrigerante. Faríamos sempre a uma marca de “whisky”... Agora a sério, cada um de nós vive daquilo que ganha. Não estamos corrompidos. Continuamos o mesmo tipo de pessoas. Por exemplo, em relação à nossa editora, não somos oposição mas assumimos uma posição crítica.
            P. – O cinismo é necessário?
            R. – Sou muito cínico, sobretudo a negociar. Quando me sento à mesa para negociar qualquer tipo de contrato tenho de levar a água ao meu moinho. Tenho sempre que levar a minha avante.
            P. – O intimismo das letras pode ser uma fuga possível?
            R. – É verdade. Mas vou dizer outra coisa: “Noites Negras de Azul” e “Lugares Incertos”, ambos de 88, eram álbuns que falavam sobretudo do amor, eram intimistas. Agora que casei já não falo do amor. É um bocado a minha filosofia de vida. Gosto de andar ao contrário. Gosto pouco de andar em rebanhos, de pensamento, de atitudes ou de vestuário... Como já disse, sou um individualista.
            P. – Que vai envelhecendo... Será como o Mick Jagger, aos 50 anos ainda a tocar rock?
            R. – Não estou preocupado com isso. Não vou abandonar. Depois de uma gravação fico vazio, em ressaca, como se tivesse parido. Outras vezes fico mesmo farto... Mas gosto disto.
            P. – Os UHF têm permanecido quase sempre na crista da onda. Qual o segredo?
            R. – Digamos que têm andado sempre por lá perto. Penso que temos feito um trabalho coerente. Se alguém não gosta, deite fora, aceitamos isso. Mas às vezes sinto o descalabro à minha volta. Somos gigantes do nada. As pessoas contam mentiras na imprensa. Também já o fiz. Hoje não estou interessado em fazê-lo. Não é nada bom para a música portuguesa. Estamos todos a viver de balões de oxigénio, fora os UHF e mais três ou quatro bandas que recusam essa inflação de mentiras.
            P. – Que tipo de mentiras?
            R. – Não quero entrar em pormenores. Digressões no estrangeiro que são falsas, “cachets” inflacionados e depois negociados com 30 por cento de desconto. Digressões neste país não há. Nunca houve. O que há são contratações que vão sendo aceites.
            P. – Não têm projetos para o estrangeiro?
            R. – Temos, claro. Não quero falar de concertos dos meus colegas no estrangeiro, mas tenho que dizer que foram quase sempre desastrosos. Os UHF são sinceros ao ponto de admitir já ter perdido dinheiro em atuações no estrangeiro. Tocamos em salas cheias... de emigrantes. Em Paris estavam 5 franceses entre 1500 pessoas. Fomos a Paris tocar para o Minho e Alentejo.
            P. – Porque é que isso acontece?
            R. – Porque em Paris existem outras 50 salas idênticas com concertos, à mesma hora. São outros meios. Para quê fazer como colegas meus, que dizem que fizeram espetáculos incríveis aqui e ali, em salas de 200 lugares?...
            P. – Como situa os UHF perante a concorrência?
            R. – Somos mal vistos. A maior parte das vezes, as pessoas, não digo que virem a cara, mas levam um certo tempo para nos enfrentar. Nos bares, na noite, nos concertos. Temos sido sempre colocados num gueto. Não é que queiramos passar por vítimas. Temos uma relação mais íntima e próxima do nosso público que a maior parte dos outros artistas portugueses da mesma área, que inflacionam uma certa pose e depois é tudo mentira.
            P. – E a vossa relação com o público?
            R. – As pessoas criaram uma imagem deturpada de nós. A imagem de rebeldia foi, confesso, vendida por mim. Hoje diz-se que estamos mais calmos. Não estamos. Há dias viemos de um concerto, andámos 400 quilómetros e fomos para a pândega em Lisboa. Chegámos a casa às cinco da manhã, virados do avesso. Os UHF têm um ouvido popular. Conseguem perceber o gosto do público. É isso que queremos: compor canções que todos possam trautear. Há por aí projetos musicais engraçados mas totalmente afastados do público. Não vendem. Não ponho de parte a hipótese do rock português pura e simplesmente acabar. Acaba-se esta porcaria toda. As editoras andam de cabelos no ar sem saber o que fazer. Se calhar não há solução.
            P. – Alguma vez pensou em trabalhar fora da área específica do rock?
            R. – Gostaria de gravar um disco com canções dos UHF pouco conhecidas, trabalhadas com orquestra de modo a dar-lhes um cunho totalmente diferente.
            P. – Que é para si o rock?
            R. – É uma questão física... O apelo à dança. Permite a agressividade, a agressão. Pertenço a uma geração de agressão. Tinha 20 anos em 74. Antes dessa data e mesmo depois, só havia baladeiros. Ganhei aversão a esse tipo de música. Paz, amor e uma viola. “Hippismos” retardados. O Maio de 68 consumido fora de horas. Quando começámos, todos esses sujeitos estavam contra nós. Lembro-me de, uma vez, um digno cantor da nossa praça afirmar publicamente que os UHF não tinham direito cultural de ir à festa do “Avante. O rock, nessa altura, tinha toda a razão de ser.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 13 JUNHO 1990

