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01/05/2026

A música em comício [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 9 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festa do “Avante!” 91

 

A música em comício

 

Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, atuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

 

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!”. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objetivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.

Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar kilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o(a) parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

 

O inferno são os outros

 

Para complicar, o programa das atividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjinho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max”…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espetáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.

Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, imitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.

Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destruiu, brincou, ordenou e explodiu em compassos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

 

Uma fada entre a poeira

 

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.

No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey” ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.

À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão... Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.

Do reino de poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde atuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver...


25/11/2025

Rockócó [Pop Dell'Arte]

 PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 25 FEVEREIRO 1991 >> Cultura

 

João Peste dá show no cinema Alvalade

 

Rockócó

 

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O CONCERTO que os Pop Dell’Arte e os More República Masónica deram anteontem à noite no cinema Alvalade, em Lisboa, serviu essencialmente para mostrar três coisas: a) que as bandas portuguesas aprenderam a fazer barulho; b) que isso não chega; c) que o público de rock se está nas tintas para isso e do que gosta mesmo é de barulho.

Em termos decibélicos a prestação de ambas as bandas pode pois considerar-se excelente. Em termos musicais, não. Os More República Masónica têm entusiasmo, garra e já alguma escola. Estudaram bem a lição de duros e pesados como os Stooges, Led Zeppelin ou os mais modernos Sonic Youth. O vocalista sabe despir bem a camisa e apresenta já um certo estilo de queda no palco, contorcendo-se no solo com desenvoltura e alguma elegância. Os outros três souberam manter-se de pé, como lhes competia, sem oscilar demasiadamente e agredindo com convicção os instrumentos. Tocaram (sempre a cem à hora) temas como “89/90”, “Azul Dietrich” (uma espécie de hit), “Sin City”, “Wild America”, “Piloto Automático”, “Train Surfin’” e “Hold My Gun”. Teriam tudo a ganhar se acalmassem um pouco e rodassem o botão do volume um bocadinho para o lado esquerdo.

João Peste surgiu no palco do Alvalade debaixo de uma trovoada de aplausos, como uma diva que regressa do exílio – manto vermelho sobre os ombros, ceptro na mão, poses fatais para a fotografia. Teatro, em suma. Peste sabe ser, como ninguém, ator e “entertainer”, acentuando o lado perverso do espetáculo. Anteontem fez de tudo um pouco: dialogou com a sua própria voz “samplada”, tranquilizando a rapaziada com um “don’t worry kids, I am your friend”. Se os “kids” acreditaram, tanto pior para eles. “I love rock ‘n’ roll” – murmurou num espasmo cínico, no meio da orgia sónica. Ciciou deliciado “Love to love you baby”, fingindo-se Donna Summer. Voltou o traseiro para a audiência, em desafio. Ninguém, aparentemente, se sentiu desafiado.

Sei Miguel apareceu como convidado, tocando trompete numa nota só (aparentemente um ‘sol’), solto no ar de 30 em 30 segundos, revelando assim ter aprendido bem os rudimentos da conceituada estética minimalista dita “da buzina”. Contrastando com a contenção do famoso rival de Miles Davis, os outros músicos optaram pela estética oposta do “ó marreco aumenta o som”, para tapar os buracos, em temas como “Illogik Plastic”, “Avanti Marinaio”, “Polygrama”, “Loane & Lyane Noah”, “Esborre”, “Querelle” e “Mai 86”.

Escusado será dizer que o público adorou e pediu mais, obrigando os Pop Dell’Arte a regressar ao palco para quatro “encores”. Uma noite artística.

12/11/2025

Arte Pop e Maçonaria [Pop Dell'Arte]

 PÚBLICO SÁBADO, 23 FEVEREIRO 1991 >> Cultura

 

Pop Dell’Arte hoje em Alvalade

 

Arte Pop e Maçonaria

 

RESSUSCITADOS dos mortos, os Pop Dell’Arte, banda liderada por João Peste, tocam hoje à noite, pelas 22h, no cinema Alvalade, em Lisboa, juntamente com os More República Masónica, provando que continua a haver lugar (por enquanto) para os sons alternativos, na cena musical lusitana.

Formada em 85, a banda de Peste fez sempre questão de se mostrar diferente, na música e na atitude dos seus membros. Onde para muitos a Pop se resolve na linearidade das canções e na repetição de tiques repescados da “estranja”, para o vocalista dos PDA o risco é assumido enquanto condição necessária para a própria sobrevivência da banda. Por isso pararam, em 1989, dando João Peste início a uma série de atividades paralelas: subversões várias e disco com os “Acidoxibordel” ou a apresentação, com Nuno Rebelo, o ano passado na Feira do Livro, do espetáculo “Alix na Ilha dos Sonhos”. Para trás ficavam os maxis “Querelle”, “Sonhos Pop” e “Illogik Plastic” e o álbum “Free Pop” (este mês reeditado em CD), por alguns considerado como dos melhores de sempre da música portuguesa, e espetáculos ao vivo como aquele ao lado dos niilistas alemães Sprung Aus Den Wolken, no extinto Rock Rendez-Vous.

