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20/05/2026

Herman José - Na Telefonia (Sem Fios)

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

O RISO ESSENCIAL

 

HERMAN JOSÉ
Na Telefonia (Sem Fios)
LP, Emi – Valentim de Carvalho

     Considerar Herman José um génio não é piada. O humor é coisa séria e Herman não brinca em serviço. No seu caso, ter graça é uma forma de vida, uma maneira de ser e de observar a realidade pelo lado em que esta quebra e se revela ridícula. A piada de Herman José não está (só) na anedota, na explosão final, mas no processo intermédio, na construção de um ambiente ou de uma situação, na exploração delirante de um tique, de uma inflexão vocal, de uma parcela de vida arrancada ao quotidiano. Humor lateral, de pormenores, com sabor a iguaria.

Ao contrário da chalaça burocrática, piadista e populista dos Parodiantes de Lisboa, instituição do humor radiofónico nacional, Herman José inventa e improvisa sem cessar a partir de situações particulares, espremendo de cada uma a essência do cómico. As suas estratégias de desconstrução conceptual e linguística são em parte devedoras dos Monty Python, sacerdotes-mor do humor mais inteligente do mundo ao qual, não por acaso, a maioria dos portugueses permanece indiferente, chamando-lhe “estúpido” ou “sem pés nem cabeça”, sem perceber que o humor é isso mesmo – uma anatomia do absurdo. Os incondicionais, esses veneram John Cleese e co. como figuras de culto. Nessa medida as subtilezas da comicidade de Herman apenas podem ser apreciadas até ao tutano por uma minoria. Só que o humorista bem sabe as linhas com que se cose o riso dos portugueses, conferindo em paralelo ao seu trabalho, na televisão ou na rádio, uma veia mais popular e picaresca, quando no disco incarna as figuras de Ivette Marise (“Os tamanhos” e “A fertilidade”) ou do Estebes (“Entrevista a Rosa Mota”, “A vida de um desportista”). Mas os momentos de antologia desta seleção de “sketches” retirados das sessões diárias na TSF acabam por ser aqueles em que o humor pia mais fino: “Guerra do Golfo”, “Lição de inglês”, “Pedro Almodovar ao telefone” (que ao lado de “Frank Sinatra ao telefone” recuperam os monólogos de Raul Solnado nos anos 60) e sobretudo nos magistrais “Entrevista a John Majors”, “Donald e o ventríloquo” e “Espanha homenageia Amália”, portentos de capacidade histriónica, caricatura e espírito de observação. Com Herman José, com ou sem fios, “é só rir, é só rir”. (8)

 

Carlos Maria Trindade & Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO
Mr. Wollogallu
LP/CD, União Lisboa/Polygram


O género a que se convencionou chamar “new age” tem as costas largas. Editoras pioneiras como a Windham Hill e a Coda contribuíram para dar à expressão o sentido depreciativo de que geralmente goza, através da edição em série de objetos vinílicos consistindo, na maior parte dos casos, em pianos bucólicos, um toque de flauta e sons de vento e água por trás. Em suma, “new age” costuma ser sinónimo de “chato”.

Por outro lado, há a tendência para utilizar o termo para catalogar toda a música eletrónica de caráter mais intimista, esteja ou não impregnada dos sinais prenunciadores de uma nova idade cósmica. “Mr. Wollogallu”, para além de quaisquer tentativas de classificação, é um objeto fascinante e uma tentativa bem sucedida de dar um rosto humano à música elaborada em computador.

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro tomam como ponto de partida o som como estímulo sensorial. A música de “Mr. Wollogallu” (nome de um tambor primitivo), ao contrário de outras propostas de música “de computador” que jogam na exploração formal ou nas matemáticas digitais, resultando quase sempre em exercícios “frios”, passíveis de fruição exclusivamente racional (Morton Subotnick, Conrad Schnitzler, Emanuel Dimas Pimenta ou Tó Zé Ferreira), liga-se antes às correntes étnicas e a uma conceção dos sons como vibrações afetivas.

Neste aspeto, “Mr. Wollogallu” pode considerar-se parente próximo dos universos luxuriantes criados pelos italianos Roberto Musci e Giovanni Venosta, nos clássicos “Water Messages in Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, por Steve Shehan, em “Arrows”, ou na forma de progressão sonora, por ciclos, com os alemães Cluster e Manuel Göttsching.

Dividido em dois blocos, compostos por cada um dos músicos, “Mr Wollogallu” passa do pendor classicista e da maior linearidade do traço melódico de Carlos Maria Trindade, brilhantes no tema de abertura “The truth” ou na peça para piano “West”, para as explanações fusionistas de “Blu Terra” e “Antica/Burun” ou as abstrações de cristal de “Ven 5” e “Segredos M.”, já antes esboçados no anterior álbum a solo “Plux-Quba – Música para 70 Serpentes”, sem perder a sedução nem o espírito de aventura.

Música aérea, contemplativa, para saborear como um “refresco de chá num zeppelin à deriva”. Um dos melhores discos do ano de música eletrónica. (9)


10/05/2026

Vários - Realidade Virtual

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VÁRIOS
Realidade Virtual
LP, Fast Forward, distri. Ananana & Messerschmitt

 Uma imagem com natureza, chuva

Descrição gerada automaticamente

     A música portuguesa alternativa continua à procura de novos rumos. A presente coletânea inclui temas originais dos portugueses Popper W2, Hesskhé Yadalanah, Rafael Toral, God Speed My Aeroplane, Nuno Rebelo, Adolfo Luxúria Canibal & Humpty Dumpty e Matrix Run, dos ingleses Somewhere In Europe, Zone e Pornosect, dos franceses Margaret Freeman, dos alemães Strafe Für Rebellion e do espanhol Miguel A. Ruiz.

