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25/11/2025

James Brown - & Friends

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 FEVEREIRO 1991 >> Pop Rock >> Vídeos

 

JAMES BROWN & FRIENDS
James Brown & Friends
Music Club, distri. Anónima, 57 min.

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Descrição gerada automaticamente

Para os amantes da música “soul” este registo ao vivo das atuações de James Brown e alguns convidados muito especiais, no “Taboo Club” de Detroit, Michigan, em 1987, é uma peça de arquivo fundamental. Para todos os que não se incluem na categoria restrita atrás enunciada, funciona como um entretenimento agradável e apenas isso. Não há quaisquer efeitos especiais, para além daqueles eventualmente provocados pela audição da música. Um apresentador apresenta, como lhe compete. Os instrumentistas tocam, como se lhes pede. Os cantores cantam, como seria de esperar. Boa oportunidade para se recordar clássicos da “soul music” na voz de um dos seus expoentes – “Papa’s Got a Brand New Bag”, “In the Midnight Hour”, “When a Man Loves a Woman”, entre outros.

James Brown apresenta-se com o bom-gosto habitual: “smoking” prateado e reluzente, decotado até ao umbigo, cabelos cimentados de laca, penteados ao estilo Freddy-Mercury-de-peruca. À medida que os convidados vão chegando, a coisa aquece: primeiro Wilson Pickett, outro senhor da “soul”, seguido de Billy Vera e Joe Cocker, este para interpretar “When a Man Loves a Woman”. Robert Palmer (impecável, de barba bem aparada, gravata e fato completo, de corte irrepreensível) interpreta “Sugar & Spice” em dueto com Brown e, a solo, um dos temas que lhe deu fama e proveito, “Addicted to Love”.

Aretha Franklin, decotada e dificilmente contendo dentro do vestido os excessos de adiposidade, dança um “slow”, agarradinha ao chefe Brown, e canta como só ela sabe. Por fim, juntam-se todos no palco para, felizes, cantarem em coro “Living in America”. E acabou. Muito para uns, pouco para outros. É como tudo na vida. **

 

29/10/2025

Cabaret Voltaire - Cabaret Voltaire

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 JANEIRO 1991 >> Pop Rock >> Vídeos

 

CABARET VOLTAIRE
Cabaret Voltaire
Mute, distri. Edisom

 

Uma imagem com texto

Descrição gerada automaticamente

 

“Cabaret Voltaire” é um dos primeiros “long forms” independentes de sempre, reedição do original de 83, editado na Doublevision. Visão do inferno. Porta aberta para o inferno.

A música: da primeira fase. A melhor (?), experimental e perigosa – compare-se, por exemplo, “Photophobia”, “Badge of Evil” ou o excerto do filme “Johnny Yesno” com as recentes banalidades dançáveis de “Groovy, Laidback & Nasty” e veja-se a diferença. Na altura, os Cabaret Voltaire eram “industriais”, insuportáveis, brutais. Técnicas de “cut up” e colagem. Vozes subliminais, curto-circuitadas por ruído branco. Ruído negro. Disformidades acústicas. Stephen Mallinder, Richard H. Kirk e, no início, Chris Watson (mais tarde nos Hafler Trio). Guitarras em esquizo-“feedback”. Sintetizadores tribais. Fitas magnéticas em delírio. O suficiente para orientar a “cold wave” no sentido do mal absoluto.

As imagens: horror. Horror. Horror. Ritual, “slogans” ameaçadores, totalitarismo, tortura, guerra, autoflagelação, pornografia, ruínas, monstruosidades físicas e psíquicas. “Fast/slow motion”. Ruído visual. Formas saturadas. Fanatismo religioso. Manipulação (das imagens, mental, emocional). Sofrimento. “This is Entertainment, this is Fun”.

A visão: focada nas capas dos discos (paradigmática, a de “The Crackdown”, com a mira da câmara fotográfica apontada ao recetor, ou os retratos “kirlian” de auras etéreas, em “Mix-up”), nos constantes grandes planos de olhos humanos ou na designação da produtora Doublevision. O olho do poder. Controlo da e pela imagem eletrónica. Interiorização do horror por sobrexposição a esse mesmo horror. Luz filtrada, distorcida e invertida. Duplos. Dupla visão. Os Cabaret Voltaire agradecem à televisão psíquica, de Genesis P. Orridge. Permanece a interrogação: pode a televisão ser perigosa? Outra questão: é lícito separar a ética da estética? Dito de outro modo: está a arte acima de todas as morais? Por detrás da música e imagens dos Cabaret Voltaire existe uma atitude e uma ideologia (partilhadas atualmente por dezenas de outros “músicos”) com objetivos muito precisos. Alguns mais conscientemente do que outros, todos trabalham para fazer subir à Terra um novo poder.

