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24/09/2025

Outra vez o muro, podre de maduro [Roger Waters]

 

Na capa

 

OUTRA VEZ O MURO, PODRE DE MADURO

 

O muro nunca mais acaba de cair. Agora é a vez da feire de Berlim, com Roger Waters vendendo os seus bonecos em saldo de fim-de-estação. Vai um tijolo e um porquinho?

 


Woodstock, Wight, Reading, Knebworth, Glastonbury, Veneza, Cannes, Figueira da Foz, Fantasporto, Bienais de Berlim, Nova-Iorque, Odivelas, Agro-Pecuário de Santarém, RTP da Canção – diferentes acontecimentos sustentando a designação comum de “festival”. De música, cinema, pintura, vacas e couves ou, simplesmente, lixo. Uns são culturais, outras nem tanto. Não querendo entrar aqui em polémicas se “vacas e couves” são ou não cultura, que tal a “cultura da batata”? A questão não é pacífica. Muito menos as suas implicações, artísticas ou alimentares. As opiniões dividem-se, a confusão impera. A noção de “lixo” é ainda mais ambígua. Bem coberto com camadas de verniz, judiciosamente aplicadas em delicadas operações cosméticas, e bem condimentado com sábia dose de “popstars” [?], passa com [...] por ser cultura artística.

 

Produtos de Festival

 

            O “festival” apresenta algumas características que o distinguem de qualquer outro tipo de atividade. Trata-se sempre de uma “mostra” de qualquer coisa, uma coleção de “produtos”. (Um filme, uma canção, um quadro, um pepino, para além do valor simbólico como “obras de arte” – e, se dúvidas há quanto ao pepino, recorde-se o quadro de Arcimboldo –, são também produtos, que se mostram, compram e vendem, objetos de comércio.) Neles, apresenta-se “trabalho feito”, em certames de maior ou menor projeção e importância, consoante a qualidade das mercadorias, a aplicação do verniz, ou as estratégias de “marketing”.

            Vem esta prosa a propósito da recente edição do duplo álbum com a gravação ao vivo do espetáculo “The Wall”, que os Pink Floyd deram, no outro dia, em Berlim. Foi um festival ou não foi? E, em caso afirmativo, que importância teve? Admitindo que os Floyd são cultura, o que é que se mostrou e se viu nessa noite de muitas luzes, tijolos e porcos insufláveis?  Consinta-se na importância sociológica e mediática do acontecimento, na data e local específicos em que se realizou: milhares de pessoas reunidas em frente do muro (ou do recetor de televisão), celebrando não se sabe ainda bem o quê, para além do ato simbólico da “queda”.

 

Prendinhas

 

            Mas, se o espetáculo de Berlim se justificava, o disco, editado “a posteriori”, parece funcionar apenas como uma espécie de “souvenir” (para aqueles que estiveram presentes na futura capital da Alemanha unificada) ou substituto (para os outros) do evento real, do mesmo modo que as “T-shirts” ou as embalagens com um tijolo, pretensamente arrancados do “muro”, vendidas aos turistas. Vestuário, discos e tijolos, transformados em ícones de um acontecimento que, para além do significado intrínseco, se deslocou para o domínio, sempre passível de rentabilização, das imagens e da pluralidade e dispersão dos sentidos.

            Pode, por exemplo, à laia de passatempo, comparar-se faixa a faixa, o original de Roger Waters e os Pink Floyd, de 1979, com as novas interpretações dos mesmos temas, levadas a cabo pelos numerosos convidados chamados a participar na encenação pública da paranóia do autor. E, nesta comparação, não restam dúvidas de que Bryan Adams, The Band, Tim Curry, Thomas Dolby, Marianne Faithfull, Albert Finney, Cyndi Lauper, Ute Lemper, Joni Mitchell, Van Morrison, Sinead O’Connor, Scorpions, a orquestra, as bandas e os coros envolvidos (já não falando do próprio Waters, com menos voz e quase nenhuma energia, e restantes Floyd), por muito que se empenhassem, não se revelaram à altura de fazer esquecer a unidade e força do primeiro disco.

 

Boas Intenções

 

            Claro que se pode ver a coisa de outra maneira: atendendo à sobreposição das temáticas abrangidas pelo conceito “queda do muro”, a obra de Roger Waters acabou por ganhar, onze anos depois, uma carga significante e uma premência que, na altura, refletia “apenas” as vivências pessoais do compositor. Assim, “The Wall – Live in Berlin” seria uma espécie de confirmação, reatualização do individual, projetado num imaginário coletivo, contemporâneo e politizado.

            Sabe-se, porém, que as ideias e intenções não valem (e sobretudo não vendem...) por si sós. A pureza e sinceridade que pudessem existir na recuperação de uma obra que sintomaticamente foi a derradeira dos Pink Floyd, como nome relevante da pop atual, perderam-se no espetáculo de circo e no aparato cénico de que se revestiu e em que se perdeu o espetáculo de Berlim. Mas foram os bonecos, os nomes dos convidados, as dimensões do muro a fingir, os helicópteros e o fogo-de-artifício que levaram todos aqueles milhares até às portas de Bradenburgo. Juntava-se o útil ao agradável: uma boa causa (recolha de fundos para o “Memorial Fund for Disaster Relief”) e a relevância cultural do acontecimento aliavam-se a uma gigantesca operação promocional de que agora se começam a recolher os dividendos.

 

O Muro em Série

 

            Não nos admiremos se a seguir aparecer novo disco, “The Wall – The Final Rendition” ou “The Complete Wall”, por exemplo, incluindo as prestações dos grupos que foram entretendo a multidão ao longo da tarde de 21 de Julho passado. Ou então outro, contendo toda a informação técnica relativa às dimensões do palco, feitura dos tijolos e potência das luzes. E porque não gravar Leonard Cheshire em dueto com Waters, sobre um fundo de ruídos de guerra? Ou a versão instrumental de “The Wall”, ou “The Wall in rap”, talvez “Acid House Wall”… Tanto ainda por fazer, senhores editores!...

            “The Wall – Live in Berlin” resume-se deste modo a uma feira de bonecos de borracha ou de carne e osso, personificados nas figuras disformes encarnadas por Ute Lemper ou Thomas Dolby, em que a música se reduz a uma réplica quase fiel do disco de estúdio, aumentada pelo ruído da multidão. Como se o tom épico pretendido residisse na acumulação de adereços e no aumento desmesurado das escalas. Seja como for, o “objeto” chegou, para se acomodar ao lado do restante entulho que enche as prateleiras das lojas. Por exemplo, entre uma Torre Eiffel cinzeiro e um galo de Barcelos.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 12 SETEMBRO 1990

08/08/2025

O muro espetáculo [Roger Waters]

 CULTURA SEGUNDA-FEIRA, 23 JULHO 1990

 

200 mil ao vivo e milhões pela TV assistiram ao megaconcerto de Berlim

 

O muro espetáculo

 

Inacreditável era a expressão mais ouvida na Praça de Potsdamer, em Berlim, para qualificar a monumental encenação de “The Wall”, levada a cabo por Roger Waters, Leonard Cheshire e uma companhia de estrelas empenhada em fazer do dia 21 de Julho uma data inolvidável.

