Mostrar mensagens com a etiqueta Paco de Lucía. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paco de Lucía. Mostrar todas as mensagens

08/05/2026

Flamenco, do coração aos pés [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO SÁBADO, 2 NOVEMBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía em concerto telúrico, em Lisboa

 

Flamenco, do coração aos pés

 

Com Paco de Lucía e o seu sexteto, a música sobe da terra pelo corpo acima, passando pelo coração para acabar nos pés. Foi assim anteontem à noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

Uma imagem com texto, pessoa, pousar, guitarra

Descrição gerada automaticamente

 

Lotação esgotada para assistir ao flamenco e sentir o sangue correr nas artérias, nas veias e na música de Paco de Lucía. Estranhamente, era escasso o contingente cigano presente no recinto. Costuma ser ele a fazer a festa. Sem o fogo cigano, houve maior comedimento no aplauso, que não menor entusiasmo.

Paco de Lucía e os restantes seis músicos que constituem a sua atual banda de suporte deram espetáculo, em várias aceções da palavra – de virtuosismo técnico, de emoção, de comunicação com o público. Sobre um palco decorado com um friso de plantas a sugerir ambiências tropicais, Paco de Lucía começou por tocar a solo, na guitarra de flamenco que é parte de si próprio, um tema que deu o mote ao resto do concerto: a miscigenação de estilos, o cruzamento de referências e linguagens, servidos sempre por uma sensibilidade extrema e alicerçados na rítmica do flamenco.

Aos poucos foram surgindo os restantes músicos. Primeiro, apenas dois para marcar com batimento de palmas o intricado do compasso sobre o qual o guitarrista deu livre curso à sua faceta de genial improvisador. Finalmente, e depois de um novo duo, desta vez em instrumentos de percussão, o sexteto inteiro em incursões ora na genuína música cigana, sentida até ao fundo nas vocalizações de José Sanchez Gomez, ora em aproximações ao jazz ou à música árabe.

Sem negar as virtudes da criação coletiva, pelo menos na primeira parte do espetáculo, foi notória uma menor energia, quando comparada com o telurismo arrasador das prestações de Paco de Lucía, a sós com a guitarra.

O intervalo parece ter sido benéfico para os intervenientes em palco. Como se a primeira parte tivesse sido um aquecimento para a segunda, pondo de lado todas as reservas relativas a uma “traição ao flamenco” e à “pureza” do mesmo. Seria caso para dizer que “traidores” desta estirpe são sempre benvindos. Num ápice esqueceram-se a objetividade e as ferroadas da razão. O corpo fazia valer os seus direitos. Manoel Soler salta para um palanque situado frente aos músicos e é o terramoto cigano. As mãos voam, desenham figuras no espaço, os pés sapateiam ora com asas ora como tiros, matraqueando a madeira, com ternura, com fúria, com o ritmo a marcar as pulsações do coração. Os gestos evocam os do toureio. Como se ao homem fosse natural o desafio, a arte de domesticar a besta, o instinto sublimado na dança. Só não dançou o público, por falta de espaço.

Momentos altos foram também um belo solo de flauta de Jorge Pardo, trazendo para o Coliseu reminiscências do feitiço árabe ou o espantoso dueto/diálogo/confronto entre a guitarra de Paco de Lucía e a “bandurria” de Ramon Sanchez Gomez, numa cavalgada empolgante que, na vertigem e no transe da dança, se confundiram com um “dervishe” acelerando no corpo e no espírito mediterrânicos.

Retiraram-se os músicos mas a assistência queria mais, batendo por sua vez com os pés no soalho do Coliseu. Desejo parcialmente satisfeito nos dois “encores” em ritmo de descompressão, incluindo uma música de feira perfeitamente dispensável, insuficiente para estragar um espetáculo a todos os títulos notável. À saída do caldeirão de emoções, houve talvez quem, cigano ou não, se sentisse, mais do que nunca, nómada da vida. O flamenco continuava a pulsar, agora no coração da noite.

