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20/05/2026

Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher

 

Pop Rock

18 de Dezembro 1991

 

A QUEDA DA CASA DE HAMMILL

 

Peter Hammill
The Fall of the House of Usher
2xLP, CD, Some Bizarre, import. Contraverso


    Há quase vinte anos que os incondicionais de Peter Hammill ouvem falar na célebre ópera. Esta chegou finalmente, e com ela o sabor da desilusão. O perfeccionismo, a tentativa de deixar para a posteridade um testemunho definitivo do seu génio foram fatais para o antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator. Aprisionado num estilo que no passado frutificou nas obras-primas “Pawn Hearts”, “In Camera”, “Over”, “The Future Now” ou “A Black Box”, Hammill revelou-se, a partir deste último disco, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições, arrastando-se em “In a Foreign Town” e “Out of Water” numa agonia que nem a experiência com computadores de “Spur of the Moment” conseguiu sarar.

A famigerada ópera parte da narrativa de Edgar Allan Poe, “A Queda da Casa de Usher”, adaptada a “libretto” por Chris Judge Smith. Escolha óbvia de enquadramento para as paranóias do músico: a incomunicablidade, a hipersensibilidade mórbida, a tendência para a autodestruição. Hammill incarna, como não podia deixar de ser, a figura do nobre alucinado Roderick Usher, que vive aprisionado nas paredes – as suas paredes, o seu pesadelo – de uma casa doente. Andy Bell é o amigo, Montresor. Lene Lovich, a irmã, Lady Madeline, enterrada viva por Usher. Herbert Grönenmeyer, o ervanário. Não falta o coro, à maneira das tragédias gregas, interpretado por uma só voz, de Sarah-Jane Morris, e as “vozes da casa”, desempenhadas por Peter Hammill.

A história da maldição, loucura e decadência, que consuzem à ruína final, não podia ser melhor escolhida para traduzir o universo estético-existencial do ex-Van Der Graaf. À música, infelizmente, falta o fulgor e o génio de que este foi pródigo em obras anteriores. A insistência sistemática nas texturas orquestrais realizadas por computador procura, ao nível da paleta tímbrica, associações com a grandiosidade desesperada da sequência “Gog/Magog” de “In Camera”, mas a repetição dos registos de cravo e a tirania das cordas, interrompidas por uma ou outra ousadia pontual, acabam por tornar monónota a audição.

Como novidade, apenas os jogos vocais e a presença de vozes femininas, inéditos na obra do compositor. Dos seis atos em que se divide a obra, da descrição da paisagem desolada que rodeia a casa maldita à derrocada final, destacam-se o tom sinistro das sobreposições vocais de Hammill em “Architecture”, síntese de uma das suas obsessões de sempre, a fobia dos espaços fechados e a simbiose edifício-homem, evidente em temas anteriores da sua discografia como “A house with no door”, “(In the) black room” e “A louse is not a home”, e o diálogo Usher/Montresor em “Leave this house”, dilaceração de Roderick Usher entre o apelo do amigo para abandonar o ventre do monstro e a consciência de um destino trágico a cumprir no seio da casa. O ancestral combate entre as forças do bem e do mal, entre os anjos e os demónios que vivem dentro de cada um de nós, que Hammill já gritara no emblemático “Killer”, de “H to He, who am the only one”.

Temas como “One thing at a time” ou “The herbalist” dir-se-iam escritos por Meat Loaf. Na maioria dos casos, a música contenta-se em servir de contraponto às palavras. Faltam sobretudo ideias, uma dinâmica diferente, de maiores contrastes, que sublinhasse com outra força o desenrolar da tragédia. Não era Hammill (e neste “era” ressoa a mágoa da oportunidade perdida) o pai de todos os excessos? (6)

Egberto Gismonti Group - Infância

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

EGBERTO GISMONTI
Infância
CD, ECM, distri. Dargil


O pecado de Egberto Gismonti é querer parecer europeu. Em “Infância”, o músico perde muito da magia a que nos habituara em trabalhos anteriores à fase ECM e parte do fulgor que hbbita ainda obras já gravadas com o selo alemão. Aqui a intuição dá lugar a um discurso mais analítico, mesmo quando títulos como “A fala da paixão” ou “O amor que move o sol e outras estrelas” parecem sugerir o contrário. Álbum de progressões lentas e de assumida contenção, “Infância” prova que o reconhecido virtuosismo instrumental de Gismonti, ao piano ou na guitarra acústica, por si só não chega para entusiasmar, soando forçado e perdendo-se não poucas vezes em exercícios de estilo destituídos de chama interior, como acontece nas danças finais, nºs 1 & 2, ou na construção dos edifícios harmónicos com o violoncelo de Jacques Morelenbaum, falhos de originalidade e de inspiração. Bastante mais compensador é escutar Gismonti em “Kuarup” – reeditado ao mesmo tempo que esta “infância” desvalida que até vai buscar, na capa, um poema de Pessoa – encontro do músico com as raízes e o mistério da tradição e cultura do povo Xingu da Amazónia. Onde as águas e o génio fluem com a naturalidade que só a convivência com a verdade permite. (6)


David Sylvian & Russell Mills - Ember Glance

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

 

DAVID SYLVIAN & RUSSELL MILLS
Ember Glance
CD, Virgin, distri. Edisom


Subintitulado “The Permanence of Memory”, o trabalho em questão é o tipo de “bibelot” cultural destinado a alimentar polémicas mais ou menos interessantes, mais ou menos estéreis sobre o esteticismo, o classicismo das formas, os novos estilistas e o próximo Wenders. De preferência no Bairro Alto. “Ember Glance” ilustra de forma exemplar uma das facetas da arte atual que tende a valorizar o formato, o primado do aleatório, a ambivalência das formas abertas à informação, a aparência, em detrimento do universal.