 

Se nem tudo foi perfeito, também não desmereceu da proverbial capacidade organizativa germânica. A Imprensa não se pode queixar. Foi estragada com mimos. No hotel três bonitas alemãs informavam sobre tudo, davam papéis e ainda por cima sorriam. Já no local do espetáculo, uma tenda gigantesca montada atrás do palco, fazia estendal de iguarias e bebidas à disposição dos esfaimados e sedentos jornalistas. Não se pense naquelas barracas “à portuguesa”, do estilo “coratos, febras e tintol”. Os alemães são um pouco diferentes e, quando querem, primam pelo requinte. Que, no caso, chegou ao ponto de arranjos florais dispostos sobre as mesas e o serviço de valquírias solícitas e peito “prateleira-tapa-a-visão”.

            Frente ao palco a multidão. Cerca de 200 000 pessoas estendiam-se pelo imenso recinto até perder de vista, algumas afastadas centenas de metros do palco. A festa começou logo de tarde. Primeiro só com o público, feliz apenas por estar ali, perplexo diante de um muro de 170 x 25m, quilómetros e toneladas de cabos, torres, andaimes, ecrãs e holofotes. Cenário grandioso pronto para um dos maiores espetáculos alguma vez realizados no planeta.

 

À espera da noite

espanto

 

            O ambiente geral era o de um novo Woodstock. Pacifismo, cor, bolas de sabão, corpos despidos e muita ideologia à mistura. Não se sabe se houve algum parto. Celebrava-se (obviamente) a queda do muro mas também algo mais, difusamente sentido como liberdade ainda mal saboreada. Berlim, após décadas de isolamento exorcizava-se e sublimava velhos medos e ânsias dissimuladas. Como a personagem criada por Roger Waters, condenada, após o julgamento, a enfrentar o outro lado. Crime e castigo. Como em Nuremberga. No futuro, como será?

            Os Frumpy, The Hooters, The Band e The Chieftains encheram a tarde e a paciência dos poucos que se dignaram dar-lhes atenção. Os “The Band”, pelo passado ilustre, mereciam mais respeito. Ninguém lhes ligou nenhuma. Quanto aos The Chieftains, a sua música tradicional da Irlanda provou que é diferente tocar num pub para 50 pessoas de copo de whisky na mão e para 200 000 à torreira do sol. A harpa e a gaita-de-foles celebraram como puderam o sol que se escondia. Mas do que toda a gente estava à espera era que a noite do espanto chegasse. Por fim, desceu a escuridão e fez-se luz. Com meia-hora de atraso em relação ao previsto, fogo-de-artifício, explosões e a queda de minúsculos para-quedistas. A partir deste momento o mundo inteiro viu pela televisão.

            A mobilidade da câmara televisiva permitiu a milhões de espetadores ver muito mais que os milhares reunidos na Potsdamer Platz. Pormenores como “close-ups” sobre os músicos ou do que se passava por detrás do muro, escaparam ao olho nu dos presentes no local. O concerto começou mal, com falta de som de retorno, levando mesmo a que Ute Lemper se recusasse a cantar o tema que lhe era destinado. Mas tudo bem: afinal o que todos queriam era ver a desmesura do espetáculo, os fumos, as luzes e os helicópteros – a construção da ilusão.

 

Sentir a História

 

            Por outro lado, era importante participar, “sentir” a História, através da encenação da história de Pink (alter-ego de Waters em “The Wall”), inserida num novo contexto. O muro tornou-se plural, símbolo fácil da coerção da liberdade. A réplica reduzida a escombros certifica a queda do original. O ritual da encenação confirma o facto histórico. Paradoxo: a ilusão certifica o real.

            Na primeira parte, foram momentos altos o aparecimento do boneco insuflável representando “o professor”, durante a prestação de Cindy Lauper em “Another Brick in the Wall” e a sentida interpretação de Joni Mitchell em “Goodbye Blue Sky”. Bryan Adams cumpriu a sua parte e Jerry Hall fez de “groupie” enquanto Waters/Pink deitava o televisor pela janela em “One of my Turns”, uma das melhores canções do disco.

           

“Fomos nós que o derrubámos”

 

            No intervalo publicitaram-se a justa causa do “Memorial Fund for Disaster Relief” e a British Airways. Imagens projetadas sobre o paredão, de dor e sofrimento de pessoas concretas, e de figurantes anónimos formando a imagem de uma marca. O muro normalizou, nivelando o horror e a banalidade. Impensável e dispensável.

            A ambulância e a seringa descomunal de “Comfortably Numb” foram os adereços que conduziram ao clímax de “Bring the Boys Back Home”, com orquestra, coro e uma banda militar soviética tocando em crescendo enquanto no muro se projetavam imagens e nomes alusivos às vítimas da guerra. Em “Run like Hell” e “Waiting for the Worms” reinou o porco insuflável de olhos vermelhos e a ameaça do totalitarismo tresloucado.

            No julgamento destacaram-se Marianne Faithfull, no papel de mãe e a figura de Thomas Dolby em contorções de pesadelo. No apoteótico derrubar final de “The Wall”, a multidão rejubila. “Fomos nós que o derrubámos” – parecem gritar milhares de gargantas alemãs, exultantes na recuperação da identidade perdida.

            O espetáculo encerrou com um “Do They Know it’s Christmas” de ocasião, as personagens “más” arrependidas, cantando em coro as virtudes da paz reencontrada e jurando que a maré mudou. Resta saber para que lado.

            Tudo acabou como começou – com fogo-de-artifício e focos de holofotes varrendo o céu de Berlim.