 

"Ver a vida através da guitarra" [Paco de Lucía]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 31 OUTUBRO 1991 >> Cultura

 

Paco de Lucía traz o flamenco a Lisboa e ao Porto

 

“Ver a vida através da guitarra”

 

Nómada de alma cigana e andaluza, Paco de Lucía transporta na guitarra flamenca o fogo e a inquietude. Mas também a alegria do ritmo e a proximidade de todas as músicas do mundo. Hoje à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, vai perceber-se por que cantou um dia: “Solo quiero caminar”.

 

Uma imagem com texto, homem, pessoa

Descrição gerada automaticamente

 

Fala devagar, pausadamente, quase para dentro. Como que temendo desconcentrar-se, por um segundo, da guitarra omnipresente. Para Paco de Lucía tudo se resume ao instrumento que desde os oito anos de idade aprendeu a tocar: a guitarra de flamenco. “Instrumento muito ingrato” – diz, com um sorriso cúmplice –, “basta uma semana sem pegar nela para se desaprender a tocar”.

Claro que não é assim. Paco de Lucía vibra em consonância com as cordas da guitarra. Segundo a lei dos mestres, funde-se na unidade de um corpo único, feito de carne e de madeira, animado pelo fogo: “Para tocar bem guitarra, é necessário dedicar-lhe toda a vida e abdicar de coisas talvez mais agradáveis. Mais é preciso ver a vida através da guitarra, o que se pode tornar muito pesado.”

Queda-se impotente a gravidade, mal os dedos afloram o metal. Chispas de lume interior, enfeitiçante. À semelhança de outros grandes guitarristas para quem a guitarra constitui uma religião (John McLaughlin, Carlos Santana, com os quais de resto já tocou), a prática musical reveste-se para si de um significado místico, ponte e porta para a transcendência, libertação: “Quando chega o duende da inspiração [chama-lhe, num disco, “Duende Flamenco”], tenho a sensação que me vou, que saio fora de mim, que flutuo no ar.” Inspiração. Respiração. “Depende do dia. Depende do que se tem na cabeça. A minha música é um abstração que provoca sensações animais. Não tem uma coerência literária. Não exprime ideias concretas. A única mensagem é emocional. Ou se sente ou não se sente.”

Por isso, nos Coliseus de Lisboa e do Porto onde tocará acompanhado por um sexteto constituído por Ramon Gomez, José Gomez, Ruben Dantas, Carlos Benavente, Jorge Pardo e Manuel Soler, tudo dependerá da inspiração do momento: “Vai haver muita improvisação.”

Dizer então apenas o som. E a luz. Luz mediterrânica do Sol andaluz. Demasiado branca, que cega a razão, obrigando-a a desejar, inconsciente, a água da fonte e a sombra dos pátios interiores da alma. Ou essa indefinição que tudo abarca (e tão presente também no fado português) gerada na conveniência cigana, essa raça “chegada à Europa há 500 anos, ainda sem uma música própria”, mas que, numa paragem do tempo “em cada lugar onde se estabelece, agarra na música local, adaptando-a à sua própria maneira de sentir”.

Paco de Lucía faz o mesmo com o flamenco – “nasci no flamenco, vivo no flamenco” – e com as outras músicas do mundo: “Sou alguém que não para de evoluir, à procura de conhecimento e de contacto com outros tipos de música, para as poder adaptar à minha própria criação.”

Busca incessante de infinito, no cruzamento com diferentes universos musicais, que o leva ao diálogo constante com intérpretes oriundos dos mais diversos quadrantes musicais: John McLaughlin, Carlos Santana, Larry Coryell, Al Di Meola. Há muito que pensa gravar um disco com Carlos Paredes. Só não o fez ainda por “falta de tempo para confrontar ideias e ensaiar”.