Trata-se, se não perceberam já, de uma “instalação de escultura, som e luz” montada no “Temporary Museum” de Tóquio, que faz parte de uma série de “exposições, instalações e ‘performances’ experimentais”. Arte, enfim. Esse mundo maravilhoso que ajuda a fazer deste mundo um mundo melhor. Ao folhear o livro profusamente ilustrado (97 pp.), ao passar os dedos pela embalagem, ao puxar a fitinha (sim, há uma fitinha roxa para puxar) somos siderados com tanta coisa bonita, tanta cor, tantos grafismos pós-modernos, tanta fotografia neoclássica, com luzes, contraluzes, desfocagens, recortes de folhas, tubos, manchas, anotações à margem, “ready-mades” maricas, enfim, por mil e uma variações sobre a aparência das coisas.

A obra abre (a verdadeira obra de arte é a que abre) com uma citação do Dalai Lama (David Sylvian é muito dado às coisas do Oriente, fundou os Japan, pisca os olhos ao Zen, eu sei lá…): “A qualidade da arte é que faz com que as pessoas que geralmente olham para fora passem a olhar para dentro.” Escutado o CD de ponta a ponta, permanecemos quietos e expectantes à escuta, de ouvidos e olhos em bico, ansiosos para coscuvilhar o lado de dentro, de preferência debaixo do vestido do borracho do lado. Nada aconteceu. O raio X não acendeu. Os cerca de 30 minutos de “música” de fundo, meio restolhar de metais, meio ruído branco, atravessados de 15 em 15 segundos pelo repicar de sinos não foram suficientes. Voltámos a ler o manual: “A estrada que conduz ao aperfeiçoamento de níveis mais altos de consciência alcança-se em parte através de um processo de autoquestionamento.”

Então era isso! Redobrámos a concentração e escutámos o repicar dos sinos, ao mesmo tempo que nos autoquestionávamos, enquanto não fôssemos acusados de descurar algum aspeto, passávamos os olhos pelos bonecos. Em vão. Nenhuns “níveis subtis de perceção” por aí além, nada de ver os acontecimentos de um ponto de vista interior, mais consciente e unificado”. Permanecemos broncos.

“Ember Glance” examina as “ideias de espaço, tempo e memória”, através da utilização de sons, luzes e objetos” deslocados do seu contexto natural e dispostos segundo um espaço teatral, libertos das associações vulgares”. E por aí fora, num tratado de filosofia que procura a todo o custo validar o vazio. No fim de contas, não é o vazio o centro de que falam os budistas? A ideia de “música para instalações” não é nova. Dos Velvet Underground e Andy Warhol e a sua “Exploding Plastic Inevitable”, a Laurie Anderson e Brian Eno, que a música popular (já não falando da infinidade de experiências levadas a cabo no campo das “novas músicas”) tem procurado a todo o custo essa síntese utópica entre as diversas formas de expressão artística, em projetos “multimédia” de menor ou maior dimensão.

Lembremos, por exemplo, alguns projetos de Brian Eno, como o das esculturas-vídeo, o “muzak” ambiental do CD “Thurday Afternoon”, para citar um nome com o qual Sylvian e Mills (pintor, “designer” e ilustrador que já havia trabalhado nas “esculturas de luz” de vários artistas da Land, editora de Brian Eno, ou no “show” de luzes de um espetáculo de Graham Lewis e Bruce Gilbert, dos Wire) mantêm pontos de contacto.

Tudo isto é verdade, interessante e digno de especulação. Sylvian e Mills são artistas respeitados, com um currículo de prestígio. O que não impede que “Ember Glance” seja chato do princípio ao fim. Há ruído e ruído, e não faltam, na música atual, registos cuja audição pode provocar de facto transformações nos hábitos de escuta do auditor, senão mesmo na sua estrutura orgânica, para o melhor e para o pior. “Ember Glance” fica-se pelos sinos e pelas intenções. (4)

14/05/2026

Madurezas [Eros Ramazzotti, Cliff Richards]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

MADUREZAS

 

Cliff Richard e Eros Ramazzotti personificam, à sua maneira, os lados “bom” e “mau” do Natal discográfico deste ano, fornecendo estímulos opostos ao apelo contraditório que pulsa no coração e na líbido da meia-idade. Entre a depravação e a abstinência, que venha o Pai Natal do mau gosto e escolha.