23/07/2025

O Muro em espetáculo [Roger Waters]

 

SÁBADO, 21 JULHO 1990 local

 

RTP

 

O Muro em espetáculo

 

JONI MITCHELL, Sinead O’Connor, Cindy Lauper, Marianne Faithfull, Bryan Adams, The Band, Scorpions, Jerry Hall, Ute Lemper, Tim Curry, Thomas Dolby, Albert Finney, a Orquestra Sinfónica de Radiodifusão de Berlim Leste, a Banda das Forças Soviéticas na Alemanha, gigantescos bonecos insufláveis, helicópteros e holofotes sobre a multidão, são alguns dos elementos participantes na edificação de “The Wall”, hoje, em Berlim, frente às portas de Brandenburgo. Roger Waters acedeu a encenar ao vivo a sua fantasia, gravada para a posteridade dez anos antes da queda do muro da vergonha. A causa justifica os meios e o empenhamento. A ideia é do veterano de guerra Leonard Chishire – contribuir com a receita para a criação de uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de acidentes e catástrofes. Pretende-se angariar  uma quantia de 500 milhões de libras esterlinas, 130 milhões de contos em moeda portuguesa, equivalentes a 5 libras por cada vítima dos conflitos bélicos deste século, num total de óbitos estimado em cerca de 100 milhões. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Pink Floyd faleceu na Segunda Grande Guerra e que a história da personagem principal de “The Wall”, interpretada no filme de Alan Parker por Bob Geldof, descreve, em tons de pesadelo, o percurso biográfico do autor dos recentes “The Pros and Cons of Hitch Hiking” e “Radio K.A.O.S.”. O grandioso concerto desta noite, que poderá ser visto via satélite por milhões de telespectadores em todo o mundo, constituirá um dos maiores jamais realizados, contando, para além das prestações musicais, com projeções animadas e a encenação teatral da sequência do julgamento, um dos “clímaxes” mais fortes e angustiantes de “The Wall”. Há 600 pessoas envolvidas na produção do espetáculo cuja assistência se espera que ronde os 200 mil. João Filipe Barbosa comenta, dos estúdios da RTP. Antes, está prevista a exibição de um documentário sobre o muro de Berlim.

            Canal 1, às 21h00

22/07/2025

Entre dois muros [Pink Floyd]

 

Na capa

 

ENTRE DOIS MUROS

 

Passada uma década sobre a edificação de “The Wall”, Roger Waters, dissidente dos Pink Floyd, regressa nos papéis de arquiteto e carpinteiro. O muro volta a ser erguido. Em Berlim, claro, sobre os escombros do outro e com honras de transmissão televisiva em todo o mundo.

 


Os muros separam e protegem. Escondem e dividem. Existem duas espécies distintas: ou de cimento ou qualquer outro material sólido e aqueles mais subtis, invisíveis, construídos metodicamente só do lado de dentro. Os primeiros podem ser destruídos, deitados abaixo com maior ou menor dificuldade. Os segundos utilizam materiais indestrutíveis e flexíveis que resistem às pressões exteriores e às pancadas. Moldam-se a elas. Adaptam-se. Os seus construtores são fabulosos arquitetos, peritos na minúcia com que delineiam mirabolantes fantasias. Fantasmas criados com todo o cuidado, mantidos vivos e atuantes graças a um constante apelo ao medo, memória e imagens de monstros infantis.

 

Ascensão e Queda

 

            Em finais de 1979, Roger Waters, músico e letrista dos Pink Floyd, banda emblemática do psicadelismo, constrói um muro descomunal gravado para a posteridade num disco chamado simplesmente “The Wall”. “O Muro” pertence ao grupo das construções mentais inabaláveis e impenetráveis. Decorridos dez anos a História confirma a regra atrás enunciada. Uma das mais sólidas paredes jamais erguidas por mãos humanas revelar-se-ia, finalmente, apenas um amontoado de tijolos. A 9 de novembro de 1989, cai o muro de Berlim, sinónimo de terror e divisão, vergado às rajadas do vento dos novos tempos.

            No próximo dia 21 de Julho, o muro volta a ser erguido. Desta vez como simulação e símbolo. No próprio local onde se abriu passagem entre as duas metades de um todo nacional, Roger Waters constrói de novo a sua monstruosa fantasia, sublimada em espetáculo gigantesco. O fingimento substitui o horror, o “rock”, orgia mediática, multiplicando as referências e paradoxalmente funcionando como veículo normalizador de uma realidade complexa, unificada numa estratégia de massificação simplificadora. Exorcismo simbólico e coletivo sintetizado num único conceito – o muro.

 

Catástrofes

 

            A multidão que se concentrará nessa ocasião na Praça Potsdam, em frente à Porta de Brandenburgo, em plena “terra de ninguém” situada entre as duas antigas fronteiras, participará inconscientemente num acontecimento único, mas não ao nível do que será universalmente alardeado e difundido. Oficialmente, o concerto organizado por Waters e Leonard Cheshire, veterano aviador na Segunda Grande Guerra, tem como objetivo angariar fundos para uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de catástrofes e acidentes, o Memorial Fund for Disaster Relief, funcionando por acréscimo como evocação e homenagem às vítimas dos dois conflitos mundiais e das não menos mortíferas sequelas da Coreia ou do Vietname. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Floyd, também aviador, morreu num acidente da Guerra de 1914-18 e que a sua ausência é precisamente um dos fantasmas que assombram “The Wall”, o disco, abrindo caminho para a emergência do oposto matriarcal, personificado na mão zeladora e castradora.

 

O Eterno Retorno

 

            Depois de amanhã, num superespetáculo que, para além de Waters, contará com Joni Mitchell, The Band, Marianne Faithfull, Cindy Lauper, Sinead O’Connor, a Orquestra e Coro do Exército Vermelho e bandas militares, milhares de pessoas serão de novo emparedadas e embaladas nos braços quentes e protetores dos seus próprios fantasmas, na tal “no man’s land”, estrato indefinido e uterino, terra de novo fértil e semeada onde voltarão a crescer os frutos envenenados de renovados e pujantes nacionalismos. A mãe-pátria recupera a sua vocação telúrica, capaz de gerar filhos solares ou monstros disformes (como aqueles que flutuarão ameaçadores sobre a multidão durante o concerto), consoante for fecundada pelo macho do poder, em amor ou em paixão. A História nunca se repete? Ou vivemos todos adormecidos no seio de novos espectros totalitários? Não é a própria desmesura do espetáculo anunciado, em que cada espectador se quedará subjugado por um excesso de imagens e sons à escala não humana (como as figuras e o estádio monstruoso no interior da capa de “The Wall”), reduzido à condição de simples número manipulado como um fantoche, manifestação evidente de subtil totalitarismo? O indivíduo perdido na multidão e no gigantismo massificador obedece cegamente aos estímulos sonoros e visuais. Moderno ritual de obediência a ídolos que em vez do facho imperial empunham guitarras elétricas. E canções do “top” substituem hinos guerreiros. Há sempre um “Führer” disposto a gritar “slogans”. O “rock está à inteira disposição de candidatos.

            O que se pretende da celebração e festa encobre afinal mais sinistras formas. As boas intenções cumprem-se no prolongamento contemporâneo de mal enterrados horrores. Evocam-se antigos fantasmas para os exorcizar ou para os venerar? Convocam-se os mortos para celebrar a vida, esquecendo que morte e vida formam a dupla face de um mesmo rosto. O super-homem nietzschiano, como a criança, é inocente e despreza ambas com soberana alegria. Quem preside afinal à reunião, Apolo ou Dyonisius? O sol ou o solo? Berlim volta a ser centro do mundo. Destruído o muro que dividia alguns e protegia outros, o espetáculo “The Wall” volta a suscitar eternas dúvidas e recônditos receios. O novo fantasma chama-se Europa.