Músicas rituais mais ou menos negras e eletrónica ambiental/industrial constituem o prato forte, ilustrativo das sombras que procuram descer sobre o mundo e da influência exercida por certos magos (ou pretensos magos) negros sobre uma determinada camada dos nossos jovens músicos, de que são exemplo os temas dos Popper W2, um decalque razoavelmente credível dos Throbbing Gristle da primeira fase e dos Hesskhé Yadalanah, à procura do estatuto de Hafler Trio nacional. Menos preocupados com os ardis do demónio, Adolfo Luxúria e os Humpty Dumpty optam pelo rock industrial operário e os God Speed pela acidez das guitarras. Ao contrário dos Matrix Run, que preferem dançar ao som da “house” ambiental. Destaque para as vagas de energia sexual sintetizadas pela guitarra de Rafael Toral, aprendidas à luz da “estrela da tarde” de Fripp & Eno, e para os deliciosos 16 segundos de Nuno Rebelo aos comandos do computador. Quanto aos estrangeiros, excetuando as colisões de metal (ressoando a Asmus Tietchens) de Miguel Ruiz, é a descida ao inferno, no fundo essa “realidade virtual” a que o título alude. Disponível por via postal, apartado 5204, 1706 Lisboa códex. (7)

 

02/10/2025

Osso Exótico - Osso Exótico

 Pop

 
OSSO EXÓTICO
Osso Exótico
LP, Multinational


 








            Este disco foi “recorded in a testing room of the Geotechnical Department by the occasion of the advanced study institute on rockfill structures organized by NATO and sponsored by Laboratório de Engenharia Civil with the participation of scientists of nineteen countries”, Segundo vem escrito na capa. O texto em questão, “in english” porque há hipóteses do osso ser distribuído no estrangeiro pela Recommended Records, suscita de imediato várias considerações. Dá-se a ênfase ao aspeto científico, rodeando o objeto de uma aura vagamente ameaçadora. Completa-se o efeito com a série de fotografias impressas na parte de dentro: interiores de laboratórios desertos, maquinismos suspeitos, embalagens contendo sabe-se lá que infernais venenos. No lado de fora são só pedras. Toda a apresentação remete para a estética habitual dos Zoviet France, grupo com o qual os Osso Exótico partilham determinados pressupostos: a tentativa de criação de sonoridades rituais, construídas a partir de uma aproximação à “música industrial”, de acordo com os métodos e propósitos enunciados há mais de dez anos pelos Throbbing Gristle; a experimentação com determinadas frequências sonoras, indutoras de estados físicos e psíquicos particulares, um pouco à maneira dos Hafler Trio. Os dois conceitos são complementares.

            Constituem o grupo António Forte, David e André Maranha e Bernardo Devlin, em atividades subversivas, divididas entre a manipulação de sintetizadores e “samplers”, a tortura de guitarras, os batuques metálicos e as contorções das vozes, estas denotando ou um grande sofrimento ou vociferando ameaças veladas, sem que se consiga perceber os termos exatos das mesmas, como é de bom tom neste tipo de música. Vítor Rua, dos Telectu, dá uma ajuda nos sistemas de produção eletrónica. A intenção geral é meter medo, de forma ambígua, apelando para imagens desfocadas e sonoridades de pesadelo. O primeiro lado preenche-se com um único tema: “Osso exótico”, sombrio, pesado, esmagando sem remédio quem pudesse aspirar a um resquício de melodia. Do outro lado, mais três temas, onde para além das monstruosidades sonoras, prevalecem as citadas vozes, ora invectivando a raça humana em geral ora entoando cânticos litúrgicos em louvor ao demónio.

            O problema maior que aqui se levanta, para além das considerações morais que tal discurso musical não pode deixar de acarretar, diz respeito à sua originalidade, posta exclusivamente em termos artísticos. No caso dos Osso Exótico, fica a dúvida se pretendem avançar num caminho até aqui ignorado pelos novos músicos portugueses, mas já inflacionado nas cenas alternativas europeia e americana, ou se se aproveitam desse facto, limitando-se a copiar modelos alheios (neste caso demasiado óbvios), procurando deste modo passar por inovadores. Para um ouvinte desconhecedor, este disco funcionará decerto, utilizando uma imagem cara ao grupo, como uma autêntica “pedrada”. Para aqueles já viciados na prática masoquista da audição destes “exercícios em negro”, é uma pera doce.

 

QUARTA-FEIRA, 19 SETEMBRO 1990 VIDEODISCOS

10/06/2025

João Peste & O Acidoxibordel - Groovy Noise - Dada Rock

 

Pop

 

PESTE NA CORDA BAMBA

 
JOÃO PESTE
GROOVY NOISE – DADA ROCK
Maxi, Ama Romanta



















           Não há dúvida que Peste gosta de arriscar e experimentar. Só que o experimentalismo é uma faca de dois gumes, podendo resultar em objetos esteticamente fascinantes, mas também em exercícios de pretensiosismo e de vazio. Digamos que neste seu novo disco, o músico, letrista e mentor da Ama Romanta vai de um extremo ao outro. No primeiro caso estão o segundo tema do lado A, “Cocaine, amigo” e, ligeiramente abaixo, “Clio software” que abre o segundo lado. O tema principal “Groovy noise” cumpre perfeitamente as funções que lhe foram destinadas – ser imediatamente atraente e acessível ao ouvido, sem ser vulgar e chamando a atenção para o resto das canções. É uma espécie de chamariz. O tema que em princípio fará vender o disco. O passo em falso é dado com o tema final – “Distante domingo (TL-2 Napoleon)”.