30/03/2023

Acordar para a realidade [José Duarte]

Público

3 Junho 1992 


ACORDAR PARA A REALIDADE
 
Em Frank Sinatra, encontrou José Duarte um professor. De inglês e da arte de ser o lobo e o capuchinho vermelho. Até de jazz. Considera-o “o maior cantor deste século”, “um tipo cheio de ‘charme’” e “Strangers in the night” uma canção fraca. No Estádio da Antas, o autor de Outras Músicas vai estar à frente, na zona do “caviar e dos morangos”. Para Sinatra o ver bem.
 



“Há duas maneiras de ouvir a música de Frank Sinatra” – diz José Duarte –, uma “popular”, outra mais “requintada”, só ao alcance dos “gajos da música”. O autor de Cinco Minutos de Jazz e do atual e aclamado Outras Músicas falou ao PÚBLICO das duas e provou “cientificamente” que Sinatra é “um cantor fabuloso”.
PÚBLICO – Quando e em que condições conheceu a música de Frank Sinatra?
JOSÉ DUARTE – Tinha para aí 15 anos, através de discos.
P. – Que opinião tinha dele nessa altura?
R. – Tenho um padrão para me orientar nesta confusão toda que é o jazz.
P. – Aos 15 anos já tinha esse padrão?
R. – Não, mas estava quase a ter. Vejo tudo em função do jazz. O Sinatra (por acaso descobri-o primeiro que ao jazz, mas foi um trampolim para chegar lá) ensinou-me o inglês. Um inglês que não era o do liceu nem o americano. Ele tem uma dicção fabulosa. É dos raros cantores em que se percebe cada palavra e cada sílaba. Depois conta histórias. E a maneira de ele as recitar... Nunca canta uma canção da mesma maneira, modifica-a, aproximando-se de um conceito de jazz, seguindo as pisadas de dois dos seus influenciadores: Tommy Dorsey, de quem reteve o som “cool”, liso, e Bing Crosby, pai de todos. Sem esquecer a fraseologia de Billie Holiday.
Aos 15 anos conhecia-o sobretudo dos filmes. Depois fui avançando e verifiquei cientificamente que é um cantor fabuloso.
P. – Pelo que um jornalista do “New York Times” afirmou recentemente, parece que hoje em dia Sinatra mal consegue alinhar dois versos seguidos e não sair do tom.
R. – Esse jornalista é capaz de não ser da Mafia...
P. – Sinatra vai encher o Estádio das Antas?
R. – De certeza absoluta que não vai esgotar e ainda bem. Se esgotasse, eu começava a repensar Sinatra. É capaz de ir lá mais gente por causa das críticas, por ser uma figura polémica.
P. – As pessoas vão ver apenas o mito?
R. – Portugal levou uma vida inteira a juntar dinheiro para o ouvir cantar. Disso eu não tenho culpa. Fui ver Sinatra a Nova Iorque, em 1975. E mesmo assim já era tarde. Um concerto em que teve como parceiros a orquestra de Count Basie e Ella Fitzgerald. Em pleno PREC, comigo em grandes dúvidas ideológicas. O José Mário Branco berrava-me aos ouvidos: “O Sinatra não pode cantar bem. Um americano não pode cantar bem. “Eu próprio comecei a ter algumas dúvidas”.
P. – Como definiria a carreira do cantor?
R. – A carreira de Sinatra é sinusoidal, de “ups and downs”. Há quatro grandes fases que, por acaso, coincidem com as quatro grandes marcas para onde gravou. A RCA, onde grava com Tommy Dorsey, correspondente aos anos 40 – ele estreou-se com o Harry James no fim dos anos 30 –, em que atinge o primeiro pique quando é ainda um cantor jovem, com 20, 30 anos; depois há a fase Columbia, em que amadurece, se torna adolescente (a divisão pode ser feita em termos etários), um tipo cheio de “charme”. Depois passa para a Capital e torna-se adulto. É a fase dourada, com a ajuda dos arranjadores de que se rodeou, com destaque para Nelson Riddle. Finalmente, a fase da Reprise, da idade madura, a mais próxima do jazz. A partir daí é um gajo que se defende graças ao historial e a um grande magnetismo pessoal.
Durante todo o tempo safou-se sempre bem. Por razões diversas, nem todas relacionadas com o canto. No canto tem envelhecido, mas não no sentido ocidental da velhice. Digamos que agora canta de maneira diferente. Saiu de uma fase por política, de outra por causa do cinema (e ganhou um Óscar), de outra ainda porque se aliou aos mais fortes...
P. – Quem são os mais fortes?
R. – Nessa altura não interessava. Ele esteve ao lado dos republicanos e dos democratas. Depois houve os escândalos, dizia-se que era íntimo da Mafia.
P. – Que explicação encontra para a longevidade de Frank Sinatra?