 

EROS RAMAZZOTTI
Eros in Concert
2XLP/CD, DDD, distri. BMG

 

CLIFF RICHARD
Together
LP/CD, EMI, distro, EMI – Valentim de Carvalho

 


 

A humanidade divide-se em duas partes, como diria o sociólogo Serafim Saudade: a parte A e a parte B (sem falar na parte C, que são as minorias). No Natal, só conta a parte B. “B” de bons e boas. “B” de beleza, “B” de boa vontade. No Natal, toda a música é boa e penetra melhor nos corações. Tendo em conta o que nos é proposto pelos discos que esta quadra pousaram de trenó nas chaminés (“Música para Fazer Amor”, por exemplo), ela é capaz até de dar “uma forcinha” e ajudar a penetrar noutros lugares, quiçá mais íntimos, mas que nem por isso deixam de fazer parte da natureza humana.

Às vezes, porém, exagera-se e vai-se longe de mais. É o caso do duplo-álbum “Eros in Concert” do italiano Eros Ramazzotti. Eros era considerado pelos gregos o deus (melhor dizendo um “daimon”, demónio, no sentido de génio) do amor. Adaptando as funções do “daimon” às necessidades do coiso, e contemplando o ser na sua totalidade, Eros acabou por dar para os dois lados, como se costuma dizer. O HIV ainda hibernava.

 

Eros em ação

 

“Eros in Concert” é um disco e uma metáfora sobre o amor, na sua vertente “último tango”, dirigida à meia-idade – aquela que pisca muito os olhos, quando traz do clube o vídeo “hard-core”, para ver a meias com o cônjuge, numa atitude de “grande abertura de espírito”, que serve de preliminar às aberturas consequentes.

Toda a gente sabe que ao vivo é que é bom. À distância, não tem muita graça. Em estúdio, também não costuma resultar, devido à falta de espaço. Eros Ramazzotti sabe isso muito bem e trata de friccionar as líbidos das multidões, sugerindo orgias monumentais, que acabam por retirar muito de significado àquela maravilhosa diálise entre dois seres que é o amor.

Basta observar a fotografia impressa na parte interior da capa, para ficarmos a perceber as verdadeiras intenções deste pornógrafo encapotado: uma multidão ululante de braços bem erguidos para o alto, em estado de tensão latente. É óbvio que os braços são metáforas, e é neste ponto que deveria haver um pouco mais de contenção (já não digo de puidor), na exibição descarada dessa ascese gestual. Na contracapa, as coisas pioram, já que na foto é o próprio Eros que ergue o braço, com o dedo indicador bem espetado para a frente.

Depois, os títulos das canções não enganam: “Intro” (versão “soft” de “Introdução”), “Fuggo dal nulla” (“Fogo nela”), “Taxi story” (“No banco de trás”), “Ciao pà” (“Não me apetece, pá”) e “Ancora vita” (“Ainda mais depressa”). Todo um estendal de obscenidades de fazer corar o mais liberal. Mas no calor e no aconchego do lar, o casal, não de pombinhos, mas de pombos, dá cambalhotas de contente (correndo mesmo o risco de, numa pirueta mais exuberante, deitar abaixo o pinheiro de Natal) e refastela-se na perversão. Que ninguém se iluda. A cada cambalhota, a cada pinote, é toda a civilização ocidental que vacila, minada nos seus alicerces.

Nesta perspetiva, “Eros in Concert” é bem um disco do nosso tempo e um exemplo acabado da atitude pós moderna, que serve de antecâmara ao apocalipse. Homens e mulheres de Portugal é isto que quereis? Não, mil vezes naaããooo! Lancemos Eros à fogueira e cantemos todos juntos um hino de Natal.

 

Ágape em descontração

 

Por exemplo, o álbum de Cliff Richard, “Together”, serve na perfeição para nos limparmos do pecado e juntarmos as mãos, num gesto fraterno de amor ao próximo. Desde sempre mouco aos apelos do Eros demoníaco, Cliff Richard continua a representar o papel de rapazinho virtuoso que só dá bons conselhos e aponta o caminho da salvação (diferente do dedo ostensivo de Ramazzotti). Olhar a expressão extasiada, sobre um fundo de estrelas, que ostenta na capa, é meio caminho andado até ao paraíso. O outro meio, nem se dá por ele. Entre um suspiro e um cântico de paz, eis-nos chegados ao céu, levados pelo beicinho, ao som da voz de menino de coro de Cliff Richard.

“Saviours’s day”, “Merry Christmas to you”, “We should be together” ou “Christmas alphabet” são outros tantos hinos de amor, agora sim, na sua plenitude de comunhão (platónica, atenção!) com o próximo, dando sentido ao “ágape” que simboliza o casamento. Dar as mãos, porque não? Olhar as estrelas, porque não? Um beijo na testa antes de adormecer, porque não? São gestos bonitos, que dignificam o ser humano, exemplos a seguir por todos os homens e mulheres de boa vontade, em vez de andarem pelos caminhos da perdição e da pouca vergonha.

“Let your heart be high”, “Someday soon we all will be together”, “Sleep in heavenly peace” são apenas alguns exemplos escolhidos ao acaso das letras de canções de Cliff Richard. Palavras sábias, que calam fundo nos corações de todos. Saibamos ser dignos delas. E para os casais entrados na meia-idade aqui fica o conselho, dado pelo cantor, em “This new year”: “Don’t you depend on love that’s here then gone/this new year we’ re gonna find true love and cherish it always”. A mensagem não podia ser mais clara: “Prò ano que vem trabalhem mais e façam isso menos”. Vamos entrar na CEE e há que poupar energias. Por que não já neste Natal?