Razão principal para a dissolução (consensual) do grupo foi, segundo João Peste, a saturação musical provocada pela ausência de perspetivas e motivações dentro de um meio nacional demasiado “pequeno” e fechado. Agora a situação alterou-se, havendo, parece, fortes possibilidades de os Pop Dell’Arte arrancarem para uma carreira no estrangeiro. Daí o regresso, com uma formação constituída por João Peste (voz), José Pedro Moura (baixo), Luís San Payo (bateria), Rafael Toral (discos, fitas magnéticas, guitarra) e João Paulo Feliciano (guitarra), estes dois últimos juntos no novel projeto “No Noise Reduction”.

Na primeira parte atuam os More República Masónica, banda relativamente recente formada por Paulo Coelho (voz, percussão), Mário Gil (guitarra, voz), Jorge Dias (baixo, voz) e Jaime Pimentel (bateria). Apostados, segundo dizem, em “rapinar” onde for mais interessante” para dar “corpo a uma sonoridade forte e ritmada, derivada diretamente do rock ‘n’ roll, os MRM contam no ativo atuações “à margem” no Sexto Concurso de Música Moderna do RRV e no concurso televisivo “Aqui D’el Rock”, e a gravação de uma “demo tape” reunindo cinco temas dos quais “Azul Dietrich” foi incluído na coletânea “Insurrectos” da editora da Guarda, Área Total.

06/04/2016

Pop dell'expressionismo-existencialista [Pop Dell'Arte]

Y 21|JUNHO|2002
música|pop dell’arte

A perturbação, nos sons e imagens, atravessa “So Goodnight”, que o grupo apresenta no Lux, 5ª feira. Vai instalar-se a hipnose subliminar e ninguém terá vontade de ir dormir.

pop dell’
expressionismo-existencialista

Adeus. Boa-Noite. “Say hello and wave goodbye”, cantava Marc Almond, dos Soft Cell, como João Peste um boneco nas mãos dos génios e da decadência. Ou dos génios da decadência. Como os Soft Cell, como os Coil, como o Scott Walker de “Tilt” (por quem Peste nutre uma “paixão assolapada”), os conceitos de “pop” e de “arte” são indistrinçáveis. O infinito e o efémero em ascensão e queda. A pop da arte. Disse-o, primeiro que todos, Andy Warhol, cuja presença serve de embalagem conceptual a “So Goodnight”. Pop Dell’Arte. Isto ou algo mais, logo se verá, no concerto que o grupo dará na 5ª feira, dia 27, no Lux, na companhia do projeto Wordsong.
            Há quem se tenha escandalizado e classificado de “mau gosto” as fotografias da capa de “So Goodnight” – uma sequência de imagens/fotogramas de uma criança refugiada, legendadas com as cores “laranja”, “encarnado”, “magenta” e “amarelo”. O grafismo do CD acentua o que se poderá ler como uma disformidade-choque das “United Colors of Benetton”. João Peste defende que o trabalho gráfico, da sua responsabilidade, é um dos aspetos mais conseguidos do disco. E cita Warhol e a sua “série de quadros a partir de fotografias de desastres, da cadeira elétrica, imagens muito fortes, transpostas para a linguagem da pop arte, o que criava uma dinâmica incómoda, com algo de chocante apresentado de forma estetizada, a provocar nas pessoas um sentimento contraditório".
            “Os Pop Dell’Arte” – diz este admirador incondicional da trilogia de Berlim de David Bowie, dos Kraftwerk, de “I feel love” de Donna Summer, de Amanda Lear e de “Romance 76”, primeiro disco a solo de Peter Baumann, ex-Tangerine Dream – “tentam fazer a síntese de opostos”.
            “A capa perturbou algumas pessoas”, acrescenta José Pedro Moura, responsável pelas manipulações eletrónicas do grupo. “Dizem que é de mau-gosto, mas não conseguem exolicar porquê... não tentam perceber”. Peste dá uma ajuda: “a ideia dessa sequência de imagens, segundo o tal conceito de ‘série’ do Warhol, é fazer um painel, sugerir uma cadeia de montagem ‘ad infinitum’...”. O choque e a ambiguidade estão garantidos. “Já estamos habituados. Se em relação à música parece que as pessoas têm medo de deizer bem ou mal, já as capas têm provocado reações e aversões fortes, como aquela imagem do Cristo que usámos em 1989 no ‘Illogik Plastik’ em conjunto com fotos de revistas pornográficas. Chegou-se ao ponto desse álbum não chegar às montras e de na Rádio Renascença o gajo que passava aquilo levar o disco sem a capa”. Neste aspeto, “So Goodnight” tem tudo para descobrir a careca aos tabus e despoletar as reações mais irracionais.