São diversas a tácticas e estratégias utilizadas. Atuam por fases: em curso, a inversão de todos os valores e sentidos. Destruídas as anteriores referências (imputem-se responsabilidades aos pioneiros dadaístas do princípio do século, que por sinal faziam do Cabaret Voltaire lugar privilegiado para as suas conspirações), cabe agora aos técnicos proceder à sua substituição por novos valores de sinal contrário. A propaganda nazi sabia como proceder. Também o sexo desempenha um papel de relevo nestas operações: desligado do amor, levado ao extremo da pornografia, serve, por meio de mecanismos tântricos, como meio de libertação de energia que poderá ser desviada para outros fins. Sade. Masoch. Wilhelm Reich.

“Cabaret Voltaire”, o vídeo, constitui importante documento de uma das fases iniciais do processo. Como no início se escreveu, poderá ser visto como uma descida aos infernos. Imagens que ensinam a sofrer e a fazer sofrer. Imagens que se aceitam ou renegam. Imagens a que é impossível ficar indiferente. Sem classificação.

20/10/2025

The Fall - VHS8489

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990

 

CEM À HORA

 

THE FALL
The Fall
Beggars Banquet, distri. Anónima

Finalmente! Já não era sem tempo! Um vídeo todo a cores, sem movimentos em câmara lenta nem multidões em delírio. Com efeitos especiais à antiga, quase sempre sem qualquer relação com as canções, mas agradáveis de ver. Mais difícil ainda: sem erotismo (não necessariamente uma virtude) e mesmo, parece impossível, sem raios de luz azul passando através de persianas ou figuras animadas desenhadas a lápis de cera.

Estranho: as imagens não distraem da música, antes funcionam como legendas visuais, construídas a partir de grafismos variados (fundos que são mapas, cartazes, símbolos cabalísticos, texturas fotográficas), em que a profusão da cor se alia aos corpos dos músicos (de Mark E. e Brix Smith, sempre na função de personagens, mascaradas, pintadas, travestidas), para criar uma sequência non-stop de clips encadeados que correm a cem à hora e explodem com a mesma energia da músicas e palavras de Mark E. Smith.

Pós-“new wave”, empenhada e militante, a música dos Fall permanece fiel a uma linha de rock duro, mas elástico, fortemente rítmico, mas atento à sedução da melodia, sintetizado em canções de duração mínima, como uma granada pronta a rebentar.

São dez temas (incluindo uma versão de “Victoria”, dos Kinks) que souberam superar o niilismo sarcástico dos Sex Pistols (num dos temas, a anarquia é substituída pela “monarchy in the UK”…), acrescentando um toque de humor à negritude pessimista do “punk” e devolvendo à pop a dignidade que lhe concede a persecução de um ideal. Segue-se no comboio de cores berrantes até se chegar ao fim com o pé a bater o ritmo e a sensação reconfortante de que o rock ainda consegue ser hoje mais do que simples negócio e novo-riquismo.

Os realizadores são Cerith Wyn Evans, Emma Burge, Tim Riley, Schneider Barnes, Scarlett Davis e Jon Riley. Pelo ecrã passam centrais nucleares em miniatura, uma mulher vestida de bolinhas até aos cabelos, pentagramas satanistas, rostos em decomposição por onde se passeiam vermes em busca de almoço, fantasmas com forma de mulher e abstrações simbólicas, daquelas que os realizadores gostam imenso de espalhar pelas suas obras, sem qualquer intenção especial, mas graças às quais se divertem à grande com os significados profundos que se lhes quer atribuir. No fundo, a mensagem é simples: divertir, dançar, pensar. Nos dias que correm, já não é nada mau! ***

10/10/2025

Bryan Ferry - New Town - Live In Europe

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 14 NOVEMBRO 1990

 

CASANOVA NA CIDADE NOVA

 

BRYAN FERRY
New Town – Live in Europe
Edição: Edivídeo

Começa como hoje em dia começam todos os vídeos de atuações ao vivo: com imagens a preto e branco, em câmara lenta, de aspetos das cidades em que se realizam os espetáculos, acompanhadas de pormenores do público expectante e de sons indefinidos, vindos de longe. Depois é a irrupção gloriosa, em cena, do(s) artista(s) e o aparecimento da cor.