 

QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990 VIDEODISCOS

Tijolo a tijolo [Pink Floyd]

 

Na capa

 

TIJOLO A TIJOLO

 


            A loucura tem sido boa conselheira dos Pink Floyd. Pela formação britânica, responsável pelo nascimento e bom nome do psicadelismo dos anos 60, passaram pelo menos dois dos seus cultores: Syd Barrett, esquizofrénico com carimbo clínico, e Roger Waters, psicótico controlado que soube fazer render o peixe, isto é, a paranoia, ao preço de ocasião e com a indústria a apoiar.

            Syd é lenda. Perdeu-se na violência dos seus sonhos e alucinações. Escrevia pequenas histórias sob a forma de canções. Quando entrava no estúdio, o seu eterno estado sonambúlico transformava-se em delírio criativo. Compunha pequenas obras-primas. Cantava e tocava guitarra como se estivesse sozinho no Universo. Jogava com ninguém ao dominó, numa casa inglesa, daquelas escuras e antigas, cheias de fantasmas. Sempre em dias de chuva. Jogava enquanto esperava. A chuva nunca parou e a princesa que chegou não era a prometida. Espalhou as peças pelo chão e levou-o para o armário dos papões. Deixou testemunho das suas visões em “The Piper at the Gates of Dawn”. 1967, ano de todos os sonhos, para Syd, o início do pesadelo. Nunca mais veremos Emily tocar.

 

Viagens espaciais

 

            A partir do ano seguinte, o seu amigo Roger Waters inverte o sentido da viagem. Das estrelas na cabeça do gnomo Barrett para os grandes espaços cósmicos exteriores. Toma os comandos e aponta a nave para o coração do Sol (“Set the Controls for the Heart of the Sun”). “Interstellar Overdrive” estendida até às dimensões épicas do absoluto. A sua maior ambição era compor a banda sonora do “2001”, de Kubrick. Ficou-se pelos tons “hippies” de Antonioni em “Zabriskie Point”, perdido nas selvas luxuriantes da “La Vallée”, de Barbet Schroeder.

            O tom épico e desmesurado que a música dos Pink Floyd demandava foi encontrado afinal na Mãe Terra. “Atom Heart Mother” (1970), viagem infinita por lado nenhum, acompanhada de orquestra e coros, em longa suíte que depurava até à perfeição as premissas enunciadas no compêndio psicadélico. Para trás ficavam “A Saucerful of Secrets” (1968) e a obra-prima incompreendida “Ummagumma” (1969), duplo álbum magistral, dos poucos verdadeiramente experimentais da época. No segundo disco, cada um dos quatro Floyd mostrou até que ponto a loucura se pode estruturar em obra de arte. Um dos temas chamava-se “Several Species of Small Furry Animals Gathering Together in a Cave and Grooving with a Pict”. Nunca antes no rock a natureza tinha cantado tão estranhamente como aqui.

            “Meddle” (1971) prolongava o segundo lado da “Atom Heart Mother”. Música de sol, mar e lonjura. Os Floys espraiavam-se indolentes pelas vastidões aquáticas de um sonho momentaneamente aquietado. Os pingos de “Echoes” reverberando num adeus pacificado à década finada. Com “The Dark Side of the Moon” (1973), a máquina dos dólares começou a faturar. “Welcome to the Machine” – os filhos pródigos regressavam ao lar, acolhidos de braços abertos pela indústria maternal. “Atom Heart Mother” permanece até hoje nos tops americanos. Waters é emparedado. Tijolo a tijolo, o muro começa a ser erguido. Em “Wish You Were Here” (1975), olha-se para trás, em busca de Barrett. “Shine on you Crazy Diamond”. Mas o diamante não voltará a brilhar. Os Pink Floyd perdem-se no caminho. “Animals” (1977) é um fracasso a todos os níveis. A banda, um mero grupo de suporte de Roger Waters.

 

A grande explosão

 

            A explosão redentora dá-se finalmente no último ano da década. É o grande exorcismo de Waters, que finalmente se assume como alma exclusiva dos Floyd. Libertam-se medos e paranoias durante anos acumulados. A história de “The Wall” é a biografia do músico. Grito revoltado contra o universo inteiro. A construção do muro levada a cabo nesse instante precário que decorre entre o nascimento e a morte. A mãe, os professores, as namoradas, os outros todos e o “outro” que é ele próprio são monstros agressivos que fazem da vida um inferno e uma guerra em que todos são “o inimigo”. Roger Waters vingava Syd Barrett. Onde este soçobrou, vergado ao peso da loucura, aquele vence, ao atirar os seus dejetos à cara do mundo. “The Wall” é finalmente o apontar de dedo a todas as mentiras do universo rock. Alan Parker passou-o para celuloide. Bob Geldof encarnou a figura do mártir. Quase todos dizem mal. Salva-se a fabulosa animação que dá vida às delirantes figuras desenhadas na capa do disco, da autoria de Gerald Scarfe.

            Esqueçam-se os capítulos mais recentes da odisseia Waters, “The Final Cut” (1983) e “The Pros and Cons of Hitch Hiking” (1984), assim como dos Pink Floyd sem ele em “A Momentary Lapse of Reason” (1987). O importante vai ser estar em Berlim no próximo dia 21 ou assistir a tudo pela televisão. Para ficarmos a saber como se constrói um muro. E se o destrói.

 

 

NÚMEROS

 

            O palco é o maior alguma vez construído (onde é que já se ouviu isto?) – 168 m de comprimento, 25 de altura. Vai levar um mês a erguer e duas semanas a destruir. 50 camiões transportam-no até ao local do concerto. Os bonecos insufláveis ultrapassam os dos Stones: são do tamanho de edifícios de seis andares. O “professor” mede 12 m com uma amplitude de braços de 31 m. O “porco” alcança os 15 m. Cada boneco é comandado através de uma grua de 45 m e controlado por 20 pessoas. No muro que será erguido ao longo do espetáculo, serão utilizados 2500 tijolos especiais, cada um medindo 1,5 m x  75 cm e peando 9 Kg. São 50 os obreiros. Ao todo serão 600 pessoas a trabalhar para esta produção. A energia necessária para pôr tudo a funcionar – 5 megawatts, 1,7 dos quais fornecidos pela (ainda) Alemanha do Leste e o resto por geradores próprios. Um gigantesco ecrã circular com 16 m de diâmetro rodeado por 36 “Vari lites” constituirá, na ocasião, a maior estrutura observável nos arredores da Porta de Brademburgo. Estão previstos um total de 46 min. De projeções de “desenhos animados”. Os céus de Berlim vão ser iluminados por 12 holofotes sincronizados. Tudo junto vai poder ser presenciado “in loco” por cerca de 150.000 pessoas.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990

 

