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22/04/2026

Perlinpinpin, e fez-se luz [Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 15 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

Perlinpinpin, e fez-se luz

 

Em Oeiras, os Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram como começaram – em beleza. Reunidos público, músicos e vontades, o sonho cumpriu-se. A Europa esquecida fez soar a sua voz.

 

Este fim-de-semana, em Oeiras, acabaram os Encontros. Fruto do esforço e do amor à causa mais uma vez demonstrados pela organização, a cargo da Cooperativa Cultural Etnia. Encontro dos “maluquinhos” da “folk” com a música menina dos seus olhos. Dos curiosos com um novo mundo, que sempre foi o seu, embora nunca tivessem dado por isso. Encontros que, pela segunda vez, souberam escolher programa a preceito, marcando presença com alguns dos nomes mais significativos da “folk” atual. O público correspondeu, em número e entusiasmo, tornando o Auditório do Complexo das Forças Armadas num local de festa. Os militares puseram flores no cabelo, tangeram liras e flautas. Abriram portas. O serviço obrigatório deveria ser assim.

Na sexta-feira atuaram os ingleses Whippersnapper e os portugueses Vai de Roda, estes já com assinatura neste tipo de certames. O trio inglês trouxe a Oeiras lembranças antigas, glórias passadas, revivendo o espírito e a música dos lendários Fairport Convention. Dave Swarbrick partiu mas os que ficaram chegam para manter acesa a chama. Chris Leslie, agora o único violinista, é um fora-de-série, fazendo o que quer do seu violino azul eletrificado. Martin Jenkins e Kevin Dempsey, respetivamente no “mandocello” e guitarra acústica amplificados, não lhe ficam atrás e também deram lições de virtuosismo. Entre cada tema contaram as histórias de cerveja do costume. Conseguiram a proeza de pôr a assistência inteira a cacarejar, num tema sobre galinhas, enquanto o violinista dava a volta à sala, e toda a gente se divertia numa sala transformada em manicómio. Longe de quaisquer purismos os Whippersnapper foram uma lufada de loucura, tecnicismo e boa disposição. Requisitos que se exigem a este tipo de música.

 

Bruxas e mãos de fada

 

Tentúgal e os Vai de Roda fizeram o habitual: a encenação rigorosa de um Portugal imaginário, enraizado na matriz renascentista e prosseguido nos “bailes mandados” e cadências elétricas dos dias de hoje a preto e branco. A sanfona, a ponteira, o violino, as guitarras e tambores, as vozes e as palavras de um naturalismo (ainda não) perdido, contam e cantam a sobrevivência da arte de ser português, assombrada por boas e más bruxas que persistem em conspirar na escuridão. Os Vai de Roda seguem à procura do futuro.

Sábado começou por ser um negócio de harpas. O duo feminino escocês Sileas, que atuou em vez do bardo Robin Williamson, inicialmente programado, deu todo o sentido à expressão “mãos de fada”. Patsy e Mary, loura e morena de calças e blusas estampadas, têm dedos de ouro. Dedos sábios e delicados, fizeram vibrar cordas de luz. Doce Escócia, fluindo suave nas danças ao longe, no sorriso das raparigas, no anelo gaélico do canto, distante na gramática mas íntimo na oculta geografia. Tentaram que o público cantasse um refrão, em gaélico, tão simples como uma partitura de Stockhausen. O resultado soou efetivamente a Stockhausen.

Interpretaram temas de “Beating harps”, como corações. E de “Delighted with harps”, todos nós, dessedentados da grande sede interior e da secura tórrida da tarde. Tanta, que o alarme antifogo estridente, tocou, interrompendo como um despertador indesejado o fluido cristalino das harpas. As Sileas pararam de tocar, sorriram e saíram debaixo de uma trovoada de aplausos.

Para o final estava guardado o momento mais alto, com os occitanos Perlinpinpin Folc, que já haviam atuado nos Encontros do ano passado. A música destes quatro senhores, calmos na postura mas completamente loucos no resto, desafia todas as definições e apreciações. A Occitânia é o mar profundo onde pescam uma ancestralidade simultaneamente pagã e luminosa, com sabor a verde, pedra e prata, encimado pelo azul escuro riscado pelos monstros e anjos psicadélicos do céu medieval. Para além da panóplia instrumental que inclui a gaita-de-foles, o violino e instrumentos de sopro bizarros como o gemshorn, os sons surgem de tubos de vassoura, tambores de água, conchas, paus, arcos, soando a grutas, estrelas, rios e sonhos.