            Analisemos cada um mais detalhadamente e desde o princípio: “Groovy noise” é puro gozo, “Rádio fun fun” povoado de associações livres, “I want to be pop-a-lula in the tears of a clown” e alguns achados ao nível da produção que incluem um solo de guitarra de Jorge Ferraz (atualmente nos Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre e inimigo declarado de Peste...) e uns toques de “scratch” da autoria de Rafael Toral. Basicamente é o velho rock ‘n’ roll coberto com a capa e o verniz modernistas.

“Cocaine, amigo” é muito boa (a canção, não a outra). Cantada em inglês, francês e português constrói a melodia a partir da música das palavras. Ambiência irreal e fonética, o cantor fazendo deslizar sonhadoramente a voz por entre os vapores inebriantes da irreal amiga e cantando “tous les mots sont des poèmes que se desfazem na minha [atenção, na ‘minha’ dele] mente”. Sucessão de imagens que, como nuvens, se desfazem ao ritmo flutuante dos ventos da imaginação. Neste tema Peste agradece a colaboração especial dos Sonic Youth, Jimi Hendrix, Butthole Surfers, Led Zeppelin, Kurt Schwitters, Almada Negreiros, Wyndham Lewis, Jean Cocteau e Pablo Neruda. Fica sempre bem um pouco de exibicionismo cultural...

            “Clio software” é outra alucinação sonora e João Peste revela-se um autêntico psicadélico. A letra refere-se à pessoa amada cujo cérebro, quando ligado ao ecrã do televisor, faz Peste “delirar com as imagens escondidas na sua mente”. Imagens de “losangos e quadrados de cores” que, afirma, “nem sabiam que existiam”. É o que faz abusar!... Trata-se de uma canção cibernética (seja lá o que isso for) que fala de “Cristo abençoando um prédio cinzento”, Coca-Cola, néons e Nova Iorque, sobre um ritmo eletrónico decalcado dos Suicide e o cantor lembrando vagamente os trejeitos vocais de Philip Oakley, dos Human League. Destaque para a intervenção de Rodrigo Amado, no saxofone. Apesar dos “encostos” o tema funciona, conseguindo criar o ambiente “Blade Runner” pretendido.

            “Distante domingo” é que se torna perfeitamente dispensável. João deixa de ser Peste para querer ser Villaret e o resultado é lamentável. O texto é declamado e enfia no mesmo saco o espírito de Rimbaud, o computador central de Helsínquia, soldados castanhos e um jacinto vermelho. Loucura controlada? Nem por isso. O “poema” não tem a força que lhe permita dispensar o apoio musical, que aqui se apaga quase completamente, afundando-se as palavras na voz monocórdica e dolente do seu autor.

Sintetizando: o maxi está muitos furos acima da produção média nacional, reiterando o que já se sabia – ser João Peste uma das personagens mais invulgares e provocadoras do nosso meio musical, capaz do melhor e do pior. Neste caso de ambos.

 

QUARTA-FEIRA, 11 JULHO 1990 VIDEODISCOS

UHF - Este Filme/Amélia Recruta

 
Pop
 
CONTRA OS CANHÕES
 
UHF
ESTE FILME/AMÉLIA RECRUTA
Maxi, Ed. Edisom

 
            











        Este disco prova-o. Os UHF assumem-se definitivamente como o principal grupo português de rock. Do verdadeiro, direto, descomplexado, mandando às urtigas quem neles insiste em ver D. Sebastião ou então, frustradas as tontas expetativas, uma corja de vendidos. Não são nem uma coisa nem outra. Nem se preocupam muito com isso. O novo disco é o melhor da banda, dos últimos tempos. A vários níveis. A começar pela capa, uma fotografia simulando um anúncio de filme, retratando a preto e branco uma cena de guerra. “Este Filme” e a legenda aposta – “Intenso e verdadeiro, humor... A história de um soldado”. Por baixo a respetiva ficha técnica. O cartaz, sobrepondo-se à impressão de uma entrevista a António Manuel Ribeiro. Na contracapa, um plano ampliado da mesma fotografia, nas cores da bandeira nacional.
            Quatro temas. Do lado A o já citado “Este Filme” e “Portugal dos Pequeninos”. O primeiro um tema lento e balanceado em que AMR mostra até que ponto tem evoluído como vocalista. Seguro, cantando como se tudo dependesse das palavras. Cantando-se a si próprio, como quase sempre, e ao país que a seguir retrata como o “dos pequeninos”. Este último o mais facilmente encostado ao som habitual da banda. O outro lado é excelente. “Amélia Recruta” é a canção mais forte do disco. Um “hit” inevitável, disparando rock ‘n’ roll sobre a instituição militar, com uma convicção eufórica e uma melodia irresistível. O “Rock de Cá” é uma crítica irónica e não muito feroz ao meio musical lusitano. Que, bem feitas as contas, não existe como tal.
            É também ao nível dos arranjos que a banda de Almada faz questão de afirmar a diferença. O modo como o saxofone de Renato Junior é projetado para a boca de palco, liberto em contorções furiosas, as intervenções guitarrísticas de Rui Rodrigues e Renato Gomes, este como convidado especial em “O Rock de Cá”, os teclados, imitando marimbas neste último tema, são alguns exemplos sintomáticos de que a banda de Almada não está disposta a dormir sobre os louros alcançados. Liberta de fantasmas, o povo é finalmente o único destinatário das canções e palavras do seu líder carismático, o mesmo que reconhece frontalmente serem os UHF o seu projeto a solo. Palavras e melodias para serem cantadas e assobiadas na rua pela grande massa anónima, a mesma que os levou ao lugar ímpar que ocupam, por direito próprio, no panorama musical luso. Quanto às polémicas e acusações que regularmente se levantam à sua volta, “os lobos uivam, a caravana passa”. Quer queiramos quer não, há que continuar a contar com os UHF e desde já como estes novos “argumentos e bandas sonoras” assinados por António Manuel Ribeiro e interpretados pelo “cast” UHF.
 