Neste caso, são imagens noturnas de Berlim (obviamente a “new town”, hoje referência chique para tudo o que se pretende “europeu”…), de Paris e de uma prostituta, dando por fim lugar a um letreiro anunciando o nome do cantor.

No palco, os símbolos que se esperam: plumas, “glamour”, sedas, lantejoulas, raparigas de mini-saia e sapatos de salto (muito) alto. À frente, o sedutor, camisa e meia brancas, colete florido, casaco clássico, sapatinho de pala italiano.

Farripas de cabelo tombam-lhe meticulosamente sobre a testa, compondo o ar de eterno romântico ressacado. Ao fundo, a figura de um demónio oriental, dá o conveniente tom de exótica luxúria, enquanto Ferry canta já “Nimrod”, a “lush life” e os prazeres da decadência. A voz afoga-se no meio de filtros e efeitos. Procura seduzir, em trejeitos de Casanova, sem conseguir fazer esquecer a versão original de “Country Life”, ao mesmo tempo que uma das raparigas do coro faz “charme”, sentada a um canto do palco. A câmara vai lá e mostra.

“Slave to Love” cola-se ao cantor como uma segunda pele. A rapariga prossegue nos requebros sugestivos. A câmara vai lá, não deixa escapar nada. A voz de Ferry, ouve-se, já não é o que era. Só não se vê porque estão lá as raparigas, para desviar a atenção. Bom momento instrumental com “Bogus Man”, dos temas mais experimentais de “For Your Pleasure”, dos Roxy Music. “Ladytron” (do primeiro álbum “Roxy Music”) vale pela subtileza das percussões de Steve Scales, a excelente (aqui sim) interpretação de Ferry, que também toca piano, e, de novo, pela rapariga da saia mais curta, que parece rezar, mas deve ser a fingir, porque o realizador investe, em termos videográficos, como é evidente, sobre a sua (dela) perna. Em “While my Heart is still Beating” o realizador vai lá (vai sempre, seja ao que for das raparigas), enquanto Bryan ferry se entretém a cantar fora de tom.

A anatomia externa das raparigas parece ser a fixação principal do realizador que, chegado a este ponto, já não sabe como evitar a monotonia visual. “A Wasteland” prossegue na mesma via. As raparigas são sempre as mesmas, bem como os vestidos e, consequentemente, sobressai um certo cansaço. O realizador procura ainda novos ângulos, mas debalde – já conhecemos de cor e salteado aquilo que a câmara insiste em nos mostrar.

Primeiro grande momento do espetáculo: “In Every Dream Home a Heartache”, dos melhores e mais perturbantes temas dos Roxy Music (cuja versão definitiva se encontra no álbum “Viva!”), paradigmático do negrume oculto por detrás da “féerie”, ao cantar a relação amorosa com uma boneca insuflável. Desta vez o realizador acerta em cheio, ao optar por filmar, em grande plano, o rosto devastado do cantor, iluminado por um foco de luz branca que lhe acentua as rugas e papadas. Sublime e trágico. Infelizmente, quando Ferry canta o orgástico final – “I blew up you body… but you blew my mind!” – e o tema explode instrumentalmente, o realizador salta imediata e visualmente para onde bem sabemos, acentuando o óbvio e estragando o ambiente entretanto criado.

Até ao fim, destaque ainda para “Boys and Girls”, “Avalon” (em ambos com Ferry de novo ao piano) e o tema final “Do the Strand” (outro clássico Roxy Music), em que dá tudo por tudo, quase fazendo esquecer os bons velhos tempo com Eno, Andy McKay e Phil Manzanera.

Da voz de Bryan Ferry, neste “New Town”, se poderá dizer não estar na sua melhor forma. Quanto à parte visual, quase tudo se reduz às proezas e fixações atrás mencionadas. Muito pouco em relação ao que seria legítimo esperar. Os nomes das raparigas vêm mencionados na ficha técnica. **

09/10/2025

Simple Minds - Verona

 POP ROCK QUARTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1990

 

OS GRANDES CONQUISTADORES

 

SIMPLE MINDS
Verona
Virgin Vision, distri. Edisom

Concerto ao vivo dos Minds, realizado em Setembro deste ano no anfiteatro romano da cidade. Os cinco primeiros minutos prometem: a preto e branco e em câmara lenta, prenunciando qualquer coisa de grandioso e espetacular. Público ansioso, cartazes alusivos à banda, um “boxer” a correr (aparecem muitas imagens de seres vivos a correr, ao longo do filme), uma rapariga de moto, soldados. Não se percebe a intenção mas esteticamente resulta. Câmara subjetiva como se fôssemos nós a entrar no palco. “Good Night, Verona” – grita Jim Kerr. Surge a cor.