Os Perlinpinpin Folc desceram à terra, falaram com pronúncia cerrada de gascões, das virtudes do bom vinho português, das vindimas e colheitas, de gaivotas que morreram, de lendas estranhas, do cinzento chuvosos dos vizinhos bascos. Cantaram complexas polifonias vocais, na língua antiga de Oc. Foram tudo o que um grupo de música tradicional deve ser: excitante, versátil, verdadeiro. Oeiras não os esquecerá tão cedo. O sonho tornou-se realidade com as sílabas mágicas de Perlinpinpin.

 

18/04/2026

O baile vai começar [Encontros da Tradição Europeia]

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 JULHO 1991 >> Cultura

 

Encontros da Tradição Europeia arrancam hoje em Famalicão

 

O baile vai começar

 

Da Occitânia à Catalunha, do Piemonte à Irlanda e Escócia, sem esquecer o Portugal de ressonâncias celtas, a aposta na divulgação de uma herança musical que, fluindo embora por diferentes leitos, nasceu e desagua em águas comuns. Europa de novo confluente no seu extremo geográfico e anímico mais ocidental.

 

 

Em Famalicão têm hoje início os 2ºs Encontros da Tradição Europeia, que também decorrerão em Oeiras, Évora e Guimarães. Como no ano passado, são organizados pela Cooperativa Cultural Etnia. Durante treze dias, a música tradicional ocupa o centro das atenções. De Norte a Sul, desenhando um quadrilátero (ou uma cruz) arquitetado com a energia animada, dizia Pascoais, pela “saudade do Futuro”. Compreender esta expressão é compreender o sentido do tempo e a maneira como a cultura se estratificou na Europa, varrida nos primórdios por ventos e ideais do Oriente.

Dos brâmanes hindus e bardos celtas aos novos trovadores que, entre o cimento das grandes metrópoles, de novo erguem o bordão e a “estela”, são ainda e sempre os eternos peregrinos do novo mundo, a calcorrear estradas e eras de São Tiago, entre pedras e estrelas, até Compostela, a buscar o infinito.

 

Oito descobertas

 

Oito caminhos, outras tantas descobertas: Altan (Irlanda), Robin Williamson (Escócia), Whippersnapper (Inglaterra), Perlinpinpin Folc (Occitânia, França), La Grande Bande des Cornemuses (França), La Ciapa Rusa (Piemonte, Itália), Rosa Zaragoza (Catalunha, Espanha), Vai de Roda e Romanças (Portugal).

Com três álbuns gravados, “Altan”, “Horse With no Heart” e o recente “The Red Crow”, os Altan constituem uma das grandes revelações da “Folk” irlandesa dos últimos anos, da estirpe de grupos lendários como os Bothy Band ou Planxty. Mairéad Ní Mhaonaigh (violino e voz), Frankie Kennedy (flauta), Ciaran Curran (bouzouki), Mark Kelly (guitarra), Paul O’ Shaughnessy (violino) e Ciaran Tourish (violino) dão corpo e voz a um ritmo endiabrado e a melodias inspiradas no gaélico, que, no cruzamento entre o antigo e o novo, recuperam a jovialidade e o ritual de encontro com a terra.

A Oriente da “terra da ira”, os Whippersnapper fazem dos instrumentos de corda reis da festa. São três (Dave Swarbrick, violinista louco dos seminais Fairport Convention, abandonou recentemente): Martin Jenkins e Kevin Dempsey (antigos membros de uma das bandas mais interessantes da “Progressive Folk” dos anos 70, os Dando Shaft) e Chris Leslie. Juntam o “mandocello”, o bandolim, as guitarras e a flauta aos sintetizadores, aliando a doçura dos “airs” à eletrónica e a um discurso por vezes próximo do “jazz”.