Também os discos refletem essa apetência pela variedade e pela síntese de linguagens: “Siroco” é trespassado pelos ventos africanos. “Zyryab” reinventa de forma exuberante o “flamenco-jazz”. O próximo álbum será uma interpretação do “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, com a guitarra clássica do original substituída pela maior dinâmica rítmica da sua congénere flamenca. Trata-se talvez dessa necessidade de “alimentar o espírito, bem mais complicada do que alimentar a barriga”, referida pelo músico. Afinal, uma questão de sobrevivência.


07/05/2026

Universos paralelos [Harold Budd, Bill Frisell, Paco de Lucía]


PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

UNIVERSOS PARALELOS

 

Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucía vão estar entre nós. Um piano e duas guitarras. O silêncio, a cidade e o fogo. Três sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfeição. Frisell traça Nova Iorque em papel quadriculado. De Lucía é a emoção à flor dos dedos. Budd respira o infinito. Fruir a música é também essa viagem entre a realidade e o sonho.

 

Uma imagem com texto, pessoa, homem, ar livre

Descrição gerada automaticamente

Uma imagem com texto, música, guitarra

Descrição gerada automaticamente

 

Não fora Brian Eno e poucos saberiam hoje quem é Harold Budd. Com efeito foi graças a um disco gravado e editado na série “Obscure”, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverberações do silêncio. “The Pavillion of Dreams”, assim se chamava o disco. Título que diz tudo, ou quase. A imagem, esboçada pela fantasia, diz que há um pavilhão de vidro no meio do jardim. Dentro do pavilhão está um piano de cauda. Em cima do piano, talvez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol, quando chegar, há-de trespassar as gotas de água e iluminar o piano abandonado.

 

Budd: superfícies polidas

 

Harold Budd começou por escrever poemas, “sem propósito algum”. Tal como a sua música. O piano de Harold Budd não conta história nenhuma, como faziam os românticos. A música está lá. Vale por si. Não aponta nem diz coisa alguma. Ela é essa coisa. O Zen ensina-nos que ser é o mesmo que estar. Está-se na música de Harold Budd, como num lugar. Seja qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num recanto da memória.

Uma vez o músico deu com uma monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: “Uma luz desceu sobre a minha cabeça, como uma súbita madrugada.” A frase serviu de mote para o seu disco mais recente, “By the Dawn’s Early Light”, o único na sua discografia em que são utilizados textos, neste caso declamados.

Há quem fale de minimalismo, ao referir-se à obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos anos 60. De facto, é difícil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como as que então compôs, como “Lirio”, um solo de gongo com a duração de 24 horas. Mais tarde, escreveu “Madrigals of the Rose Angels”, para harpa, percussão, violoncelo, luzes e um “coro feminino em ‘topless’” (devem ser vocalizações sem as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a música que geralmente associamos ao seu nome: um “perpetuum mobile” harmónico, feito de cintilações de piano. Em paralelo, um universo extático, que ilumina as obsessões ficcionais de Erik Satie.

“The Plateaux of Mirror” e “The Pearl” (ambos com Brian Eno) orquestram o silêncio, depurando-o de todas as impurezas. São, como os títulos sugerem, espelho e pérola. Superfícies polidas que refletem interiores, o mar, o céu. Repare-se, entretanto, na beleza dos títulos, a que Budd dá a maior importância: “The Serpent in the quicksilver/Abandoned cities” (composto para várias instalações multimédia), “The Moon and the Melodies” (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), “Lovely Thunder”, “The White Arcades”. Escute-se a música das palavras. As sugestões que encerram. “By the Dawn’s Early Light” é mais sombrio, mas não menos belo. A beleza desta música está próxima do classicismo grego. No rigor e na exatidão das formas. Perfeição fria. Por isso, às vezes, assustadora. Harold Budd diz: “Desde muito novo que adoro música que entre diretamente pela veia jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.” No concerto português, tocará acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe à companhia de David Syvian, a distância percorrida) e do percussionista John Spence.