Trovoada tremenda sobre o palco, simulada, claro. Cai o pano, pintado com o símbolo de “Sparkle in the Rain”. “Close-ups” dos músicos (Jim Kerr – voz, Charlie Burchill – guitarra, Mick MacNeil – teclas e acordeão, Mel Gaynor – bateria, Malcolm Foster – baixo, mais Andy Duncan e duas meninas, Lisa Germano – violino e bandolim e Annie McCaig – pandeireta). Dá-se início à função, com Jim Kerr sempre no comando. Pelo meio aparece, a preto e branco, a cantar a mesma canção, mas noutro concerto. Percebe-se, porque está vestido de outra maneira.

A música alterna com entrevistas aos intérpretes (a preto e branco). Não dizem nada de especial. São melhores a tocar e a cantar (a cores). Depois, os símbolos: mãos que acenam, imagens desfocadas não se percebe bem de quê. O guitarrista, com os projetores incidindo por detrás,naquele plano típico que faz parecer deuses os homens da guitarra. “Zoom” sobre o público. Uma garrafa de coca-cola passa de mão em mão no momento imperialista da noite. Um dos espectadores é transportado para fora do recinto, de maca. Bebedeira? Síncope? Simples sonolência?

Verona. Imagens da cidade: estátuas, ruínas romanas (em Itália todas as ruínas são romanas), uma velhota à janela. Uma ponte (romana), sem estar em ruínas porque se não as pessoas cairiam.

O baterista limpa com um pano o suor da testa – pormenor videográfico sempre do agrado dos realizadores. Jim Kerr brande o microfone, qual Roberto Leal, mas quando começa a cantar “Waterfront” vemos logo que não pode ser o luso-brasileiro. Num gesto de grande generosidade artística, estende o micro à assistência que corresponde soltando alguns urros afinados.

Agora é uma mulher de meia idade que se debruça à janela. Muito gostam as veronesas de estar à janela. Uma criança circula de bicicleta entre a multidão, simbolizando a grande solidão existencial do ser humano, ou talvez a sua grande pureza –, imagem do poder que oprime e bate com o “casse-tête” (em português cacete).

“Don’t you Forget about me” – das melhores canções dos Simple Minds. No rosto de Jim Kerr, uma expressão de êxtase. Desta vez o público não urra e canta numa sétima ao lado. Entusiasmado, o cantor dá um pontapé para trás, quase lhe saltando o sapato, na violência do movimento. Caso saltasse, teria acertado em cheio na objetiva do “cameraman”.

Ruas de Verona. Um dos momentos mágicos do vídeo: Mick MacNeil, no acordeão, Lisa Germano, no violino e Charlie Burchill, na guitarra acústica, lembram-se que são escoceses e mergulham nas suas raízes folclóricas, deliciando-se e deliciando os transeuntes. No momento seguinte, os mesmos três músicos surgem sobre o palco a interpretar o mesmo tema, com os mesmos instrumentos. Excelente.

Volta a eletricidade e Jim Kerr a cantar estendido no chão, talvez devido ao cansaço, quem sabe? Mas não, levanta-se com ar de desafio e prossegue com a mesma energia. Mel Gaynor volta a limpar o suor do rosto, desta vez com uma toalha. Quer dizer que a banda dá tudo o que pode e que não brinca em serviço, que são todos uns profissionalões. Ao ponto de Jim Kerr saltar para o meio do público e beijar uma jovem fã.

Retorno às imagens de rua, com o vocalista passeando-se entre a multidão, ar distraído e melancólico, simbolizando deste modo a grande solidão existencial do artista. Lixo levado pelo vento – Woodstock para sempre. Soa um “tin whistle” sintético – Jim olha o céu e canta, como quem seus males espanta. Duas crianças correm em câmara lenta no campo. Outra toca um tambor militar entre poética neblina. As duas primeiras continuam a correr. Pressentimos que se aproxima o clímax final. Sobre o palco, Jim Kerr, todo vestido de branco, canta “Sanctify Yourself”. Imagens de santos em pedra. Um padre caminha (sobre as águas? Não se consegue perceber).