02/09/2020

Pink Floyd - The Wall Movie


Y 3|DEZEMBRO|2004
roteiro|cinema

|DVD

PINK FLOYD
The Wall Movie
Ed. e dsitri. Sony Music

8|10

“The Wall” é o tipo de filme, como todos os de Alan Parker, que os cinéfilos arrasam mas ao qual as pessoas normais acham piada. Tal disparidade de opiniões acentua-se ainda mais quando se contrapõem as opiniões dos fãs dos Pink Floyd. Exemplo. Certo crítico chamou a “The Wall” um “falhanço glorioso”. “Glorioso” pelas imagens “hipnoticamente chocantes” e “soberbamente fotografadas” por Peter Biziou. “Falhanço” por ser um “exercício rígido e sem remédio” fiel aos “tormentos psicológicos” de Roger Waters, mas destituído do “humor” que Waters cunhou no álbum de música com o mesmo nome. Logo um fã se abespinha, apressando-se a responder – uma obra que “de forma perfeita visualiza o brilhante conceito musical de ‘The Wall’”. O mesmo fã manifesta ainda a sua estranheza pela alusão ao “humor” presente no disco. Não há humor nenhum. Aliás, se há humor em “The Wall”, é tão negro que nem se nota. Digamos, por outras palavras, que “The Wall” é visualmente apelativo, mais que não seja pela força extraordinária dos desenhos animados com a assinatura de Gerald Scarfe. Haja efeitos especiais espetaculares que o pessoal fi ca satisfeito. Visto nesta perspetiva, é um bom filme. O DVD inclui “The Other Side of the Wall”, com o “Making of” do filme comentado e uma “Retrospective” na qual os intervenientes falam da fita. Parker aponta as reservas iniciais de Waters em relação ao desempenho de Pink por Bob Geldof (canções dos Floyd cantados por outra voz?) e o autor da música confirma o carácter autobiográfico mas apenas da primeira parte do filme (“nunca cheguei ao ponto de destruir quartos de hotéis”) e que várias cenas foram inspiradas em Syd Barrett, como aquela em que Pink rapa o corpo com uma Gilette. A edição inclui um poster, as letras das canções, uma galeria de desenhos de Scarfe, e um menu que pisca o olho à fase psicadélica do grupo, com um “Set the controls” e um “A saucerful of features”. O conceito geral? “Too much shows, too much dope, too much applause…”, sintetiza o realizador. E Waters: “Não quis que aparecessem imagens de espetáculos do grupo, mas apenas o que é adjacente a um concerto de rock ‘n’ roll”. Pintaram o muro de fresco.

16/01/2019

O monstro que saiu dos Pink Floyd


Y 28|MARÇO|2003
pink floyd|música

O lado escuro da Lua deixou de ser negro para passar a ser azul. “Dark Side of the Moon”, no original de 1973, e a presente reedição em Super Áudio CD, são como a noite e o dia. Um som perfeito para uma música que alguns teimam em não aceitar como tal. De que lado da Lua está a razão, afinal?

O monstro que saiu dos
PINK FLOYD


Se, no imaginário da música popular do último século, os Beatles foram condecorados com a insígnia mais nobre da pop e os Rolling Stones se assumem de bom grado como a mais perene das maldições rock, pertence aos Pink Floyd o estatuto de representantes oficiais de todas as outras músicas situadas no território indefinido onde as mais variadas tendências, cores, estilos e estratégias servem para, precisamente, retirar ao termo “música popular” o adjetivo “popular”. “Dark Side of the Moon”, editado pela primeira vez em 1973, tem suscitado desde sempre um sem-número de divergências, não sendo possível chegar-se a uma unanimidade quanto à sua dimensão e importância reais, quer no interior da discografia dos Floyd quer relativamente ao papel desempenhado por esta obra no desenvolvimento do rock progressivo dos anos 70.
            A extrema exposição a que, logo nesse ano e até hoje, foi sujeito faz deste disco um objeto apetecível mas também uma presa fácil para os que têm o hábito de colecionar ódios de estimação. Como “Sgt. Pepper’s” dos Beatles, ”Dark Side of the Moon” começa por ser um triunfo da produção. Um disco fechado em si mesmo que parece existir suspenso num universo autónomo, quer em relação à fase anterior, psicadélica e “space rock”, do grupo, personificado pelos álbuns “The Piper at the Gates of Dawn” (ainda com Syd Barrett), “A Saucerful of Secrets”, “Ummagumma”, “Atom Heart Mother” e ”Meddle”, quer enquanto anúncio da fase mais pop que haveria de seguir-se com “Wish you Were Here”, “Animals” e “The Wall”. O impacte das canções esfuma-se perante a opulência dos efeitos — que vão do barulho de passos a um despertador, de uma caixa registadora a vozes perdidas –, a grandiloquência dos coros e solos de saxofone perigosamente colados à estética MOR (“middle of the road”).
            Se a totalidade dos álbuns atrás referidos valem por uma música aberta que não se esgota nos meios de produção utilizados, “Dark Side of the Moon”, pelo contrário, soa como cristalização. O que para alguns é perfeição tem, para outros, a configuração da morte, mumificação de uma linguagem tornada autofágica, como a serpente que a si própria se completa e se devora. Claro que não é possível comparar as pequenas e iluminadas “comptines” alucinadas de Syd Barrett, como “Arnold Layne” ou “See Emily play”, ou navegações galácticas como “Set the controls for the heart of the sun”, com as melodias, tão exatas como redundantes, de “Dark Side of the Moon”. São naturezas diferentes e isso será o que mais chocará os admiradores dos Pink Floyd até ao aparecimento do “monstro”. O que, em contrapartida, levou a música do grupo a um outro tipo de auditores, mais vasto, e, como consequência, a ser abocanhada pela hidra do “mainstream”.

            o mesmo e o outro. “Dark Side of the Moon”, apesar de poder orgulhar-se de ser um dos discos mais vendidos de todos os tempos (25 milhões de cópias, um número assombroso que não pára de crescer) e de ter permanecido durante uma década, sem interrupções, no Top da “Billboard”, continua, porém, a provocar tanto adesões entusiastas como a mais profunda das aversões. A verdade é que, ame-se ou odeie-se, não há ninguém que não tenha entranhadas nos ouvidos as melodias de canções como “Time”, “Money” ou “Us and them”, o que, temos que admitir, também contribuirá para que, de tempos a tempos, alguém sinta vontade de partir o disco em pedaços (as edições em vinilo) ou, no caso dos CD, o submeter a um banho de ácido sulfúrico concentrado.
            Numa última tentativa de restituir ao dito cujo uma frescura que parecia definitivamente perdida, eis que a reedição em formato de Super Áudio CD “híbrido”, ou seja, passível de ser tocado tanto num leitor de CD específico como
num convencional, vem de novo recordar-nos que “Dark Side of the Moon” nunca esteve, afinal, longe de nós.
            É o mesmo e outro disco, aquele que chega às bancas na próxima 2ª feira. A capa, apesar de levar a assinatura de Storm Thorgerson, o mesmo que, integrado no projeto Hipgnosis, desenhou a original, sofreu alterações de pormenor. O prisma que refrata a luz branca no espectro do arco-íris tornou-se mais branda, abandonando o negro do fundo. A noite tornou-se, mais do que penumbra, azul do dia, traindo a essência noturna que o próprio título do álbum contém. Mas o mais importante é que esta música, que pensávamos não ter já reservada qualquer surpresa para oferecer, soará agora como nunca soou antes, numa gloriosa submissão à audiofilia que finalmente justificará o esforço de produção posto na edição original de 1973. “Dark Side of the Moon” será, afinal, uma potência disponível até ao infinito, matéria de atualização dos permanentes avanços da tecnologia, um livro em branco através do qual sucessivas gerações encontrarão algo de feérico mas que pouco ou nada terá já a ver com o contexto histórico que esteve na sua origem. Mas talvez faça sentido: “Dark Side of the Moon” nunca teve verdadeiras sombras.