QUARTA-FEIRA, 4 JULHO 1990 VIDEODISCOS

28/05/2025

Mler Ife Dada - Música do Homem que Anda (Walkman Music)

 

Pop

 

MLER IFE DADA
Música do Homem que Anda (Walkman Music)
Máxi, edição Polygram

            Sofia rendeu Anabela. Sofia Amendoeira aprendeu bem e rapidamente a matéria dada. Os quatro temas que integram este 45 rotações, para além de “Walkman”, ainda “Erro de Cálculo”, “Choro do Vento e das Nuvens” e “À Chuva”, fazem parte do recente álbum, “Espírito Invisível”, mas agora com novas misturas destinadas a servir a voz grave e descontraída da nova vocalista, em vez das piruetas nervosas e do exotismo garrido da Anabela Duarte. É ainda demasiado cedo para se emitir qualquer juízo sobre eventuais ganhos ou perdas suscitados pela troca. Se por um lado o timbre e colocação da novata parecem adequar-se mais harmoniosa e naturalmente às complexidades da música de Nuno Rebelo, por outro perde-se (pelo menos por enquanto) um certo diálogo (por vezes difícil e amiúde pouco pacífico) entre a voz e o suporte instrumental que era um dos polos de atração do estilo da banda, determinado pelo modo de cantar de Anabela. Enquanto não surge novo álbum, este disco fica como uma apresentação de Sofia, lembrando-nos que os Mler Ife Dada são, até à data, uma das formações mais originais e interessantes da música que por cá se vai fazendo.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990

Madredeus - Existir

 

Pop

 

ALMA, TRADIÇÃO E FADO

 

MADREDEUS
Existir
LP, EMI – edição Valentim de Carvalho


       







 

  Sociologia, Semiótica, Psicopatologia, Otorrinolaringologia e por vezes até Música, são algumas das ciências tratadas, com mais ou menos profundidade, a propósito da nova música portuguesa. Não querendo competir com as sumidades em cada uma destas disciplinas, gostaria entretanto de contribuir com algumas achegas para o debate alargado que se vai desenrolando em volta de tão apaixonante matéria. Então é assim: a nova música portuguesa não é nova e muito menos portuguesa. Não é nova porque não inova, não arrisca e se compraz numa mediocridade satisfeita com o “para português não está mal”, sinal de menoridade mental e cultural que parece afetar grande parte da nossa “inteligenzia” que, no caso lusitano, se trata mais de uma “estupidenzia”, para sermos rigorosos. Não é portuguesa porque se limita, na maioria das vezes, a decalcar, melhor ou pior, modelos estrangeiros. Há exceções. Felizmente. Músicos por acaso nascidos e apertados contra a falta de visão e mercantilismo imperantes nesta quase ruína cultural em que vivemos, orgulho da casta vendida e saloia que finge governar-nos, lutando ingloriamente contra os Adamastores de gravata que, pululando nos templos ministeriais de acrópoles e “negrecer”, vão metodicamente redigindo os decretos de morte das nossas vidas, dos nossos sonhos maiores que todos os impérios.

            Os Madredeus são uma das exceções. São novos porque são eternos. São novos e eternos como a Alma, a Tradição, o Fado, a visão que vê o centro, fundo e ao longe, a Paixão e a loucura que transportam todos os tempos pelo futuro adentro. “Existir” é verbo difuso e rigoroso que exprime na perfeição o modo de ser verdadeiramente português – estar, ir sendo, não existir concretamente como coisa definitiva e dura, antes como rio que vai fluindo pelos infinitos leitos do Amor.

            Rodrigo Leão, Pedro Ayres, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes e Teresa Salgueiro foram ainda mais longe que nos seus dias de “antanho”. Nos seus sons e versos escutamos a voz dorida do Infante Portugal. Música una e única, singela por vezes, solar, sombria, elitista e popular. Catedral de luz, refúgio de olhares ardentes e silentes orações. Religião significa religação. “Existir” religa-nos ao gosto de ouvir música genuinamente portuguesa e, porque portuguesa, genuinamente universal. Liturgia iniciada com as vozes de Teresa e Francisco, no cântico luminoso e ascético de “Matinal” e culminando no ato de fé final de “Vontade de Mudar”, passando pela extroversão de “O Ladrão” (um dos temas que todos irão trautear nos próximos tempos), o instrumental etéreo e saudoso de “As Ilhas dos Açores” ou “O Menino Jesus”, Espada, Taça e Vitral da Nau em que eternamente partem os filhos diletos da nação. Ao todo, doze temas, doze arquétipos da real arte de ser português.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990

