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10/09/2021

Uns americanos em Paris [Jazz]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 12 FEVEREIRO 2005
 
A América da música mais livre passou por Paris nos anos 70. Uma nova série francesa recuperou quinze registos da época. Os Art Ensemble of Chigaco ficaram com a fatia maior.
 
Art Ensemble Of Chicago
Certain Blacks
8 | 10
 
Art Ensemble Of Chicago
With Fontella Bass
8 | 10
 
Art Ensemble Of Chicago
Phase One
8 | 10
 
Dave Burrell
After Love
8 | 10
 
Paul Bley
Improvisie
8 | 10
 
Steve Lacy
The Gap
7 | 10
 
Todos ed. America, distri. Universal
 
Uns americanos em Paris
 
America é um novo selo francês, cujo “output” inicial é uma série de 15 discos gravados no início da década de 70 por músicos americanos conotados com o “free jazz”. Característica particular: todos os discos foram registados em Paris, ao vivo ou nos estúdios da Decca. Os autores são Art Ensemble of Chicago (três CD), Paul Bley, Anthony Braxton (dois), Dave Burrell, Emergency, Steve Lacy, Roswell Rudd, Archie Shepp, Alan Shorter, Clifford Thornton Quartet, Mal Waldron com The Steve Lacy Quintet e Frank Wright. A dedicatória do selo é dirigida ao teórico e crítico francês Laurent Goddet.
            Primeiro da série, Art Ensemble of Chicago (AEC), e “Certain Blacks”, registo de 10 de Fevereiro de 1970, por uma formação que, além dos históricos Lester Bowie, Joseph Jarman, Roscoe Mitchell e Malachi Favors, incluía Chicago Beau (saxofone tenor, harmónica, piano e percussões), Julio Finn (harmónica) e William A. Howell (bateria, naquela que foi a sua única sessão gravada). Mais “primitiva” que as posteriores estilizações, como as levadas a cabo na editora ECM. “Certain Blacks ‘do what they wanna’” é uma leitura tribalista do “blues”, com cânticos” e um emaranhado labiríntico de sopros. “One for Jarman”, mais contemplativo, põe em evidência os jogos da flauta, do sax tenor, da harmónica e do piano. “Bye bye baby” é um “espiritual” executado com devoção à pureza original. Sonny Boy Williamson abraça com o seu espírito a totalidade de um disco que põe em prática a velha máxima dos AEC – “From the ancient to the future”.
            No mesmo ano, em Agosto, já com Don Moye, os Art Ensemble gravaram na capital francesa um álbum de parceria com a cantora “soul” Fontella Bass, na altura mulher de Lester Bowie. AEC sempre foi sinónimo de libertação e grito da raça negra, embora, como tivesse reconhecido Lester Bowie, faltasse ao grupo o “estímulo do gueto”. O que implica, em sua substituição, que as “pessoas são o gueto” e as “pessoas do gueto são a música”. A “new thing” dos AEC é a tradução para o jazz do “black power” e isso fica patente na “suite”, semi-improvisada e dividida em dois movimentos, “How strange” e “Ole Jed”. O ambiente é uma St. Louis astral, povoada pela voz teatral de Bass, apitos, risos, sirenes, toda a habitual parafernália sónica e simbólica do grupo, unida num ritual de ligação da selva urbana às energias mais subtis da natureza, personificadas por essas “percussões do sol” feitas de vibrações cristalinas, sinos, metais refulgentes, marimbas e “temple blocks”. Fontella é um pouco a dançarina e o menestrel, a voz da raça, umas vezes em oração, outras meditando, outras ainda gritando ao desafio. “Horn webb”, o outro longo tema, começa por ser furiosamente percussivo para a seguir se aplacar em introspeção, numa espécie de balada que aos poucos vai sendo fragmentada e revelando as partes constituintes, sob a “drone” devocional de um vibrafone e com o trompete de Bowie a voar como uma grande ave. O “free”, nos AEC, mais do que combinação ou adição de loucuras particulares, é sempre a celebração, festiva ou de protesto, de um ato de comunhão e criatividade coletivas.