O terceiro representante das Ilhas Britânicas é Robin Williamson, novo bardo escocês, harpista como mandam as regras do segredo. Integrou, ao lado de Mike Heron, uma das bandas mais estranhas de sempre, os Incredible String Band, mistura exótica de mil e um instrumentos, mantras hipnóticos e mitologia celta, com o rock e o “senhor dos anéis” de permeio. A dada altura optou pelo que julgou ser o essencial: a harpa, o mundo antigo, as lendas e histórias para crianças. A solo ou com os Merry Band. Vinte e seis álbuns gravados e uma recusa sistemática em se entregar aos esquemas da indústria, conferiram-lhe o estatuto de referência obrigatória no capítulo dos grandes músicos populares do nosso tempo.

 

A vassoura também toca

 

Perlinpinpin Folc e La Ciapa Rusa repetem a presença nos Encontros. Regresso inteiramente justificado, já que constituíram dois dos melhores momentos da edição do ano passado. Ambos recuperam, de forma deslumbrante, a música popular das respetivas regiões (Occitânia e Piemonte), enriquecendo-a com um bom gosto e uma mestria técnica notáveis, servidos por arranjos inovadores. Fabulosos, no caso dos italianos, a voz divinal de Donatta Pinti e o modo como manejam as sanfonas, de fazer corar o espalhafato supérfluo das “estrelas do rock ‘n’ roll”. Quanto aos franceses não espanta vê-los tocar um saxofone feito de um cabo de vassoura ou uma espécie de realejo de vidro, enquanto as vozes se vão ocupando de intricadas polifonias.

Momento especial será decerto aquele proporcionado pela Grande Bande des Cornemuses, grupo de 10 tocadores de gaitas-de-foles, oriundo de Lyon, dirigido por Jean Blanchard (membro fundador dos La Bamboche), preparado para, logo no primeiro dia, animar as ruas de Algés, contando para tal com a encenação de Laurent Figuière, baseada na relação ancestral entre o homem e a Natureza.

Em Rosa Zaragoza encontram os judeus sefarditas do Sul de Espanha uma das suas vozes mais empenhadas, em álbuns como “Cançons de noces dels jueus catalans” ou “Cançons de Bressol del Mediterrani”. No mais recente, “Les nenes bones van al cel, les dolents, a tot arreu”, (as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado…) manifesto a favor das tais que “vão para todo o lado”, defende esta e outras minorias, como a cigana e a índia. Rosa vem acompanhada de quatro músicos, mas só o timbre inusitado e a emoção do canto chegam para provocar arrepios.

Finalmente os portugueses Vai de Roda (Tentúgal sempre às voltas com as bruxas do terreiro) e Romanças (que recentemente andaram em digressão pelas Ilhas Britânicas) completam um programa recheado de nomes importantes, capaz de, a breve prazo, tornar estes “Encontros” num dos principais festivais europeus de música tradicional.

  

 

PROGRAMA DAS FESTAS

 

ÉVORA

Praça do Giraldo

 

 

 

6 de julho

Altan

Perlinpinin Folc

(Irlanda)

(Occitânia / França)

10 de julho

Whippersnapper

Perlinpinpin Folc

(Inglaterra)

(Occitânia / França)

10 de julho

Rosa Zaragoza

 

Robin Williamson

(Catalunha / Espanha)

(Escócia)

11 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

11 de julho

Whippersnapper

Vaide Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

16 de julho

Romanças

Robin Williamson

(Portugal)

(Escócia)

 

 

FAMALICÃO

Praça 9 de Abril

 

OEIRAS

Auditório do Complexo Social das Forças Armadas

3 de julho

Vai de Roda

Perlinpinpin Folc

(Portugal)

(Occitânia / França)

6 de julho

La Grande Bande des Cornemuses

(França)

5 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

7 de julho

Altan

Rosa Zaragoza

(Irlanda)

(Catalunha / Espanha)

9 de julho

Whippersnapper

La Grande Bande des Cornemuses

(Inglaterra)

(França)

12 de julho

Whippersnapper

Vai de Roda

(Inglaterra)

(Portugal)

12 de julho

Robin Williamson

(Escócia)

13 de julho

Perlinpinpin Folc

 

Robin Williamson

(Occitânia / França)

(Escócia)


GUIMARÃES


Praça do Santiago

 

Todos os espetáculos são gratuitos e iniciam-se às 21h30

Excecionalmente, a atuação de La Grande Bande des Cornemuses em Oeiras (6 de julho) realiza-se no parque dos Anjos, em Algés


4 de julho


La Ciapa Rusa

 

Altan


(Piemonte / Itália)

(Irlanda)

 

10/06/2025

À procura das raízes culturais da Europa [Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

cultura QUINTA-FEIRA, 5 JULHO 1990

 

Começam hoje em Évora, Famalicão e Oeiras os Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

À procura das raízes culturais da Europa

 

À procura das raízes culturais. A partir de hoje e até dia 13, terão lugar em Évora, Famalicão e Oeiras, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados pela Cooperativa Cultural Etnia, sediada em Caminha. Da Galiza, Grã-Bretanha, Occitânia e Piemonte virão cultores de antigos sons. Paredes representará o espírito português: a fatalidade e a distância.