14/10/2021

Telectu - Live At The Knitting Factory

 Pop
 
TELECTU
Live at the Knitting Factory, New York City
LP, Mundo da Canção
 
            Não se deve misturar música com musicologia. Jorge Lima Barreto é um bom musicólogo, até agora à procura de afirmação como músico. Os seus muitos discos não têm sido, na generalidade, poupados pela crítica, em grande parte devido à tendência para os sobrevalorizar, recorrendo à teoria, por parte do autor. Depois do minimalismo, o mimetismo. A tática não será a mais aconselhável; a música, como qualquer outra arte, vale pelo que intrinsecamente é, e não por qualquer caução cultural que lhe seja adjacente.
            No caso de “Live at the Knitting Factory”, o caso muda felizmente de figura. Gravado ao vivo na nova catedral da vanguarda nova-iorquina, é o melhor disco dos Telectu até à data. Minimal ou mimético, é o que menos importa. Trata-se de música produzida ou manipulada por meios exclusivamente eletrónicos, povoada de referências – umas óbvias (Fripp & Eno, Terry Riley, música étnica), outras nem tanto: Elliott Sharp, David Fulton – mas bem assimilada e integrada num discurso original. Por uma vez, a música dos Telectu dispensa as palavras para se impor. Bom disco. Sem etiquetas.
 
QUARTA-FEIRA, 14 MARÇO 1990 VIDEODISCOS

Os Afonsinhos do Condado - Os Afonsinhos do Condado

 
Pop
 
AFONSINHOS DO CONDADO
Os Afonsinhos do Condado
Polygram
MLP coletânea
 
          A pop é diversão. Os Afonsinhos são danados para a brincadeira, descaradamente “kitsch” e à beira do piroso, traçando, de disco para disco, uma tipologia da Lisboa foleira: a declarada (Amoreiras, Parque Meyer) e a mascarada de “artista” – Bairro Alto.
            Todos os géneros (rap, ska, salsa, samba...) lhes servem para desmontar os esquemas do provincianismo saloio. O sr. Lopes, o dr. Faria e Mr. Galvão são parolos apenas nos nomes, nas cores dos fatos e nos óculos escuros. São as torres das Amoreiras da música nacional. Oportunistas e oportunos, falam de Gorbatchov, o “carequinha” em ritmo de samba e com pronúncia abrasileirada, ou do Bairro Alto, deitando abaixo tudo e todos com Madalena Iglésias pelo meio. Ouçam o disco. Sejam inteligentes e foleiros. Este é o verdadeiro, o único, o inolvidável rock português que até vai ao festival da canção. E porque não?
 
QUARTA-FEIRA, 14 MARÇO 1990 VIDEODISCOS

04/10/2021

The Nevermet Ensemble - Quarto Escuro

25|MARÇO|2005 Y
discos|roteiro
 
THE NEVERMET ENSEMBLE
Quarto Escuro
Rudiomentol, distri. Ananana
8|10
 
Os participantes dos Nevermet Ensemble nunca se encontraram fisicamente para gravar este disco. Foram trocados correspondência, CD-R, o material circulou até ir parar às mãos de Miguel Cabral que fez todo o trabalho de edição no seu “quarto escuro”. O resultado de tais manobras resultou num álbum diversificado onde a eletrónica adquire os contornos mais inusitados, desde as abstrações obtusas a pop manchada de mil e um experimentalismos, colagens à la Negativland, pormenores de música contemporânea, electropop, ambiental, “noise” digital e em geral toda a espécie de sonoridades estranhas produzidas por gente de nome anónimo mas imbuída de boas ideias e munida de um arsenal de sintetizadores, samplers, computadores, ondas de rádio, objetos, instrumentos de brinquedo a par de vozes e “field recordings” das mais diversas proveniências. Os ambientes variam entre o onírico e o surreal, e aproximam-se por vezes de algo parecido com os Residents, como em “O passado” e “Complicazione”. Dificilmente se encontrarão sons mais bizarros do que neste “Quarto Escuro”, compilação de artistas que não o querem ser. Pelo menos às claras.

10/09/2021

Rui Azul - À Bolina

 

18|FEVEREIRO|2005 Y
discos|roteiro
 
RUI AZUL
À Bolina
Registos Autónomos, distri. MC – Mundo da Canção
7|10
 
Eis um disco agradável, imaginativo, sugestivo e razoavelmente original no panorama das “novas músicas”, tendência suave, da música portuguesa. Rui Azul, músico do Porto, realizou sozinho “À Bolina”, um álbum de viagens, tema estafado quando os itinerários repetem as rotas do turismo. Não é o caso de “À Bolina”, Azul, além de produzir e arranjar, toca saxofone tenor, sax MIDI, flautas, rhaïta, zummara, didgeridoo, darbuka, percussões étnicas, voz, teclados, samplers, sequenciadores, programação e “loops”. Ah, sim, também foi ele que gravou, misturou, masterizou, fez o desenho gráfico, a BD e os textos. “À Bolina” é um álbum de boa fusão, entre jazz, “world” imaginária e eletrónica sequenciada. Vozes deslocadas no espaço e no tempo, sons híbridos, batidas entre o computacional e o ritual. A escola é óbvia: Musci/Vennosta, Benjamin Lew, Steve Shehan. Mas Azul é bom colorista e sabe combinar os tons, dando de facto pistas para uma viagem interior que é afinal cinema da imaginação. As ilustrações de BD têm algo da “Garagem Hermética” de Moebius. Um passo à frente de Rão Kyao, Ficções e Carlos Maria Canavarro/Nuno Canavarro na elaboração de fusões oníricas com âncora, mais ou menos funda, em Portugal.