 

Frisell: o coração da paranóia

 

E, de súbito, o ruído do tráfego nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fracionado e luciferino. Bill Frisell habita no coração da paranóia mas sabe deitar água na fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfield e Buddy Guy. Cedo encontrou o jazz (e que os puristas perdoem a heresia...) na ECM, editora para a qual grava “In Line”, “Rambler” e “Lookout for Hope”, este último, mais que os anteriores, evidenciando um enorme ecletismo, através de incursões em áreas como o reggae ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edição de “clássicos da vanguarda”. “Before We Were Born” e “Is That You?” são o resultado dessa mudança. Para muitos, este discos são geniais (a “Down Beat” considerou o segundo Álbum do Ano), para outros são simplesmente chatos. Talvez a designação mais apropriada seja “genialmente chato”. Bill Frisell foi “genialmente chato” nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos Naked City. Agora, à terceira, espera-se que não o seja de vez. Vem acompanhado de Joey Baron (outro Naked City, dos não chatos), na bateria, e de Kermit Driscoll (mais conhecido por “Cocas”, integra atualmente os President, de Wayne Horvitz).

Ao longe vibra uma guitarra flamejante. É Paco de Lucía, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles que parecem ter sete dedos em cada mão. O seu nome verdadeiro não é Paco, mas Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em Cádis, filho de família humilde. Pela folha de promoção fica-se a saber que “ser humilde em 1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida não era fácil”. Hoje ser humilde implica uma vida mais fácil, talvez mesmo um certo “status”. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi “duro”, “doloroso” e “difícil”. Mas valeu a pena. Paco de Lucía tornou-se um verdadeiro virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira levantada na estrada por “roulottes” ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho, à vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma à procura de altura, pelas cordas acima.

 

De Lucía: a alma à procura da altura

 

Paco de Lucía, também ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al Di Meola, em “Saturday Night in San Francisco” e “Passion, Grace and Fire”, este um “must” da guitarra acústica. A solo assina obras como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente e Caldal” e “Almoraine”. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em “Manuel de Falla”. Sem esquecer aquele que foi o seu maior êxito comercial, “Solo Quiero Caminar”. “Zyriab”, recentemente editado entre nós, é um exercício brilhante de flamenco-jazz, etéreo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua deslocação ao nosso país Ramon Sanchez Gomez, seu irmão, também na guitarra, José Gomez, vocalista (irmão de Ramon e, por consequência, irmão de Francisco, aliás, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dançarino. Resta seguir a sua música, pela noite e pelo sol.

02/10/2025

Lucía & Paredes - O dueto das cordas

 Na capa

 

LUCÍA & PAREDES

 

O DUETO DAS CORDAS

 

Hoje à noite, na Póvoa do Varzim, as guitarras de Portugal e Espanha vão tocar ao desafio: Paco de Lucía e Carlos Paredes, mestres incontestados dos respetivos instrumentos, num “mano a mano” que se prevê exaltante.

 

Fala-se de flamenco e vem-nos à memória a figura aprumada de Obélix, em volta da fogueira, batendo palmas e soltando uns “hayhayhayhay” compenetrados.

            Paco de Lucía não é Obélix, mas nem por isso deixa de ser um dos mais dignos representantes da guitarra flamenca. Guitarra que exige muita garra e fogo nos dedos. Vem dos ciganos o seu segredo, a maneira de traduzir a vida na vibração das cordas. A perfeição guitarrística não se esgota na velocidade nem no virtuosismo da execução. Os mestres sabem que a técnica está sempre ao serviço da emoção e que esta só então se cumpre no movimento corporal. Aprendizagem que exige iniciação. Paco de Lucía inclui-se no grupo restrito dos mestres, ao lado de Manitas de Plata, na arte de rasgar a alma.