 

A iniciativa, que conta com o apoio das três câmaras municipais, tem como objetivo “incrementar o intercâmbio cultural no espaço europeu, com base na promoção e divulgação da música e cultura das suas grandes regiões, e fomentar o contacto entre grupos ou solistas ligados à música tradicional dessas mesmas regiões”. Pretende-se que a série de concertos passe a ter uma realização regular, sempre numa perspetiva de descentralização, procurando deste modo tornar o nosso país num ponto privilegiado de encontro entre as diversas culturas musicais europeias.

            Atuarão ao vivo, entre nós, alguns dos nomes mais importantes de cena “folk” atual, como Andrew Cronshaw, Emilio Cao, Manuel Luna, Perlinpinpin Folc, La Ciapa Rusa, para além do guitarrista português Carlos Paredes.

            Andrew Cronshaw é um músico britânico, responsável por uma original e sedutora fusão das sonoridades tradicionais com o jazz e a música clássica. Como se poderá comprovar pela audição do excelente “Till the Beast’s Returning”, álbum já há algum tempo disponível no mercado nacional. Outras obras importantes são os discos “A is for Andrew, Z is for Zither”, “Earthed in Cloud Valley” (com o guitarrista Martin Simpson), “Wade in the Flood” e o recente “The Great Dark Water”. Intérprete brilhante na cítara elétrica, estende os seus talentos por outros instrumentos – flautas chinesas, concertina, sintetizadores, percussão e o shawm, antepassado medieval do oboé.

            Emilio Cao é galego e já atuou várias vezes em Portugal, tendo colaborado com Fausto em “O Despertar dos Alquimistas” e com o grupo teatral “Os Comediantes”. Exímio executante de harpa, gravou entre outros o marco na evolução da música galega, “Fonte de Araño”. “No Manto da Auga”, “Amiga Alba e Delgada” e “Lenda da Pedra do Destiño” completam a sua atual discografia.

            Também espanhol (se considerarmos que a Galiza é Espanha, o que é duvidoso”...) é Manuel Luna, antropólogo, apaixonado pela música e cultura da região da Cantábria. Publicou vários ensaios e cerca de 30 discos de recolha etnomusicológica. Gravou com os “La Quadrilla” o álbum “Como Hablam las Sabinas”, já importado pela Etnia. A investigar são também “Em los Jardines del Sueño” e o novo “Os Galos de Londres”.

            No Sul de França, entre a Catalunha e a “Côte d’Azur”, fica a Occitânia, região natal dos Perlinpinpin Folc, um dos mais estranhos grupos do movimento folk gaulês. “Musique Traditionnelle de Gascogne”, “Gabriel Valse” e “Al Paїs d’Occitania” são alguns dos seus bons trabalhos. Sobre a sua música escreveu o crítico Pierre Corbefin: “Provoca-nos uma impressão quase opressiva, como se atravessássemos uma paisagem árida, despovoada, apenas habitada por um bater obscuro e pelos rumores da terra”.

            Os “La Ciapa Rusa” são italianos de Piemonte, a Noroeste do país. Combinam a excelência instrumental, através da utilização dos sons tradicionais da sanfona, do violino, do pífaro de pastor e da “musa” (gaita-de-foles piemontesa) com um notável trabalho de harmonias vocais.

            A representação portuguesa está a cargo de Carlos Paredes. Dele o mínimo que se poderá dizer é que é uma parcela importante da alma lusitana. Escutar a sua guitarra, contemplar o modo com se entrega a ela e à música que escorre pelos seus dedos até ao vibrar das cordas, é sentir o Fado e a distância. Ir ao sabor dos “Verdes Anos” até ao oceano sem fim.