01/09/2021

Cristina Branco - Ulisses

 21|JANEIRO|2005 Y
discos|roteiro

 

as viagens de cristina branco

 
Pronto, ela decidiu, está decidido. Para Cristina Branco o fado já faz parte do passado. Ela já tinha, aliás, avisado antes. Que não era uma fadista, mas uma cantora. “Tout court”. “Ulisses” sela a transição, já encetada no anterior “Sensus”, do fado para a canção popular urbana. Não vale a pena sequer congeminar se, ao nível do substrato emocional, esta é ainda uma música marcada pelo fado. Não é. A emoção que atravessa “Ulisses”, um álbum de viagens, não é exclusiva do fado mas a emoção que desde o início de uma carreira milimetricamente talhada, Cristina e o seu companheiro Custódio Castelo foram aos poucos e metodicamente abrindo e burilando. “Ulisses” confirma a excelência de uma voz e um ecletismo de estilo que já se adivinhavam. Num panorama de vozes femininas que já albergava nomes como os de Amélia Muge, Filipa Pais e Né Ladeiras veio agora juntar-se o de Cristina Branco, com uma música cujas raízes mergulham na tradição, seja esta tradição o da música folclórica, de cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto e Joni Mitchell, ou da veia modernizadora das composições originais assinadas por Castelo. Em qualquer dos casos a versatilidade e plasticidade vocal de Cristina Branco são notáveis, a par da riqueza do timbre, acentuada ainda mais nesta edição pelo registo em super áudio CD.
            Depois de ensaiar de início com o sotaque brasileiro e com a língua castelhana, a cantora atinge um “Redondo vocábulo” o primeiro pico de “Ulisses”, naquela que será uma das melhores versões de sempre deste tema de José Afonso. Logo a seguir, a operação de risco que é pegar numa canção de Joni Mitchell, revela-se totalmente conseguida. Cada canção da compositora canadiana é, por si só, uma viagem e “A case of you”, do álbum “Blue”, não é exceção. Cristina Branco entra de coração aberto no coração deste novo universo. “Navio triste”, de Vitorino, e “Porque me olhas assim”, de Fausto são outras interpretações sem falhas e “Choro (ai barco que me levasse”) exala o discreto odor a nostalgia das gerações mais antigas da música popular portuguesa. Custódio Castelo assegura até ao final que “Ulisses” continue a viajar sobre as nuvens, seja sobre os versos de Paul Éluard (com a língua francesa a exigir uma abordagem mais física e rasgada que Cristina por enquanto não lhe consegue arrancar), de David-Morão Ferreira, em “E por vezes”, uma das mais sentidas vocalizações de “Ulisses”, ou num “Cristal” em registo “neo folk” (Pentangle à portuguesa?) onde, uma vez mais, se revela fundamental o piano de Ricardo Dias. Sobram “Gaivota”, único momento de fado num álbum que perscruta mais do que as vielas e becos da tradição, e “Fundos”, a inspirar algumas dúvidas quanto ao uso de uma batida de “drum ‘n’ bass”. Tal não seria necessário para assegurar a modernidade de “Ulisses”.
 
CRISTINA BRANCO
Ulisses
SACD ed. e distri. Universal
8|10


05/11/2020

ANA DA SILVA - The Lighthouse

 Y 14|JANEIRO|2005

música|discos

 


ANA DA SILVA

The Lighthouse

Chicks on Speed, distri. Ananana

8|10

 

Oito anos após a sua retirada do meio musical, consumado o enterro das The Raincoats, a madeirense Ana da Silva fechou-se no seu quarto de brinquedos, na companhia de um teclado eletrónico e de um sequenciador, e saiu de lá com um punhado de canções electropop de veia melancólica. São vinhetas com pequenos sons e ritmos ondulantes que Ana embala dentro de caixas coloridas atadas com histórias em volta. Ana da Silva flutua nas águas de uma lagoa da infância para logo a seguir esbracejar entre as ondas de um mar revolto, cantando com voz ofegante os medos da escuridão. Passeia-se pelos campos sem animais selvagens de Virgínia Astley, brinca com a pop desconjuntada dos Flying Lizards, mas é quando canta em português uma “Modinha” que o coração acorrentado desce aos abismos de uma nostalgia que prolonga em tons góticos a agonia “Eighties” dos Joy Division. O espírito “indie” e do “do it yourself” ainda faz borbulhas neste novo século.

Na barca com Ulisses [Cristina Branco]

 Y 7|JANEIRO|2005

música|capa

 



na barca com ulisses

 

cristina branco

 

“Venham meus amigos, Não é demasiado tarde para partir em busca de um mundo novo, porque sempre tive o propósito de viajar para além do crepúsculo…”. Este extrato do poema “Ulysse”, de Alfred Lord Tennyson (1809-1883), impresso no interior da capa do disco de Cristina Branco, serve de legenda a um projeto de intenções que a cantora vem pondo em prática desde o início da sua carreira. “Ulisses” é mais uma viagem que parte do fado para chegar a um canto universal que tem na saudade a sua vela e a sua âncora. Cristina Branco nunca quis confinar-se à estrita condição de fadista. Isso seria limitar os seus sonhos, a inquietude de descoberta. “Ulisses” é um périplo por várias músicas, poesias, línguas e geografias.