            Hoje à noite, no Salão Nobre do Casino da Póvoa, tecerá armas, que é como quem diz, guitarras, com um artista à sua altura – o português Carlos Paredes – em duetos que vão pôr à prova a tradicional rivalidade entre os vizinhos ibéricos. De um lado a fogosidade picante, a típica extroversão andaluza, do outro, o intimismo e saudade lusitanas, através de dois dos mais conceituados intérpretes da atualidade.

            Paco de Lucía, de ser verdadeiro nome Francisco Sánchez Gomez, nasceu e foi criado numa família de músicos. Aprendeu com o pai os mistérios da guitarra espanhola, e, mais tarde, com os ensinamentos dos lendários Sabicas e Mario Escudero. Aos 13 anos já fazia parte, como terceiro guitarrista, da Companhia Espanhola de Ballet Clássico. Nos primeiros álbuns, o flamenco, sempre, e a música popular da Andaluzia.

            Junta-se a outros guitarristas – Paco Cepero, El Farruco, Juan Maya – e parte à descoberta da Europa, tornando-se durante sete anos o principal divulgador do flamenco, além fronteiras. Nunca mais parou de gravar discos: “Fantasia Flamenca”, “Fuente y Caudal”, “Almoraima”, “Castro Marín”, “Solo Quiero Caminar”. Este último granjeou-lhe enorme popularidade no nosso país através, sobretudo, da canção do mesmo nome. Ultimamente voltou-se para o campo mais vasto da música de fusão, tocando e gravando com outros “monstros” da guitarra, como Carlos Santana, Al Di Meola, John McLaughlin e Larry Coryell.

            Hoje à noite vai ser um negócio só a dois: guitarras à descarada, portuguesa e espanhola, num duelo de resultado incerto mas certamente mágico.

 

PÓVOA DO VARZIM Monumental Casino da Póvoa, 6ª, 28, às 22h00

 

SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 A SEMANA

24/02/2020

Paco de Lucía, que pôs tudo dentro do flamnco, ganha Prémio Príncipe das Astúrias das Artes


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 15 JULHO 2004

Paco de Lucía, que pôs tudo dentro do flamenco, ganha Prémio Príncipe das Astúrias das Artes

SUCEDE A MIGUEL BARCELÓ

O guitarrista, que atuará em Setembro próximo em Portugal, está a promover o novo álbum “Cositas Buenas”. De Lucía, disse o júri do prémio, “transcendeu fronteiras e estilos”

Paco de Lucía conquistou o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes de 2004, que tem como objetivo distinguir indivíduos, grupos ou instituições cujo trabalho, nas áreas da arquitetura, cinema, dança, música, pintura e outra formas de expressão artística, seja um contributo importante para a herança cultural da humanidade. Entre os outros candidatos contavam-se Bruce Springsteen, Maurice Béjart, Andrew Lloyd-Weber, Bob Dylan e Pedro Almodóvar.
            Paco de Lucía “transcendeu fronteiras e estilos e é hoje um músico de dimensão universal”, frisou o júri. “É um reconhecimento da cultura da Andaluzia, da minha terra, e sobretudo do flamenco, que tão maltratado tem sido”, declarou por seu lado o premiado, que atualmente se encontra a promover o seu novo álbum, “Cositas Buenas”, e que atuará em Portugal a 9, 10 e 11 de Setembro. “Sinto-me muito orgulhoso do prémio pela minha família, porque o meu pai, quando eu era pequeno, comprou-me uma guitarra como último recurso para subsistir”, disse ainda o guitarrista, visivelmente emocionado.
            Por mais maltratado que tenha sido o flamenco, porém, Paco de Lucía é o mais internacionalmente reconhecido dos seus intérpretes, graças a uma música que funde este género a outras sonoridades, como o “jazz” e a bossa-nova. Entre o flamenco puro e duro e fusões que, inclusive, o levaram a tocar com músicos como John McLaughlin, Larry Coryell e Al di Meola, é inegável que a música de Paço de Lucía possui essa universalidade que agora o júri lhe reconheceu. Mas mais importante do que isso, habita na sua música aquilo que, sem ele, impede o flamenco de irromper com naturalidade: o “duende”, a inspiração, um fogo interior que inflama a alma e anima os dedos.
            Paco de Lucía tem o “duende” dentro de si e por isso a sua música tem mantido ao longo de uma carreira já extensa, uma vitalidade que está longe de se extinguir. Aos 57 anos, o guitarrista, que já se apresentou em Portugal ao vivo por diversas ocasiões, estreou-se em disco com “Dos Guitarras Flamencas”, em duo com Ricardo Modrego, e, desde então, a sua discografia nunca mais parou de crescer, sem que se lhe detetem pontos fracos. Álbuns como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente Y Caudal”, “Almoraima”, “Castro Marin”, “Siroco”, “Zyriab” e “Concierto de Aranjuez” popularizaram-no. Ele que há muito já caíra no goto popular com a rumba “Entre Dos Aguas”.
            “Cositas Buenas”, o mais recente, apresenta composições próprias, uma parceria com Tomatito, a participação do convidado Alejandro Sanz e a recuperação, num dos temas, da voz do lendário Camarón de La Isla, de quem foi companheiro musical numa série de álbuns do cantor. O álbum inclui “soleás”, tangos, rumbas e “bulerías”, com a particularidade de, numa delas, “Antonia”, o guitarrista cantar, numa dedicatória à filha. O álbum põe fim a um retiro voluntário de De Lucía na selva do Iucatão, no México.