 

13/05/2026

V/A - "Tom's Album"

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VÁRIOS
Tom’s Album
LP/CD, A&M, distri. Polygram

 


“Tom’s” é o nome de um restaurante da zona alta de Manhattan, onde Suzanne Vega costuma tomar o pequeno-almoço. Uma série de acontecimentos ocorridos numa manhã chuvosa de 1982 levaram-na a escrever “Tom’s Diner”, canção incluída em “Solitude Standing”. Mais à frente, na mesma história, os DNA samplaram-lhe a voz e acrescentaram-lhe uma batida de discoteca. Da pilhagem resultou uma edição pirata que finalmente acabou por se tornar um disco oficial e um “hit” de razoáveis proporções. Nasceu da própria cantora a ideia de recolher e compilar em disco várias dessas versões de “Tom’s diner”, escutadas através de amigos, emissões radiofónicas, espetáculos em clubes, etc. Versões descritas por Suzanne Vega como “engraçadas”, “brilhantes” ou “estranhas”. Escutadas uma a uma, conclui-se que o primeiro adjetivo é o que melhor se lhes aplica. É engraçado ouvir “Tom’s diner” cantada em alemão por Peter Behrens e, mais engraçado ainda, em sueco, por Mats Höjer. É engraçada a versão reggae de Michigan & Smiley. Engraçadíssimas as vozes ao vivo dos Bingo Hand Job, a imitarem os instrumentos. Apetece dar gargalhadas e bater palmas com tanto rap, scratch e disco. “Tom’s diner” dá para tudo, até para tratar de uma “gravidez acidental” (Daddy’s little girl”, Nikki Sudden) ou da guerra do Golfo (“Waiting at the border”, Beth Watson). Ou para os italianos, especialistas neste tipo de operações, torpedearem os próprios DNA ao assinarem n.d.a…. (6)

 

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou - Les Nouvelles Poliphonies Corses

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

LES NOUVELLES POLYPHONIES CORSES AVEC HECTOR ZAZOU
Les Nouvelles Polyphonies Corses
CD, Philips, import. Contraverso


À primeira vista, “Les Nouvelles Polyphonies…” poderia passar por mais um exemplar, entre muitos, de “world music”. Os arranjos de Hector Zazou introduzem a diferença, num disco que não destoaria na série Made to Measure. No canto corso, de reminiscências gregorianas, por vezes evocativo dos cantares alentejanos, encontrou Zazou matéria suficiente para mais um exercício de miscigenação. Entre o canto poderoso dos rituais “paghjella” que ligam a comunidade às forças cósmicas e a eletrónica. Tradição e futuro irmanados no desejo de elevação. Síntese do antigo e do novo, do Oriente e do Ocidente, do corpo e da tecnologia.

Ponto fulcral de cada tema, as vozes e a sua harmonia determinam a orientação dos arranjos de Hector Zazou e as interpretações de uma constelação de grandes músicos, sensíveis à grandiosidade do terramoto vocal e à essência do canto corso: Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, Steve Shehan, Richard Horowitz, Manu Dibango, Jon Hassell, John Cale e o grupo de música eletrónica Lightwave, para além do próprio Zazou. Como se pode ler na contracapa: “Declaração de amor, poemas de esperança ou de sofrimento, as polifonias cantam também a terra queimada pelo sol, a água que corre, o crepúsculo e a alvorada, a alma profunda do povo corso. (8)

Fish - Internal Exile

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

FISH
Internal Exile
LP/MC/CD, Polydor, distri. Polygram 

     Fish continua a imitar Peter Gabriel. Depois de ter abandonado os Genesis, perdão, os Marillion, o vocalista gordo com ar de camionista, à semelhança do outro, investe a todo o vapor na carreira a solo. “Internal Exile” possui a grandiosidade das coisas inúteis.

As letras são variantes, sem grande sentido (em matéria de canções carregadas de intenções subjetivas, pode ser uma virtude), de sagas tipo “The battle of Epping forest”, dos Genesis, alternando as referências célticas (Fish diz que a Escócia, seu país de origem, lhe serviu de principal inspiração) de “Shadowplay” e “Internal Exile” (tem a credibilidade de “Mull of Kintyre” e a subtileza de uma claque de ‘hooligans’) com a crítica mais ou menos social de “Credo”, “Tongues” e “Dear friend”, e outras patacoadas sortidas. Também numa linha genesiana ortodoxa, teve a preocupação de polvilhar os textos de nomes próprios de difícil pronúncia, que tanto podem significar gentes e lugares mitológicos como a rua do lado: Dalkeith, Monktonhall, Ravenscraig, Armagh, Genoa, Lothian, Grangemouth…

Escapam duas canções capazes de deixar marca por mais de três segundos: “Shadowplay”, em que, para além da imitação, há verdadeira inspiração, e “Favourite stranger”, sombria e brilhante nas assombrações de um piano elétrico deixado a gotejar. De resto, para Fish, tudo o que vem á rede é peixe. (4)