            Uma palavra final de louvor para a Etnia que tem vindo a desenvolver um notável trabalho de recuperação e revitalização da cultura tradicional. Desde a realização de espetáculos, exposições e seminários, até à publicação de livros e à importação de pérolas discográficas folk, para já oriundas do país vizinho, como são os álbuns de Rosa Zaragoza, Amancio Prada, Manuel Luna, “La Musgana” e, brevemente, Emilio Cao.

 

PROGRAMA
 
ÉVORA – Praça do Giraldo
 
Quinta, 5 de Julho
MANUEL LUNA
PERLINPINPIN FOLC
 
Sexta, 6 de Julho
LA CIAPA RUSA
CARLOS PAREDES
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
ANDREW CRONSHAW
 
FAMALICÃO – Jardins da Câmara Municipal
 
Quinta, 5 de Julho
CARLOS PAREDES
ANDREW CRONSHAW
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
LA CIAPA RUSA
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
PERLINPINPIN FOLC

OEIRAS – Auditório do Complexo Social das FA’s
 
Quinta, 5 de Julho
LA CIAPA RUSA
EMILIO CAO
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
ANDREW CRONSHAW
 
Sábado, 7 de Julho
CARLOS PAREDES
PERLINPINPIN FOLC
 

25/09/2008

Perlinpinpin Folc - Ténarèze + Verd e Blu - Música De Gasconha

Pop Rock

29 Abril 1992

GASCONHA NAS ALTURAS

PERLINPINPIN FOLC
Ténarèze (10)
 
CD, Compas, distri. Megamúsica
VERD E BLU
Música de Gasconha (10)

CD, Menestrèrs Gascons, distri. Megamúsica

No mapa, a Gasconha fica situada entre o Golfo da Biscaia e o Mediterrâneo, ao lado dos Pirinéus. Da música tradicional desta região (na década de 70 chegaram até nós alguns discos de Joan Pau Verdier e “Camas de Boi” de Peir Andreu Delbeau) a Oeste da Provença, onde outrora se falava a língua d’Oc dos trovadores medievais, apetece dizer que não é deste mundo. Porque as emoções que provoca também não o são.
Os Perlinpinpin Folc estiveram duas vezes em Portugal, por ocasião dos I e II encontros da Tradição Europeia. Para quem teve o privilégio de assistir aos seus concertos, a simples visão do seu nome é razão suficiente para correr de imediato à procura do disco.
“Ténazère”, designação de “uma via pré-histórica sem pontes nem vaus”, dá a conhecer uma música diferente, servida por músicos não menos diferentes. Viagem iniciática por polifonias vocais parentes por vezes do canto corso, embora menos imbuídas do seu sentimento trágico, pela delicadeza e expressividade da gaita-de-foles e por arranjos onde impera a diversidade permitida por uma panóplia instrumental onde o acordeão, a gaita, o mandolocello, o violino, o oboé e o clarinete coabitam com a sanza africana, o bamboulak ou o “escovofone”, que os Perlinpinpin trouxeram aos encontros – uma vassoura de sopro, cuja sonoridade se assemelha à de sax barítono.
Os Perlinpinpin primam pelo sentido lúdico e pela religiosidade. No passado, as duas andavam sempre juntas. Então, como em “Ténazère”, o corpo e a alma vibravam em comunhão, soltos em serpentes e águias melódicas e em transportes harmónicos que, por fricção interior, nos ensinam que ouvir e fazer música se complementam num movimento único. É isso o amor.
Os Verd e Blu chegam-se mais à música antiga e às origens trovadorescas da Gasconha. O som evoca lagos de estrelas reflectidas em forma de canções pela pureza da voz de Marie-Claude Hourdebaigt e sublimadas ao fogo pela sanfona de Jean Baudoin. Os Mant-Jóia, grupo da Provença com um disco editado na Le Chant du Monde podem servir de ponto de comparação a estes “Verdes e Azuis” pintados pela gaita-de-foles, pelo acordeão, pela sanfona e por percussões que tomam o Mediterrâneo pelos trópicos. Há sons de serrote, respirações de vento, polirritmos de palmas e de novo polifonias vocais que radicam em cânticos e evocações perdidos no tempo.
“Ténarèze” e “Música de Gasconha” não se explicam por palavras. Sentem-se como se sente aquilo que temos por mais profundo: o divino.