O “duende” sempre presente
Francisco Sánchez Gómez de seu verdadeiro nome, Paco de Lucía adotou o nome artístico por que é conhecido em homenagem à sua mãe, Lucía Gomez. O pai, também guitarrista, tocava de noite nas casas de flamenco e de manhã era vendedor no mercado. Aos cinco anos recebe do pai a sua primeira guitarra e lições do instrumento. Faz parte do duo Chiquitos de Algeciras, no qual acompanhava a voz do irmão Pepe de Lucía e é na Radio Algeciras que dá o seu primeiro recital.
            Em 1959, obtém um prémio no Festival Concurso Internacional Flamenco de Jerez de la Frontera. Em 1965, grava dois álbuns com Ricardo Modrego e, dois anos mais tarde, participa na digressão Festival Flamenco Gitano durante a qual grava o seu primeiro disco a solo, “La Fabulosa Guitarra de Paco de Lucía”. Em “Fantasia Flamenca”, de 1969, está já bem definido o estilo fusionista que o caracteriza. “Fuente Y Caudal”, de 1973, é o álbum na qual se encontra incluído a rumba que o tornaria famoso, “Entre dos aguas”.
            Em 1977 entra nos domínios do jazz rock, gravando e atuando ao vivo com John McLaughlin, Larry Coryell e Al Di Meola. O flamenco dilui-se no jazz e Paco ganha uma legião de novos admiradores. Grava com o grupo Dolores, fundado por Jorge Pardo e Rubem Dantas, uma homenagem a Manuel de Falla. Pardo, na flauta, e Dantas, na percussão, entram para o seu sexteto em 1981, juntamente com Carlos Benavent (baixo), Ramón de Algeciras (guitarra) e o irmão Pepe (voz). O álbum ao vivo “Live One Summer Night” é um êxito e no ano seguinte inicia uma colaboração com o pianista de jazz Chick Corea. O ano de 1986 assinala o retorno ao formato mais introspetivo da guitarra acústica e o sexteto apenas regressa à atividade cinco anos mais tarde.
            “Siroco” e “Zyriab” (com Chick Corea) consolidam a sua fusão de flamenco, jazz e música brasileira, que brilha resplandecente no “Concierto de Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, gravado em 1991 com a Orquesta de Cadaques. O autor da obra, presente durante as gravações, comenta então que “ninguém antes” de Paco de Lucía, tocara o concerto “com tamanha paixão e intensidade”. Em 1996, 13 anos depois da sua anterior colaboração, grava de novo com John McLaughlin e Al Di Meola o álbum “The Guitar Trio”, seguido de uma digressão mundial. O seu atual sexteto, formação que se tornou modelo para os grupos de flamenco, conta com o notável cantor Duquende. O “duende”, esse, esteve sempre presente.
            O Prémio Astúrias das Artes, de 50 mil euros, mais uma escultura criada e doada expressamente por Joan Miró para este galardão, foi instituído em 1981 e distinguiu nos últimos quatro anos a soprano Barbara Hendricks, o compositor Krystof Penderecki, o realizador Woody Allen e o artista plástico Miquel Barceló.