            “Sonhei que estava em Portugal”, tema de abertura, apresenta Cristina a cantar com sotaque brasileiro um poema de João de Barro. Logo a seguir, em “Alfonsina y el mar”, o idioma escolhido é o castelhano. O sentimento ultrapassa a formulação de estilos estratificados. É uma música que a cada nota parte em demanda de novos portos. “Sete pedaços de vento” é a primeira composição com a assinatura de Custódio Castelo, uma vez mais condutor musical do projeto. Imaculada é a versão de “Redondo vocábulo”, de José Afonso, servido por distinta impressão digital do piano de Ricardo Dias.

            A surpresa surge com “A case of you”, tema de Joni Mitchell. Será caso para supor que a portuguesa e a canadiana são irmãs espirituais. Cristina toca nos timbres, nas acentuações e nas ornamentações de Joni. Joga com as mesmas luzes e sombras. O caminho fica aberto a todas as ousadias. Ricardo Dias e Vitorino criaram um ambiente que de início sugere Paredes, em “Navio triste” e “Soneto” é uma nova apropriação da poesia de Camões, com sabor a música antiga e a Chico Buarque criado por Castelo. “Choro” é equilíbrio perfeito entre a guitarra portuguesa de Castelo e o piano de Dias em notável exemplo de nova MPP com raízes na tradição folk. Depois do castelhano e do inglês, o francês é utilizado por Cristina para interpretar a “Liberté” de Paul Éluard, exercício Breliano, um tipo de energia por enquanto ainda afastada da sensibilidade da cantora. O “Cristal” de Vasco Graça Moura e Castelo é mais neo-folk-progressiva idealizada a grande altura, com sensual vocalização e “Porque me olhas assim” satisfaz as exigências da autoria de Fausto. Custódio Castelo cria sobre as palavras de David Mourão-Ferreira, Júlio Pomar e Alexandre O’Neill, respetivamente em “E por vezes”, “Meu amor corre-me o corpo” e numa “Gaivota” onde pela primeira vez a cantora assume o vocabulário e a postura fadistas. “Ulisses” fecha com um instrumental de Castelo. Chama-se “Fundos” mas tem a leveza da “new age” e, no final, a provocação de uma batida “drum ‘n’ bass”. A viagem não poderia afastar-se mais das convenções.

            Cristina Branco chama-lhe um “encontro com o amor, desta vez um amor satisfeito e assumido”, e um toque de liberdade – “de escolher um itinerário próprio ao fim da vitória sobre tantas contrariedades”.

 

CRISTINA BRANCO, Ulisses,

Ed. e distri. Universal, 10 de Janeiro

14/08/2020

Samuel Jerónimo - Redra Andra Endre De Fase


Y 26|NOVEMBRO|2004
discos|roteiro

SAMUEL JERÓNIMO
Redra Andra Endre de Fase
Ed. e distri. Thisco
8|10

A surpresa vem de onde menos se espera. “Redra...” é uma pedrada no charco no panorama da eletrónica portuguesa. O seu autor, 25 anos, admirador de Fripp, Steve Hackett, Steve Howe, Berg, Debussy, Schönberg, Reich e Terry Riley, assinara antes peças de guitarra, uma “suite” de 36 min. para grupo rock e um ensaio de “Redra” incluído na compilação da This.Co. “Thisobidience: These Guys Gone out!”. O álbum de estreia é um “tour de force” de música minimal onde se combinam equações de piano, marimbas inspiradas nas orquestras gamelão, eletrónica pontilhística e tratamento de computador. Das três composições, “Redra” desenvolve-se ao longo de 33 minutos de amor à causa “música minimal repetitiva” (MMR), sem soçobrar nos “clichés”. A influência de Reich é inquestionável mas também se detetam sinais de “A Walk in the Woods” de Mikel Rouse. Jerónimo “ataca” o piano com o vigor de um Keith Emerson da MMR e põe as marimbas a fazer sessão de hipnose. Atrás das melodias principais, os duplos harmónicos criam uma rede de melodias secundárias que se substituem umas às outras num efeito de eternidade suspensa. É um objeto único e fascinante.

22/06/2020

À porta, à espera [Ana Moura]


Y 24|OUTUBRO|2004
música|fado

Aconteceu é uma mais madura etapa. Mas o grande Fado ainda está à espera.