            arte e terrorismo. Mas quando a música diz “então, boa-noite”, instala-se uma espécie de hipnose subliminar e ninguém tem vontade de ir para a cama dormir. São seis temas de vinte e poucos minutos que, de perspetiva oblíqua, evocam o transe dos Can, o luar digital dos Coil e o crooning da “5º dimensão” de Scott Walker, em “Tilt”, como “So Goodnight” um álbum ensombrado pelo “não dito” e pelo mistério.
            “So Goodnight” fecha um ciclo de vida dos Pop Dell’Arte encetado em 1999 e concluído em 2001 mas o som minimalista e eletrónico que o caracteriza transitará para o próximo álbum, a gravar ainda este ano ou no próximo. E depois do grupo ter contribuído, já este ano, com um tema para a coletânea “Indiegente”. Calmo à superfície, “So Goodnight” esconde monstros, espectros e vermes no seu venre de besta aparentemente domesticada. Não tranquiliza, aterroriza, mas num murmúrio gélido de conto infantil que acaba ao contrário, com a vitória das bruxas e dos dragões.
            Os Pop Dell’Arte são terroristas não tão suaves como isso. Comentando a recente e polémica declaração de Karlheinz Stockausen sobre o atentado do 11 de Setembro, definindo-o como “a mais bela obra-de-arte deste século”, João Peste, fazendo sempre questão de afirmar que está contra toda a espécie de violência e o assassínio (“nem de animais, quanto mais de seres humanos”), estabelece conexões para vias divergentes de pensamento não politicamente correto.
            “É uma frase que dá pano para mangas... há outra, de Bernard Crick, na sua obra ‘In Defence of Politics’ que diz que ‘o amor e a política são as duas únicas formas de constrangimento para os homens livres’. Os Pop Dell’Arte estiveram para fazer um cartaz que contrapunha: ‘A arte e o terrorismo são as duas únicas formas de expressão para os oprimidos”. “Mas quem são os terrosristas?”, pergunta Peste. “Quando tinha seis anos ouvia na televisão o ministro dos Negócios Estrangeiros falar nos terroristas de África que atacavam Portugal...”.
            Mas de que maneira velada “So Goodnight” escorre o terror necessário para fazer passar mensagens que preferiríamos não escutar? Um álbum tão inofensivo na aparência, feito de programações soft e de palavras que parecem juras de amor?
            São utilizadas seis maneiras, seis temas, para nos tirar do lugar. Mas Peste, educadamente, devolve-nos as cadeiras. “Mrs. Tyler” fala de “alguém por quem se chama, que pode estar presente ou não. Alguém que se ama e possivelmente não se conhece”. “So goodnight”, em que “o loop final poderia ficar a tocar até ao dia seguinte”, é “um grito na escuridão” e “uma ironia um bocado cínica”. Quase uma cowboy song animada por uma religiosidade difusa, “The sweetest pain” foi escrita “em condições especiais”. Uma canção “introspetiva” sobre a “solidão” e o facto de “acabarmos por nos habituar à dor e de ela até poder ser adocicada”. “Pound by Pound”, barragem espessa de palavras sampladas do pr´prio poeta maldito, tem um “lado apocalíptico que até encaixa no contexto de 11 de Setembro. É o ‘Canto Um’, do Ezra Pound, um texto intragável, difícil de engolir, cujo significado dificilmente se percebe, por isso o escolhemos...”. “The witch queen of the U.S.A.”, instrumental de 55 segundos que se espeta como uma rajada de gelo moído na espinha, tomou como ponto de partida “O Feiticeiro de Oz”, o que o torna ainda mais assustador. A fechar, “Little drama boy” deriva de uma “canção de Natal” embalada num sample de gaita-de-foles e no equívoco de uma conversa telefónica que transformou o rapaz do tambor no rapaz do drama, “drummer” em “drama”.
            Como um caleidoscópio de cores desmaiadas e formas em dissolução que se gira apenas pelo prazer de ver, num instante, nascer e morrer os sonhos, “So Goodnight” vai direto aos circuitos habitualmente desligados do cérebro. João Peste sorri e insiste que nada foi pensado e que ainda não consegue ter o distanciamento necessário para descobrir no disco as traves mestras de um sistema estético ou filosófico. Que há coisas nele escondidas, há. “Num ‘brainstorm’ que fizemos para o vídeo de ‘Mrs. Tyler’ descobrimos uma série de conotações psicanalíticas...”.
          Mas, finalmente, o esteta fala mais alto: “A música dos Pop Dell’Arte tem tudo a ver com a pintura e com o cinema, principalmente no aspeto da colagem. E, quer queira quer não, fui marcado pelo existencialismo dos anos 60... Diria que ‘So Goodnight’ é um disco expressionista, romântico e existencialista. Quem quiser um rótulo, pode pôr: Expressionismo-existencialista.”