11/05/2026

Ramuntcho Matta - Domino One

 

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991

LP’S

 

RAMUNTCHO MATTA
Domino One
CD, Made to Measure, distri. Contraverso

            Das 17 peças que constituem o dominó, as dez primeiras foram compostas para a peça de bailado “Via”, coreografada por Régine Chopinot, as três seguintes para um vídeo do próprio R. Matta e as quatro últimas para “El Laberinto”, peça teatral levada à cena pelo Teatro de la Claca. Ramuntcho Matta é um compositor, guitarrista e teclista chileno pouco ou nada conhecido entre nós. Estudou o tango argentino e as técnicas vocais indianas. Em Nova Iorque, no início dos anos 80, conheceu e sofreu a influência de John Cage e de Laurie Anderson.

            “Domino One” exige ao auditor um total desprendimento e o abandono dos hábitos ocidentais de escuta. É um espécime diferente, exemplificativo de um certo “concretismo étnico”, que, no aspecto formal, é devedor das teorias de Cage. Disco estranho, meditativo, nalgumas faixas (sobretudo nas curtas sequências de guitarra acústica) recolhido num primitivismo que do despojamento de meios parte para a criação da hipnose. Como em “O Clapo”, sete minutos de sussurros de Eli Medeiros sobre o ritmo do chapinhar de água.

            A influência indiana detecta-se em particular nas sequências de percussão de “Zoique III” ou em “Ne”, pequena maravilha burilada em vento, tablas e sons residuais da Natureza. “Domino One” desenha as paisagens do paraíso anterior à técnica, em exotismos de cor, arritmias pré-históricas, ruídos selvagens, melopeias infantis, cacarejos de galinhas e o som indescritível de uma “marimbula”. Abordagem intuitiva dos sons, deixados a voar à solta num redemoinho de sensações. A sequência final, acompanhando os vários momentos do dia, sendo a única descritiva, é também a única que permite uma identificação com os parâmetros ocidentais – um jazz tribal, apoiado nos fraseados guturais do saxofone de Cacau (tocou com Hermeto Pascoal) e do trompete de Guillermo Fellove. Música anterior ao pecado original. (7)

Fred & Ferd - Dropera

 

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991

LP’S

 

FRED & FERD
Dropera
CD, Rec Rec, distri. Contraverso


 
            “Fred” é Fred Frith. “Ferd” é Ferdinand Richard. Do primeiro já tudo ou quase se disse. Ferdinand Richard é desde sempre o baixista, vocalista e principal dinamizador dos Etron Fou Leloublan, mistura francófona de Captain Beefheart, Brecht e free-jazz. “Dropera” prossegue um trabalho de colaboração há muito encetado por ambos em vários projectos da Recommended. A referência à ópera reduz-se neste caso à continuidade narrativa e conceptual de um disco que, no resto, subverte por completo os códigos daquele género.

            O “libretto” gira à volta das aventuras de um “escocês vendedor de Whisky e de um cozinheiro francês perseguido pela polícia por ter inventado um alimento milagroso”, numa viagem alucinatória através de restaurantes e de sonhos em situações absurdas onde a acumulação ilógica de símbolos acaba por valer sobretudo pela sua riqueza fonética. Táctica semelhante à seguida por René Lussier em “Le Trésor de la Langue”, mas onde as pretensões de tratado linguístico são substituídas pelo humor, por vezes negro, que aproxima “Dropera” dos delírios surrealistas.

            No capítulo sonoro, abundam as surpresas, em arranjos que dão livre curso às excentricidades e ao virtuosismo dos dois músicos. Descontando o facto de Richard não ser propriamente um grande vocalista, dando por vezes a ideia de querer encaixar à força o texto na música, “Dropera” leva-nos à deriva, pela estranheza dos sons e das palavras, através de universos alternativos. Uma espécie de “Submarino Amarelo” dirigido por Dada. (8)

10/05/2026

Wir - The First Letter

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

WIR
The First Letter
LP/CD, Mute, distri. Edisom

 Uma imagem com texto, carta

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     Perderam a última letra (o título refere-se à primeira…) pelo caminho, mas não o espírito de aventura que desde sempre lhes tem permitido manterem-se à margem de qualquer futilidade. Sucessor do minimalismo maquinal de “The Drill”, o novo álbum consegue de novo esse milagre de equilíbrio entre a veia experimentalista de Gilbert e Lewis e a intuição melódica de Newman, num lote de canções que acaba por ser o seu melhor de sempre. Passado o tom espartano dos primeiros discos, de que resultou o inesquecível “154”, cada um dos membros dos Wire ensaiou experimentalismos obscuros nos projetos Dome, He Said (este menos) ou Duet Emmo, que finalmente serviram para enriquecer a música do grupo original. Testemunho desse enriquecimento, a nova coletânea de temas, entre a reminiscência dos Kraftwerk e a obliquidade das melodias, atinge o auge de ambiguidade em “So and slow it grows” (um potencial “hit” aqui editado em duas versões), que alia o tom vagamente sinistro das palavras a um balanço irresistível. (8)

 