De ambos os lados da lua [Pink Floyd]


Y 28|MARÇO|2003
música|pink floyd

O melhor ou o mais irritante álbum dos Pink Floyd, hoje, como há 30 anos, continua a dividir as opiniões.

de ambos os lados da lua


            
É a obra-prima dos Pink Floyd. Dizem uns. É uma desilusão, o álbum dos efeitos gratuitos, dizem outros. Poucos discos terão causado tanta discórdia no seio dos apreciadores do Rock Progressivo como esta “monstruosidade” de efeitos especiais e produção “over the top”, que ainda hoje divide as opiniões.
            Eduardo Mota, 45 anos, professor, “melómano militante”, sócio fundador da Associação Cultural “Portugal Progressivo”, criador dos portais das bandas Amazing Blondel e Gryphon, e de outros como os de Maddy Prior e Van der Graaf Generator, e ainda o generalista Portugal Progressivo, e Álvaro Silveira, 38 anos, economista, “maluco por música, especialmente progressiva” estão de acordo que os Pink Floyd foram uma das bandas mais importantes do Progressivo. Mas, quando toca a “Dark Side of the Moon”, posicionam-se em lados contrários da barricada.
            Álvaro chegou ao Progressivo quando já se agitavam as bandeiras negras do “punk”. “Quem iniciava a sua adolescência na segunda metade dos anos 70 tinha duas alternativas. Ou alinhava com o processo revolucionário em curso que chegava de Londres e pendurava alfinetes na roupa e na face, gritando ‘no future’, ou assumia a nostalgia de um passado imediato e embarcava no mundo do progressivo e do sinfónico.” Optou pela segunda hipótese, juntando-se a uma tertúlia de amigos para quem os Yes, os Led Zeppelin ou os Genesis representavam o “crème de la crème” do Progressivo. “Havia uma coisa que nos unia, o ‘The Dark Side of the Moon’. Era o disco que tinha mais audições. Individuais e coletivas. Só para ouvir ou também para dançar. Para confirmar um detalhe ou como evento conceptual. Com ou sem apoio de substâncias proibidas. Com namoradas ou sem elas. Em casa ou no liceu. Qual ‘The Lamb Lies Down on Broadway’, qual ‘Close to the Edge’, qual ‘Houses of the Holly’, ‘The Dark Side’ era o denominador comum.”
            Já Eduardo Mota, dez anos mais velho, contextualiza de outra forma o seu contacto com o pomo da discórdia. “Chegado de véspera ao admirável universo sonoro do Rock Progressivo, num momento em que procurava consolidar os meus valores musicais, o disco dos Pink Floyd, para além de desiludir, veio confundir a seleção em curso. Para um lado ficavam Beatles, Stones, Deep Purple, Grand Funk, Black Sabbath e quejandos, os rejeitados. Para o outro, os fascinantes Gentle Giant, Van der Graaf Generator, Genesis, Yes, Tangerine Dream, Renaissance, Soft Machine, Caravan e os... Pink Floyd.” “Dark Side of the Moon”, contudo, provocou-lhe uma profunda deceção. Os Pink Floyd, que antes “surpreendiam com álbuns arrojados como ‘Atom Heart Mother’, ‘Meddle’ ou ‘Ummagumma’”, os mesmos “que meia dúzia de anos antes, em pleno psicadelismo, ousavam assinar ‘Astronomy Domine’, uma peça premonitória do próprio Progressivo”, eram agora os Pink Floyd que “não ousavam nada, apenas alindavam”. “Não aprofundavam, preferiam simplificar. Não surpreendiam, preocupavam-se em agradar. Não experimentavam, optavam por investir com retorno mais que garantido.” Eduardo não lhes perdoou. “Não comprei o disco. Nem desejei que alguém mo oferecesse numa ocasião festiva. Irritei-me até, sempre que o ouvia passar na telefonia, na discoteca, no intervalo de uma sessão cinematográfica, ou ao ser ‘tocado’ num baile provinciano pelo ‘jazz’ de serviço.”
            Álvaro Silveira não poderia estar mais em desacordo: “Dark Side of the Moon”, na altura, “era o supra-sumo da música”. “Cada faixa tinha o seu detalhe que nos fazia delirar, permitindo que o classificássemos como algo que naquela idade nos parecia altamente de vanguarda. Eram os relógios de ‘Time’, a caixa registadora de ‘Money’, o riso louco de ‘Brain Damage’, o solo vocal de ‘The great gig in the sky’...”. Recorda ainda que “esses eram os tempos em que as danças se faziam ao som do ‘Money’ e os slows ao som de ‘The great gig in the sky’ (e de ‘Carpet crawl’ dos Genesis e ‘Child in time’ dos Deep Purple)”.
            “Depois havia aquela capa com a luz a multiplicar-se nas cores do arco-íris e que era a embalagem perfeita do psicadelismo cósmico”, acrescenta. A mesma capa a que, quase 30 anos depois, nem mesmo Eduardo Mota conseguiu resistir, acabando por adquirir “um LP miniatura japonês que reproduzia fielmente a capa, ‘poster’ e autocolantes da edição original, tudo na escala reduzida de um CD”. “Um encantador objeto de coleção. Mais para guardar que para ouvir.”
            Hoje, Álvaro Silveira, apesar de manter intacto o seu fascínio pelo disco, reflete de outro modo: “Há quem associe o ‘Dark Side...’ ao fim do período de ouro dos Pink Floyd. Penso que há um exagero. ‘Dark Side’ é o disco mais importante de toda a obra dos Pink Floyd, por inúmeras razões. É a síntese na modernidade dos vários caminhos experimentados na primeira metade da sua discografia. É o abrir para a nova sonoridade que irá estender-se pela grande produção que é ‘Wish you Were Here’. Em termos musicais foi a catarse da herança Syd Barrett e a passagem de testemunho a Roger Waters como o novo timoneiro. Sem ceder ao facilitismo comercial, trouxe os Pink Floyd para o grande palco universal. Ao fim de tantos anos continua a ser referência histórica e estética.” E personaliza: “’Dark Side of the Moon’ já me acompanhou nas descidas aceleradas das pistas de esqui da serra Nevada. Nas estradas poeirentas e desérticas de Marrocos. No calor das praias das Caraíbas. Nas tempestades tropicais africanas.” Porque, explica: “Dark Side of the Moon” é “uma das poucas obras que, ao fim de 30 anos, continuam a exigir uma meia dúzia anual de audições e que fazem parte da nossa lista de discos para levar para a tal ilha deserta.” Eduardo Mota encolhe os ombros. Afinal, será apenas o álbum que “ostenta o título de ‘o mais vendido de todo o Progressivo’”.