13/02/2020

Paco de Lucía - Cositas Buenas


20|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

PACO DE LUCÍA
Cositas Buenas
Ed. e distri. Universal
7|10

Melhor “Cositas Buenas” do que nada. Paço de Lucía, um dos magos do flamenco, é incapaz de fazer maus discos. O “duende” pode estar mais ou menos adormecido dentro de si mas pode sempre esperar-se alguma chama. Sem o esplendor de álbuns como “Entre Dos Aguas”, “Siroco” ou “Almoraima”, “Cositas Buenas” impele à dança dervíchica e induz à sensualidade, dando voz e corpo à modernidade que tem sido desde sempre apanágio do guitarrista. O flamenco funde-se com o jazz rock no título tema e em “Antonia”, e com África, em “El dengue”. Estão presentes as palmas, os olés de incitamento e, na melhor de todas estas coisinhas boas, a voz de Camarón de la Isla (há aqui um enigma por resolver: as composições são novas, a voz não parece samplada mas a verdade é que o cantor há mais de dez anos que deixou o mundo dos vivos…) e a guitarra de Tomatito, em “Que venga el alba”. As bulerias, tangos, rumbas e tientos de “Cositas Buenas” mais do que fogo são água que refresca. A limpidez com que Paço de Lucía a faz nascer permanece impoluta.

11/04/2017

Paco de Lucía - Zyryab

Pop Rock
17 de Abril 1991



Paco de Lucía
Zyryab
LP/MC e CD, Philips, distri. Polygram

Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucía faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucía investe em áreas que só indiretamente têm a ver com a música cigana, como o jazz ou a canção de tons mais ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminar”?). Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se eclético no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

01/11/2008

Mestres em despique [John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo, Al Di Meola

Pop Rock

23 JUNHO 1993

MESTRES EM DESPIQUE


John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola reatam em Portugal o projecto “lendas da guitarra”, primeiro em separado, depois numa “jam session” conjunta, num duelo onde não se prevê que haja vencidos.


John McLaughlin em Trio
Mestre místico. De incondicional da guitarra eléctrica, ao lado de Miles Davis, rendeu-se às maiores delicadezas da sua irmã acústica, sob a influência dos ensinamentos do guru Sri Chimnoy. Na Mahavishnu Orchestra, juntou as orações e a electricidade no monumento ao jazz rock que é “Birds of Fire”. Depois desligou a ficha, juntou-se a músicos indianos, cruzou as pernas e sentou-se no chão a tecer encantamentos com os Shakti, como “Handful of Beauty” e “Natural Elements”. Não têm conta as lições de guitarra que leccionou em disco. Decorem-se as seguintes: “Bitches Brew” (de Miles Davis), “Extrapolations”, “The Inner Mountain Flame”, “Birds of Fire”, “Electric Guitarists”. Em todas elas, John McLaughlin provou que a guitarra pode ser uma religião.