Nitzer Ebb - Ebbhead

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

NITZER EBB
Ebbhead
LP/CD, Mute, distri. Edisom

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     Música a músculo. Para os Nitzer Ebb, Douglas McCarthy e Bon Harris, cada disco é uma prova de força. E de poder. “Ebbhead” é tão poderoso e militarista quanto os anteriores “That Total Age”, “Belief” e “Showtime”, tendo sobre estes a vantagem de ser mais subtil. Subtileza que os afasta de vez da síndrome rítmica DAF que sempre os perseguiu (notória ainda em temas como “Time” e “Ascend”), impelindo-os para paragens bem mais variadas. Tão cruelmente dançável como os anteriores (“Family man” arrisca-se mesmo a intoxicar as discotecas), “Ebbhead” aposta, porém, numa maior complexidade dos arranjos e num registo vocal que, desta vez, se situa perto das contorções épicas de Jim Thirlwell (Foetus). Os computadores e as máquinas de ritmo tornaram-se mais delicadas. O discurso do poder permanece, saturado de veneno, martelado pela repetição de palavras de ordem e a exposição de uma ou outra atrocidade. Os Nitzer Ebb prosseguem a guerrilha. Exterminadores agora menos implacáveis. (7)

 

Holger Hiller - As Is

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 6 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

ANATOMIA DO PORMENOR

 

HOLGER HILLER
As Is
CD, Mute, import. Contraverso

 Uma imagem com logótipo

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     Seria necessário recuar até ao princípio do século, à aventura serialista e aos delírios “concretistas”, passando pela pop experimental dos Faust, ou pelo desconstrutivismo niilista dos Einstürzende Neubauten, para uma aproximação fundamentada à essência da música de Holger Hiller.

Mestre das técnicas de colagem e “samplagem”, e da utilização heterodoxa do computador, Holger Hiller integrou uma das bandas mais interessantes da pop vanguardista alemã da última década, os Palais Schaumburg. Antes disso, tinha gravado uma ópera sobre a temática das “calças”.

Para quem desconhece os seus dois primeiros álbuns, “Ein Bundel Faulnis in der Grube” e “Oben im Eck”, “As Is” poderá surgir à primeira audição como uma bizarria incompreensível, um exercício de estilo nascido de uma mente desequilibrada. Um banho de radiações emitidas por um pulsar a anos-luz de distância do centro habitável da galáxia eletrónica. Depois, por baixo das aparências, percebe-se que uma lógica, por ilógica que pareça, se revela nas profundezas do vórtice sonoro.

Holger Hiller procede como um fotógrafo. A técnica é aparentemente simples, mas tem por limite o infinito: a ampliação de pormenores, a dissecação de frequências – operação capaz de transformar cada pedaço de música arrancada às entranhas e à sensibilidade pós-moderna, em algo inteiramente novo.

Imaginem-se pormenores de um “rap” dos De La Soul. De uma ária operática. De um martelo-pilão em atividade. De um ensaio dos Faust. De um fractal. Holger Hiller amplia cada parcela, descobrindo no seu interior novas formas, novas possibilidades de transmutação. A ideia de uma micromúsica não é nova, tendo sido já explorada, em sentidos opostos, por Stockhausen ou, mais recentemente, por Graeme Revell, em “The Insect Musicians”. Em Holger Hiller essa “microscopia”, chamemos-lhe assim, é sobretudo mental e conceptual. Ao contrário dos compositores referidos, o processo de composição não se organiza segundo operações matemáticas nem processos computacionais, mas a um nível intuitivo, anterior ao “modus operandi” propriamente dito. Trabalho de atenção e (re)conversão. Revelação e ampliação. Holger Hiller, fotógrafo dos sons, escuta, isola, recorta, abstrai, sintetiza e reconstrói. Cada ideia, cada som, cada parcela de som são sempre resultado e ponto de partida para novo avanço, nova ampliação, nova operação alquímica. Matéria e forma de uma música em permanente movimento. Em Ato, como diria Aristóteles. A música de “As Is” prolonga e atualiza a dos dois últimos álbuns anteriores, aprofundando-a, revelando novas paisagens, novas fotografias.

Se em temas como “Bacillus culture”, “Trojan ponies” e “Cuts both ways” o resultado se assemelha às refrações “dub” de Adrian Sherwood, ou, em “You”, a uma projeção desfocada de uma banda sonora de “filme negro” à maneira de John Zorn e “Spillane”, isso deve-se a um fenómeno de contaminação. Só a fotografia consegue focar e isolar os diversos momentos desse caos vibratório primordial, em que a totalidade das músicas se confunde num todo sincrético em constante movimento. Cada faixa de “As Is” é como que um instantâneo dessa “música total”.