R. – É o maior cantor deste século, na sua área. Um mestre. Qualquer canção, no sentido mais lato de “song”, que tenha sido cantada por Sinatra fica marcada. Fazia com as canções uma coisa fabulosa: metia palavras novas, repetia, truncava, tirava, subvertia-lhes o sentido. Uma riqueza que só “ouvisto”.
P. – A Mafia teve alguma influência no sucesso de Sinatra?
R. – Olhe, outra das coisas que o Sinatra me ensinou foi saber ser igualmente o capuchinho vermelho e o lobo. Depois há o conceito de clã, que para mim tem muito significado: o grupo de amigos, a união, a entreajuda. Partilhar as mesmas verdades e os mesmos conceitos.
P. – Diz constantemente que o Sinatra “o ensinou”. Alguma vez falou com ele?
R. – Nunca falei com ele. E mesmo que falasse não o ficaria a conhecer.
P. – Quer contar alguma história sobre Sinatra?
R. – Há uma muito bonita. O Sinatra tem por hábito fazer digressões com fins beneméritos. Pega no avião, põe o piano e os músicos a bordo e lá vai, normalmente a Itália. Os pais eram da Sicília e convém referir que costuma chamar “Giaccomo Danielli” à sua bebida preferida [“whisky” Jack Daniels]. Nos anos 70, meteu-se no avião e foi até Itália dar um espetáculo de ajuda às crianças cegas. E deu tudo. Noutro espetáculo – esta história impressiona-me – recebeu algumas crianças no camarim, falou com elas, uma grande bagunça à italiana, e houve uma que perguntou: “Sinatra, de que cor é o vento?”, que é uma pergunta do caraças.
Noutra ocasião, no primeiro concerto de Sammy Davis Jr. em Nova Iorque, que foi um êxito, estava uma data de gente a pedir autógrafos e Sammy não sabia escrever. Chegou ao pé de Sinatra e perguntou-lhe: “Agora o que é que eu faço?” A resposta foi: “Faz um rascunho.”
P. – Vai ao Porto assistir ao concerto?
R. – Claro. Vou para o hotel dele e tudo. E no estádio, para a zona do caviar e dos morangos, a que fica mais próxima do palco. É para ele me ver. (Risos). Fiz uma série de 30 programas sobre o Sinatra para a Rádio Comercial, na promoção do concerto, e não me pagaram nada. Então disse-lhes: “Quero ter um lugar onde ele me veja bem. Olha o José Duarte ali, e tal...”
P. – Não põe sequer a hipótese de não gostar?
R. – Pode desiludir, mas não sou suposto depois confessá-lo.
P. – Pode criticar-se, à partida, o facto de o concerto se realizar num estádio.
R. – É a mania das grandezas. Penso que a organização não está à espera de encher o estádio. Não vai ser nada parecido com os Dire Straits ou os Guns N’ Roses.
P. – Os mais novos são sensíveis à música de Sinatra?
R. – Dizem-me que há raparigas novas e bonitas a quem o Sinatra repugna, o que é positivo, porque repugnar é uma maneira de agradar.
P. – Será que a música de Sinatra lhes interessa de facto, ou irão ao estádio por outras razões?
R. – Isso é a filosofia recente dos anos 80. Num concerto do Sinatra não há fumo no palco, nem “lasers”. É um foco em cima dele e a banda a tocar.
P. – É o passado, o mito?
R. – Sim, mas também a música.
P. – Se calhar, para um número restrito de pessoas...
R. – Se calhar sim, só uns 20 ou 30 eleitos. Mas repare que em Londres, capital de um país com profundas raízes musicais, cinco salas encheram-se com sete mil espectadores para o ouvirem, pessoas que não brincam com a música.
P. – Em Portugal é diferente...
R. – Portugal é completamente diferente. A um concerto de estádio vai-se pela confraternização, pelo espetáculo. Hoje o conceito de música é extramusical. O que interessa é estar com os amigos, numa grande excitação, gozar à brava em conjunto, com a adrenalina toda a sair. O concerto de Madonna em Barcelona é neste aspeto memorável. Aquilo demonstra uma preparação física do caraças... Sinatra é o oposto. Os arranjos musicais são os mesmos dos anos 50 e ele canta exatamente com as mesmas acentuações. Considera-se o último dos “saloon singers”, em que o importante é a intimidade.
P. – Precisamente. Essa intimidade é impossível num estádio.
R. – Aí é o anti-“saloon singer”. Mas o que ele gosta é de segredar coisas às pessoas, confessar-se, meio grosso, às três da manhã. Estar com o “barman” a cantar um solilóquio, uma balada, e depois bater com a porta e ir-se embora como num daqueles “westerns”, mas sem mulher. Sozinho. Para sofrer.