Paco de Lucia em sexteto
Mestre do flamenco. Duende do flamenco. Conseguiu juntar com êxito – e como se fosse a coisa mais natural deste mundo – a música cigana e o jazz. E talvez seja, de facto, o casamento mais natural deste mundo. Tocou já em Portugal, onde deixou atrás de si um rasto de fogo. Alia a fidelidade às técnicas de interpretação ciganas com um notável espírito de improvisador. Talentos que podem ser apreciados em registos discográficos abrangendo um leque de estilos diversificado, que vai do flamenco puro e da interpretação de Andres Segovia à recriação do célebre “Concerto de Aranjuez” e às improvisações jazzísticas partilhadas com McLaughlin e Di Meola, em “Friday Night in San Francisco” e “Passion, Grace & Fire”.

Vicente Amigo em quinteto

Mestre do flamenco mas mais novo. Como Paco de Lucia, não encara o flamenco como uma natureza morta, antes como um campo musical fértil de possibilidades de cruzamento com outras músicas. Vicente Amigo brilhou no ano passado em Sevilha, no célebre festival “lendas da guitarra”. A música cigana pode contar com ele para a transportar ao futuro. No nosso país, a televisão tem-lhe feito a desfeita de pôr os seus espectáculos em confronto directo com outros mais popularuchos. Inevitavelmente, ganham os popularuchos. A partir do dia 25, contudo, espera-se que Amigo passe a ser um vencedor.

Al Di Meola em trio
Mestre das fusões latinas. Começou por ser influenciado pelos Beatles, depois ouviu Miles Davis e não voltou a ser o mesmo, após o que ouviu Chick Corea e voltou de novo a não ser o mesmo. Optou pelo pianista (Corea, Miles é mais a trompete), que o deixou fazer parte dos Return to Forever. Além de ter participado no tal trio com John McLaughlin e Paco de Lucia, gravou uma série de álbuns onde nunca conseguiu mostrar ser tão bom compositor como os seus companheiros. “Casino”, “Splendid Hotel”, “Electric Rendez-vous” ou o acústico “Cielo e Terra” não passam de obras de fusão, competentes é certo, mas sem a centelha de génio que frequentemente atinge os seus amigos. O novo álbum “Heart of the Immigrants”, com a banda recente, World Sinfonia, não traz nada de novo, tendo pelo menos a virtude (para alguns…) de pretender dar um rosto moderno às sonoridades sud-americanas. Aquilo para que, de facto, tem mais jeito.


Dia 25,
CAMPO PEQUENO, 22H

01/10/2008

Paco de Lucía - Concierto De Aranjuez

Pop Rock

29 JANEIRO 1992

PACO DE LUCÍA
Concierto de AranjuezLP/CD, Philips, distri. Polygram

Integrada nas comemorações do “Quinto Centenario del Descubrimiento de América – Encuentro de Dos Mundos”, a edição deste “Concierto” cumpre ainda uma promessa antiga de Paco de Lucia, um dos grandes intérpretes de guitarra flamenca da actualidade, ao lado de nomes como os de Manitas de Plata ou Pepe Habichuela, de gravar a maior obra composta por um dos seus reconhecidos mestres: Joaquín Rodrigo. Ao fulgor da improvisação e às aventuras de fusão com outras linguagens musicais, como acontecia no recente “Zyryab”, sobrepõe-se o rigor da pauta e as exigências da interpretação. “Concierto de Aranjuez” mostra um Paco de Lucía introvertido na forma como dialoga com as massas orquestrais (a cargo da orquestra de Cadaqués, com direcção de Edmon Colomer), no papel de solista “virtuose” que põe a sua arte ao serviço de uma inspiração que, sendo alheia, se inclui na tradição do flamenco, embora na sua vertente erudita, e por isso na sua própria sensibilidade. O lado 2 do disco é ocupado por “Iberia", de Isaac Albéniz, interpretado pelo trio de guitarras de Paco de Lucía, José Bandera e Juan Manuel Cañizares.
Recomendado com algumas reservas aos que, no flamenco, apreciam sobretudo o fogo. Fogo cujas chamas este “concierto” de certa forma aprisiona e domestica. (7)