Repetem-se imagens anteriores a um ritmo vertiginoso, querendo significar que o Universo é cíclico e os Simple Minds os senhores do Universo. O Universo explode e o público também, em aplausos. O império romano volta a cair, desta vez às mãos de mentes simples. ***

06/10/2025

Vários - The Other Side of Nashville

POP ROCK QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990

VÍDEOS

 

VÁRIOS
The Other Side of Nashville
PMV-Vídeo distri. Polygram – venda direta

 

Nashville, sinónimo de “country music”, de homens barbudos de voz nasalada, vestidos à “cowboy”, e mulheres de “jeans”, para as quais ser “sexy” não liga com estatuto de “workinh woman”. Nashville, imenso casino onde todos vão parar, em busca de glória e dólares. Uns perdem, outros ganham, mas, como se diz no filme, “o que seria do jogador sem um casino para jogar?”.

“The Other Side of Nashville”, realizado e produzido por Etienne Mirlesse, é um documento fundamental para a compreensão do fenómeno “country music” nos Estados Unidos. Conta-se a história na música e nas palavras dos seus principais protagonistas: Willie Nelson, Hank Williams Jr., Johnny Cash e, os mais novos, Kris Kristofferson, Emmylou Harris, Ricky Scaggs, entre outros. Quase todos afirmam a pés juntos que nada é como era dantes, nos tempos áureos dos anos 40 e da Grand Ole Opry, catedral onde atuaram todos os gigantes da “country music”. Opry Land, tornada anos mais tarde Disneyland, segundo o desabafo de Kris Kristofferson, por força da gigantesca máquina produtora de divisas em que se transformou aquela que, a par dos “blues”, constitui a raiz da música popular americana. Longe vão os tempos em que os banjos, violinos e guitarras refletiam vivências difíceis, passadas a trabalhar nas plantações de tabaco ou, posteriormente, durante os anos da Depressão, nas fábricas da cidade.

Já não há heróis como Patsy Cline, Loretta Lynn, Ray Acuff, Chet Atkins (que abriu caminho ao denominado “Nashville sound” através da utilização exaustiva da câmara de eco) ou o grande Hank Williams Sr., fazedor de música e de mitos, alcoólico expulso da catedral e encontrado morto no assento de trás de uma limusina antes de uma atuação.

O “boom” da “country”, ocorrido na passagem para os anos 60 é assinalado pelo aparecimento de estúdios (como o da RCA) e estações de rádio inteiramente dedicados à sua divulgação. O número destas passa rapidamente de 81, em 1961, para cerca de 2000. O jazz, os “rhythm & blues” e a pop infiltram-se nas raízes originais, provocando uma multiplicidade de variantes que vão desde o “bluegrass” tradicional ao “crossover country” e à atual vaga “pop country”. Emmylou Harris aproveita tudo, incluindo canções de Bruce Springsteen, alargando sem preconceitos o vocabulário do género. Hank Williams, o filho, segue as pisadas do pai na vida vagabunda de música, álcool e mulheres. Cita como influências Fats Domino, Little Richard e Chuck Berry – a “grande música branca” devedora da negritude. Rattlesnake Annie volta tão atrás como pode, buscando na alma dos “blues” a força que a faz cantar. Os pusristas clama que a sua música “está a perder a identidade”. O público não se importa e consome cada vez mais.

Os sons do Sul alternam com imagens de arquivo, como as de Carl Perkins, ao vivo em 1968, interpretando “Blue Suede Shoes”. Anos antes foram a “Sun records” e o “Rockabilly”, mistura de “country”, “blues” e “rock ‘n’ roll” – Hank Williams Sr., Jerry Lee Lewis, Gene Vincent e o rei Elvis.
Nashville atrai como mel. Bob Dylan não consegue encontrar em Nova Iorque os músicos de que necessita. Encontra-os em Nashville, onde grava a obra-prima “Nashville Skyline”, com Johnny Cash como convidado. Emcionante ver e ouvir os dois, lado a lado no estúdio, durante a gravação de “1000 miles behind”. “Nashville Skyline” e “John Wesley Harding” permitem a Dylan ocupar um lugar na galeria das personalidades ligadas à “country music”. Nashville torna-se conhecida em todo o mundo. A música que nela pulsa faz hoje parte da história e do imaginário dos States. “The Other Side of Nashville” retrata o interior de parte dessa história, de forma séria e sentida. Vivemo-la como se fosse um filme dentro desse filme maior que é a América inteira. ***

17/10/2008

Kate Bush - The Sensual World

Pop Rock

10 ABRIL 1991
VÍDEOS

KATE BUSH
The Sensual World
PMI, Emi-VC, 36 min.