12/04/2016

O Verão é... (em 50 discos)

Y 12|JULHO|2002
música|capa

o verão é...
em 50 discos

“summertime and the living is easy...”. E o Verão é… melancólico, preguiçoso; apetece a pândega e o surf. Queima. E a música? Diz-se que é para todas as estações. Mas pode ser como o Verão: melancólica, preguiçosa, tão veloz como uma prancha e tão ardente como o sol. Finalmente, como uma miragem, porque é no Verão que o Outono mostra os primeiros sinais. O Verão é... em 50 discos – e em todos os outros que está a ouvir

Nota: artigo coletivo em que FM assinava os seguintes textos:

THE B-52´S, 1979
The B-52´s

No pico da new wave, quando não havia tempo para o Verão, os B-52’s bombardearam a pop com os penteados “Empire State Building” e as micro-saias de duas cantoras com nome de boneca: Cindy e Kate. Isso e o facto de as canções serem desalmadamente pop, plastificadas e tresandarem àquele tipo de inconsciência adolescente que faz a imbecilidade parecer um sentimento épico bastaram para colorir as festas de Verão montadas nesse final de década em todas as garagens de todas as casas de todos os subúrbios.

ORANGES & LEMONS, 1989
XTC

Apelidaram-nos de excêntricos. Eles encolheram os ombros e meteram mãos à obra na edificação de um dos edifícios mais sólidos da pop. Andy Partridge é um daqueles cérebros com circunvalações a mais, um espírito barroco e um génio da melodia, capaz de nos prender a alma com o acorde perfeito. “Oranges & Lemons” não será um dos melhores do grupo, mas é o que a capa mais psicadélica, com laranjas e limões a fingir de sóis, bons para espremer no Verão. Citrinos funk, um naipe de metais lambuzados de limonada, gomos de arco-íris e aquele tipo de voz que vai perder o comboio que só os ingleses excêntricos têm. E tem “The loving” – garantia de um arrepio de prazer.

STAN GETZ & JOÃO GILBERTO, 1964
Stan Getz/João Gilberto

Quando proliferam cocktails estragados de eletrônica, música de dança e Brasil, sabe bem “the real thing”. “The girl from Ipanema”, “Desafinado” e “Corcovado”, os clássicos, luzem. Interpretados com a alegria magoada de alguém que se sente só mas sente prazer na solidão. “Ah, porque estou tão sozinho?/ Ah, porque tudo é tão triste?/ Ah, a beleza que existe.../ A beleza que não é só minha/ Que também passa sozinha...”. É isso a bossa-nova: a tristeza mais quente do mundo, melancolia do fim do Verão, sabendo-se que tudo recomeçará sempre de novo.

MEDDLE, 1971
Pink Floyd

Depois de a chuva Syd Barrett ter passado, a música dos Pink Floyd clareou. A frescura e a indolência estivais chegaram com “Meddle”. É tudo água neste disco, das longas gotas que pingam, ondulando no lago de uma alucinação, da “suite” “Echoes”, a canções lânguidas que tentam fazer crer que tomar banho na praia do LSD não requer a digestão feita nem boia salva-vidas. “A Pillow of winds”, “Seamus” e “San Tropez” (o ácido fez cair o “it”) são passeatas nas nuvens, um piquenique no Sol, a olhar muito devagar e muito longe cá para baixo...

PARIS MILONGA, 1981
Paolo Conte

Este Piemontês de 65 anos é um génio. O crooner de um filme de Fellini, com o canto grave de Tom Waits, o talento de arranjador de uma Carla Bley, a pose “cool” de um Bryan Ferry e o humor de um faz-tudo à deriva num novelo de “spaghetti” sentimental. Tangos, variedades de faca e alguidar, as piscinas mal esvaziadas de Inverno, praias de Cinzano, o champanhe entornado na ressaca. Conte canta tudo. “Paris Milonga” é o Verão que imaginamos quando caminhamos ébrios ao longo da marginal.


calor é com eles

Barry Adamson na câmara escura, Perry Blake na Califórnia, Springsteen na América rural, Sakamoto em idílio brasileiro. O Verão vai ser com eles.

Nota: texto assinado por F.M., R.M.P. e V.C.