            “Phase One”, terceiro capítulo parisiense do grupo, tem como data de gravação Fevereiro de 1971. Uma vez mais, dois temas longos, “Ohnedaruth” e “Lebert Aaly”, anagrama de Albert Ayler, a quem é feita dedicatória. O primeiro é “free jazz” na aceção mais corrente do termo, feito de longas dissertações do trompete de Bowie e os saxofones de Mitchell e Jarman, com a bateria a substituir as paisagens tímbricos das múltiplas percussões. Paradoxalmente, a questão, várias vezes formulada, da opção do grupo por uma quantidade incontável de instrumentos e artefactos sonoros tem aqui menos relevância. O tema dedicado a Ayler é, por outro lado, como não podia deixar de ser, a incursão numa outra divisória do largo campo de manobras dos AEC. Os espíritos e fantasmas aylerianos são desfraldados como bandeiras, com uma pureza quase “naïf” que evoca a pré-história do jazz, com o “gospel” a falar, observado à luz do grito, da inquietação e da aspiração religiosa. Mais a menos a meio do tema, sobrevém uma reordenação. Os pequenos sons mostram-se e escorrem como gotas de chuva numa placa de vidro. Deus e o Céu respondem finalmente e o grito é aplacado, quando os universos dos bichos, dos homens e dos anjos retomam, cada um, o seu lugar.
            Dois AEC, Roscoe Mitchell e Don Moye, participam em “After Love”, do pianista Dave Burrell, um dos mais importantes do “free”. Alan Silva (violoncelo acústico e elétrico, violino), Ron Miller (contrabaixo, bandolim), Michel Gladieux (contrabaixo) e um segundo baterista, Bertrand Gauthier, compõem o restante “line up”. Burrell, pianista de extremos e aluno atento, quer da história antiga, quer das inovações introduzidas por Coltrane, Sun Ra, Cecil Taylor e Ornette Coleman, separa e recompõe vertiginosamente todos esses componentes. O seu piano vai de Jelly Roll Morton a Taylor, passando por Ellington e Monk, por vezes amassando todos eles num acorde ou numa corrida lancinante. Mitchell e Silva seguem ou antecipam o seu delírio ininterrupto, mas a música está longe de se subordinar ao caos. Quando um bandolim sorri a quebrar o frenesim de “After love, part 1 – Questions and answers”, a música percorre as ruas como o circo que desce à cidade, numa antecipação do que, anos mais tarde, faria o excêntrico Eugene Chadbourne. “My march” soa como Monk com febre. Não é tanto a noite como o crepúsculo, quando as criaturas da floresta saem das suas tocas e também elas cantam o seu louvor. O saxofone de Mitchell conta com serenidade a sua história, mas Silva, no violino, como sempre, mostra-se inquieto. Em ritmo de marcha, a flauta e o contrabaixo, com Burrell finalmente abandonando-se às notas da alegria, anunciam o advento da alvorada.
            Noutro lado da casa, o pianista canadiano cumpria em 1971 as promessas feitas em 1967, no rock, pela explosão psicadélica e pela exploração intensiva dos teclados eletrónicos. “Improvisie” é jazz psicadélico, com Bley a socorrer-se exclusivamente do piano elétrico e do sintetizador, acompanhado por Annette Peacock (piano, piano eléctrico, sintetizador, baixo elétrico e voz, sua parceira no projeto The Bley-Peacock-Synthesizer- Show) e Han Bennink (percussão). Anos mais tarde, já na década de 90, Bley voltaria aos sintetizadores em “Synth Thesis”, embora numa veia mais clássica. Ao contrário de Sun Ra, que usava o “moog” como demiurgo de um cosmos em constante formação e expansão, com recurso intenso aos registos mais “noisy”, Bley servia-se aqui da mesma máquina como fábrica de sonoridades mais variadas e subtis, numa expansão mental e musical idêntica a outras provenientes do “free rock” mais planante. “Touching” (Bley gravaria outras versões deste tema) é mais telúrico e lunático, com eletrónica arrojada, mas a improvisação soa, porventura, menos emocionalmente concentrada que no título-tema. Bennink, esse, diverte-se a criar ritmos-brinquedo, por onde deslizam, como em escorregas, os sintetizadores.
            “The Gap”, de 1972, é um trabalho do saxofonista soprano Steve Lacy, com Steve Potts (saxofones soprano e alto), Irene Aebi (violoncelo), Kent Carter (contrabaixo) e Noel McGhie (bateria). O núcleo central do álbum, “The thing”, inspirou-se na pintura de Jean Fautrier, numa última versão designada “sinfonia”, para improvisação que apenas deverá observar parâmetros como “saídas”, “entradas” ou “quantidades” como “poucas coisas”, “muitas coisas”, “coisas desconectadas”, “só uma coisa”, “nada” e “tudo”. Com uma partitura como esta é óbvio que a liberdade é total, num sentido abstrato onde os encontros, “coisas”, “entradas” e “saídas” parecem eventualmente fortuitos.
            A apresentação gráfica desta “América” parisiense, superficialmente apelativa, optou por capas com padrões pictóricos do mesmo tipo. A leitura dos textos é prejudicada por manchas de cor que escurecem os caracteres, e a reprodução das capas originais surge numa versão pobre e deficientemente impressa a preto e branco. Felizmente, a música, está muitos furos acima.