Música a que, no limite paradoxal, Hiller procura dar forma de “canção”, buscando a reconversão definitiva da linguagem pop, na passagem pelo buraco negro (ou “câmara negra”) que filma e dá acesso ao “outro lado”. (9)

 

07/05/2026

Vladimir Estragon - Three Quarks For Muster Mark

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

VLADIMIR ESTRAGON
Three Quarks for Muster Mark
CD, Tip Toe, import. Dargil

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Os Vladimir Estragon contribuem, sem complexos, com a sua quota parte para a aniquilação, há muito anunciada e sempre adiada, do jazz. E não só por nas suas fileiras militar um dos demolidores de serviço nos Einstürzende Neubauten, F.M. Einheit. Exéquias celebradas nas contorções, sublimes e subliminares, do saxofonista e clarinetista Alfred 23 Harth (precisamente, antigo companheiro do homem dos Cassiber, Heiner Goebbels). Ulrike Haage fornece o suporte eletrónico, entre o martelo-pilão digital e o indizível de impossíveis manipulações sonoras. Einheit acaba com o resto, recorrendo às suas percussões metálicas e a eventuais curto-circuitagens elétricas: em “Seine Register” o CD ameaça explodir em estilhaços devido ao ruído parasita, ultra-amplificado, de um disco de grafonola riscado. Phil Minton, quando lhe dão espaço, amassa a própria voz como se fosse plasticina, moldando-a entre o gutural concreto de “Der verbleibende Haufen” e a microscopia a Schumann, “Die Nachtigall”. Na Alemanha os muros continuam a cair. (9)


A lenda de Henry "Pé de Vaca" [Henry Cow, Fred Frith]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> Reedições

 

A LENDA DE HENRY “PÉ DE VACA”

 

HENRY COW
The Henry Cow Legend (10)
Unrest (8)
In Praise of Learning (10)
CD, East Side Digital, import. Contraverso
 
FRED FRITH
Gravity (10)
Speechless (10)
Cheap at Half the Price (8)
CD, Rec Rec, import. Contraverso

 

    “The Henry Cow Legend” começa por ser diferente logo na capa: uma meia tecida em fios elétricos de plástico. A bizarria prossegue estranhamente nos dois álbuns seguintes, com novas versões da enigmática peúga. A explicação só mais tarde viria a ser fornecida pelo grupo: trata-se de um trocadilho com o título, que ninguém descortinara. “Legend” é lenda mas também, na mente distorcida dos lunáticos da vaca, “leg end”, o fim da perna, ou seja, o pé. Daí a meia. A música dos Henry Cow funciona um pouco neste registo entre Dada e uma bonomia esquizofrénica, sobreposição de lógicas suscetíveis de múltiplas leituras, que revela a cada audição pormenores insuspeitados e uma frescura e irreverência que o tempo não logrou apagar.

“Legend” parte do trabalho e das perspetivas abertas pelos Soft Machine (“Third” permanece como obra-prima absoluta dos anos 70), junta-lhe a loucura de Zappa, o “free jazz”, uns pós de Bartok e o perfume e elegância remanescentes dos jardins de Canterbury, para chegar a territórios e formas originais. O vanguardismo mais radical de “Amygdala” ou “The tenth chaffinch” alia-se à excentricidade pop de “Nine funerals of the citizen king” com a naturalidade e a cumplicidade de um sorriso. Improvisações delirantes, melodias intrincadas mas sempre apelativas, arranjos que num instante passam de uma impossível complexidade à simplicidade mais desconcertante, contribuem para fazer de “Legend” um manancial de surpresas e descobertas. Fred Frith, Chris Cutler, John Greaves, Tim Hodgkinson e Geoff Leigh constituem a primeira formação da banda. No álbum seguinte, “Unrest”, Lindsay Cooper (oboé, fagote, flauta de bisel) substitui Geoff Leigh.

“Unrest” é um disco mais difícil, ganhando em densidade e numa maior incisão instrumental o que perde em humor. Onde “Legend” é intervencionista (característica imputável a Chris Cutler, ideólogo de uma espécie de anarquismo esotérico, omnipresente em toda a obra dos Henry Cow, em particular no derradeiro manifesto “Western Culture”, e prosseguida no seio dos Art Bears) de forma distanciada e cifrada, “Unrest” é obscuro, solene, denso, por vezes perturbante. Joga-se com metalinguagens estruturais e com a ambiguidade da gramática: “Half asleep; half awake”, “Ruins”, “Solemn music”, “Linguaphonie”, exploram os recônditos de uma música de câmara fantasmática que investe contra as normas pré-estabelecidas com a inexorabilidade de um “iceberg”.

Ousadias, estruturas e simetrias visionárias constroem o futuro num “trompe l’oeil” totalitário em “In Praise of Learning”, o álbum seguinte. Nesta altura junta-se à formação dos Henry Cow a “troupe” extravagante dos Slapp Happy: Peter Blegvad, Anthony Moore e Dagmar Krause. “Como sempre, a heterodoxia, o fascínio pelos jogos conceptuais, a recusa da “normalidade”. O disco constitui como que uma manifestação prévia da obsessão de Cutler (nomeadamente ao nível dos textos) pela temática do Apocalipse, presente, de uma maneira ou de outra, em “The World as It Is Today” dos Art Bears e posteriormente disseminada nas discografias dos News From Babel e Cassiber, bandas que o percussionista viria a integrar no período pós-Henry Cow.

“Living in the heart of the beast” (“magnum opus” de 15 minutos que instaura a ordem no coração do caos), o golpe de faca vocal de Dagmar Krause em “War” ou a serração elétrica da guitarra de Frith em “Beautiful as the moon, terrible as an army with banners” destacam-se como traves-mestras deste edifício monumental, inserido na vasta acrópole arquitetada pelos Henry Cow. Ao canto inferior da capa, uma frase (de John Grierson) esclarecedora de toda uma atitude: “A arte não é um espelho, é um martelo.”