Ao contrário do que o título faz supor, não se trata de imagens alusivas ao mais recente álbum da cantora, mas de uma entrevista em que esta fala de si própria e dos seus métodos de trabalho – ficamos a saber, por exemplo, que Alfred Hitchcock é a maior das suas fontes de inspiração ou que utiliza a seu bel-prazer as energias masculina e feminina –, intercalada de excertos de “clips” sortidos, como “Running up that Hill”, “Cloudbursting”, “Big Sky”, “This Woman’s Work” (canção de “Sensual World” apenas incluída no CD) ou o próprio título que dá nome ao álbum, entre outros.
De beleza falsamente ingénua, abrasiva e pose dançarina de “The Kick Inside” (Verão escaldante, logo que a vemos cantar e dançar em “Wuthering Heights” ou no espectáculo ao vivo de 1979, no Hammersmith Odeon) até à actual maturidade, vai a distância que separa a mulher de voz e expressão exóticas – e eróticas – da artista completa. Faz uma certa impressão vê-la ao natural, mais velha e sem maquilhagem. Às vezes é preferível desconhecer o rosto verdadeiro, escondido por detrás dos nossos sonhos. Em termos musicais, Kate Bush não tem parado de progredir, afirmando-se, de álbum para álbum, como uma das mais interessantes compositoras e vocalistas da actual cena britânica. “The Dreaming” e “Hounds of Love” revelaram-na apostada em seguir as vias difíceis do experimentalismo. “The Sensual World” acrescenta novos mundos ao seu universo temático-musical. Que misteriosas estradas vão desde a alma até à flor da pele? Por que gestos e sons se abrem as portas do prazer? No “clip” de “The Sensual World” é princesa e depois apenas mulher, caminhando contra o tempo numa floresta de fábula. Folhas, neve, fogo, texturas de cor e estrelas. Rosácea de segredos. Império dos sentidos. ***

14/10/2008

Eurythmics - Greatest Hits

Pop Rock

10 ABRIL 1991
VÍDEOS

EURYTHMICS
Greatest hits
RCA, distri. BMG, 1h35m

Fazendo parte de um pacote que inclui ainda o álbum, a cassete e o CD, estes “Greatest Hits” não escondem que pretendem em primeiro lugar facturar e depois, se possível, facturar um pouco mais. De facto os “hits” estão cá todos e os clips que ajudaram a criar a imagem de Annie Lennox servem-se a frio.
Registados entre 1982 e 1991, aqui se alinham os sonhos que fizeram gemer muitas mulheres em busca de uma feminilidade liberta e ao mesmo tempo confundidas pela androginia assumida do seu arauto. Os sonhos “are made of this”, de ambiguidade e perucas que não deixam descobrir a careca – avisa logo de início a loura de cabelos curtos e olhos da cor do mar, antes de se atirar a hora e meia de trocas e baldrocas.
Ao longo dos 21 clips que constituem o “long form”, Annie Lennox é dona de casa, provocadora, anjo, diabo, “starlette”, Marilyn, espírito desencarnado, feminista, homem, mulher ou o que fica no meio. Tudo ao mesmo tempo, em “The king and queen of America”. As canções que foram êxito estão cá todas: “Love is a stranger”, “Sex crime”, “There must be an angel”, “Sisters are doin’ it by themselves”, “When tomorrow comes” e por aí fora, num nunca mais acabar de máscaras que sucessivamente se vão vestindo e despindo para melhor trocar as voltas às libidos a quem não é dado um segundo de descanso. Se num momento Annie deixa cair a alça do vestido e mostra o “soutien”, no outro só lhe falta o bigode para parecer rapaz, não fora o brilho inconfundível do olhar e o resto, às vezes difícil de esconder.
Típicos de intenções afinal nunca ocultadas, o dueto sem disfarces mantido com Aretha Franklin, no manifesto das vitórias de classe que é “Sisters…” ou o “mudar de vida” da doméstica frustrada que gosta de ouvir Beethoven, revelam uma personalidade fascinante capaz de juntar a atitude interventiva à acessibilidade das propostas musicais. Neste aspecto, agradeça-se ao homem da casa – Dave Stewart –, artífice ofuscado pelo brilho da cantora, sem o qual, porém, os amanhãs jamais ousariam cantar. ***