Está cada vez mais pequeno, o mundo. Músicas e culturas, tecnologia e pessoas, símbolos e modas, tudo se cruza e imiscui na auto-estrada da informação, em viagens mais e mais rápidas. Baile de máscaras, orgia ou reunião de trabalho, a verdade é que as diferenças se esbatem neste convívio por vezes forçado.
            Não será o caso do japonês Ryuichi Sakamoto, turista da arte há muito habituado a viajar em primeira classe, com bilhete de ida e volta, no Expresso-Oriente. O seu próximo álbum, a editar a 12 de Agosto (Sony), recria a música do brasileiro Antonio Carlos Jobim (em quem, mais do que o compositor de bossa-nova, Sakamoto viu um parente espiritual dos impressionistas franceses, como Debussy e Chopin) em colaboração com Jacques e Paula Morelenbaum.
            Mas o que poderia passar por mais um disco de versões é algo mais profundo. “Casa”, como o nome indica, foi gravado na casa de Tom Jobim, no Rio, tendo o japonês tocado no próprio piano, “ainda manchado de whisky e queimado por pontas de cigarro”, do brasileiro. As janelas estiveram abertas durante as gravações, deixando entrar o som das ondas e o bruá da cidade. Talvez mesmo algo mais, admite, referindo-se ao pássaro que entrou e pousou no tampo do piano, a meio de uma canção, para entoar a sua melodia. “Foi Tom Jobim que entrou ali, encarnando na ave, a exprimir o seu prazer, cantando uma vez mais a sua música”.
            Se Sakamoto e a ave-Jobim são música branca, o novo trabalho de Barry Adamson, “The King of Nothing Hill” (2 de Setembro, Zona Música), é, como é hábito, um filme negro imaginário, como crimes, charadas e diabolismos vários, no que o autor define como um disco sobre as “ilusões do poder”, se não mesmo sobre a vida enquanto suprema ilusão. Não por acaso, o antigo teclista dos Magazine e dos Bad Seeds de Nick Cave, já compôs para David Lynch. “The King of Nothing Hill” abre com funk e termina com pop. Pelo meio, o recheio é o mais interessante, como o próprio admite – um ambientalismo escuro, feito de conotações indecifráveis e máquinas devoradoras de cabeças. Verão na câmara escura, com papões.
            E se um jardim irlandês se transformasse no Verão californiano? “Got to get out of this place tonight”, começa por cantar Perry Blake (“This Life”), e a seguir já está numa canção chamada “California”, onde não pode deixar de assinalar que está em terra de Beach Boys e onde confessa que “a new life is what we need (...) maybe go to California, where it‘s warm”. O jardim do irlandês fez-se “road to Hollywood”, a soul refresca um universo que já chegara à saturação, a voz dá-se ares de Marvin Gaye, os horizontes alargam-se. Mantém-se a melancolia, a estrutura repetitiva... Provavelmente Blake nem se mexeu muito: “California”, o álbum (Universal, Agosto/Setembro) é uma daquelas viagens em que não chega a sair do mesmo sítio; em que o movimento é apenas ilusão.
            Se Perry Blake nos leva até uma imaginária Califórnia, Bruce Springsteen transporta-nos até à América rural. Regressa com “The Rising” (Sony, 29 Julho), o primeiro disco gravado com a E Street Band desde 1984. Da ruralidade, para uma imensidão de paisagens da América: o terceiro disco dos Queens Of The Stone Age, “Aongs for the Deaf” (Universal, 26 de Agosto), é um meio termo entre o saturado álbum de estreia e “Rated R”, o espantoso segundo disco; dos Sparta e dos Mudhoney haverá, respetivamente, “Wiretap Scars” (Universal, Agosto) e “When we were translucent” (Música Alternativa, Agosto).
            Depois do murro no estômago que foi “Xtrmntr” (“Exterminator”), o grupo de desestabilizadores liderados por Bobby Gillespie voltará a assaltar quem escutar “Evil Heat”. É o sétimo álbum dos Primal Scream (Sony Music, 5 de Agosto). Antes dele, a 22 de Julho, sai o novo dos Public Enemy, “Revolverlution”. Segue a linha dos anteriores trabalhos de Chuck D, Flavor Flav e Professor Griff: política e “scratching”.
            Mas, se existe projeto conotado com a leveza do Verão é o dos norte-americanos Thievery Corporation. Vão regressar em época de calor: “The Richest Man In The Babylon” (Setembro, pela Última). Quem também vai estar de volta em Setembro é o músico e produtor de Filadélfia King Britt. O projeto que lidera chama-se King Kooba e o nome do álbum diz tudo: “Indian Summer” (Ananana).
            De todos os nomes da inglesa Ninja Tune, poucos têm o sentido de humor e a “joi de vivre” de Mr. Scruff. Se quer ficar bem disposto no Verão aponte na agenda: 9 de Setembro. É nesse dia que sai “Trouser Jazz” (Ananana). Para um Verão mais preguiçoso convém ouvir o hip-hop de DJ Vadim – o disco dai a 23 de Setembro, pela Ananana.
            Outro trabalho a ter em consideração: os Steroid Maximus, um dos vários projetos de J.G. Thirwell (Foetus, Clint Ruin, Wiseblood). Em “Ectopia” ele dá largas a sua veia de compositor imaginário de bandas sonoras de filmes negros, num registo próximo do de Barry Adamson – um pouco menos glamoroso.

16/04/2015

Ecos do passado [Pink Floyd]



Y 30|NOVEMBRO|2001
escolhas|discos

PINK FLOYD
Echoes - The Best of Pink Floyd
2xCD EMI, distri. EMI - VC
8|10

pink floyd ecos do século passado

Normalmente, as coletâneas “o melhor de…” são desperdício para o fã deste ou daquele grupo, para quem o que conta são os álbuns originais que traçam o percurso histórico e sinalizam as diversas fases de evolução dos artistas da sua preferência. Não é o caso de “Echoes”, primeiro “Best of” de sempre dos Pink Floyd, ao cabo de 35 anos de carreira. Não é uma coletânea como as outras, da mesma forma que os Pink Floyd nunca foram uma banda como as outras. Da embalagem, delicioso jogo de espelhos e “trompe l’oiel” que tanto evocam o design da campanha Hipgnosis como os ilusionismos gráficos de Escher, ao som, objeto de nova remasterização que faz empalidecer as anteriores, nada foi deixado ao acaso. “Echoes” foi construído como uma história imaginária que acentua a intemporalidade de música dos Pink Floyd. Em vez do alinhamento preguiçoso de faixas, por ordem cronológica, optou-se por arriscadas transições que unem, através de “editing”, “See Emily play”, de 1967, a “The happiest day of our lives”, de 1979, “Learning to fly”, de 1987, a “Arnold Layne”, de 1967. O incrível é que faz sentido, dando a entender uma outra lógica de encadeamento que manipula e altera de forma eficaz e, por vezes, surpreendente, as emoções que julgávamos definitivamente arquivadas na enciclopédia dos Floyd.
            Ao todo, “Echoes” junta 28 temas do grupo que, com os Soft Machine, foi responsável pela introdução, em 1967, do Psicadelismo em Inglaterra, nos tempos épicos das atuações no clube londrino UFO. Nunca a voz e o surrealismo mental de Syd Barrett, em temas como os já citados “Arnold Layne” e “See Emily play”, mas também “Jugband blues” e “Bike”, soaram tão luminosos. A faceta “space rock” faz-se representar pelos incontornáveis “Astronomy Domine”, “Set the controls for the heart of the sun” e o mais tardio “The great gig in the sky”, já do mega-sucesso “The Dark side of the Moon”, cuja presença em “Echoes” se faz sentir ainda nos demasiado “gastos”, “Time” e “Money”. “Wish you Were Here”, com a tocante homenagem a Barrett que é “Shine on you crazy diamond”, a abrir do disco 2, e “The Wall”, de 1979, álbum chave para a compreensão da atitude que orientou grande parte da produção rock e pop dos anos 70 e do talento como compositor e dos fantasmas que fervilhavam no cérebro de Roger Waters, fazem-se obviamente representar neste “Best of” que consegue o prodígio de fazer soar fresca uma música mil e uma vezes ouvida.
            Mesmo os temas de álbuns menores, como “A Momentary Lapse of Reason” e “The Division Bells”, ganham uma insuspeita credibilidade graças a um alinhamento que os recontextualiza. São ainda recuperados dois álbuns de transição, “Animals” e “The Final Cut”, e um tema (“When the tigers broke free”) da banda sonora de “The Wall”. A única mácula de “Echoes” será talvez o corte de seis minutos (de 22 para 16…) na suite, com o mesmo nome, que ocupa o lado dois da edição original em vinilo de “Meddle” – mas o “novo” som, fabuloso, faz esquecer esta “traição” de uma coletânea onde são notórias a inteligência e uma compreensão genuína do que os Pink Floyd representaram para a música popular do século passado.