23/10/2016

Diário de uma vida como lição para a vida diária

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 12 OUTUBRO 2002

Shorter, Giuffre, Bley, Swallow. O futuro já foi feito por eles. Impresso numa pegada ou escrito num diário. Há quem jogue noutro tabuleiro. Tudo depende da força do olhar. E de ser. Mas isso já muito poucos arriscam…

Diário de uma vida como lição para a vida diária

Se o que um homem é está escrito no seu nome, reconheça-se que tal verdade não se aplica no caso de Wayne Shorter. "Mais curta" não é certamente a música de "Footprints Live" do que aquela que o tornou notável, nos anos 60, enquanto "sideman" de Miles Davis, ou a que, de seguida, ajudou a impor aos mais céticos a heresia do jazz rock, através dos Weather Report. "Footprints Live" é ainda, por incrível que pareça, o primeiro álbum ao vivo de sempre deste notável executante dos saxofones tenor e soprano a quem a pop igualmente agradece a disponibilidade (Joni Mitchell, Carlos Santana e os Steely Dan que o digam). Gravado em Julho do ano passado em festivais em Espanha, França e Itália, contou com a participação de Danilo Perez, no piano, John Patitucci, no baixo, e Brian Blade, na bateria, na transposição para o palco de clássicos da sua anterior discografia como "Footprints", "Atlantis", "Juju", ou a soturna "Valse triste", de Jean Sibelius. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva e a frase-faca de Coltrane, sem o tormento, a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".
                O caso dos três homens que se seguem não é menos sério. Três lendas do jazz moderno: Jimmy Giuffre, Paul Bley, Steve Swallow. A reedição das duas sessões, respetivamente registadas em estúdio a 16 e 17 de Dezembro de 1989, e intituladas "The Life of a Trio: Saturday" e "The Life of a Trio, Sunday", justifica uma renovada chamada de atenção pelo facto de ter sido finalmente objeto de remasterização. É da vida de um trio que realmente se trata. De uma experiência a três, da qual resultaram, no início dos anos 60, "1961", a obra-prima "Free Fall" e, já na década seguinte e com selo ECM, o par "Fusion" e "Thesis". Demorou quase 20 anos até se encontrarem de novo e restabelecerem a química. A solo, em duo ou em trio, as filigranas de "The Life of a Trio" tecem-se na cumplicidade e no silêncio, na memória das notas antigas e na redescoberta do seu gosto. No lirisno de Swallow, no impressionismo abstrato de Bley e na genialidade de Giuffre, um dos mais inteligentes músicos da história de jazz, para quem cada frase do saxofone e do clarinete ostenta o carater de um tratado de filosofia. Dois discos de tensões, mais do que de explosões, para ouvir com muito tempo e muito cuidado.
                Menos seguro do seu estatuto está o alemão Alfred Harth. A polícia do jazz há anos que o tem debaixo de olho. Harth não tem "heart" para o jazz, pelo menos aquele que queima, há quem diga, quem acuse. Talvez não. Mas se o seu currículo suscita suspeitas no meio, já entre os monstros e os mutantes do chamado rock/jazz de câmara formado na guerrilha do movimento "RIO" ("Rock in Opposition"), o seu nome é respeitado, pelo seu envolvimento quer no anarco-jazz eletrónico em duo com Heiner Goebbels, quer nos igualmente politizados Cassiber, sob a batuta de Chris Cutler, ou nos bizarros Vladimir Estragon. O seu Trio Viriditas, com Wilber Morris (baixo e voz) e Kevin Norton (bateria, vibrafone e percussão), em "Waxwebwind@ebroadway" não vai tão longe, ou vai mais longe, dependendo do ponto de vista do observador, sendo em qualquer dos casos inegável que o seu saxofone e o seu clarinete se inserem na mesma universidade nova onde lecionam mestres como Sclavis ou Portal. Ocasionalmente emaranhados nas quadraturas estáticas de alguma "música contemporânea" ou nos clichés do "free" (quem não os tem?...), mas invariavelmente livres para a qualquer momento se movimentarem na direção desejada. Um tema como "Starbucks" balouça até num arremedo de "swing"...
                A capa é um horror (falha de gosto aliás em que a Palmetto incorre com alguma frequência...), mas se os olhos terão tendência para se desviar, os ouvidos sentir-se-ão, pelo contrário, atraídos a penetrar no que o piano de Orrin Evans tem para oferecer em "Meant to Shine", álbum imbuído de algum misticismo, sem ousadias nem pretensões de as ter, mas firme no pulso e enraizado na história até à ponta nos cabelos. A este jazz, umas vezes tão doce e introspetivo que quase não se dá por ele, tanto se poderá acusar de conformismo como louvar pela firmeza com que se mantém no seu posto de bastião da tradição. Não faz ondas. Mas quando as faz, como em "Don't write no shit about me", somos obrigados a atender ao pedido. O piano de Orrin, a flauta e os saxofones em contraponto multipistas de Ralph Bowen (incandescente em "Meant to shine"), o baixo de Eric Revis e a bateria de Gene Jackson despertam da unanimidade para jogarem na fricção e no desafio mútuo, outra das maneiras que o jazz tem para fazer nascer a luz. Até porque Bill Evans só houve um, capaz de, mesmo quando era piroso, ser um génio. Mas não há crise. Na Palmetto ninguém gosta de extremismos...

Wayne Shorter
Footprints Live
Verve, distri. Universal
8|10

Paul Bley, Jimmy Giuffre, Steve Swallow
The Life of a Trio: Saturday and Sunday
Owl, distri. Universal
9|10

Trio Viriditas
Waxwebwind@ebroadway
Clean Feed, distri. Trem Azul
7|10

Orrin Evans
Meant to Shine
Palmetto, distri. Trem Azul
7|10