    Fred Frith, compositor prolífico e guitarrista pertencente ao clube restrito dos inovadores, tem, por seu lado, dispersado o talento por estéticas, projetos e colaborações incontáveis (seria fastidioso enumerá-las) que atestam uma vitalidade ímpar na produção musical contemporânea. “Gravity” e “Speechless”, compostos numa veia semelhante, constituem talvez, a par de “The Technology of Tears”, os pontos culminantes da sua discografia a solo. Posteriores às lições de “Guitar solos”, “Gravity” e “Speechless” desenham a geografia de mundos novos interligados pelas músicas tradicionais e por confluências estilísticas de toda a ordem.

Faixa a faixa, sucedem-se os cruzamentos de linguagens e a mestiçagem de estilos: o ambiente terceiro-mundista de uma rua de Porto Rico confude-se com um carnaval em Wall Street, os Shadows encontram-se com o rock industrial, recortes de guitarra ambiental dão lugar ao disco sound androide, um tema folclórico norueguês é partido aos bocados, cada um dando origem a um novo folclore imaginário. Os dois discos completam-se, na construção e no sentido.

“Gravity” conta com a participação dos Aksak Maboul e dos suecos Samla Mammas Manna (ambos membros da associação Rock In Oposition, que, na altura, integrava ainda os Henry Cow, os franceses Etron Fou Leloublan e os italianos Stormy Six). “Speechless” inclui na ficha técnica os Etron Fou Leloublan e os Massacre (Frith mais Bill Laswell e Fred Maher). Os CD incluem respetivamente mais cinco e seis temas que as versões em vinil.

Por último, “Cheap at Half the Price” (gravado originalmente para a Ralph Records, a mesma editora dos Residents, com quem, de resto, Frith também tocou, em “Commercial Album”...), no qual o guitarrista demanda o Santo Graal da canção pop. O resultado assemelha-se bastante aos primeiros discos de Brian Eno: melodias em contra-mão, vocalizações surreais, arranjos instrumentais pouco ortodoxos. O disco vale como curiosidade e pela comprovação do génio de Fred Frith, seja qual for o contexto em que se insere. No conjunto, seis documentos fundamentais para a compreensão do “outro lado” da música popular.

 

Cassiber - A Face We All Know

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CASSIBER
A Face We All Know
CD, ReR, import. Contraverso

 Uma imagem com texto, interior, roupas de cama

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     Se ainda é lícito falar de terrorismo estético, os Cassiber constituem a frente avançada da guerrilha contra esse “império do mal”, cujos contornos e ideologia tendem a adquirir formas cada vez mais ambíguas.

Chris Cutler (a ficha completa ocuparia a totalidade da página...), Heiner Goebbels (“O Homem do Elevador”...) e Christopher Anders, depois de “Beauty and  the Beast” e “Perfect Worlds”, persistem em manobrar no centro do Apocalipse. Textos de Cutler e de Thomas Pynchon, extraídos de “Gravity’s Rainbow”: “Íamos por um túnel de onde jamais sairíamos. Eu já sabia. Era o fim.” Palavras gritadas, sussurradas, alteradas. Por torrentes de raiva. Por sombras húmidas. Pelo Medo. Lucidez gelada. O filme derradeiro: “Quando fecho os olhos vejo os pensamentos. E as palavras. Em cores terríveis.”

O som (lembrando por vezes as emanações venenosas dos This Heat) completa o horror. Obsessivo, massacrante, por momentos aberto à ironia (o jazz de variedades, em “I was old”, as intromissões de inseto de “Philosophy”...). Os samplers de Goebbels rangem os dentes sobre a percussão-folia de Cutler. Música-manifesto. Sirene de aviso. Que rosto é este, que não ousamos nomear? (8)


04/05/2026

Johnny Winter - Let Me In

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

JOHNNY WINTER
Let Me In
LP/MC/CD, Virgin, distri. Edisom

 

    Dir-se-ia que nunca cortou o cabelo. Não faz mal enquanto, por detrás da imagem do avozinho “freak” com o corpo tatuado, Johnny Winter permanecer fiel à beleza rude dos “blues” e souber responder às tareias do destino com o grito de uma guitarra. Moldado na forma que determina os verdadeiros duros, segundo a máxima do “antes quebrar que torcer”, o albino de coração negro continua a ensinar aos mariquinhas como é. “Life is hard”, diz ele – e é verdade. A guitarra certeira, com o saber e a acutilância acumulados por anos de experiência, dispara à queima-roupa, sem segundas intenções nem terceiros sentidos. São “blues” a valer, em baladas como “Hey you” ou com a crueza pantanosa do Bayou, na ferida final de “Let me in”. “If you got a good woman” mostra até que ponto o velho feiticeiro sabe pôr uma guitarra a chorar. O rock ‘n’ roll de “Sugarre” (com Dr. John ao piano) serve para aliviar a tensão. O homem está há tanto tempo lá fora. Devagar e com cuidado, deixem-no entrar. (6)