ana moura
à porta, à espera

ANA MOURA
Aconteceu
2xCD ed. e distri. Universal
6|10

Ana Moura é mais uma das novas fadistas que vieram dar um rosto e uma voz novos ao fado. Ou melhor, mais do que apenas engrossar o lote, ela é “uma”. Uma voz diferente das outras, quente e sensual (alguns furos mais grave que a da generalidade das suas colegas) que agora se apresenta no seu segundo álbum, “Aconteceu”, depois de no ano passado ter gravado “Guarda-me a Vida na Mão”. Alguém com influência no além deve tê-la ouvido e atendido ao seu pedido. “Aconteceu” tem uma mão com vários trunfos, a começar pela voz, mais trabalhada e maturada, e a terminar num reportório bem escolhido e conduzido. O CD é duplo e divide-se em dois discos, o primeiro, “À porta do fado”, preenchido por fado musicado, o segundo, “Dentro de casa”, dedicado ao fado tradicional. Ana Moura navega livremente no primeiro, sobre poemas de Sophia de Mello Breyner (“Através do teu coração”) ou Natália Correia (“Creio”) e música de Tózé Brito, Jorge Fernando, João Pedro Pais ou do “jazzman” italiano Arrigo Cappelletti, mas o seu coração dispara com o segundo, num fado da meia-noite, num fado corrido ou num fado Acácio.
            Ana Moura não é – não quer ser? – fadista de grandes arrebatamentos ou dolorosos extremos. A sua voz e o seu canto preferem o embalo doce, o sussurro ao ouvido, os tempos médios que hipnotizam e fazem suavemente sobressair o sentido das palavras. (… a poesia/Não é só caligrafia/São coisas do sentimento”) canta em “Ao poeta perguntei”, de Alberto Janes. E, no mesmo poema: “Como a expressão e os jeitos/Que pr’a cantar/Se vão dando à voz”. Percebe-se que é uma intuitiva que se entrega à emoção e ao sentimento, sem resistências, e por isso com a naturalidade e a fluência de quem canta como respira. Ou com o rasto exótico que ficou dos tempos em que cantava música pop com o grupo Sexto Sentido, a infiltrar-se por entre as sílabas e as interjeições de “Amor de uma noite”, “Creio” e “Através do meu coração”.
            No segundo CD o sentido interior muda e escurece. “Hoje tudo me entristece” mostra uma fadista a trabalhar a tragédia, mas ainda a rondar do lado de fora da dor, embora já com a imaginação e a cor do sangue. Fadista e não cantora de fados, a separação e opção são dela. “Passos na rua” dá a ver ornamentações de ave, a prometer voos mais altos. Há ainda “Dentro da tempestade” onde “há restos de verdade/A que a dor tirou sentido”, com a guitarra a golpear uma voz que se despede. “Aconteceu” mostra uma fadista a caminho. O que, para já, aconteceu, chega para nos acariciar e fazer acreditar num futuro promissor. Falta a solidão que torna único o fado de quem o canta.

            fado ou fadistas? Ana Moura nasceu em Santarém, há 24 anos. Ribatejana, como Cristina Branco. Também como Cristina Branco, a Holanda, onde se encontra em digressão, é ponto importante do seu roteiro de viagem. A transição do poprock para o fado foi rápida e passou por um convite de Maria da Fé para cantar no “Senhor Vinho”. Nessa altura o seu reportório e experiência eram curtos mas os amigos (Jorge Fernando, Manuel Martins, a própria Maria da Fé) ajudaram. Depois de em “Guarda-me a Vida na Mão” ter contado com uma composição de Pedro Ayres de Magalhães e a guitarra de Pedro Jóia, “Acontecendo” impôs-lhe a necessidade de gravar um CD inteiro só de fados tradicionais. Os fados musicados estão no outro disco porque algumas pessoas, já lhos tinham oferecido. Acabou por sair um disco duplo.
            “Em estúdio senti que era difícil escolher. Achámos engraçado separar os dois géneros”. Uma das faixas de “À porta do fado”, “Através do meu coração”, leva um violoncelo, experiência instrumental única fora das normas. “Então no fado tradicional, nem sequer com contrabaixo toco, é só guitarra portuguesa, guitarra e baixo”.
            “Novo fado” é expressão que para Ana Moura não tem razão de existir. Novos fadistas, sim. “Não faz sentido falar em ‘novo fado’. Assim como aconteceu com a geração da Amália, quando se dizia que ela também cantava novo fado, por causa dos poetas que cantou, também neste momento há letras de poetas que são intemporais, mas há outras não podem ser cantadas por esta geração. O que de novo tentamos trazer ao fado é a interpretação e uma ou outra novidade ao nível dos arranjos musicais”.
            Insiste em que um fado apenas faz sentido e pode ser cantado com o coração quando a letra é totalmente interiorizada. “Há coisas que eu sei que ainda não sinto”, reconhece com a sinceridade de quem assume que só agora a estrada se começou a revelar, “pode ser que daqui a uns anos…”. Os versos de Natália Correia, em “Creio” – “é como se fosse uma oração” – esses adora-os e canta-os como se fossem seus: “Creio em amores lunares/Com piano ao fundo/Creio nas lendas/Nas fadas, nos atlantes”. Não é oração fácil de rezar. E se ontem foi na pop que acreditava, hoje o fado apoderou-se de todo o seu espaço e roubou-lhe todo o seu tempo.
            “O fado passou a fazer parte da minha vida”. Demorou quatro anos até essa assunção tomar conta dela a cem por cento. “Mudou por completo a minha vida, eu estava a estudar durante o dia, aguentei a escola durante um ano, entretanto passei a viver mais durante a noite do que de dia e abandonei os estudos. A minha vida passou a ser literalmente fado”.
            Estranha forma de vida, dirão alguns. Numa casa de fados ou numa sala de espetáculos. “É diferente, nas casas de fado há a proximidade das pessoas, é uma coisa muito íntima, de improviso, enquanto que nas salas é um espetáculo, com um alinhamento mais ou menos feito”. “Mais ou menos” porque o humor muda e Ana Moura só canta “o que lhe apetece”. “Se me apetecer cantar outra coisa, eu canto, altero”. Em qualquer dos casos, “o fado acontece”. Como uma coincidência. Aliás, a sua vida tem sido assim, a vida e a carreira, “feitas de coincidências”.
            Como coincidentes são a voz com a imagem glamorosa do seu corpo como aparece retratado na capa e nas imagens de promoção, onde veste um decotado vestido vermelho sobre fundo verde de vegetação escura. Poderia passar por uma capa dos Roxy Music se Ana não explicasse o seu fundamento. “Gosto muito do vermelho. O vermelho e preto são as minhas cores preferidas. O sítio das fotos foi o palácio da Pena em Sintra, lugar que adoro”. Lugar ideal para se cantar o “astral mais puro”, dito nos versos de Natália Correia. O que mais irá acontecer a Ana Moura, só o fado o dirá.